Post do Leitor

Post do Leitor – Bianca Fadel

[Pessoal, recebemos mais um post da aluna do 3º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Bianca Fadel. Neste post, ela parte da vitoriosa campanha queniana na São Silvestre para apresentar um panorama geral do país, de tantos contrastes e problemas. Confiram! Toda a Equipe da Página Internacional, gostaria de agradecer aos leitores por ajudarem a manter o blog sempre atualizado.]

O que é que o Quênia tem?Justificar

Se parodiássemos Dorival Caymmi para tratar das características do Quênia, certamente perceberíamos que estas vão muito além dos sucessos no atletismo que percebemos no último dia do ano de 2009 com o desenrolar da 85ª Corrida Internacional de São Silvestre, disputada pelas ruas da cidade de São Paulo. Nesta ocasião, nas provas feminina e masculina, o lugar mais alto do pódio foi ocupado por quenianos (Pasalia Kipkoech e James Kipsang, respectivamente), sendo esta uma situação recorrente em corridas e maratonas de alto nível no Brasil e no mundo.

O Quênia tem tradição no atletismo e conta com importantes representantes da etnia Kalenjin no histórico (tais como Paul Tergat, Kipchoge Keino e Susan Chepkemei, por exemplo), sendo que a composição étnica do Quênia possui quatro principais grupos que se destacam em meio à população de aproximadamente 38 milhões de habitantes: Kikuyu (22%); Luhya (14%); Kalenjin (12%); e Kamba (11%) (maiores informações aqui).

Em termos históricos, é válido contextualizar a força da colonização britânica na formação do Quênia tal como este país se apresenta nos dias de hoje. Tal colonização, iniciada em meados do século XIX, foi formalmente encerrada apenas no ano de 1964. No entanto, atualmente ainda podem ser percebidos traços que refletem as conseqüências do processo de colonialismo, inclusive por meio da análise da própria bandeira queniana, forte símbolo nacional.

A partir da descrição de Samwel Kamau Githiru, tem-se que: “Na bandeira queniana, o preto representa nossa cor, o vermelho é o sangue de nossos antepassados, o verde representa nossa terra, as listras brancas significam a esperança na paz e as armas tradicionais ao centro as ferramentas de combate ao domínio britânico”.

O Quênia, então, tem muito de sua formação vinculado ao jogo de interesses europeus no continente africano, especialmente no que tange o colonialismo britânico, estendendo-se essa relação de proximidade também ao âmbito da produção industrial em tempos recentes, setor que possui cerca de 50% dos investimentos por parte de estrangeiros, notadamente o Reino Unido. A agricultura, contudo, ainda figura como o principal setor econômico do país. (Maiores informações disponíveis na matéria elaborada na Divisão da África III)

O Quênia também tem, a partir de fontes diversas, o status de país mais desenvolvido da África Oriental. Entretanto, muitas são as dificuldades existentes, dentre as quais pode ser destacada a grande disseminação do vírus HIV no país. Apesar de variadas, estimativas apontam que pelo menos 1 milhão de quenianos estejam infectados pelo vírus, sendo este, aliás, um enorme desafio a ser enfrentado em todo o continente africano. Para o ano de 2010, o Quênia tem como meta realizar exames de HIV a 4 milhões de pessoas em suas próprias casas, iniciativa importante para evitar o preconceito e promover os diagnósticos, desde que as pessoas tenham seus direitos protegidos durante o processo, tal como ressalta a Human Rights Watch, reconhecida instituição humanitária internacional.

Percebe-se, pois, que o Quênia tem muito mais em seu histórico que apenas os sucessos no atletismo. É preciso, então, aproveitar a atenção que o esporte oferece na mídia internacional (especialmente neste ano de 2010 em que deverá acontecer a primeira Copa do Mundo em solo africano), para problematizar questões e apresentar os desafios a serem enfrentados na localidade, com vistas à busca de melhorias constantes. Apenas dessa forma podemos esperar que a melodia a respeito das características do Quênia (ou mesmo do continente africano em geral) se torne mais harmoniosa.


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