Post do Leitor

Post do Leitor – Antônio Mota

[Caros amigos da Página Internacional, hoje apresentamos um texto de um convidado com grande experiência na temática ambiental. Trata-se Antônio Mota, graduando em Economia da UFCE. Aproveitem!]

Vida e morte severina

Não há mais dúvidas e maiores questionamentos sobre a existência das mudanças climáticas. Independentemente da interpretação que se dê, elas são um fato. Isso já é uma grande vitória para humanidade, a julgar que há menos de uma década uma vastidão de cientistas e políticos (notoriamente o governo George W. Bush) lançaram forte cetismo sobre as evidências postas.

Agora deparamo-nos com alguns outros problemas e o mais grave é a inação. Não é difícil perceber a extensa retórica que há ao se defender o “desenvolvimento sustentável”, economia (e mais um cargalhaço de coisas) verde, mas a ação é ínfima, principalmente ao analisarmos a crise humanitária que se anuncia frente as novas restrições que as mudanças climáticas imporão ao desenvolvimento humano no países mais pobres.

Talvez o aspecto mais ultrajante das mudanças climáticas seja sua injustiça histórica: os menos responsáveis por esse problema serão os mais afetados. Em seu Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento evidencia claramente esse problema:

Para os 2.6 mil milhões de pessoas que vivem com menos de US$2 por dia, os impactos climáticos poderão desencadear poderosas quebras no desenvolvimento humano. Enquanto que os ricos podem enfrentar tais impactos através de seguros privados, venda de bens ou do recurso às suas poupanças, os pobres enfrentam um conjunto de opções diferente. Poderão não ter outra alternativa senão reduzir o consumo, diminuir a nutrição, retirar as crianças da escola ou vender os bens de produção, dos quais depende a sua reabilitação. Estas opções limitam as capacidades humanas e constituem um reforço das desigualdades.
(Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008. Combater as alterações climáticas: Solidariedade humana num mundo dividido.

Então, além de uma discussão puramente física, de quantos graus a temperatura do planeta aumentará, evidencia-se uma discussão sobre ética, economia e relações internacionais.

Comecemos vendo o aspecto referente a relações internacionais. Ao confrontarmos a realidade e o que está posto no panglossiano texto da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (mais especificamente os pontos 1, 2 e 3 do artigo terceiro) vemos o marasmo que é dispensando ao assunto.

Há de se questionar, então, como o mundo em desenvolvimento conseguirá fazer voz frente a esse cenário de evidente desrespeito à legislação internacional. Sendo franco, não é um cenário animador. Sob a bandeira de “listras e estrelas” da “democracia”, justifica-se a barbárie da guerra, mas sob a patente ameaça à vida de alguns bilhões de seres humanos dispensa-se o temor de “impactos negativos à economia”. Refiro-me aí ao discurso que o ex-presidente dos Estados Unidos proferiu em 11 de junho de 2001 (link em inglês).

Um pequeno avanço foi conquistado no aspecto econômico com a maior importância conferida ao G20, mas não nos iludamos. Isso nada mais foi do que uma estratégia da “super estrutura” agindo sobre a “infra estrutura”. Diante do temor de uma possível ruptura, o sistema fatalmente se reorganiza a fim de se perpetuar.

Quanto a ética, cito aqui o economista inglês Nicholas Stern, famoso por seu relatório sobre a Economia das Mudanças Climáticas: “Mudanças Climáticas é uma questão sobre risco e ética”. Mas como esperar uma ação baseada na ética de um sistema econômico que, pelo menos, se diz “aético”? Não há de se esperar tal.

Podemos perceber, então, que, direta ou indiretamente, o problema, e alguns de seus aspectos mais alarmantes, ou são causados ou têm parte de soluções barradas pelo atual sistema econômico.

Diante dessa concepção materialista, não posso deixar de expor um trecho de “O Capital”:

O homem, ao produzir, só pode atuar como a própria natureza, isto é, mudando a forma das coisas. E mais. Nesse trabalho de transformação, é constantemente ajudado pelas forças naturais. […] Conforme diz William Petty, o trabalho é o pai, mas a mãe é a terra” (IN Marx, K. O capital: crítica da economia política: Livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008)

Se hoje somos mais ricos, há de medir também o impacto (ou como nós economistas dizemos, as externalidades) que deixamos. É certo regozijar-nos por crescimentos espetaculares de PIB? Então armemos festas e comemorações às espécies extintas, as que dentro também o serão, aos seres humanos que têm sua saúde prejudicada e aos tantos outros que se verão presos em armadilhas de pobreza. Viva!

Talvez mais hipócrita que acreditar que o crescimento de um número se traduz em bem-estar, seja crer que o consumidor (o onipresente, onisciente e onipotente consumidor da teoria econômica) tem plena liberdade e conhecimento de escolha, e se ele compra um produto que polui o meio ambiente, assim ele o faz por que quer. Ora, basta não comprar e morrermos todos de fome.

Por fim, podemos esperar, sim, uma solução para o problema das mudanças climáticas. Se a solução conservar as atuais estruturas, inevitavelmente esbarraremos em outra crise. Mais do que o anúncio do apocalipse, os problemas ambientais nos são uma alternativa de repensarmos a própria humanidade. Continuaremos sujeitos a algo externo a nós ou finalmente conseguiremos trazer para esfera humana a organização social?


Categorias: Meio Ambiente, Post do leitor


4 comments
Natália
Natália

Ótimo post, professor!Crítico na medida do momento em que vivemos e instigante a ponto de despertar curiosidade para pessoas como eu que não se aventuraram nesse tema, mas que certamente o farão agora.Abraços e parabéns!

Antonio Mota
Antonio Mota

Bem, muito obrigado pelos comentários. Confesso que relações internacionais não é minha especialidade, mas tentei expor o que vejo do desenrolar dos fatos, ressaltando aspectos críticos.Sempre que achar temas interessantes, e que achar que puder comentar, mandarei observações para vocês.Parabéns pelo blog.

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Dá-lhe Antônio.Muito interessante o post e bastante necessário para o momento que estamos atravessando.Até aproveito pra citar uma frase do economista Jeffrey Sachs, idealizador dos ODM, "É preciso mudar para a nossa própria sobrevivência."Até mais!

Alcir Candido
Alcir Candido

Antônio, bem vindo ao nosso espaço. Excelente post! E fique a vontade para voltar sempre!até mais!