Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Confiram abaixo mais um ótimo texto do leitor Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, em que ele analisa as eleições parlamentares em Israel e seu impacto nas relações do país com a Palestina, relações tão históricas quanto complexas. A Página Internacional é um espaço aberto a contribuições de seus leitores, não deixem de participar! Basta enviar um e-mail com seu texto para [email protected] que retornaremos o contato. Boa leitura!]

Por que o Hamas é o maior aliado de Netanyahu? (E vice-versa)

Israel

Na terça-feira, 17 de março, ocorreram as esperadas eleições parlamentares em Israel. O atual premiê, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, se reelegeu e continuará no cargo que ocupa desde 2009. No entanto, foi surpreendente o resultado da União Sionista, grupo de centro-esquerda liderado pelo líder trabalhista Isaac Herzog, que chegou a liderar as pesquisas, mas terminou em segundo lugar.

Um dia antes da eleição, em uma última tentativa de ganhar mais apoio dos eleitores dos partidos de extrema-direita e religiosos (especialmente os ultra ortodoxos), Netanyahu declarou aquilo que já era evidente há anos (mesmo que depois tenha voltado atrás): que enquanto for Primeiro-Ministro não haverá Estado palestino. Para completar, ainda criticou os cidadãos árabes de Israel, que decidiram votar em massa em seus opositores, ofendendo assim 20% da população do país. Apesar de sua vitória e suas declarações terem sido lamentadas internacionalmente e internamente, inclusive de modo reservado pelo próprio governo americano, muitos judeus e apoiadores de Israel no mundo todo comemoraram, argumentando que Netanyahu é um líder forte e capaz de destruir os inimigos de Israel, como o Hamas. Na verdade, porém, não há nada melhor para o Hamas que o próprio Netanyahu.

Amos Oz, maior escritor de Israel e ativista pela paz, certa vez disse que o conflito na verdade não é entre israelenses e palestinos, mas entre radicais e moderados dos dois lados. Se analisarmos a fundo a questão, sem paixões, ideologias ou maniqueísmo, veremos que ele não poderia estar mais certo.

Primeiro, é necessário entender o que é o Hamas. Não se trata apenas de um grupo armado ou de terroristas, o Hamas é uma ideia, uma ideia de luta armada contra a ocupação israelense (ou mais que isso, pois sua carta de fundação defende a necessidade da destruição total de Israel de seu povo). A força do Hamas vem do apoio da população à sua ideia, pois ele se alimenta do ódio palestino contra Israel, e sem isso ele morre, como já quase aconteceu algumas vezes durante a década de 90. Não é possível destruir uma ideia usando força militar, pelo contrário, isso só a fortalece, especialmente neste caso, em que as ações militares contra Gaza e as mortes que causam só aumentam o ódio contra o Estado judeu e o apoio ao Hamas.

De fato, se observarmos os dados de pesquisas de opinião na Palestina, veremos que em abril de 2013, a maioria da população apoiava a resistência pacífica contra a ocupação, e o apoio ao Hamas estava bem baixo. Esse cenário ainda persistia um ano depois, em abril de 2014, pouco antes da Operação Borda Protetora, com a popularidade do Hamas muito baixa e o apoio às negociações pacíficas de Abbas com Israel muito alto. Entretanto, em agosto, um mês após a guerra e os 2.200 mortos em Gaza, o apoio ao Hamas e à luta armada estava nas alturas, mesmo que ele tenha caído um pouco em setembro, quando a poeira estava baixando. Ao mesmo tempo, enquanto Mahmoud Abbas, do Fatah, aparecia muito à frente de Ismail Haniyeh, do Hamas, nas pesquisas presidenciais anteriores à guerra, logo após Haniyeh surgiu ganhando disparado, e na última pesquisa, em janeiro desse ano, ainda aparece bem à frente de Abbas.

A outra ideia principal na Palestina é a defendida hoje pelo presidente da Autoridade Palestina, Abbas, e se trata de negociações e cooperação por um tratado de paz com Israel. As acusações feitas por Netanyahu, de não haver parceiros pela paz e de Abbas ter sabotado as negociações de Kerry são falsas (o próprio Netanyahu quem as sabotou), assim como as de que ele encoraje o terrorismo, já desmentidas inclusive pelo chefe do Shin Bet. Ações como a guerra de Gaza e as últimas declarações de Netanyahu só enfraquecem a ideia da possibilidade de negociação e de convivência pacífica, destruindo assim a popularidade de Abbas e ajudando o Hamas, que já declarou que espera que agora o Fatah desista de ideias pacifistas.

A única coisa que pode destruir uma ideia é outra ideia mais poderosa. Assim, o que poderia enfraquecer o Hamas seria um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, que melhorasse as condições de vida dos moradores da Cisjordânia e assim mostrasse de forma prática que a convivência é mais benéfica que a destruição. Isso não é algo difícil de perceber. Por que então Netanyahu faz justamente o contrário?

Porque o mesmo ocorre em Israel. As guerras, os ataques, a sensação de um inimigo sempre à espreita, a visão de que todos os palestinos são terroristas fortalecem um líder agressivo como Netanyahu, e fortalecem os radicais israelenses, nos quais ele tem se apoiado cada vez mais. O isolamento ainda maior de Israel na comunidade internacional decorrente de suas declarações é outra coisa que fortalecerá os radicais, especialmente os mais nacionalistas. Assim, os radicais israelenses e palestinos são na verdade aliados informais, fortalecendo-se mutuamente para destruir qualquer chance de convivência pacífica, e enfraquecendo mutuamente os moderados dos dois lados.

Os resultados da União Sionista são surpreendentes porque os trabalhistas, do mesmo modo que grupos pacifistas como o Shalom Aksheva, estavam praticamente mortos na política do país. Uma vitória de Herzog teria sido muito benéfica para o processo de paz, uma vez que ele foi eleito líder do Partido Trabalhista focando em esforços de paz com os palestinos (enquanto sua adversária Shelly Yachimovich se focou em assuntos econômicos), e após sua eleição, um dos primeiros atos foi um encontro com Abbas.

Não há solução para o conflito Israel x Palestina que não seja a cooperação voluntária. Ações militares e “líderes fortes e corajosos” só aprofundam o problema, pois a coragem de que se precisa agora é a de dialogar com o vizinho. Se seguir nesse caminho, Israel acabará sem nenhum aliado. Netanyahu e a extrema-direita são ainda mais prejudiciais aos israelenses que aos próprios palestinos, assim como o Hamas é mais prejudicial aos palestinos que os próprios israelenses, e no fundo, ambos são a mesma coisa…


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