Post do Leitor

Post do Leitor – Ana Elisa Thomazella Gazzola

[Pessoal, recebemos mais um post do leitor. Quem agora nos escreveu foi a bacharel em Relações Internacionais pela Unesp-Franca Ana Elisa Thomazella Gazzola, refletindo acerca da mediação brasileira nas negociações de paz no Oriente Médio e os questionamentos que tal atitude suscita, sobretudo a negligência com relação aos assuntos regionais ou a polêmica relação com o Irã.]

Mediação brasileira: é preciso olhar para os lados

 
 

A iniciativa brasileira de negociação de paz no Oriente Médio e a aproximação com o Irã trouxeram à luz muitas reflexões acerca da condução da política externa do Brasil, especialmente em relação aos seus vizinhos da América do Sul.

O Brasil tem demonstrado grande interesse em se firmar como mediador dos conflitos entre Israel e Palestina – papel este já exercido constantemente pelos EUA, que se utilizaram de todos os meios possíveis de negociação pacífica e mesmo assim, não obtiveram grandes avanços – enquanto que, divergências na região sul-americana passam despercebidas diante dessas mesmas iniciativas.

Em 2005, os bloqueios às vias de acesso e às pontes sobre o rio Uruguai, por parte da Argentina, resultante da controvérsia gerada pela instalação de indústrias de celulose na sua fronteira com o Uruguai, geraram grandes perdas econômicas e violaram o direito de livre trânsito de pessoas e mercadorias entre os países-membros do Mercosul; violando, portanto, o Tratado de Assunção. Nesse contexto, o Brasil não hesitou em sustentar que essa questão devia ser tratada no âmbito das negociações bilaterais, excluindo a participação do bloco na resolução do conflito, e se ausentando do papel de mediador.

Do mesmo modo, em 2007, quando a Bolívia anunciou sua intenção de desapropriar, sem acordo, as refinarias que a Petrobrás mantém no país, longe de uma resolução satisfatória do caso, o Chile revelou intenções de trazer gás líquido da Indonésia e o Brasil de Dubai.

O diplomata Rubens Ricupero acredita que o Brasil deve escolher com mais cuidado como conduzir sua política externa, priorizando o fomento de boas relações com seus vizinhos, para obter o máximo ganho possível, levando-se em conta que os recursos do país são limitados.

É preciso maior empenho nas relações comerciais com os países da América do Sul, como forma de diminuir as assimetrias e fortalecer a economia regional; assim como, resguardar a credibilidade do Mercosul. Para isso, é necessário articular melhor as políticas comuns dos Estados-membros em detrimento da bilateralidade Brasil-Argentina e harmonizar as legislações nas áreas pertinentes ao comércio.

Saber direcionar os esforços da Política Externa para os eixos certos é um grande desafio para o país. O Irã, sem dúvida, tem antigas intenções de se firmar como regionalmente dominante – fazendo uso da produção de armas nucleares como instrumento de poder e barganha – e, não será a iniciativa brasileira capaz de desfazer políticas tão profundamente enraizadas naquele país.

Sem perder de vista, é claro, a linha cooperativa do Itamaraty, o Poder Executivo brasileiro deve ter em mente que o Brasil só tem uma forma de poder dominante: o poder do exemplo e das iniciativas pacíficas. Torna-se crucial, portanto, que o país evite o apoio equivocado a países que – como o Irã – passam por cima de questão de interesse da comunidade internacional, como o respeito aos direitos humanos e tenha foco nas relações pacíficas com países que, da mesma forma, assim conduzem suas políticas.

Somente deste modo, o Brasil terá condições de fortalecer seu papel no sistema internacional, com legitimidade e longe do “protagonismo” excessivo, já anunciado por Ricupero.

[Aproveitando a oportunidade, a Página Internacional gostaria de agradecer imensamente a todos os leitores que tem nos enviado posts regularmente, ajudando-nos a manter a qualidade do blog. Continuem escrevendo sempre!]


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