Post do Leitor

Post do Leitor – Álvaro Panazzolo Neto

[Trazemos um novo post do aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto, no qual ele faz uma interessante comparação entre a mensagem de ano novo do papa Bento XVI e a repercussão do incidente com os brasileiros no Suriname. Acompanhem!]

Ouro dos tolos

No dia 01 de janeiro é comemorado o Dia Internacional da Paz. Como é tradicional, o papa divulga uma mensagem direcionada a todo o mundo, em geral abordando temas que vão além do simples conceito de paz. Este ano, sem dúvidas influenciado pelo insucesso da COP-15, o pontífice versou sobre questões relativas ao controle da natureza e a degradação ambiental. A pertinência do tema não pode ser discutida, visto o grau de decepção gerada pelo fracasso das negociações na Dinamarca, já exposta de maneira eloqüente por outros colaboradores. Entretanto, nesta breve análise, há um interessante ponto que remete a fatos recentes que vêem gerando grande impacto nos noticiários brasileiros.

Em determinado momento, Bento XVI cita o livro do Genesis, em que o dever de povoar a Terra e o poder de usufruir de seus recursos é delegado ao homem, em que pese seu papel como herdeiro de Deus, à sua imagem e semelhança. O papa utiliza-se desta passagem para estabelecer uma analogia com a degradação ambiental vista atualmente. Ao ser tomado pela ganância, o homem se esquece das próprias responsabilidades com o meio ambiente e o resultado é o conhecido.

Desorganização, uso indiscriminado de recursos, todas as vicissitudes oriundas da ocupação desordenada do território. A ganância humana, como apontado por Bento XVI, não é apenas a fonte dos males relativos ao meio ambiente, mas também de males sociais e políticos. No caso absurdo dos brasileiros atacados no Suriname, que mereceu destaque na imprensa no fim de 2009, vê-se como a busca pelo lucro pode ser nefasta, não apenas ao meio-ambiente, mas também à própria sociedade, quando ocorre em um ambiente sem governança fundamentada.

Isso pode ser visto no caso dos imigrantes no Suriname. Quilombolas, brasileiros, chineses. O bem natural é o ouro. A ganância leva à degradação ambiental oriunda dos garimpos, à imigração ilegal, à ocupação desordenada, ao aumento de conflitos sociais, da prostituição, do crime. Forma-se uma subcamada social, marginal à sociedade, regida pelas próprias “leis”, em que impera Talião. E por mais que seja uma situação perigosa ou degradante, os que vivem disso não querem deixar o garimpo. Mesmo que em condições abjetas, mostra-se como a única opção para que estes miseráveis obtenham seu ganho de maneira que consideram aceitável.

Enquanto não houver condições mínimas de igualdade de condições de trabalho e educação nas áreas mais pobres (nascedouro desses imigrantes ilegais), como boas escolas públicas e assistência básica, haverá os que se sujeitem a tais condições sub-humanas. A degradação ambiental é apenas uma face dessa realidade social perversa. Não se pode pensar em paz verdadeira, no âmbito de Estados, enquanto conflitos oriundos da própria estrutura social e da pobreza perseveram em diversas partes do mundo.


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