Post do Leitor

Post do Leitor – Álvaro Panazzolo Neto

[Caros leitores da Página Internacional, segue logo abaixo um post extremamente oportuno, e bastante aguardado no blog, sobre o atual reaparelhamento da FAB e o contexto no qual ele está ocorrendo, elaborado pelo aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto. Desde já, estendemos o convite para que você, Álvaro, continue nos contando os episódios dessa saga.]


Espetáculo aéreo

O 7 de setembro chegou e com ele os franceses, para a quase certa confirmação dos acordos na área militar de transferência de tecnologias. A possível aquisição dos Rafale não representa uma mera troca de gentilezas entre Sarkozy e Lula – é a consolidação de um projeto que se arrasta a mais de dez anos no Brasil e que pode ter grandes implicações quando se pensa na Defesa sul-americana. Isso por que uma das possível razões para tal reaparelhamento seria a tal corrida armamentista sul-americana.

Explica-se: o Projeto F-X, para renovar o corpo de aviação da Força Aérea Brasileira (FAB), foi criado nos idos de 1997, no governo FHC, e devidamente engavetado por Lula em 2002. (Resumo detalhado aqui). Em um país de tradição diplomática pacífica e avesso a conflitos, somado à política doméstica de assistencialismo, era algo lógico a decisão de abandonar o programa. Entretanto, eis que em 2008 ressurge das cinzas o agora F-X2, e que aparentemente está sendo conduzido de maneira correta, confiando em critérios técnicos e na transferência de tecnologia como critério de seleção (algo que remete à Estratégia Nacional de Defesa de 2008, e que na verdade talvez tenha contribuído para sua formulação nesse quesito).

A questão aqui é: por que ressuscitar um programa de US$ 2 bilhões, que fora desativado pelo mesmo governo? A resposta imediata: o equilíbrio de poder na América do Sul. Sabe-se que o presidente da Venezuela tem gasto quantias elevadas com armamentos graças aos petrodólares, e isso inclui 24 caças Sukhoi, russos, de grande capacidade operacional (leia-se: que operam além do alcance de radar). Países como Peru e Chile também possuem vetores avançados. Ok, nem tão avançados, mas ainda melhores que os “recauchutados” Mirage 2000 e F-5 da FAB (diga-se de passagem, o Brasil é um dos poucos países que opera essa aeronave, e está comprando dos outros). Considerando-se a importância estratégica do poder aéreo, o quadro de instabilidade em certas regiões, a persistência de algumas escaramuças e a imprevisibilidade de alguns líderes, os mais temerários diriam que a América do Sul está armada até os dentes. Será?

Antes de tudo, ressalta-se que a situação das Forças Armadas em geral na América do Sul é de obsolescência. A idéia de corrida militar tem nesse quesito sua fraqueza: a maioria dos países sul-americanos simplesmente não tem capacidade de manter um conflito prolongado, mesmo contar seus vizinhos. O Brasil, por exemplo, destaca-se por poder projetar poder marítimo, pois é o único a possuir UM porta-aviões (que fica ancorado a maior parte do tempo). Na verdade, operacionalmente, o Brasil é poder militar “hegemônico” da América do Sul. A Venezuela adquiriu caças russos pois os norte-americanos pararam de fornecer assistência técnica aos seus F-16 (sim, Chávez usa aviões do Satã). O Chile tem problemas pois alguns de seus aviões não têm mísseis (que não vieram no “pacote” – advinhem quem vendeu…). A situação seria risível se não fosse trágica.

Vamos comparar com a outra negocião que está movimentando o mercado internacional e fazendo a alegria dos amantes da aviação militar: a Índia está em fase de testes para a escolha de 18 aeronaves, inicialmente – o total pode chegar a 126, em um negócio de US$ 12 bilhões, que faz o F-X2 parecer humilde, mas em muito se assemelha. Pensemos agora na vizinhança indiana: China, Paquistão, Afeganistão, entre outro, tutti buona genti. Para a Índia, há uma necessidade real de pensar em se armar, pois sabe-se lá o que pode ocorrer naquela parte do mundo.

Já na América do Sul? O quadro historicamente pacífico e a situação decrépita das Forças Armadas nos remetem aos dizeres de Rafael Duarte Villa – esse reaparelhamento tem origem apenas na situação precária das Forças do continente, de caráter pontual. Portanto, não implicaria em corrida armamentista ou risco de conflito entre vizinhos.

Mas, no fim das contas, talvez essa modernização toda venha a calhar agora que teremos caças norte-americanos, com autonomia de vôo continental, bem no quintal do vizinho. Motivo para mais paranóia e compras exorbitantes? Veremos.

[UPDATE: outras discussões do acordo militar citado nesse post aqui.]


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