Post do Leitor

Post do Leitor – Álvaro Panazzolo Neto

[Mais uma vez, o aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto, nos brinda com um excelente post sobre o prognóstico da Rússia no cenário internacional. Lembrando a todos que o blog é aberto para quem quiser postar, basta nos enviar um e-mail com o post.]

Rússia: velha potência ou nova potencialidade?

Pensando-se na configuração do mundo após a Guerra Fria, a Rússia mostrou-se privada de seu epíteto de superpotência, em especial no âmbito militar. A situação era crítica no período posterior à queda do muro de Berlim, em que esta perdeu poder político e potencial tecnológico durante o caos em que se instalou um ambiente de corrupção e descrédito. Há sempre a falsa impressão de que ainda se trata de uma potência militar; entretanto, a Rússia não ostentaria tal pujança, escorando-se apenas na posse de aparatos nucleares – os quais não se podem considerar seguros ou bem armazenados/mantidos. As dificuldades em lidar com pequenos grupos como os chechenos e as dificuldades da campanha na Geórgia demonstrariam certo grau de obsolescência das forças, não apenas relativamente ao aparato e seu estado de conservação deplorável (exposto com a explosão de um arsenal), mas à doutrina de emprego e recrutamento do efetivo. Algo pior estaria ocorrendo na importação de material estrangeiro e na preferência à exportação de equipamento em detrimento ao fornecimento para as próprias forças armadas pelas empresas locais.

A Rússia teria deixado de ser uma superpotência? De fato, é o que indicam os fatos – se o foi considerada um dia o era pela sua proeminência militar. Hoje, nem isto lhe resta. Entretanto, almejaria retomar essa posição em um futuro próximo, através de ações nos campos interno e externo. Projetos energéticos ambiciosos, poderio militar renovado. A Rússia está ressurgindo no cenário internacional como potência, e pelas mãos de um governante nascido da Guerra Fria.

Se o caos foi precedido pelas reformas e engendrado pelo governo do finado Yeltsin, veio Putin, e com ele os ventos do renascimento. O ex-presidente, e agora Primeiro-Ministro, aparenta desenvolver um ambicioso plano de ressurgimento da Rússia no cenário internacional, possibilitado, é claro, pela sua participação no governo de maneira contínua. Colabora para isso a alta no preço do petróleo, que auxiliou na modernização, e o aparente controle ou supressão da cleptocracia que assombrava o governo. Medvedev, seu sucessor, apregoa que a Rússia necessita se modernizar para sobreviver, em que depende de superar uma economia primitiva. O ambicioso plano de modernização proposto pelo atual presidente planeja injetar alguns bilhões de euros em setores de tecnologia sensível, puxados pelo aumento planejado das encomendas para o setor militar. Condiz, portanto, com essa busca, em que visa à restituição das forças armadas russas como uma instituição reinventada e uma força a ser reconhecida, moderna e condizente aos desafios do século XXI como o terrorismo. Nesse sentido já houve reformas visando à maior autonomia de atuação do exército fora do país, afetando sua doutrina de emprego. As somas envolvidas são alimentadas pelos petrodólares e não se restringem ao melhoramento da própria Rússia, como na expansão de seus laços, como na recente abertura de uma fábrica de armas na Venezuela.

A Rússia busca ser uma novamente uma potência militar. Seria apenas um capricho pessoal de Putin ou o desejo profundo e incônscio de boa parte do povo russo que viveu como potência capaz de determinar os rumos da humanidade e agora se vê relegado a uma posição periférica? Existiria essa identificação com o projeto renovado da Grande Mãe-Rússia? A grande questão agora é entender se isso pode vir a ser entendido como uma ameaça real aos outros Estados em um futuro próximo. Talvez caiba o questionamento se a própria Rússia vai querer assumir esse posto e gerar atritos quando for necessário, ou se tal processo vai se estender além do setor militar, visando ao aproveitamento ótimo da economia e abundantes recursos naturais russos – área em que de fato nunca foi superpotência, e das quais dependeria para alcançar o posto de superpotência no mundo atual.


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