Post do Leitor

Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Pois é, pessoal, tirei férias mesmo do blog essa semana e minha postagem vai ficar só no podcast de amanhã mesmo. Acaba de chegar mais um post da Adriana Suzart de Pádua. Já fica aqui o convite para a Adriana tornar-se colaboradora oficial do blog. E, quem quiser mandar textos, comentários, imagens pra semana, email para [email protected]. Vamos ao post!]

Já pensou se a moda pega?


O presidente boliviano Evo Morales está fazendo jejum há dois dias. E não é penitência ou sacrifício em virtude da Semana Santa. A greve de fome do mandatário tem motivações menos místicas. Morales protesta contra a negativa do Congresso Nacional em aprovar uma a Lei Eleitoral prevista pela atual Constituição boliviana, aprovada em janeiro pelo voto popular. Sem a aprovação dessa nova Lei Eleitoral, as eleições gerais de 6 de dezembro correm sério risco de serem comprometidas. Os senadores opositores se negaram a votar e abandonaram a sessão depois de 30 horas de discussão. Tudo isso porque a norma em votação dá brechas para uma possível reeleição de Morales no fim do ano…

Eu não sei quanto a vocês, mas acho que a decisão do nosso vizinho boliviano um tanto quanto apolítica, podendo se espalhar pela região, como tem acontecido com algumas medidas tomadas pelos governos sul-americanos. E por um motivo muito simples: a boa política se faz com argumentos e não com chantagens emocionais e medidas desesperadas. Alguns podem argumentar que medidas dissuasórias ou embargos, por exemplo, são um tipo de chantagem. Concordo. Mas não podemos esquecer que elas são medidas extremas tomadas num sistema internacional anárquico, ou seja, sem um governo supranacional.

Definitivamente não é esse o contexto na Bolívia. Lá, Morales é chefe do Executivo e a ele cabe dialogar com os poderes Legislativo e Judiciário para fazer valer a vontade do povo. Um presidente que não consegue negociar com a oposição terá muita dificuldade em governar.

Saindo do âmbito interno boliviano e lançando um olhar para a região, é notório que estamos em um momento político inédito. Muitos analistas dizem que estamos atingindo uma maturidade democrática própria e certamente muito peculiar. Características como o discurso populista adotado por alguns presidentes, a elaboração de novas Constituições que rompem com o passado político pouco democrático e a tentativa de aprovação de dispositivos que permitam a reeleição ilimitada têm sido apontados como traços comuns a alguns países sul-americanos.

Nada contra a eleição ilimitada desde que feita livre de fraudes. Afinal se o sistema é democrático deduz-se que deve valer a vontade do povo. Se o povo quer continuidade, que assim seja. Não é essa moda que me preocupa, mas o fato de depois de tanto tempo tentando acertar, uma atitude como essa desqualifique todo o progresso que alcançamos.

O protesto do mandatário boliviano já conseguiu cerca 1000 adeptos entre a população. Vamos torcer para que não contagie os seus pares vizinhos.


Categorias: Post do leitor