Post do Leitor

Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal. Mais uma vez temos um post dos nossos leitores! Desta vez quem escreve é a Adriana Suzart de Pádua, graduanda em Relações Internacionais na UNESP-Franca e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional – GEDES. Redatora do “Observatório de Política Externa Brasileira”. Quer escrever aqui também? Envie e-mail para [email protected]]

Interesses nacionais

Embora esse não seja um espaço acadêmico, optei por recorrer a alguns conceitos teóricos para cumprir um dos objetivos desse blog, que é também, além de promover um espaço para discussão, informar os leigos nas áreas de Política e de Relações Internacionais, para que estes entendam como esses assuntos afetam sua vida.

O conceito que gostaria de tratar aqui é o de Interesses Nacionais. Para tanto, se os autores anteriores me permitirem, usarei alguns tópicos já abordados neste espaço para demonstrar o tema proposto.

Interesses nacionais, ou objetivos nacionais, são aqueles que devem ser atingidos por um país, tanto em âmbito interno quanto externo, visando garantir o bem comum e a segurança da comunidade que o compõe. Isso quer dizer que o Estado, por meio de seu corpo político, eleito democraticamente ou não, deve assegurar que os indivíduos tenham condições de exercer todas suas atividades vitais, isentos de perigos, riscos ou prejuízos de qualquer natureza.

Em tese, os interesses nacionais deveriam ser determinados pela sociedade que integra o Estado-Nação. No entanto, na prática, o que se percebe é que apenas alguns grupos de interesses, por meio de sua influência econômica, política ou cultural determinam os rumos das políticas e metas adotadas pelo Estado.

Dias atrás, um jornal de circulação nacional trouxe uma notícia relatando o otimismo do Itamaraty com a retomada discreta da rodada de negociações para a reforma, com possível ampliação de assentos permanentes e temporários, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar do desejo antigo do Brasil de compor este Conselho, é a partir de 1993 que essa intenção assume o status de prioridade e passa a ser perseguida como um interesse nacional. Mas por que o status de prioridade em 1993 e não antes? E em que um assento permanente no Conselho de segurança da ONU atenderia os interesses nacionais?

A nova ordem mundial, instalada a partir dos anos 90, abriu a possibilidade de países emergentes, como o Brasil, se manifestarem com maior liberdade no cenário internacional, sob a bandeira da democracia empunhada pela potência do norte. É neste contexto que a reivindicação de ampliação do Conselho de Segurança não só brasileira, mas também de outros países desenvolvidos, ganha corpo.

O interesse do Brasil de fazer parte do Conselho reside na possibilidade de fazer-se ouvir no fórum internacional mais importante na atualidade. Pertencer à elite internacional, sem dúvida, é reflexo de influência e poder, mesmo que sejam apenas potenciais e não reais, como no nosso caso. Digo potenciais porque a percepção de influência e poder passam, antes de tudo, por um entendimento subjetivo do outro.

Não se pode negar que, influência e poder exercidos no âmbito e por meio de uma organização internacional, como a ONU, apesar de eventualmente ignorada como foi pelos Estados Unidos (EUA), confira grande legitimidade às ações tomadas. E é isso que o Brasil busca. Reconhecimento internacional em fórum legítimo.

Mas, e as ações bilaterais ou mesmo unilaterais não atendem os interesses nacionais? Sem dúvida que atendem. Entretanto é preciso pensar no custo/beneficio que trazem. Era interesse nacional dos EUA garantir o suprimento de petróleo do Iraque. Para isso, promoveu a destituição de um governante déspota e de uma guerra, que deveria ter sido rápida e com pouquíssimas baixas, mas que já dura mais do que o desejado e com mais mortes do que as previstas. A consecução desse interesse nacional desagrada mais a cada dia que passa a população estadunidense, que não vê a hora de ter seus soldados em casa, pouco se importando com a obtenção do óleo negro.

Outro exemplo envolvendo novamente os EUA. A invasão do Afeganistão também visou atender o interesse nacional norte-americano de capturar o agressor da pátria, responsável pelo inesquecível atentado às Torres Gêmeas. Bin Laden nunca foi capturado e os resultados dessa ação foram gastos norte-americanos, morte de alguns colaboradores do terrorista e destruição de uma população já sofrida devido a própria condição de Estado afegão. Tenho minhas dúvidas se qualquer país do mundo, em sã consciência se arriscaria a colocar a mão nesse vespeiro sozinho. Certas situações atualmente só são passíveis de resolução sob o respaldo de uma organização internacional, e mesmo assim a duras penas.

Para que as ações bilaterais atendam aos interesses nacionais é preciso que haja antes de tudo consentimento e cooperação. Os EUA “presumiram (?)”, que garantindo seu suprimento de petróleo, estariam libertando uma população oprimida. Mas será que perguntaram para a população iraquiana (não digo a elite) se ela queria se livrar de Saddam Hussein? Da mesma forma, quando pensamos em ajudar Estados falidos como o Afeganistão, visando nossos interesses, temos que primeiro pesar se as consequências dessa ajuda será útil para os dois lados, e principalmente, se será aceita pela outra parte.

A política externa de um país é o seu cartão de visitas. É por ela que um Estado é medido e rotulado. O objetivo brasileiro é exercer influência sem fazer uso da força ou violar a autodeterminação dos outros Estados. Para isso fóruns multilaterais como a ONU são altamente favoráveis.


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