Post do Leitor

Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal, mais um excelente post da Adriana Suzart de Pádua, que é graduanda em Relações Internacionais na UNESP – Franca, membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e redatora do “Observatório de Política Externa Brasileira”. Quem quiser, mande um post no e-mail [email protected] que nós publicaremos. Bianca Fadel, você bem que poderia nos mandar um post, não é? Boa leitura, pessoal!]


Criado por iniciativa do Brasil, o Conselho Sul-Americano de Defesa (CSD) foi efetivado em dezembro de 2008, depois de muitas conversas bilaterais entre Brasil e Colômbia, devido a resistência deste país em aceitar a formação de uma instituição de tal calibre na região sem a participação dos Estados Unidos.

Mas sabem quem começou com essa conversa de criar um órgão de defesa para a região? Pasmem! Hugo Chávez.

Pouco depois de tomar posse, em uma reunião com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2000, Chávez já apresentava uma proposta de formação de um organismo de defesa aos moldes da OTAN e que se chamaria OTAS (Organização do Tratado do Atlântico Sul). Tal proposta, além da unificação das Forças Armadas dos países da região, previa também a elaboração de uma doutrina militar regional pautada em valores bolivarianos e com o objetivo de proteger a região da ingerência das potências imperialistas.

A proposta chavista não encontrou apoio dos vizinhos na época. Mas, como sabemos, nosso amigo Chávez não desiste facilmente e desde então, sempre que pode, ele traz o assunto à tona.

Após o ataque colombiano à fronteira do Equador, com o objetivo de eliminar um acampamento das Farc, em março de 2008, sob o pretexto de ataque preventivo (como reza a doutrina de segurança norte-americana) e sem comunicação prévia ao governo Correa, ficou clara, para muitos países sul-americanos, a necessidade de elaborar um plano de defesa próprio para a região. Era a oportunidade esperada.

O Brasil, para não perder o bonde da História para a Venezuela, mais que depressa mandou o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, em um tour regional para apresentar a ideia de formação de um CSD e conseguir adeptos. Na época, o Conselho idealizado pelo Brasil, nas palavras do ministro Jobim, estaria vinculado à UNASUL e seria apenas consultivo, não se cogitando a hipótese de fusão das Forças Armadas da região. Limitaria-se a constituir-se em uma voz única em assuntos de defesa e segurança para a região em fóruns multilaterais, isento de tendências ideológicas ou de confrontação contra nenhum Estado em particular. Fomentaria ainda o desenvolvimento da indústria bélica regional.

Porém, alguma coisa mudou. Dois jornais de circulação nacional publicaram essa semana que o CSD poderá tomar a forma de uma aliança militar defensiva regional, com a aprovação de um plano de ação ocorrida no dia 11 deste mês, que prevê a adoção de uma doutrina política comum, o inventário da atual capacidade militar de todos os países da região e o monitoramento dos gastos do setor de defesa. Também deverá ser criado um mecanismo de consulta imediata para situações de emergência, com avaliação de ameaças e ação de resposta, além a criação do Centro Sul-Americano de Estudos Estratégicos de Defesa (CSEED), em Buenos Aires. Um grupo de trabalho coordenado pela Venezuela vai elaborar o registro das academias e centros de estudo em defesa e de seus programas e criar uma rede sul-americana de capacitação e formação.

Será impressão minha ou o CSD está ficando com a cara de seu primeiro idealizador?

O irônico disso tudo é que, embora haja divergências entre os países componentes do Conselho quanto ao lugar ocupado pelos Estados Unidos nessa história toda, resultando em conversas acaloradas durante a I reunião desse organismo, Chávez tem conseguido fazer valer seu projeto sem chamar a atenção sobre si mesmo. E o Brasil, na tentativa de se firmar definitivamente como líder regional, tem dado condições e aberto caminhos para a concretização de projetos nacionais alheios.

A oportunidade faz o ladrão, mas ri melhor quem ri por último.

*A charge que ilustra o post está disponível em: http://chargesdobenett.zip.net/images/Ch-Unasul.jpg


Categorias: Post do leitor