Post do Leitor

Post do leitor – Adriana Suzart de Pádua

[Pessoal, como eu havia previsto, nosso podcast levantou opiniões divergentes. A Adriana Suzart de Pádua, que já escreveu outros três posts aqui no blog, enviou o texto que segue abaixo. Antes, no entanto, gostaria de fazer algumas colocações. O objetivo deste blog não é apenas informar nossos leitores sobre o que está acontecendo no mundo. Pra isso basta colocarmos os links dos bons jornais que temos no país. Nós queremos ir além da informação pela informação, afinal, uma notícia sem a devida compreensão não passa de amontoado de palavras. E o que define essa compreensão necessária é o senso crítico. Senso Crítico não significa falar mal, criticar por criticar. É o resultado de debates e discussões, e é isso que queremos aqui. Não somos os donos da verdade, por isso mesmo abrimos espaços para que todos se posicionem e coloquem suas opiniões, mesmo que divergentes daquelas de quem escreveu um post. Por isso, fique tranquilo para comentar e divergir quando quiser. Segue o post!]

Metáforas Presidenciais e outras Gafes

Não é de hoje que o discurso de nosso presidente provoca controvérsia. Mas não se pode esquecer que foi com esse discurso “simplório” que ele se fez ouvir em fóruns importantes como o de Davos no início de seu primeiro mandato, quando arrancou aplausos e apoio dos países do primeiro mundo ao lançar a proposta de um “projeto fome zero internacional”. Feito que muitos presidentes mais letrados e anteriores a ele não conseguiram.

Gosto de me reportar a esses fatos porque, como já é uma característica assumida nossa, brasileiro tem memória curta, e muitas vezes nos valemos dela apenas para criticar por criticar, o que, aliás, também é um hábito bem brasileiro.

Nos últimos dias o presidente Lula tem sofrido várias críticas por sua frase dita a respeito dos responsáveis pela crise econômica mundial. Foi acusado de racista, de falta de polidez política e até diplomática. Mas, sua sinceridade pouco protocolar não é demagógica, pelo contrário. Tanto que o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o socialista francês Dominique Strauss-Khan, comentou que, de fato, a crise “surgiu no coração do sistema”, ou seja, nos países desenvolvidos.

Metáfora infeliz, talvez. Gafe diplomática, com certeza. No entanto, não se pode negar a lucidez da afirmação. Ou alguém discorda que a crise imobiliária norte-americana foi o estopim desse cenário recessivo que atinge a todos?

Sim, de fato, a crise chegou também ao Brasil, aliás, como era de se esperar, uma vez que estamos inseridos num sistema internacional interdependente. E, me valendo do mesmo artifício do presidente, na tentativa de ser didática, comparo os efeitos da crise no Brasil com um tsunami, isto é, uma propagação de ondas que provoca maiores estragos em regiões próximas ao seu epicentro (países desenvolvidos) e que vai perdendo força ao se afastar de seu centro de difusão. Não estou dizendo com isso que países subdesenvolvidos não serão afetados pela crise, não é isso. Acredito, inclusive, que quanto maior for a dependência destes em relação aos países centrais do sistema, maior serão os efeitos negativos. E é justamente esse o diferencial brasileiro. O país tem procurado diversificar seus contatos comerciais, seja através de negociações entre blocos regionais ou por meio de alinhamentos políticos. E isso é significativo, demonstra autonomia, passo importante em direção à liderança regional e a um posicionamento de destaque mundial.

Alguns analistas como Arnaldo Jabor, atribuem esse menor efeito sentido no país aos nossos sistemas financeiro e econômico rudimentares. Contudo, não se pode esquecer que as políticas que regem esses sistemas rudimentares foram responsáveis pela independência brasileira de uma importante instituição internacional financeira, o FMI. Coisa que muitos tentaram por vários anos e só esse governo conseguiu. Importante lembrar também que o governo Lula, depois do governo Itamar Franco, foi o único a se preocupar com o fomento das reservas nacionais. Não tenho dúvidas de que esses fatores têm ajudado a minimizar os efeitos da crise no país.

O peso da crise sobre os países emergentes é potencializado pela falta de responsabilidade dos países desenvolvidos, que como no caso das medidas a serem adotadas para minimizar o aquecimento global, além de querem se eximir da conta que deveriam pagar por anos de poluição desenfreada, querem que os emergentes assumam o compromisso de não poluírem em detrimento do seu desenvolvimento. Quando o presidente fala do sofrimento dos países emergentes, penso eu, que é a isso que se refere. Os países centrais, quando se trata de repartir o ônus, querem sempre parceiros, mas na hora do bônus…


Categorias: Post do leitor