Porquice no Velho Mundo

Por

A Europa anda tendo problemas com porcos. Não suínos selvagens, mas os simpáticos PIIGS. Começando com o porquinho grego, sendo seguido de pertos pelos porquinhos ibéricos e completando a vara o irlandês e o italiano. Todos estes passaram os últimos meses perseguidos em seus quintais pelos lobos maus do déficit publico, da especulação e da crise financeira, e com isso ameaçam levar toda a fazenda UE pro brejo. Felizmente, o austero e soberbo alazão alemão, aquele que mais trabalha e se sacrifica pra fazer a fazenda funcionar, autorizou em um primeiro momento a participação alemã (maior fatia do pacote) na ajuda econômica e por enquanto se espera que salve a Grécia, que não somente tivera a casa derrubada pelo sopro da crise como já estava sentindo as suas dentadas.

Fábulas à parte, com a provável aprovação do bilionário pacote de ajuda à Grécia, a UE aparentemente se safa de um primeiro imbróglio terrível, mas ainda corre o risco de males piores no futuro. A situação na Grécia ainda é crítica: com déficit previsto para alguns anos ainda, a política de cortes orçamentários afetará profundamente a população e os juros corroerão sua economia. A maior preocupação, todavia, ainda é com os outros PIIGS. Espanha e Portugal já são vistos com desconfiança, e falta pouco para que ocorra com eles o mesmo que com os gregos. Itália e Irlanda estão um pouco melhores, mas nunca se sabe o que pode mudar nos humores dos mercados de um dia pro outro.

Não bastassem as preocupações econômicas, a periculosidade maior se revela na arena política. Relembrando: a crise na Grécia teve fermento com a onda da crise mundial, mas esteve enraizada ao se mascararem números de déficit público para adentrar a zona do Euro. Vê-se com razão o lamento dos alemães em abrirem mão de sua moeda tão forte, estável e bonita, o Marco, em nome da aventura do Euro. Agora eles estão a pagar pela improbidade administrativa grega. Era isso ou o desfacelamento da moeda úinica – e por que não, do bloco. Afinal, à Grécia restava impor uma reforma fiscal e financeira ainda mais extremada (coisas populares como cortar aposentadorias e congelar salários) ou saltar do barco europeu e cair direto no mar da falência. Por sorte, a Europa encontrou uma via média, abriu mão de cumprir alguns regulamentos e deu-se um jeito com o empréstimo “interno”.

O problema vem agora. Abriu-se um precedente, a regulamentação européia foi contornada e os comedidos estão a pagar o pato dos porcos. A grande dúvida é, se algo parecido ocorrer com outro dos PIIGS, como procederá a Europa? Os deixará na mão ou recorrerão à ajuda sob o risco de novamente fazerem suas populações arcarem com custos que não lhes competem? A oposição a esse tipo de ajuda é muito forte, especialmente na Alemanha – e mesmo os gregos se sentem inseguros com a ajuda. A resposta passa pelo fortalecimento das instituições, a maior celeridade na tomada de decisões e a infame reforma do sistema financeiro europeu, e isso depende da credibilidade dos líderes. O futuro pode ser promissor, mas os membros da EU devem proceder com cuidado para que a situação não se repita, pois a situação seria ainda mais insustentável para a moeda e socialmente. Se isso ocorrer, será um golpe possivelmente definitivo não apenas ao destino econômico da UE (que já está em coma faz tempo), mas ao político também.


Categorias: Economia, Europa


0 comments