Por que os homens lutam?

Por

[Pessoal, desculpem-me pela extensão. Acho que me empolguei demais.]

Outra vez recorro a John Keegan para trazer uma das questões mais intrínsecas ao gênio humano. Em tempos recente, a questão se sobressai no conflito Israel-Palestina. Por que lutam palestinos e israelenses? Será que os hebreus finalmente chegaram à Canaã, conquistaram a terra prometida? Será que a jihad ainda não acabou? Na terra santa, os homens profanam o sagrado, fazem os deuses e a guerra e, ainda assim, anseiam pela paz.

À parte de toda essa abstração, concentremo-nos num fato significativo: a comunidade internacional tem procurado intervir no infindável conflito entre judeus e palestinos. Mais especificamente, nesta segunda-feira, na Casa Branca, Barack Obama se reuniu com o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, para discutir um possível acordo de paz que seja capaz de encerrar mais de 60 anos de luta.

Neste mesmo dia, a revista Time, elencou seis assuntos que dividiam Obama e Netanyahu. São eles: 1) a idéia de criação de um Estado Palestino independente; 2) a intervenção no conflito Israel-Palestina mascara a prioridade de se negociar com o Irã; 3) o prazo para a implementação de medidas; 4) o fim dos assentamentos judaicos em território palestino; 5) a fim do bloqueio a Gaza; e 6) a negociação com o Irã sobre seu programa nuclear.


Façamos um comentário geral sobre os pontos de divergência. Os Estados Unidos e a União Européia têm pressionado Israel para a criação de um Estado Palestino, contudo, o país tem se negado a acatar essa pressão. Recordo-me de um artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em fevereiro de 2009, intitulado “Sobre Gaza, sobre Israel, sobre nós”, no qual se argumenta que o direito dos Estados está acima do direito dos povos. Do lado de Israel, a condição de Estado lhe assegura o monopólio legítimo do uso da violência, do lado da Palestina, a ausência do Estado confere-lhe o monopólio legítimo do uso da algazarra. Toda ação promovida pelos palestinos é sinônimo de ato terrorista. Para Israel, é preferível mantê-los no estado de natureza hobbesiano a conceder-lhes uma entidade política organizada. Nos dizeres do Ministro de Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman: “Israel tem compromisso com a paz, não com Estado Palestino.” Para uns, a lei; para outros, o esquecimento.

Cada vez mais vem se cumprindo a profecia de David Ben-Gurion, primeiro chefe de governo de Israel, “Depois da formação de um grande exército, na esteira do estabelecimento de nosso Estado, nós aboliremos a partilha e expandiremos nosso Estado por toda a Palestina.” Os assentamentos continuam avançando sobre o território palestino, deixando ainda mais longe a perspectiva de uma Palestina genuína. E depois Netanyahu diz que não quer governar os palestinos, mas apenas viver em paz com eles. É claro, com eles descansando em paz.

Aliás, a recusa de reconhecer um Estado ou outro é muito comum na conduta diplomática de Israel. O país também não reconhece o Irã como Estado. A reação é óbvia, ainda mais quando se tem um Mahmoud Ahmadinejad no poder: riscar Israel do mapa. Sorte que o Irã não é apenas um povo e que a “bondade” norte-americana interveio, senão o exército mais ético do mundo, segundo o ex-premiê Ehud Olmert, não hesitaria em cometer sua sutileza rotineira. (Hoje mesmo li que militares israelenses declararam que a violência contra palestinos “dá resultados”.)

Não me admira todo o rancor que Israel desperta no mundo árabe. Espalhou-se por todo o Oriente Médio uma rede de mentiras. Se Israel disse que os ataques preventivos realizados entre o final de 2008 e o começo de 2009 foram para eliminar membros do Hamas, por que o Irã não pode dizer que o desenvolvimento de tecnologia nuclear visa a fins energéticos? Não entendo por que o governo israelense solicita tanta urgência na adoção de medidas severas quanto ao Irã ao mesmo tempo em que questiona o por quê da pressa para o estabelecimento de um Estado Palestino.

Por sua vez, os Estados Unidos optam pela manutenção das negociações com o Irã. No entanto, Obama afirma que não se pode manter um diálogo infinito e espera uma resposta de Ahmadinejad em favor da cessação de seu programa nuclear até o final de 2009. Terá o governo norte-americano agido com sensatez? E com relação à causa palestina? Ou será uma manobra do novo populismo de Getúlio Obama (nas palavras do Ivan)?

Alguns dados publicados pelo Le Monde neste fim de semana para a nossa reflexão: 80% dos eleitores de Obama defendem que é tempo de exercer pressão sobre Israel, 50% acreditam que é hora de enfraquecer Israel e 67% são favoráveis a um diálogo com o Hamas, sem contar que 68% dos democratas afirmam que as relações com o mundo árabe são tão importantes para os Estados Unidos quanto à relação com Israel. Reconheço que o messiânico Obama representa a esperança para palestinos e para o mundo, mas é difícil deixar de reconhecer que existem interesses por trás de suas ações. Mas prefiro ser menos cético, ao menos, desta vez.

Sem dúvida, a presença dos Estados Unidos é fundamental para a resolução desse drama. Os apelos da comunidade internacional também são significativos. Só que nada faz sentido se não produzir respostas. Até quando os palestinos se nutrirão de pedras e esperanças, enquanto os israelenses se alimentam de sangue e medo?

Por que os homens lutam? Apenas porque lutam. E lutam com armas, palavras e sonhos em todos os campos de batalha possíveis e imagináveis.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Alcir Candido
Alcir Candido

Pois é, Giovanni, voltando ao blog em grande estilo! Apareça sempreagora só falta a Andrea voltar e o Rafael aparecer,,,até mais!