Por que o Bahrein?

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Porque o futuro do Oriente Médio depende do que está acontecendo no Bahrein. Os holofotes podem se voltar para Tunísia, Egito ou Líbia, mas o verdadeiro show acontece em solo bareinita. Um país praticamente invisível, pouco conhecido, pode definir o curso das relações internacionais na região e da região para o mundo.

Não faz muito tempo, Thomas Friedman disse que esta onda democratizante que se espalha pelo mundo árabe é diferente daquela que se espalhou pela Europa Oriental nos anos 1990. Naquele momento, todos os países eram homogêneos, como a Alemanha. Hoje, a maior parte do mundo árabe se assemelha à Iugoslávia, multiétnico e multireligioso. Essa característica se acentuou no Bahrein, onde a população xiita – que corresponde a cerca de 70% do país – tem conduzido protestos contra a monarquia (pseudo)constitucional sunita, que governa o país.

Problema: a Arábia Saudita não gostou nada disso, nem os Estados Unidos, enquanto que o Irã curtiu. Comecemos pela Arábia Saudita. A última coisa que o Rei Abdullah quer é um protesto xiita de larga escala numa ilha vizinha, que ameace o seu próprio governo, de maioria sunita, e provoque um “efeito dominó”, com a queda das demais monarquias do Oriente Médio. Isso é exatamente o que também incomoda os Estados Unidos, que espalhou governos fantoches pela região e percebe a sua influência comprometida. Porém, a situação é favorável ao Irã, de maioria xiita e que vê com bons olhos essas manifestações: a Revolução Islâmica de 1979 alcançaria todo o Golfo Pérsico.

Obviamente, a Arábia Saudita não ficou parada. Com a aprovação do Conselho de Cooperação do Golfo e a pedido do rei Hamad Bin Isa al-Khalifa, enviou tropas para conter os protestos xiitas no Bahrein. Se a intervenção é legítima ou não é bastante discutível, mas aconteceu. A questão agora é se a intervenção é o melhor caminho e como lidar com os desdobramentos posteriores a ela.

Diwan, por exemplo, argumenta que a solução mais cabível seria a incorporação dos xiitas na política bareinita, que tornaria a repressão dispensável e atenuaria a influência iraniana. Fato é que os acontecimentos no Bahrein abriram uma oportunidade para a consolidação da influência regional do Irã, um antigo desejo do país, e, inclusive, para a formação daquilo que muitos analistas têm chamado de “um bloco islâmico e anti-Israel”. Isso gera polêmicas (aqui e aqui).

De inimigo dos árabes – o principal –, o Irã passaria para uma posição de liderança. De uma colcha de retalhos, o mundo islâmico se tornaria uma fina tapeçaria para ornamentar com brilho próprio as relações internacionais. Não é à toa que Ahmadinejad critica tanto os Estados Unidos por incitarem a tensão entre árabes e iranianos e prevê o surgimento de “um novo Oriente Médio”. Não é à toa que os Estados Unidos se preocupam tanto com o programa nuclear iraniano. Não é à toa que a questão bareinita é tão importante e ganha o reforço do vácuo de poder deixado no Iraque desestabilizado, de maioria xiita.

[Para aqueles que tiverem curiosidade para entenderem melhor a questão, segue a indicação de alguns artigos: 1, 2, 3 e 4. Também é interessante dar uma olhada no mapa da Freedom House sobre os países considerados livres, particialmente livres e não-livres: aqui.]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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