Por água abaixo

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Muitas vezes só se sente falta de algo quando se perde. Lembro dos tambores de guerra no ano passado, quando o ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, estava querendo renegociar o preço da venda da energia sobressalente de Itaipu para o Brasil. Pra quem não lembra, Itaipu é um projeto binacional (apesar de o Brasil ter pagado tudo, diga-se de passagem) e a energia produzida lá deve ser repartida igualmente entre os dois. O Paraguai não usa nem 10% disso e revende o resto para o Brasil (que usa tudo isso e muito mais, podes crer). 

A questão do preço é uma coisa muito discutível. Por um lado, como disse foi o Brasil que pagou pela usina, literalmente, então nada mais justo que fique com a maior parte da produção. Por outro lado, a barragem alagou áreas dos dois lados da fronteira, e houve um custo social e ambiental também para o Paraguai. Royalties (em sua acepção original, como reparação por dano causado por exploração de recurso natural, e não como um jeito das cidades de arrancar dinheiro do Estado ou alguma empresa) são pagos integralmente aqui e acolá. No fim das contas, claro que esse preço era uma bagatela, e rever seus valores muito mais um incômodo político (e orçamentário) do que um problema técnico. Ou seja, renegociar o preço com Lugo era chato, mas tolerável (pensando naqueles termos de inserção internacional, criar um bom ambiente diplomático na América do Sul e tal). 

Agora, o problema muda de figura com o atual presidente, Federico Franco, que já se propõe a acabar completamente com a venda dessa energia sobressalente para o Brasil (e para a Argentina, mas é outra história) nos próximos governos caso passe um lei nova por lá. Ninguém ganha nada com isso (o Paraguai não tem pra quem e nem como vender isso, e o Brasil nem se fala o quanto perde de energia), mas vendo o tom do discurso (falando em imperialismo brasileiro e interromper a “cessão” de recursos) já dá pra imaginar no que vai dar. É tradicional de regimes sul-americanos incompetentes invocar esse tipo de furor nacionalista, seja pra distrair a opinião pública, ou para reforçar a imagem do mandatário. No caso do Paraguai, o país acabou de ser defenestrado do Mercosul, está sendo isolado de todos os lados (, já cogita adesão a outros blocos e o presidente está de olho nas próximas eleições. Quando o país vai mal, nada como jogar a culpa no gigante do lado (e no meio disso deixar uma boa impressão com as elites econômicas). Enquanto isso, o Brasil corre um grande risco, com muito mais a perder, tendo um recurso estratégico como “refém diplomático”. 

Em essência, o Paraguai está errado? Não! Basicamente é o que está no contrato, e o Paraguai tem o direito de fazer o que bem entende com sua parcela da energia. Mas a questão é saber o que ele vai querer com essa barganha. Seja qual for a intenção, é uma estratégia extrema, a última cartada que eles poderiam jogar contra os vizinhos. Se o Brasil recuar por conta disso, seria uma vergonha, e muito provavelmente não valeria de nada para Assunção. E se for o Paraguai a recuar, caso o Brasil force um pouco a barra, vai ser o desfecho de uma estratégia megalonanica desastrada. O mais provável é o usual, que a coisa vá se arrastando com a barriga e tudo termine do jeito que está, com um reajuste maior do preço de venda, fora o mal-estar diplomático. Que saudade do Lugo…


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