Política externa e futuro

Por

Dilma-na-ONU-e1380033497282-2

O que significa a reeleição de Dilma Rousseff para o Brasil na área da Política Externa? Por um lado fica difícil pensar nos planos para o futuro já que, como de praxe, o debate eleitoral marginalizou (de ambos os lados) a discussão sobre Política Externa e Defesa (duas das principais atribuições da Presidência). Por outro, temos o histórico de Dilma nesses últimos quatro anos, que vão mostrar indícios do que poderá ser esse próximo quadriênio.

Dilma começou seu governo com Antônio Patriota no timão do Itamaraty, um nome de peso e respeitado na carreira, mas que sofreu ao tentar conciliar planos de uma diplomacia mais convencional com o gigantismo (chamada por alguns de “megalonaniquismo”) da política externa de Lula. Lentamente corroído e finalmente espinafrado após o causo do senador boliviano que fugiu para o Brasil debaixo do nariz do Itamaraty, ganhou o exílio dourado na sede da ONU enquanto o discreto Luiz Alberto Figueiredo assumia a chancelaria. Essa turbulência é sintomática de um período instável e, de certo modo, desfavorável para o país no cenário internacional.

Dilma nunca teve o espetáculo de Lula em termos de Política Externa. A busca pela diversificação de parcerias minguou; na ONU, a cruzada pela busca do assento permanente no CS da ONU parece cada vez mais uma realidade distante e colocada em segundo plano, e o conceito de Responsabilidade ao Proteger está esquecido; novas lideranças como a Turquia disputam um espaço de liderança com os países do “Sul” que antes tinham o Brasil como principal referência; dificuldades econômicas e escândalos políticos causam efeito adverso em investidores e afetam o ambiente financeiro e a confiança no país. Parece que o Brasil perdeu espaço nesses quatro anos. Porém, ao mesmo tempo, o país também protagonizou momentos de grande exposição, como a liderança, ao lado da Alemanha, do movimento de indignação contra a violação de dados e espionagem contra líderes mundiais feita pelos EUA, a indicação de um brasileiro, Roberto Azevêdo, para presidir a Organização Mundial do Comércio (e conseguir, após uma década, fazer andar minimamente o acordo da rodada Doha de liberalização do comércio), e intenso empenho na ONU para a aceitação da Palestina como membro observador na Assembleia Geral. Não foi pouca coisa.

Pensar em curto prazo nas consequências dessas escolhas é um exercício arriscado. Há de se lembrar que Política Externa é uma política de Estado, e deve sobreviver à mudança de governos. Coesão e previsibilidade são características de uma chancelaria forte, e o Brasil permanece atrelado a princípios históricos de sua atividade. Um exemplo claro dessa discordância foi a exposição dada ao discurso de Dilma na ONU, que se interpreta como uma tolice ao ser lido como a proposição de “discussão” com os terroristas do ISIS. Qualquer conhecedor da tradição diplomática brasileira sabe que o país preza pela não intervenção e soberania. Defender os meios não violentos não significa aceitar o terrorismo (que o país repudia, de qualquer modo), mas denuncia o emprego da força em situações como a do Iraque e da Síria, cujos resultados geralmente são catastróficos e distantes do objetivo almejado – como o noticiário comprova diariamente o esforço de Sísifo da coalizão.

Talvez a palavra-chave seja “alerta”. A posição do Brasil no cenário internacional hoje não é a mesma de quando Lula deixou o Planalto, mas tampouco é o desastre completo que se veicula por aí, e ainda goza de muito prestígio. O perfil da governante alterou o modo de operação visto em Lula, mas as metas tradicionais de nossa diplomacia estão lá, bem ou mal. Parece que Figueiredo não terá a sorte de seu colega da Fazenda e se manterá no cargo em 2015, então se pode esperar que não haja grandes mudanças no perfil da atuação do Itamaraty. Mas diversas áreas demandam ação (da busca pelo assento permanente e disputas econômicas no seio do Mercosul), e caberá à presidente ponderar sobre erros e acertos para definir quais as metas para os próximos quatro anos.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa