Política Externa – o Retorno?

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Pois é, o cenário internacional anda agitado, mas pela primeira vez em muitos anos um causo de política externa está agitando o noticiário nacional e envolvendo os brios do próprio Brasil. Vale lembrar que política externa até vira notícia no Brasil, mas rende muito pouco em termos de eleições, então tanto a população como boa parte do governo não dão muita importância ao que o Brasil faz lá fora. Quando dá, são as trapalhadas como o rolo com o programa nuclear iraniano ou as expropriações de empresas brasileiras.

Mas eis que os EUA cometeram o maior erro que um espião pode cometer – se deixar ser pego no ato – e de repente o tema “internacional” ficou quente de novo no Brasil. Espionagem, guerra e prostituição existem desde que o mundo é mundo (e geralmente estão interligadas, diga-se de passagem), mas nos tempos modernos, em que a moralidade da opinião pública massacra o pragmatismo dos Estados, o Brasil não poderia deixar sem resposta essa afronta a sua soberania no que é considerado até mesmo um ato de hostilidade contra um “país amigo”. Pela primeira vez em muito tempo se vê uma reação de ultraje da opinião pública nacional por causa de algo lá de fora. 

Quem ganha com isso, e chegamos ao centro da discussão aqui, é a presidente Dilma. Ao cancelar a reunião que estava marcada com Obama, assim como Putin fez há algumas semanas, dá a entender que se coloca como uma interlocutora que busca respeito. Não havia muita opção quanto ao que fazer – se deixasse o assunto esfriar, seria fraqueza; uma reação mais dura, exagero. No mínimo ela consegue melhorar sua imagem interna, mas o fato é que a situação se mostrou bem oportuna para que Dilma dê um fôlego a sua política externa. 

São vários fatores que colaboram para isso – a remoção do ministro da pasta, Antonio Patriota, que dá novos ares ao Itamaraty; a possibilidade de o Brasil ter um papel relevante na crise da Síria (seja pelo fato de a Rússia ser um interlocutor próximo, seja após se descobrir que um funcionário brasileiro da ONU poderia ter evitado toda essa crise anos atrás se não fosse… pelos EUA, sempre eles!), e a revelação da espionagem em massa dos EUA que foi a deixa para Dilma (voltar a) atuar. 

Vale ressaltar que sua política externa ficou meio acanhada em comparação à dos antecessores. Dilma recuou em alguns temas que eram peça-chave para Lula, e reduziu seu próprio papel (a chamada “diplomacia presidencial”, de caráter personalista, que era muito forte tanto em FHC quanto Lula). A grande exibição de Dilma até agora foi a proposição do conceito de “responsabilidade ao proteger”, uma releitura da “responsabilidade de proteger” que a ONU emprega (ou deveria empregar…) em casos como o da Síria, mas que perdeu impacto e não foi tão aclamada quanto, por exemplo, a inclusão do tema da miséria no debate internacional feita pelo Lula. 

Digamos que o Brasil não abriu mão de algumas pretensões, mas prefere “deixar pra mais tarde”. É cedo pra tirar conclusões, mas o cenário de agora apresenta uma chance boa de Dilma tentar uma política mais arrojada, atuando pontualmente em alguns setores para demarcar a posição brasileira, mas sem o espetáculo dos anos Lula. O tempo irá dizer se essa cautela de Dilma, agora forçada à ação, vai render frutos, mas a chance para a mudança – e, quem sabe, deixar sua marca na história da política externa que não seja o apagado debate sobre a “responsabilidade ao proteger” – está na mesa.


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