Política Externa Local

Por

Ponte Estaiada – São Paulo


Semana passada foi publicado um artigo intitulado “Foreign Policy Goes Local”* na revista “Foreign Affairs” e o mesmo tornou-se o quinto texto mais acessado nos últimos dias na página web do periódico. Escrito por Rodrigo Tavares, atual Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, mostra como o estado federado aumentou sua projeção externa nos últimos anos, adquirindo patamar de “poder diplomático” da nova ordem mundial caracterizada pela intensificação da globalização. 

O artigo em si é bem escrito e fundamentado. Mas, além disso, devo destacar outro ponto: o espaço aberto em uma revista de grande porte para tratar de uma nova temática que há anos luta por maior reconhecimento na academia e, por que não dizer, na própria prática política. Estou falando do que Rodrigo Tavares e a grande maioria da literatura que se debruça sobre essa área denominam de paradiplomacia, seja ela a inserção internacional dos atores subnacionais (cidades, municípios, estados federados, províncias, departamentos, regiões, etc.). 

Em momento anterior eu mesmo escrevi uma pequena série de três postagens sobre paradiplomacia aqui na Página Internacional. Em “Para…o que?”, falei sobre o mundo do pós-Guerra Fria e dos novos atores que emergiram. Citei alguns dos principais exemplos de atores subnacionais com intensa atividade internacional e entrei no mérito da paradiplomacia desenvolvida nos processos de integração regional e em redes de cidades. 

Voltando ao assunto principal, o texto referente à “Política Externa a caminho do Local”, não sei se é de simples acesso ou não ter um texto publicado na “Foreign Affairs”. Mas muito me alegrou esse texto, porque sou pesquisador da área. São Paulo, e poderia citar até mesmo a cidade além do estado, tem uma potencial gigante de internacionalização. E isso tem sido fomentado, em maior ou menor escala, nos últimos anos. 

Ao final do texto, Rodrigo Tavares utiliza o termo “diplomacia subnacional” e, particularmente, defendo mais a utilização desse termo do que paradiplomacia. O discurso sobre a inserção externa dos atores subnacionais é muito importante para dar respaldo a essa área tanto na academia quanto na prática. Cada vez mais me convenço de que, quando falamos sobre política local, são necessárias pessoas formadas em Relações Internacionais para dar conta dessa demanda. Teoria e empiria se misturam, e muito, aqui. 

Países como Bélgica, Alemanha, África do Sul, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina e por aí vai, têm uma política externa mais permeável aos interesses subnacionais. No Brasil, conforme apontado no texto, essa ideia vem crescendo, mas digo que o Itamaraty ainda tenta concentrar ao máximo a tomada de decisões e nosso histórico de centralização de poder ainda atua como “barreira” à diplomacia subnacional. 

O governo paulista vem quebrando essa lógica com muitos méritos. Possui população densa, infraestrutura e produto interno bruto para tanto. Além dos estados, muitas cidades também estão criando secretarias ou coordenadorias municipais de Relações Internacionais com o intuito de aumentarem diálogo, cooperação e troca política com seus semelhantes internacionais. Belo Horizonte, Vitória, Santo André, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Guarulhos, Campinas detêm ineditismo e destaque, também, nesse mérito. 

Que seja, gradualmente, produzido mais conteúdo sobre paradiplomacia, ou melhor, diplomacia subnacional. E que seja publicado em “Foreign Affairs” e muitos outros periódicos. Área de estudos fascinante tanto para pesquisadores quanto para aqueles que mexem com a política local no dia-a-dia. Se você pretende estudar ou está estudando Relações Internacionais e ainda não sabe “para que serve o curso?”, experimente conhecer o mundo da política local. Ratifico: só haverá maior crescimento da atuação internacional dos atores internacionais com o trabalho de pessoas especializadas em Relações Internacionais. 

* Para acessar o texto é necessário fazer um breve cadastro na “Foreign Affairs”.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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