Polêmica ianomâmi

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A polêmica da vez envolve a população indígena ianomâmi e um suposto massacre ocorrido em território venezuelano por parte de garimpeiros brasileiros. “Suposto” porque até o presente momento a denúncia parece ser insistentemente negada por parte de representantes políticos da Venezuela – o próprio Hugo Chávez já se pronunciou a respeito. Tal suposição, apesar de ainda envolta em incertezas, reacende evidentemente a temática da proteção indígena, assunto especialmente sensível aos países amazônicos.

A denúncia em questão foi levantada pela Promotoria Superior de Porto Ayacucho e por integrantes da HOY (Horonami Organização Ianomâmi), de acordo com relatos de três índios sobreviventes. O massacre teria acontecido, na verdade, no início de julho (tendo sido denunciado apenas essa semana devido ao isolamento da região), na comunidade de Irotatheri, localidade fronteiriça entre Brasil e Venezuela.

De acordo com as denúncias, os responsáveis seriam garimpeiros brasileiros, os quais são acusados pelos ianomâmis desde 2009 de atos de violência e poluição na região. O número de vítimas é incerto – assim como o massacre em si –, mas já foi estimado pela imprensa venezuelana em cerca de 80 mortos.

O peculiar desta situação toda é que o próprio governo venezuelano nega veementemente a ocorrência deste massacre, enquanto o governo brasileiro também desconhece detalhes e solicita esclarecimentos. Nebulosa, a temática envolve uma série de interesses regionai$ e Chávez é acusado por Organizações Não-Governamentais de “silenciar a questão” sem apurar devidamente os fatos.

A construção de uma agenda regional indígena especialmente voltada à proteção dos povos isolados é um tema atual em pauta nas discussões regionais por parte da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, organismo intergovernamental cuja Secretaria Permanente foi criada em Brasília no ano de 2002 em meio ao (eterno) desafio comum de promoção de ações conjuntas no que tange à Amazônia e todas as suas riquezas naturais, sociais e culturais. Trata-se de um assunto sempre recente e polêmico, em meio aos interesses econômicos que assolam a maior floresta do mundo e, por consequência, as populações indígenas locais.

Há quase 20 anos, 16 índios ianomâmis foram comprovadamente assassinados no lado amazônico brasileiro também por garimpeiros no episódio que ficou conhecido como “Massacre de Haximú”, demonstrando que a possibilidade de que a presente denúncia seja verídica é (infelizmente) real.

Sem declarar culpados antecipadamente, investigar de forma adequada os fatos antes de declarar qualquer veredicto é o mínimo que podemos esperar, em respeito a uma das mais importantes etnias indígenas amazônicas que (sobre)vive em pleno século XXI. Esquecer (ou, literalmente, enterrar) tradições locais que antecederam o próprio povoamento colonial parece ser uma triste consequência do jogo de poder político-econômico em que a Amazônia se vê envolta em nossos tempos. 


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