Polêmica chinesa

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China. Paz. Prêmio. Direitos Humanos. Comunidade internacional.

A probabilidade de estas palavras comporem uma mesma frase parece remota, não? Bom, mas eis que: um indivíduo da China foi eleito para receber o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação em prol dos Direitos Humanos no país, mobilizando a comunidade internacional neste sentido.

Este período por si só surpreende os leitores mais atentos. O que não surpreende, contudo, é o fato de que este indivíduo, no caso Liu Xiaobo, é um dissidente chinês que será impedido de receber o prêmio em questão. Este cumpre pena em seu país por subversão, após ter liderado o manifesto “Carta 08” (disponível em inglês aqui), o qual reivindica reforma política e o respeito aos Direitos Humanos na potência oriental. Um trecho marcante desta carta, que causou imenso descontentamento ao governo chinês, é o seguinte:

[…] “The Chinese people, who have endured human rights disasters and uncountable struggles across these same years, now include many who see clearly that freedom, equality, and human rights are universal values of humankind and that democracy and constitutional government are the fundamental framework for protecting these values”. […]

Vale ressaltar que Liu Xiaobo foi também um dos líderes dos protestos estudantis contra o governo chinês na Praça da Paz Celestial, em 1989, os quais constituem também um marco na luta por Direitos Humanos na China.

Desta forma, diante do panorama apresentado, a comissão organizadora do Prêmio Nobel concedeu neste ano a Xiaobo um dos prêmios mais aguardados pela comunidade internacional – o Prêmio Nobel da Paz – em homenagem a seus esforços políticos e humanitários. Infelizmente, entretanto, Xiaobo, que está preso na China, não poderá receber o prêmio e nem será formalmente representado nesta ocasião, já que o governo da China tem tratado esta questão no âmbito da “segurança nacional”, impedindo simpatizantes e familiares de chegarem à Noruega, onde o prêmio será entregue nesta sexta-feira.

Em verdade, nos últimos dias o governo chinês tem liderado um boicote ao prêmio em si, chegando mesmo a afirmar que o comitê organizador é formado por “palhaços”. Nesta linha, 19 países já confirmaram que não estarão presentes na entrega do prêmio, dentre os quais podem ser destacados, além da China, a Rússia, a Arábia Saudita, o Paquistão, o Iraque e o Irã, por exemplo. Para contornar a situação, o governo chinês até criou seu próprio Prêmio Confúcio da Paz

A polêmica se alastra e muito ainda deve ser feito para que o trabalho em prol dos Direitos Humanos na China venha a ser efetivo, de forma que a transparência possa, um dia, caracterizar as ações do governo chinês. A indicação de Liu Xiaobo ao Nobel da Paz certamente contribui para que o debate neste sentido aflore em meio à comunidade internacional, exortando todos os atores à reflexão acerca do fato de que a magnitude desta potência oriental se sustenta sobre bases, no mínimo, questionáveis no que tange à noção de respeito à humanidade.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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