Pessoas da Síria, vergonha de mundo

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Há 7 meses escrevia meu primeiro texto para o blog. Na época, como ainda não havia escrito nada, pensei em publicar o assunto que mais me incomodava. E nenhum outro tinha tanta força de tirar o sono do que o tráfico internacional de pessoas, mais precisamente o tráfico de mulheres. Não somente por ser um dos atos mais asquerosos existentes, mas também por ter certeza que ele não seria eliminado à curto prazo.

Afirmava na época que embora houvesse uma enorme tentativa por parte das forças policiais e jurídicas de diversos países para coibir essa forma de crime, ele só se fortalecia com o tempo. Mas então qual seria o segredo do sucesso dessa prática? Hoje o crime mais rentável do mundo. E concluí que isso ocorria precisamente por ser executado contra pessoas de “menor importância”, que não eram valorizadas por governos e sociedades.

A única coisa que faltava naquele texto era um cenário que na prática demonstrasse a relação entre crimes hediondos contra a humanidade e a falta de valorização de certos grupos, o que legitimava tais ocorrências. Agora surge a Síria, que infelizmente pode servir como um bom exemplo.

O país que passa por uma guerra nos últimos meses entre governo e oposição. Conflito que já matou mais de cem mil pessoas, segundo estimativas. De um lado, Bashar Al Assad. De outro, rebeldes, muitos deles financiados pelas potências ocidentais. Uma massa heterogênea de pensadores, políticos, pacifistas e terroristas, digna das complexidades presentes nos conflitos do Oriente Médio.

A guerra corria sem novidades, até a ocorrência de um ataque químico, ao qual o ditador sírio é acusado de ser o mandatário. A denúncia de que haveriam mais armas desse tipo em poder de Assad, que inclusive poderiam ser descarregadas não só contra os rebeldes, mas contra os inimigos da Síria, e coloque-se aí Israel e EUA, ligou o sinal de alerta de Obama e das potências europeias. Agora, passado algum tempo, estamos prestes a ver uma intervenção americana no país.

Feita a exposição inicial da situação, proponho um processo de desconstrução do que ocorreu nas últimas semanas, colocando os excluídos sírios, até aqui invisíveis, no papel central da discussão. Por que a não ser que tenha ficado louco, nada do que acabei de dizer, embora realmente esteja ocorrendo, faz sentido. Há hoje, uma guerra que matou 100 mil pessoas, e Obama só agora propõe uma intervenção, se utilizando de um discurso moralista, do tipo: “as potências não podem se calar diante dessa tragédia.”

Como justificar que após 100 mil mortes omitidas, ou pelo menos “pouco impactantes”, mil e quatrocentas vidas sejam tão mais importantes? A ponto de fazer o presidente ficar tão inconformado e buscar justificar um ataque à Síria. Seria necessária um grande poder de discurso, de persuasão. E para os EUA é o que não falta.

Obama é astuto, ele conhece os caminhos da compaixão humana. Ele fala em 1400 mortos e logo acrescenta, “boa parte crianças”. E afirmo que no dia em que as análises de discursos políticos não se limitarem ao que foi dito, mas também ao que foi omitido, o tom moralista e heroico de Obama após os ataques químicos tem muito a dizer sobre por que ocorrem atrocidades que passam batidas, como guerras e  o tráfico de pessoas. E agora explico.

Quando Obama fala em mortes de civis, e em sua maioria crianças, ele faz um contraponto entre os milhares de mortos em guerra. Primeiro, por que na guerra existe um “lado mal”, e para esse lado a morte não deve ser lamentada. Segundo, que há a ideia de que os que morreram pelo lado correto, se sacrificaram pela “guerra justa”. Por último, uma constatação: a maioria dos que morreram em combate são homens adultos. “Soldados”. Menos valorosos que crianças.

E por que eu digo que são homens adultos? Primeiro, por que a Síria é um dos países mais machistas do mundo. Logo, a mulher está pouco representada no espaço público, ainda mais durante guerras. Segundo e mais conclusivo, digo isso por ter lido alguns dados, que dão conta de uma migração de mais de 2 milhões de refugiados sírios, em sua maioria mulheres e crianças.

Se a necessidade da guerra justifica a morte de milhares de “soldados” dentro da Síria, a falta de importância dos refugiados justifica a omissão dada a esse problema. São milhões de crianças, e logo muitas delas serão traficadas, ou utilizadas em trabalhos desumanos. Milhares de mulheres que começam a sofrer a mesma ameaça. O tráfico de pessoas e a prostituição forçada dependem e sempre foram muito eficazes em recrutar esse mar de refugiados que se forma a cada conflito. É assim no mundo todo, será assim na Síria.

Voltando ao discurso de Obama, o ouvimos dizer que “nós (EUA) faremos uma intervenção na Síria, por que é inconcebível que um país descumpra um tratado internacional”. Pelo que sei, Obama não é professor de política internacional, muito menos de sociologia. O público dele não é uma sala de estudiosos, mas sim o cidadão americano. Quando ele direciona o discurso para estes, ele não pode justificar suas ações lendo bulas, mas exercendo uma argumentação que alimente o senso de justiça da população. Que legitime o ataque por esse ser algo correto a se fazer, e apenas isso.

Mas não. Obama usa somente um discurso legalista para justificar a invasão. Mais e ainda pior: ele dá importância a um fato sobre os outros. Obama está praticamente dizendo que “o que justifica a nossa intervenção é o uso de armas químicas”. Em outro ponto ele traz para mais próximo a ameaça dessas armas, dizendo que elas “põe em perigo os EUA e toda a comunidade internacional”. Fala completa, cidadão convencido ou não, há um outro discurso: o do silêncio.

Nele, Obama está dizendo: “armas químicas são perigosas, inclusive para nós. Queremos a queda do ditador e para isso financiamos os rebeldes. As 100 mil mortes até aqui dessa guerra não foram suficientes para realçar nossa compaixão, ou mudar nossa política. Os milhões de refugiados, que logo morrerão, ou pior, se tornarão escravos, sexuais ou não, não tem tanta importância. Por isso atacaremos, mesmo que o ataque piore ainda mais todo o cenário para a população comum”. E governos e homens como Obama não se importam mesmo. Para diminuir o peso da crítica que faço sobre eles, afirmo que sei que não são os únicos omissos. São parte da maioria.

Por isso mesmo essa semana discutiremos novamente a intervenção ou a votação do Congresso americano. Será tema principal até o poder de destruição das possíveis bombas, como funcionam, como são construídas. E no mesmo momento estarão passando pelas fronteiras milhares de mulheres, que logo serão exploradas graças a esse cenário de desgraça. Inclusive pelo tráfico internacional de mulheres. Quem sabe algumas delas até nos clubes de Miami, bem próximas a Obama. Algo terrível. Mas que de forma impressionante sempre permanece como problema de última prioridade.

Alguns podem dizer que meu texto é utópico. Afinal como Obama poderia ser responsabilizado por essa situação, ou mesmo como lutaria para terminar com um problema mundial tão complexo? Eu também faço esse tipo de pergunta, mas para uma outra situação: como uma intervenção de Obama poderia trazer democracia e paz na Síria? Essas ideias já passaram por Iraque e Afeganistão.  Em todos os casos, a “democracia” cobrou mais vidas do que deveria. O presidente dos EUA “acredita” que pode levar soluções a conflitos, mas não move um dedo para para discutir a situação de refugiados, os milhares de mortos de uma guerra em que ele é um dos financiadores, ou o florescimento do tráfico de pessoas, que ficará ainda mais forte com essa nova “leva” de refugiados sírios.

Agora, uma questão pessoal. Quantas armas químicas são necessárias para igualar o caminho de dor e desilusão causada pela bomba formada por guerras, milhões de refugiados e o sistema internacional de tráfico de pessoas?  Mas aparentemente esse problema segue fora de pauta, por vezes relembrado aqui e ali, esporadicamente. Retratos obscuros da marcha dos crimes contra seres humanos pouco valorizados, refugiados, traficados, entre outros. Seres humanos invisíveis.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


2 comments
Caroline
Caroline

Gosto muito do jeito que você escreve, consigo entender perfeitamente a situação!

Victor Uchôa
Victor Uchôa

Obrigado Caroline. Perceber que algo está sendo acrescentado ao leitor é com certeza a maior satisfação possível para nós que escrevemos.