Perguntas recorrentes sobre a Indústria de Defesa

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Retomemos a nossa série sobre a Indústria de Defesa. Anteriormente tratamos da relação entre orçamento militar e esse ramo industrial. Agora, abordaremos um pouco sobre o que é a tal da Indústria de Defesa e tentaremos responder a algumas perguntas recorrentes sobre a área.

Comecemos da pergunta mais básica. O que é essa tal de Indústria de Defesa? Trata-se de um conjunto de empresas, tanto públicas quanto privadas, que produzem material de emprego militar (também conhecida como indústria bélica). Isso inclui empresas específicas de produção de armas como a IMBEL (de material bélico) ou a Avibrás, e aquelas que trabalham para o setor civil e militar, como a Embraer, ou uma indústria têxtil qualquer que produza uniformes para as forças armadas. De modo geral, refere-se a todas as indústrias que produzem material que pode ser usado pelos militares que vão desde capacetes até aeronaves não-tripuladas e tecnologia aeroespacial.

O que é interessante dessa área é que, diferentemente das demais empresas, sua característica principal é ser um ramo que funciona de maneira “deficitária”. Em outras palavras, isso significa que primeiro vende-se o produto para depois produzir (diferente da lógica das outras empresas que tendem a produzir para vender). Há um cliente principal, considerado também como um grande parceiro: o governo nacional. Isso não implica que não haja exportação, muito pelo contrário, a exportação é uma das formas de se manter uma indústria vigorosa já que o governo não possui uma demanda tão elevada considerando o baixo volume do orçamento destinado às renovações.

Agora, qual a importância efetiva dessa área para o país? Esse é o ponto no qual emergem grandes paixões na área e há pouco consenso. Nos dois extremos, há, de um lado, quem diga que o país está muito bem comprando aquilo que nos é fornecido pelas empresas estrangeiras, já que seria muito custoso tentar desenvolver a indústria nacional e não se obterá o retorno visado no longo prazo; E, de outro, aqueles que dizem que a Indústria de Defesa não é só uma área estratégica, mas também um campo capaz de delinear o nível de soberania nacional brasileiro e abrir caminhos para o desenvolvimento, por isso sua essencialidade. Isso porque, sem produção interna, a Defesa nacional ficará refém daquilo que os principais exportadores quiserem vender e, dessa forma, pode-se controlar as capacidades do país que apenas compra.

Existe também um fator complicador dessas posições. As decisões no campo da indústria de defesa representam um jogo de interesses que envolve a sociedade civil, os militares, o governo e as empresas. Por isso a dificuldade da formulação de políticas na área, já que elas não envolvem apenas o mero interesse do governo, mas os de diversas outros atores envolvidos nesse complexo xadrez.

E em que vias anda a nossa indústria? Bom, o Brasil teve uma indústria bem eficaz durante as décadas de 1970 e 1980. O fim da tensão bipolar aliado ao crescimento do otimismo da “paz mundial” na década de 1990, aos efeitos do neoliberalismo e à severa crise de hiperinflação que vivemos no período, levou à falência de muitas das nossas indústrias (dentre elas temos o caso da Engesa, famosa pelos tanques e blindados) e a falta de políticas na área durante a década desmotivou muitos a ingressarem nesse campo. É importante lembrar que mesmo nos “anos dourados” de nossa produção de Defesa, nos inserimos em um mercado extremamente concentrado, o que dificultava a expansão dessas empresas. Um dado interessante é que, na última década, o Tio Sam apenas foi responsável por aproximadamente mais de 56% das exportações mundiais. Adicionando-se o valor exportado pelos demais membros do Conselho de Segurança (Rússia, China, Reino Unido e França) e a Alemanha, obtêm-se quase 90% do total exportado internacionalmente. Essas estatísticas sustentam também os argumentos daqueles que veem na produção nacional algo muito custoso, tendo em vista que qualquer indústria brasileira que vise o mercado exportador, deverá enfrentar novamente esse cenário e estar preparada para os efeitos e humores dos países que dominam o mercado.

Bom, concluindo, ao se compreender esse cenário é que começam a emergir as dúvidas de fato. Agora que o Brasil tem indicado o interesse em um movimento em busca da revitalização dessas empresas, será que com nosso orçamento atual teremos demanda interna para suprir essas empresas? Caso comecemos a buscar exportações mais a fundo, será que é de interesse dos grandes exportadores que um novo país cresça nessa área? Esses são apenas alguns dos muitos questionamentos. Principalmente porque quanto mais fundo entramos nesse tema, mais deles surgem.

Esperamos ter sido capazes de sanar alguns e despertar muitas outros. Até uma próxima postagem!


Categorias: Defesa, Paz, Polêmica, Segurança


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