Pedras e bom coração

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O caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani tomou maiores proporções essa semana. O presidente Lula ofereceu asilo no palanque, foi chamado de desinformado e emotivo pelo ministro das relações exteriores iraniano… Muita informação de repente jorrada pela mídia, uma súbita mudança de postura do Brasil com o Irã, e também a situação das condenações a morte no mundo. Vamos por partes.

Ashtiani foi condenada em maio de 2006 por ter mantido uma “relação ilegal” com dois homens, a 99 chicotadas. A pena se cumpriu. Pouco tempo depois, a mãe de dois filhos foi novalemnte a julgamento por adultério, e dessa vez deu-se a sentença por apedrejamento. Ashtiani alega inocência. Depois de protestos em muitos países e organizações internacionais, no início de julho deste ano, chegou-se a anunciar que Ashtiani não seria morta por apedrejamento, e que a pena seria revista. Oficialmente, não há confirmação dessa informação, nem nenhuma garantia da mudança.

O Irã foi o segundo país que mais executou condenados à morte em 2009. Dados oficiais dizem que 388 pessoas foram executadas por ordem da Justiça no país, atrás apenas da China, que não divulga esse tipo de informação – sabe-se que a Justiça condena à morte mais pessoas que todos os outros países somados.

 

A pena de morte (ou pena capital) é ainda aplicada em muitos países (prevista em 58, aplicada em 18). Em geral, e sem discussão do poder que o Estado tem para tirar a vida de alguém, os métodos atualmente aplicados abrangem apedrejamento, câmara de gás, fuzilamento, injeção letal, forca, cadeira elétrica e decapitação. Para nos restringirmos ao caso da iraniana, a morte por apedrejamento é feita de maneira que o condenado seja amarrado e enterrado até a altura do peito, no caso das mulheres. O juiz inicia atirando uma pedra, seguido pelos jurados e pelo público, até que a pessoa morra por traumatismos, cerca de uma hora depois.

Voltado ao envolvimento do Brasil. A famosa carta secreta enviada dos EUA ao Brasil, que supostamente conteria instruções ao governo brasileiro sobre as preocupações norte-americanas quanto ao Irã, misteriosamente vazou para a mídia. Depois das atrapalhadas negociações com Irã e Turquia, e do apoio (nem sempre) velado a outros países violadores de direitos humanos, num terceiro-mundismo infundado, Lula teve uma sacada de mestre. O presidente afirmou que, “como cristão”, não considera correto que um Estado condene uma pessoa à morte, mas é uma situação muito delicada pois envolve a soberania de um país… Que bom coração!
 

O Brasil recebe essa mulher! Não é humano apedrejar ninguém, assim como não é humano ‘se deixar morrer de fome’, não é mesmo, Lula?


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Conceitualmente nada tenho contra a pena capital, mas é preciso que a ofensa tenha gravidade suficiente afinal a pena é irreversível. Não é razoável crer que um suposto caso extra-conjugal tenha tal pena. Isso demonstra a perversão do sistema jurídico iraniano, supostamente de inspiração religiosa.Acho que ainda vou chocar mais gente agora, mas considerei vazar a carta uma baixeza por que agora outros países devem estar reticentes em trocar correspondências com o Brasil. No mundo comercial isso afundaria a empresa.No mais foram duas ocasiões (as enumeradas no texto) em que o silêncio (não a omissão) seria mais produtivo.