Passos de Curupira

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Na semana passada, foi veiculada notícia do envio de uma carta da blogueira cubana Yoani Sánchez diretamente ao presidente Lula. Nesta, expressava o desejo de ter o direito inalienável ao ser humano de ir e vir, e roga ao brasileiro que intervenha em seu favor ante ao impassível governo cubano, que insiste em não deixá-la sair da ilha. A assessoria presidencial nega que a carta tenha chegado. Mas este é apenas um capítulo adicional àquelas que podemos chamar de “relações perigosas” do Brasil.

O tema está em voga e já tomou espaço em numerosos posts antes desse. O apoio silencioso a um regime cubano totalitário e violador de direitos humanos, ignorando a morte e suplício de prisioneiros políticos; a estranha obsessão com a reabilitação dada ao fracasso do regime iraniano perante a comunidade internacional; os laços estreitos com um regime que impede opositores de sair do país e fecha canais de televisão sem razão aparente (ou pior, com razões inadvertidamente autoritárias). Isso entre muitos outros fatos conhecidos. O que se pode pensar dessa situação?

Parafraseando nosso mandatário, nunca antes na história desse país o Brasil esteve tão em evidência no cenário internacional. Muito se deve ao carisma do nosso presidente e a uma série de coincidências interessantes para a projeção de um futuro brilhante para o nosso país. Entretanto, o Brasil pode estar encarando uma situação curiosa. A história nos diz que aumento de prestígio internacional redunda em aumento de responsabilidades, e nesse quesito o Brasil tem se mostrado um tanto quanto atabalhoado. Diversos Estados democráticos cobram uma posição do Brasil condizente com os princípios régios da convivência internacional no que tange à solução do dilema iraniano e as questões de Direitos Humanos. Qual a razão para isso?

Fala-se em pragmatismo, mas vamos entrar no terreno das conjecturas, na acepção pura da palavra. O Brasil toma essas atitudes como forma de abrir novas frentes de atuação no cenário internacional, como uma opção às alternativas correntes. Uma liderança que aspira admiração do “terceiro mundo” ou coisa parecida. E para isso, acaba enfrentando abertamente os atuais defensores da ordem – políticas que ao buscar uma via “diferente” se opõem ao consenso de Estados desenvolvidos. O caso mais aparente é o Irã, em que a posição brasileira não faz muito sentido além de municiar o blefe de Teerã, e irritar os países ocidentais, principalmente os EUA. Ora, estaria o Brasil enviando uma mensagem sutil aos desenvolvidos, em especial ao gigante do norte?

Seria um evento sem par na história da diplomacia brasileira, que mesmo nos momentos de maior busca por independência de atuação na política mundial (como os governos de João Goulart e Geisel), nunca chegou a se opor diretamente aos EUA. Podia-se criticar, mas não se opor. Eram outros tempos, e os ventos do século XXI trazem um fôlego inédito ao país, com perspectivas de pujança econômica e de influência alem do âmbito sul-americano. Mas essas escolhas de relacionamentos estranhos e criticados podem por a perder, e muito, uma parcela do prestigio internacional tanto almejado.

Estratégias errôneas? Uma questão de políticas de governo condicionadas a situações muito específicas ou uma tentativa de impor uma inflexão paradigmática no histórico da política externa brasileira? Espera-se que não seja o segundo caso, se tratando realmente de um devaneio deste colaborador, pois a tentativa de fazer o país se sobressair através de um novo rumo na política internacional, estaria sendo dada com passos de curupira, os quais vão para a um rumo e apontam para outro, confundindo os que observam e apontando na direção oposta da meta inicial.


Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica, Política e Política Externa


1 comments
Harley
Harley

Parabéns pela matéria e objetividade. Ótimo blog.