Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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