Para…o que? [Post 1]

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A Página Internacional dá inicio a uma pequena série de postagens que aborda um tema recente nas Relações Internacionais: a Paradiplomacia. Neste primeiro texto, fala-se um pouco do contexto de surgimento e intensificação deste processo. O objetivo principal do que vem a seguir é proporcionar um entendimento mínimo do termo que vem se desenvolvendo constantemente nesta área de estudos. 

 O mundo após a Guerra Fria e a emergência de novos atores internacionais 

O mundo mudou com o final da Guerra Fria, período que se iniciou logo após a Segunda Guerra Mundial e se estendeu até 1989 com a queda do Muro de Berlim. Estados Unidos e União Soviética (URSS) travaram um conflito “frio”, mas direto, o qual deu feição de uma ordem bipolar para o período. Somente em 1991, com a derrocada das repúblicas soviéticas, colocou-se um ponto inicial no que viria a se constituir como a década da uni-multipolaridade, na qual os próprios Estados Unidos, o Japão e a União Europeia tornaram-se os principais pólos de poder. 

Foi justamente na década de 1990 que ocorreram, além do fim de fato da Guerra Fria mencionado acima, dois outros fenômenos bastante interessantes: a intensificação da Globalização e o surgimento de novos atores internacionais. Primeiro, novos fluxos econômicos, constante troca de informação, integração entre países e o reordenamento político internacional caracterizaram esta “energização” do que comumente é chamado de Globalização. Ela não surgiu recentemente, podemos falar, inclusive, que ela começou lá atrás nos séculos XV e XVI com as grandes navegações. Ao contrário, ela se intensificou, e muito, a partir do final do século passado e isso trouxe uma nova roupagem e um novo arranjo espacial para o cenário internacional. Segundo, outros atores surgiram e começaram a expandir seus róis de ação para dentro e fora dos Estados. Organizações internacionais, organizações não governamentais (ONGs), corporações, empresas transnacionais, sindicatos, entre outros, contribuíram decisivamente para o atual estágio de interdependência entre os países. 

Mesmo assim, não foram só estes atores que surgiram, ou melhor, intensificaram suas atividades e suas ações, nos últimos anos. Os chamados atores, entes, unidades ou governos subnacionais constituíram outra novidade recente. E quais são estes atores subnacionais? Cidades, municípios, estados federados, províncias, regiões administrativas, etc. Ou seja, a cidade de Tóquio, o município de Porto Alegre, o estado do Ceará, a província de Quebec (na França) e até mesmo Hong Kong são alguns exemplos de subnacionalidades. 

Quando tais atores começaram a criar ligações com o exterior, estabelecer convênios e parcerias, bem como desenvolver suas próprias diplomacias, tais mecanismos acabaram por criar a chamada Paradiplomacia. Este termo foi cunhado por Panayotis Soldatos, professor canadense, em 1990 e significa “diplomacia paralela”. Na literatura, apresentam-se como sinônimos: micro-diplomacia, diplomacia subnacional, diplomacia multidimensional, política externa federativa, diplomacia federativa, etc. Todos estes termos denotam um pensamento único, que é a inserção internacional de atores subnacionais. Isto é a chamada Paradiplomacia! 

Foi neste contexto de fim do conflito bipolar, intensificação do aspecto globalizante e surgimento de novos atores que este fenômeno ganhou uma nova roupagem tanto na área acadêmica das Relações Internacionais, quanto no “fazer político” dos policy-makers, propriamente ditos. O Estado-nação, enquanto ator único, racional e preponderante, deu espaço para a atuação de outros focos de poder. Ele se reformulou, tornou-se mais permeável e descentralizado. Novos temas ganharam destaque, dentre eles tecnologia, comércio exterior, meio-ambiente, direitos humanos e os novos atores conseguiram responder de forma efetiva a esta nova demanda. Com questões e problemas internacionais, os atores subnacionais aumentaram suas presenças no cenário externo e isso acabou por gerar, em suma, a paradiplomacia em si.


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