Para meus irmãos

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Parece que a Bolívia encontrou os limites do seu “governo de movimentos sociais”. Evo Morales, portador da bandeira pela democracia plurinacional, agora entende que governar pautado em mobilizações populares é uma via de mão única. Surgem, em especial a partir do seu segundo mandato, crescentes pressões e demandas particularistas. O apoio, e conseqüentemente a união de sua base popular, estará vinculada à expansão dos benefícios para cada setor. No final das contas, a solidariedade (talvez até mesmo o bom senso) tende a ser subjugada por demandas corporativistas ascendentes.

O líder que tanto defendeu os interesses de seu povo, seja contra forças externas e “imperialistas”, seja por meio da promoção de intensas reformas no âmbito interno, agora enfrenta movimentos similares aos que um dia ele próprio tinha fomentando. Em junho deste ano, o FMI elogiou a sólida gestão macroeconômica da Bolívia, fato que bastou para surgirem vozes acusando o governo de ensaiar uma volta ao neoliberalismo. Além disso, os atuais protestos não foram os primeiros enfrentados por Morales. No final de 2010, quando estabeleceu o reajuste no preço dos combustíveis, viu o povo sair às ruas para demonstrar sua insatisfação.

O pedido de desculpas, um reconhecimento formal do seu erro, não o redimiu da repressão empreendida contra os protestantes. A construção da estrada tornou-se secundária diante da decisão tomada pelo governo, que fez jus àqueles governos autoritários de outrora. Felizmente, vimos serem varridos de nosso continente os regimes pautados na força, supressão de direitos sociais e censura. O projeto defendido por Morales, a origem da discórdia, foi suspenso temporariamente, resta agora comprovar se o mandatário continuará como legítimo representante do “governo de movimentos sociais”. Apesar de negar sua responsabilidade, ao menos parte da face autoritária do seu governo fez-se notar.

Alvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia, em recente artigo tentou narrar o processo em curso no seu país como dinâmicas naturais rumo à transformação social. Sua conclusão vem na forma de pergunta: “as revoluções não seriam fluxos caóticos de iniciativas coletivas e sociais, ímpetos fragmentados que se cruzam, se afrontam, se adicionam e se articulam para novamente se dividir e se recruzar?”. Seja como for, ser democrático e querer mediar movimentos sociais passa por saber os limites do bom senso. Os regimes militares da América Latina viram sua decadência ser catalisada pela constante e excessiva violência contra opositores. Morales, através da ação de seus ministros, negou suas próprias raízes. Mais que isso, pode ter alimentado uma crise ainda mais grave dentro da Revolução iniciada em 2005.


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2 comments
Mário Machado
Mário Machado

Eu gosto muito da Bolívia, sobretudo da "meia-lua" e de Santa Cruz de la Sierra. Mas, temo que a política externa de Morales seja um tanto agressiva talvez para compensar os tropeços internos. Agressiva quando se nega a encarar de frente o estrago que o narcotráfico impõe em seu país e nos vizinhos (escrevo indiretamente sobre isso, embora sem concisão e o raro apuro literário do Giovanni).Bom, mas isso pode ser impressão minha por que tenho uma notória implicância com o que chamam de "movimentos sociais"?Abraços,

Anonymous
Anonymous

Olá, sou estudante de Relações Internacionais da PUC-MG e seu blog tem me encantado. O descobri há umas duas semanas e tenho visitado com frequência.Por meio dele consigo tirar muitas dúvidas e os termos que geram dúvida são mais facilmente assimilados graças a linguagem clara que utiliza.Passo para deixar meu obrigada.