Papéis invertidos?

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Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo – até mesmo aqui… Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é…) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país…


Categorias: África, Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos, Europa, Polêmica


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Anonymous
Anonymous

Extraordinário texto. Fez-me lembrar meus antepassados italianos, que aqui chegaram ,com a força do trabalho para atender os grandes latifundiários do final do seculo XIX. Parabéns,Harley