Papai mandou

Por

Imagine-se no posto de um líder de uma nação e/ou Estado. Foram grandes as decisões que os líderes mundiais tiverem que tomar no decorrer da história. Tais escolhas levaram países a catástrofes, guerras ou ao esplendor econômico, político e social. Portanto, nada mais justo que cada novo líder tenha a plena aprovação popular, tal qual a confirmação da classe política, não? A Coréia no Norte, notadamente um dos países mais fechados do mundo, possivelmente está consolidando um processo de transição em sua principal liderança. A sua maneira, é claro. Mas, a partir das indicações extra-oficiais, com a aprovação chinesa – atual maior aliado norte-coreano.

Não há confirmação oficial. Contudo, o estado de saúde de Kim-Jong-il somado a recentes movimentações em Pyongyang dão um forte precedente a rumores de sucessão no país. O primeiro passo, neste sentido, seria a conferência do Partido dos Trabalhadores (na versão norte-coreana), um grande evento de celebração popular acompanhado de intensa publicidade oficial e de uma grande parada militar. A expectativa era que a reunião, a terceira do gênero depois do término da Segunda Guerra Mundial, indicasse ou posicionasse o sucessor do atual líder perante os membros do Partido. Na década de 1980, um procedimento similar foi adotado para a nomeação de Kim-Jong-il.

Uma questão curiosa é que, ao contrário de outras sucessões hereditárias, o escolhido seria o terceiro filho do líder norte-coreano. Em uma entrevista na BBC, um especialista afirmava que este seria o filho mais “apresentável” entre as três opções que tinha o mandatário norte-coreano. O primogênito seria notoriamente um playboy, ao passo que o segundo seria “afeminado” demais. Por estes motivos, a opção seria pelo filho mais novo, Kim Jong-un, educado na Suíça, poliglota e com menos de 30 anos. As versões, mesmo na impressa internacional, são variadas sobre esta questão. The Economist, por exemplo, aponta outros fatores para defender a mesma decisão. Como não há versão oficial, os rumores se espalham, tratando mais de confundir do que esclarecer.

Trago uma definição pouco convencional para o conceito liderança:

Estar no poder é como ser uma dama. Se você tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é. (Margaret Thatcher)

Não seria justamente o oposto da Coréia do Norte? Um país que organiza uma convenção política para discutir a liderança no país, acompanhada por demonstrações militares e nenhuma transparência internacional. Qual seria o impacto de um líder jovem na Coréia do Norte? Lembrando também que tratamos de um país fortemente sancionado por organizações internacionais e com um programa nuclear obscuro. Sucessão não necessariamente gera mudança. O mesmo vale para o poder, que não significa automaticamente ter autoridade sobre seu povo. Se a liderança é uma habilidade que pode ser adquirida, este seria o caso norte-coreano, já que Kim Jong-um nunca exerceu uma posição pública, foi entrevistado ou mesmo fotografado.

Como tudo que se escreve sobre a Coréia do Norte, há a possibilidade de que esta discussão torne-se obsoleta ou se comprove irracional. As recentes visitas de Kim-Jong-il a China e a convenção do Partido dos Trabalhadores serviram de combustível para aclamações de mudança – nem que seja somente de líder e não de posicionamento político. Um líder pode estar sendo construído. Não se discute, no entanto, que a transição estará mais baseada no consentimento do antecessor do que propriamente convencimento de seu povo. Afinal, quando há uma parada militar do lado de fora do auditório da convenção política na qual se trata da sucessão política, fica mais evidente que o espaço para a menção ao debate é extremamente limitado ou mesmo inexistente.

 


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa


0 comments