Papa América

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Essa semana o Papa Francisco visita o Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro. Com ele, também milhões de fieis vindos de todo o país e da América Latina, representando uma reunião continental de católicos em torno da figura de seu maior líder. 

Mas a visita do novo Papa não é importante apenas para os crentes dessa religião espalhados pela América do Sul. Fora dos festejos, passeios em carro aberto e encontros com multidões nas ruas, ela representa uma tentativa de reafirmação da Igreja no continente. 

A igreja Católica representa na América Latina uma forte força em todos os aspectos. Basta analisar que poucos anos atrás ela própria se posicionava dentro de regimes e governos como uma das autoridades máximas de poder no continente, principalmente no Chile, Brasil, Argentina e Colômbia. Influência e status que marcaram a sua presença para o bem e para o mal nesses territórios, dependendo da direção política que o leitor defenda.

O próprio Papa não pôde escapar desse passado envolvido em governos e disputas de poder. Acusado de participar da ditadura militar argentina, chegou ao patamar máximo da Igreja como inimigo da presidente de seu país, Cristina Kirchner. Após sua posse, ambos se apressaram em demonstrar certa afeição e amizade, mesmo que com alguns sobressaltos. Uma demonstração política bastante clara de aproximação, necessária ao Papa, que tem como objetivo a América latina, e a Cristina, presidente de um país de eleitorado e pensamento católico.

A reaproximação dos inimigos é um claro exemplo de como a Igreja é importante para a América e vice-versa. No campo político, o impacto do catolicismo é claro. Além de religião da maioria da população, é também mais presente entre as elites econômicas e intelectuais. Vide o caso brasileiro e as novas pesquisas sobre as religiões no país levando-se em conta as classes sociais. Assim, valores e ideias que guiam o catolicismo podem influenciar as decisões políticas dos países, tanto pelo apoio da massa populacional quanto por ser a religião dos principais líderes e autoridades nacionais.

De maneira bastante curiosa, são os próprios jovens católicos os principais alvos da visita do Papa. E também são eles os mais contrários a maioria de dogmas que a Igreja defende. Aborto, casamento gay e a legislação. Cada vez mais as opiniões religiosas sobre esses assuntos e a postura dos indivíduos diante do tema parecem se distanciar. Sem a combinação entre vontade da Igreja e vontade das pessoas, o catolicismo viu sua força e influência dentro do continente minguarem.

A influência católica não pôde passar ilesa as mudanças de governos na América do Sul. Mais recentemente, sobretudo no Brasil, não pôde se sustentar frente ao crescimento de outros grupos como os evangélicos, tomando grande parte da sua população de fieis com um discurso mais popular. É evidente que há uma pregação contrária a outras religiões arraigada na igreja evangélica, defensores de suas próprias ideias e do seu novo nicho de crentes. Tantos interesses não deixaram de causar incertezas quanto ao sucesso da viagem papal.

Mesmo surgindo como alternativa ao catolicismo e muitas vezes com exposição de ideias contrárias e acusatórias, os evangélicos não parecem dispostos a protestar contra o Papa. A confusão das ruas pode afetar a visita? Difícil acreditar. O movimento se espatifou. Quando ainda existia levava consigo uma onda de revolta exclusiva aos políticos. Evidente que no meio da diversidade de grupos, haviam militantes radicalmente contrários à Igreja, principalmente pelo seu posicionamento em relação ao casamento homossexual e ao aborto. 

Os contrários ao Papa ainda capitalizavam outros descontentes com o mar de denúncias em que se pôs a Igreja depois do Vatileaks, foco de revolta generalizada. Como toda instituição ou Estado poderoso, por vezes o Papa sempre surge como grande simbolo de todos os desmandos da humanidade. Obama, a espionagem e as trapalhadas nos documentos sigilosos americanos jogaram por terra a fabricação da imagem do Papa como alvo da vez. Esse papel agora pode novamente ser representado pelo bom e velho EUA. O próprio Papa refutou qualquer possibilidade de revolta ou manifestação, anunciando passeios em carro aberto.

A visita então parece perfeita às necessidades da Igreja. Ela poderá se utilizar de um excelente ambiente, de uma multidão de seguidores e do apoio da propaganda das maiores mídias do continente (os grandes jornais e tevês também tem como donos fieis católicos, demonstrando mais uma vez a importância da influência da Igreja nos grupos da elite latina), que transmitirão a visita como um grande evento. O catolicismo recuperará a influência e iniciará o seu futuro de recuperação pela América? Difícil responder.

Interessante notar como a visita de um líder religioso pode abrir espaço para discussões quanto a política e a relação e posicionamento de países. O Objetivo do Papa argentino foi bem traçado pela imprensa latina: resguardar o futuro da Igreja. Resta saber se em meio ao jogo político de sua presença e aos festejos dos jovens fieis, se os seus esforços serão satisfatórios. 


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


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