Brasil: ator global e líder regional?

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Foi-se a desconfiança que nos impedia de identificar a Argentina como um potencial parceiro relevante. O Mercosul marcou, entre tantos elementos fundamentais, a aliança regional com o intuito de construir uma região de cooperação. Neste sentido, nossos projetos de desenvolvimento democrático, político, social e econômico caminhariam em sintonia e gerariam benefícios mútuos. Apesar da predominância do conceito integração regional, o tratado de Assunção marcou o fim de uma rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, países com ambições e caminhos similares naquele momento.

Foi-se também o tempo em que o Brasil, assolado por questões urgentes no âmbito interno, pouco ou nada opinava nos rumos da comunidade internacional. Hoje a realidade é distinta. Como bem apontou Giovanni em um post recente, já existe o reconhecimento do Brasil como potência global por alguns especialistas. Em sentido similar, Celso Amorim, recém empossado ministro da Defesa, destacou a recomendação feita ao governo norte-americano de ajustar-se a um Brasil mais afirmativo e independente, em outras palavras, um ator verdadeiramente global. As recentes intervenções brasileiras nos mais importantes organismos internacionais corroboram nosso atual papel junto à comunidade internacional.

Há 20 anos, parecia que o Brasil estava destinado a ter como principais interlocutores: Argentina, Paraguai e Uruguai. A partir deste círculo, construiríamos as bases para o fortalecimento nacional e regional. Atualmente, cresce a convicção que nosso verdadeiro lugar é no salão principal junto aos Estados Unidos, a União Européia e os principais países emergentes. Nosso confinamento na ante-sala das organizações internacionais chegou ao fim. O que fora um sonho, parece formar um cenário crível e legitimado. Contudo, onde fica o projeto de integração e desenvolvimento regional? Aliás, é possível ser potência global sem ser um líder regional?

O evidente descolamento do Brasil em relação aos membros do Mercosul, em especial da Argentina, permitiu à nossa diplomacia alçar vôos mais ambiciosos. Recentemente, tive a oportunidade de conversar com alguns argentinos sobre o novo papel do Brasil, em maioria afirmavam que a Argentina ficou para trás e teríamos nos transformado nesse tal líder regional. Por outro lado, em contatos com colegas de Paraguai e Uruguai tive a impressão que o Brasil é visto como um “poderoso”, que pouco ou nada valoriza efetivamente a cooperação regional. Nossa ambição viria acima de tudo, o que nos permite inferir que há, em realidade, imposição brasileira em alguns temas importantes junto aos países menores.

Dessa maneira, o Brasil não poderia ser considerado um líder regional, uma vez que a maioria de nossos vizinhos não nos vê ou nos aceita como tal. Mais que isso, surge outra consideração importante. O Brasil que tanto defendeu um sistema mais justo, no qual todos os países sejam devidamente representados e relevantes, não estaria entrando para o seleto clube das potências e virando as costas para nossos interlocutores de outrora? Por exemplo, reivindicamos um assento permanente no Conselho de Segurança, mas isso o fará mais representativo ou somente nos tornará mais poderosos dentro de uma lógica igual? Será que adotamos a retórica que antes execrávamos, entrando no clube sem fazê-lo menos seleto, como defendíamos que deveria ser?


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Eram os deuses astronautas?

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Este é o título de um dos mais intrigantes e revolucionários livros a respeito do contato entre seres humanos e seres extraterrestres, escrito por Erich von Däniken: deuses desconhecidos imprimindo o conhecimento em civilizações atrasadas. O espírito de suas páginas viajou não só pelo passado longínquo, senão também pelas eras da História, quando homens se endeusaram para homens subjugar, como o fardo do “homem branco”, em sua missão civilizatória na África e Ásia, ao longo do século XIX. A questão, na atualidade, é quem são esses deuses astronautas e o que eles pregam?

O entrechoque de visões de mundo é parte indispensável da evolução do conhecimento, processo contínuo, que tanto provoca a curiosidade humana quanto promove melhorias no modo de vida. Quando uma visão tenta se impor às demais, limitam-se os horizontes do pensamento humano, produz-se maniqueísmos e se hipoteca o futuro. Da discussão para a prática: o que difere a repressão síria da repressão britânica? Por que gerenciar uma crise de países ricos com os instrumentos econômicos de países ricos?

Não admira que o mundo esteja um caos e atravessando uma das principais épocas de incerteza. A “primavera árabe” despertou nos povos o sentimento de liberdade, enfatizando, sobretudo, as melhorias sociais. Coincidentemente, há uma Europa que, embora livre, se levanta por causas sociais. Começou em Atenas, passou por Paris, e se acentuou em Londres. O continente perdeu seu vigor diante da atual crise financeira. Desemprego e desespero, uma combinação perfeita para a violência, basta uma fagulha para acendê-la. Com a violência, vem também a repressão.

Será que Ahmadinejad, Assad e Kadafi estão completamente errados em condenar o Reino Unido? Os deuses astronautas, do lado do Ocidente, condenam sistematicamente as atrocidades na Síria e na Líbia e agora fazem o mesmo? Dizem que é errado usar forças repressivas contra cidadãos e, ao mesmo tempo, prometem endurecer a postura em relação aos manifestantes de Londres. Os extraterrestres ocidentais estão combatendo as mesmas ideias que difundiram para os primatas que atravessaram Greenwich. A única diferença é que não se produziu estatísticas elevadas de morte.

E esta crise que apenas começou em 2008? Ela já foi considerada sob diversas perspectivas, particularmente, uma delas é precisa para defini-la estruturalmente, bem como suas conseqüências: nas palavras do renomado economista Joseph Stiglitz, a crise ideológica do capitalismo. Sabe-se, pois, que desde o término da Segunda Guerra Mundial, o modelo do crescimento dos Estados Unidos foi sustentado pelo endividamento crescente, criando instituições que lhes garantisse grana. Agora, o mundo cobrou a conta. Só que os países ricos ainda não perceberam isso; acham que o dólar é mais confiável, que os títulos da dívida norte-americana (T-Bonds) são seguros e assim por diante. Estas “pessoas realmente sérias”, na expressão irônica do economista Paul Krugman, perderam a noção de credibilidade, mas acreditam cegamente nas ideias econômicas alienígenas, como dogmas de tudo aquilo que é avançado e correto.

O que aprendemos e aprenderemos com estes deuses astronautas da contemporaneidade? Que civilização construiremos? São perguntas cujas respostas deixaremos para os escritores de amanhã.


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Quem tem medo de escuro?

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Você tem medo de escuro? Quem disser que não escutou essa frase diversas vezes desde a infância, com certeza estará mentindo. O medo faz parte daquelas incertezas que crescem dentro de nós e que se alimentam de inseguranças e, possivelmente, de falta de entendimento e/ou capacidade para lidar com determinados problemas. E quando se trata do escuro então, do não enxergar, do deixar a mente criar e destruir pensamentos, certezas e fantasias, que as crianças, ficam ainda mais amedrontadas.

E a América do Sul? Tem medo do escuro? Se não quer ter é melhor começar a trabalhar para isso, segundo o responsável pela divisão de infra-estrutura e recursos naturais da CEPAL, Beno Ruchansky. A estimativa feita é que, caso o continente não dobre sua produção energética nas próximas duas décadas, os sul-americanos vão enfrentar um grande apagão conjunto.

Claro que de previsões nefastas já estamos todos fartos. Ultimamente elas vão desde o fim do mundo no ano que vem até o aumento do nível do mar em proporções capazes de derreter as calotas polares e reduzir drasticamente territórios ao redor do globo. Mas a questão é que, por trás dessa estimativa da CEPAL está uma mensagem interessante sobre o crescimento econômico desses países. Essa mensagem reside no quão desordenados e não planejados têm sido as expansões das economias sul-americanas e das possíveis consquências que terão caso continuem a marginalizar questões essenciais de infra-estrutura e energia.

Todavia não se pode dizer que não há nenhuma investida política de cooperação nesse sentido. O maior exemplo é a Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Essa arquitetura regional criada em 2000, durante a 1ª Reunião de Presidentes da América do Sul, representa um avanço, porém não a resolução das dificuldades de infra-estrutura. Mas, da mesma forma que a instalação do Mercosul não representou, necessariamente, o efetivo livre-comércio entre os países sul-americanos, mas sim possibilitou um novo ambiente de diálogo comercial, a IIRSA ainda tem que trabalhar muito para rebater cenários nefastos. Mas o diálogo já começou. O que é sempre positivo.

Em outras palavras, a despeito dessa cooperação, o caminho a ser trilhado ainda é longo. Principalmente se levarmos em conta a necessidade de melhor planejamento de infra-estrutura do ponto de vista interno e do quão em segundo plano a questão da energia tem ficado na agenda política desses países. O Brasil passou por uma crise complicada em 2000, a Venezuela passa por outra desde 2010 e o Peru já anunciou que terá que comprar energia elétrica de seu vizinho para suprir sua demanda interna. A coisa não ta fácil para os sul-americanos.

Mas é aí que mora outro problema. Vamos aumentar nossa produção de energia? Certo, mas que fonte vamos usar? A polêmica hidroelétrica, a complicada nuclear ou fontes alternativas? Alterar ecossistemas, ir à contramão de ambientalistas ou gastar quantias que não são certeza de sucesso? Se os países sul-americanos não quiserem alimentar as incertezas e inseguranças energéticas, se quiserem não ter medo de escuro, há um longuíssimo caminho a ser trilhado. E, para começar, é preciso colocar, ainda mais, o tema na agenda.

[Clique aqui para um mapa da integração física da América do Sul]


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Onde as crianças do mundo dormem

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Este post especial se dedica ao compartilhamento de um interessante projeto fotográfico de James Mollison intitulado “Onde as crianças do mundo dormem” (“Where children sleep”, no original em inglês).

O objetivo do documentário foi realizar, de forma crítica, uma reflexão sobre a pobreza e a riqueza; e, enfim, sobre as históricas desigualdades mundiais. Para isso Mollison percorreu o mundo retratando a realidade de crianças e seus quartos, em uma rica apresentação visual que choca e emociona ao mesmo tempo.

Cada foto é acompanhada de uma legenda explicativa para contextualizar a situação. Trata-de de um interessante projeto, vale a pena ser analisado. Neste link encontra-se um resumo traduzido da obra, com as principais imagens e suas legendas em português. Já o livro original em inglês pode ser acessado em sua versão digital aqui.


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66 anos depois…

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Há 66 anos, o mundo vivia um dos momentos mais paradigmáticos do século passado: os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Estes encerraram, por assim dizer, a II Grande Guerra e demonstraram tristemente ao mundo o poder bélico estadunidense. Tristemente porque essa demonstração ocorreu à custa de aproximadas 200 mil mortes – em sua maioria de civis – e esse acontecimento foi hoje novamente relembrado pelo povo japonês.

A imagem acima, eternizada contemporaneamente, torna visível a magnitude do impacto da bomba nuclear sobre Nagasaki, ocorrida há exatos 66 anos. Vale lembrar que essas ocasiões foram as primeiras (e únicas) em que bombardeios atômicos foram utilizados em conflitos internacionais. A proporção dos ataques foi tão grande e tão intensa que, durante décadas, as consequências da radiação foram sentidas pelo país. Ainda hoje os termos “Hiroshima e Nagasaki” são frequentes quando o assunto discutido envolve guerra e paz, e os meios utilizados durante aquela para se alcançar esta.

Há dois anos, quando questionados sobre os bombardeios atômicos em pesquisa nacional, a maioria dos norte-americanos se mostrou favorável à decisão de Truman. Não restam dúvidas de que os anos passam, mas o sentimento nacionalista extremado (e muitas vezes inconsequente) estadunidense permanece.

Hoje, ao relembrar o impacto dos bombardeios e o recente desastre na usina nuclear de Fukushima, o prefeito de Nagasaki lançou o seguinte questionamento: “Por que esta nação que tem lutado durante tanto tempo pelas vítimas da bomba, uma vez mais vive com temor à radiação?”. Novamente a polêmica sobre as vantagens e desvantagens da utilização da energia nuclear vem à tona, e deve ser destacado o discurso sobre a necessidade de redução da dependência japonesa no que se refere à energia nuclear, nos dizeres do próprio Primeiro-Ministro do Japão.

Reviver a história é necessário e relembrar as vítimas destes ataques fulminantes ao Japão é natural e importante para que, diante dos desafios globais, os riscos de utilização da energia nuclear (especialmente em termos bélicos) estejam sempre vivos em nossas memórias. O que se deve evitar é repetir os mesmos erros e as mesmas perspectivas unilaterais de análise internacional para que, 66 anos depois, efetivamente tenhamos todos evoluído a partir das experiências históricas, quaisquer que tenham sido estas…


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London Calling

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Quem lê sobre isso até pode achar que está acontecendo aqui no Brasil. Um jovem foi morto em circunstâncias suspeitas depois de ter sido abordado por uma força especial da polícia. A população se revolta e vai protestar conta a truculência policial e falta de trato com a comunidade; eventualmente a passeata perde o controle e vira uma verdadeira chusma. O resultado são saques coordenados a estabelecimentos comerciais, mais de 100 presos e 30 policiais feridos. Rio de Janeiro? Não, mas em outra cidade olímpica, Londres. Como cantava a banda The Clash:

London calling to the faraway towns

Now that war is declared-and battle come down

London calling to the underworld

Come out of the cupboard, all you boys and girls

As reflexões sobre esse caso são inúmeras. Antes de tudo, há coisa de 20 ou 30 anos fervilhava esse tipo de tumulto e agitações na Inglaterra. A contestação econômica (crise, desemprego, etc.) e política (questão da Irlanda do Norte, etc.) fomentava revoltas e movimentos de contra-cultura, e dessa violência latente que surgiu nesse contexto apareceram coisas do movimento punk aos hooligans do futebol. Claro que boa parte disso foi superada com a rigidez e disciplina britânicas.

Pois bem, os tumultos que aconteceram no último fim de semana foram no bairro de Tottenham, um dos bolsões de pobreza e imigrantes da capital inglesa. Quando estouraram problemas parecidos em Paris, há alguns anos, até era de se esperar algo assim por causa do volume de imigrantes e todos os problemas de desequilíbrio de renda envolvidos que criaram um verdadeiro barril de pólvora. Mas, em Londres? Onde daqui a um ano tem um super evento multicultural com a Olimpíada, mesmo com a crise as coisas não vão mal, e uma tradição centenária de imigrações criou uma atmosfera meio que cosmopolita? Vale lembrar que por conta de fatores como a abolição precoce da escravidão e o Commonwealth (que torna até hoje súditos da rainha os povos que já foram parte do Império Britânico), sempre houve um grande volume de “não-europeus” (paquistaneses, indianos, negros africanos) na Inglaterra. Preconceito e atritos sociais não deixam de existir, mas são bem mais amenos que em outros países da Europa por conta dessa tradição.

E agora, o que esse evento pode nos mostrar? É impossível não traçar um paralelo com a morte do brasileiro Jean-Charles, fruto (também?) de erro da polícia. Situações parecidas, resultados diferentes. Não houve revolta no caso do brasileiro por ser imigrante e no de Mark Duggan por ser alguém do povo? Ou os tempos eram diferentes? O contexto atual de crise e incerteza, somado a tensões acumuladas da população mais pobre contra o tratamento da polícia (que parece ser o mesmo em qualquer lugar do mundo… até mesmo na Inlgaterra, onde os policiais nem andam armados!) resultou em uma onda de violência “ultrajante” e como não se via há tempos. A morte de Duggan e a ação de bandidos no meio dos protestos foi um gatilho para que alguns membros da população exprimissem uma enorme insatisfação reprimida. Não é o caso de ser alarmista, e pode ter sido algo isolado, mas de todo modo, esse fato improvável pode ser um sinal preocupante de como as tensões sociais e econômicas na Europa estão atingindo um limite – se na Inglaterra as coisas vão mal assim, quanto mais na França ou Alemanha…

PS.: O título do post é homônimo da música citada. É uma alegoria dos problemas sociais e econômicos ingleses dos anos 70, e pode vir a servir para a situação atual. Uma análise bem interessante de como se tornou um hino involuntário e inapropriado dos jogos de 2012 se encontra aqui.


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Quão distantes estão o soldado e o diplomata?

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Entre ontem e hoje, os canais de notícias brasileiros têm todos se focado na demissão do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, por suas declarações desafortunadas. Enquanto muitos têm questionado aquilo que ele falou ou poderia falar, acabam por deixar passar ou mesmo aceitar plenamente outras manifestações que podem, até certo ponto, ser consideradas tão polêmicas quanto.

Assim que a presidente Dilma Rousseff demitiu Jobim, imediatamente já anunciou o novo ministro que iria ocupar o cargo. O sortudo da vez foi Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula e um diplomata de carreira. É aí que a outra polêmica começa. Espere aí, um diplomata no ministério da Defesa? Desde quando diplomata gosta de guerra? Não é estranho colocar alguém que só trabalha para prevenir guerras no comando das três Forças Armadas do país?

De fato, esse questionamento existe tanto do ponto de vista civil quanto do ponto de vista militar. Como fica explícito na notícia veiculada pela Folha de S. Paulo no dia 05/08, quando retratam que em entrevista com um militar sobre a escolha de Amorim, obteve-se uma resposta bem negativa acompanhada da seguinte analogia: “é como colocar um médico para cuidar de um necrotério”. Alguns o falam e outros o absorvem, sem de fato refletir no que ele siginifica.

Isso é resultado de uma cultura política que após longos e tristes anos ditatoriais ainda existe no Brasil, e no interior das Forças Armadas do país, apontando que defender deve ser tarefa dos militares em todos os aspectos (desde o planejamento tático e estratégico até as vias de fato da guerra). Existe também outro ponto, aquele de uma antiga rivalidade entre o Itamaraty e as instituições militares do país, uma espécie de luta de egos, de busca por maior reconhecimento e legitimidade. Um tentando mostrar que é mais importante para o país que a outra, quando parece que são muito mais próximas do que se imagina.

Por isso, o que um famoso estudioso das relações internacionais apontou sobre a natureza da relação entre os países ajuda um pouco a entender a importância de cada uma dessas instituições e, como elas são muito mais complementares do que necessariamente opostas. Para ele, haveria dois aspectos por trás das relações entre os países: a guerra e a diplomacia. Sendo um soldado e um diplomata a síntese de como elas poderiam ocorrer. De um lado a guerra de outro as negociações. Duas possibilidades que caminham lado a lado e de mãos atadas. Dessa maneira, ambos seriam duas faces de uma mesma moeda, duas formas de defender um mesmo interesse, o do país.

Agora, após avaliar o quão próximas são a diplomacia e as Forças Armadas, questiono-me, é tão estranho assim ver um diplomata a frente do ministério da Defesa?


Categorias: Brasil, Polêmica, Política e Política Externa


Cova somaliana

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“Esta cova em que estás, com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

[…] Não é cova grande, é cova medida

[…] É uma cova grande pra teu pouco defunto

É uma cova grande pra tua carne pouca” […]

A partir dos dizeres acima de Chico Buarque, em sua música inspirada no poema “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, a reflexão de hoje se volta a uma crise social tão grave (em seu âmbito) como a crise econômica norte-americana, porém muitíssimo menos noticiada. Trata-se da situação da Somália, país imerso em uma cova de fome, miséria e despreparo.

Despreparo diante de uma situação que envolve fatores ambientais, políticos, econômicos e sociais em um cenário internacional no qual as perspectivas de Assistência Humanitária ainda precisam se tornar muito mais eficientes e construídas sobre um sistema de cooperação que preze efetivamente pelo humanitarismo, e não unicamente por interesses estratégicos pontuais.

Enquanto isso, a Somália permanece em uma cova cada vez mais funda: a crise de fome se alastra rapidamente pelo sul do país e o número de mortes já é estimado em dezenas de milhares. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), metade da população do país (quase 4 milhões de pessoas) sofre direta ou indiretamente com esta crise humanitária.

Vale destacar que a chamada região do “Chifre da África” – que inclui, além da Somália, a Eritréia, o Sudão, a Etiópia e o Djibouti – se encontra em uma situação de crise generalizada de fome que afeta mais de 11 milhões de pessoas segundo a ONU devido às secas prolongadas.

Além da situação de seca, somam-se a falta de um governo efetivo e os conflitos internos na Somália para se compreender o quão grande está a cova em que a “carne pouca”do povo parece ser lançada sem piedade. Os coveiros? O governo local (ou a falta dele); os interesses geopolíticos internacionais que impedem historicamente o desenvolvimento social africano; os interesses econômicos internacionais que limitam os fundos auxílio humanitário a um país que, na opinião de muitos, parece ser tratado como insignificante; os fatores climáticos que insistem em castigar a região; e talvez muitos outros que poderiam ser listados aqui…

Se a ampliação dos programas e dos fundos de assistência humanitária são urgentes, como afirma a ONU, talvez seja necessário midiatizar cada dia mais essa temática para que se possa cobrar esse desenvolvimento dos órgãos e responsáveis. Ou talvez seja apenas necessário que nos consideremos todos responsáveis pela solução de uma crise humanitária como esta para que a Somália não se afunde cada vez mais em si mesma e em suas dificuldades que são locais, mas também globais.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Reflexões para o futuro

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Uma questão intrigante para começarmos, que expressa bem a redistribuição global do poder e o reposicionamento dos países no mundo, é o Conselho de Segurança da ONU. Todos sabemos que a missão central do organismo é zelar pela paz e segurança internacionais. Também sabemos que isso inclui deter um poder militar condizente a essa missão, certo? Pois bem, de acordo com os dados do site Global Firepower, a França não mereceria mais ocupar um assento permanente, já que ocupa apenas a 8ª posição, atrás de três países emergentes: Índia (4ª), Turquia (6ª) e Coreia do Sul (7ª). Mas é claro que esse posto também é assegurado por razões históricas, prestígio e poder econômico. Neste último aspecto, os top-5 deixam a desejar ainda mais: não apenas pelas consequências da atual crise financeira que enfrentam, senão pela posição que ocupam na economia mundial, de acordo com PIB. Reino Unido e França, por exemplo, ocupam, respectivamente a 8ª e 9ª posição.

O agravamento da violência na Síria, que suscita uma resolução de condenação pelo Conselho de Segurança e abre espaço para uma possível intervenção militar, é um exemplo da manifestação das transformações em curso no âmbito do poder global. As potências tradicionais, notadamente Estados Unidos e Europa, querem adotar a resolução, enquanto os países emergentes, principalmente Brasil, Índia e África do Sul, são contrários. De um lado, uma estratégia de força; de outro, uma estratégia de fala. A dúvida é: qual o limite para as duas serem levadas separadamente e de que maneira elas se relacionam? Este debate provavelmente permanecerá em aberto e trará tanto dificuldades para administrar a ordem mundial quanto possibilidades mais amplas para a cooperação. Uma coisa é clara: não é mais possível prevalecer apenas a opinião das potências tradicionais. O Concerto Europeu ou a Pax Americana pertencem à história.

A prevalência de uma opinião absoluta do Ocidente pseudo-hegemônico silencia riscos importantes. Mesmo o terrorismo é preciso ser desmistificado. A Guerra Global contra o Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, infundiu um maniqueísmo sem precedentes – “ou vocês estão conosco ou contra nós” – e marchou sobre a diferença, denegrindo a imagem de religiões e povos. Quer exemplo melhor dessa situação do que o ocorrido na Noruega? O dedo acusador do governo apontou um muçulmano como culpado, quando, na verdade, era um nacional da extrema direita. (Vejam estes dois artigos 1 e 2, de um professor de Filosofia da UFRGS e do ex-Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, respectivamente). Mais do que isso, demonstrou que o terrorismo não está “lá fora” ou é praticado por quem vem de fora, e sim que é algo endógeno. Aliás, é só pensarmos: além do 11/09, Madri e Londres, quais foram os grandes atentados terroristas tidos como globais?

O terrorismo ainda conduziu a uma espécie da amnésia coletiva. Não é apenas a política conduzida de maneira extrema que mata, a ausência da política é igualmente fatal. Previsões indicam que a população mundial deve ganhar a adição de mais 1,2 bilhões de pessoas, o que provocará pressão sobre os recursos alimentares, energéticos e hídricos. É calculado que a demanda por esses recursos aumentará entre 30-50%, já levantando o problema da escassez. Hoje, as estimativas são de que um em cada cinco habitantes do planeta não tem acesso à água potável, sem contar que cerca 70% dela, em nível mundial, é utiliza para a irrigação. Dois dados já antigos, que prevalecem praticamente semelhantes hoje, em 2002, 1,2 bilhões de pessoas viviam com menos de um dólar por dia; com menos de dois dólares diários, esse número se elevava para 2,8 bilhões. A questão é que problemas como esses não aparecem todos os dias na TV ou na internet.

Caetano Veloso já cantava, “Alguma coisa/ Está fora da ordem/ Fora da nova ordem mundial”, agora, acontece. Por um lado, os países que sobem e os que descem precisam encontrar mecanismos comuns para a governança global, por outro, devem permanecer atentos aos novos riscos. Do contrário, não será mais uma escolha entre a vida e morte, mas entre a escassez e a morte. Costuma-se dizer que toda civilização evolui quando atinge um ponto crítico. Será que chegamos ou precisamos chegar a um ponto mais crítico para evoluir? Em algum canto do mundo, as pessoas estão morrendo não pelas decisões que os países estão tomando, mas pelas questões que estão deixando de tratar, por esquecimento ou impasses. Infelizmente…

[As informações para este post foram coletadas, principalmente, no site do PNUD.]


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Devo, não nego…

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E a gente acha o impostômetro ruim….

E os EUA estão longe de pagar quando puderem. 10 anos mantendo duas guerras do outro lado do mundo, desastres naturais e ambientais (de furacão Katrina a vazamento de petróleo sem precedentes no Golfo do México) e uma crise financeira internacional tiveram seu preço para os EUA – e bem salgado, 14 trilhões de dólares. Todos os dias sai algo no noticiário sobre a briga do presidente Obama com o Congresso pra evitar o calote da dívida pública norte-americana. Agora, muita gente nem percebe, mesmo por que essa é uma notícia que passa às vezes como uma nota de rodapé, e na verdade é uma das mais importantes guinadas no cenário internacional nos últimos anos.

E por que isso? Bom, vamos por partes para entender a gravidade da coisa. Quando falávamos em calote de países como Brasil, México, Grécia, era até de se esperar – são (ou eram…) economias fragilizadas por algum fator, de inflação inercial e crise sistêmica a má-administração. Pois bem, no momento em que os EUA correm esse risco, tem alguma coisa MUITO errada na economia mundial. Primeiro, por que o administrador mais poderoso do mundo, outrora credor e que sempre teve suas contas em dia, de repente não consegue mais honrar seus compromissos. Segundo, se isso ocorrer vai levar um monte de outros países junto num efeito cascata – e isso horroriza a China, a maior credora dos EUA.

O maior drama para Washington, contudo, é interno. Os reflexos da crise econômica ainda andam a galope por lá, com o desemprego, queda na renda e endividamento das famílias, enquanto os gastos do governo explodiram, de envio de tropas à criação do plano de saúde público e capitalização de bancos e montadoras automotivas. Foi um grande azar que tantos problemas tenham se acumulado e estourado ao mesmo tempo, mas é uma mistura de decisões ruins (como invadir o Iraque) e falta de regulamentação financeira (que possibilitou a bolha imobiliária) que causou essa dívida inédita. A solução para Obama é negociar com os partidos a elevação do teto da dívida, pela primeira vez na história dos EUA, o que deve ser conseguido hoje, para alívio de meio mundo.

O problema na acaba por aí. Aumentar o teto da dívida não apenas significa que o calote não será dado, mas que os gastos vão acabar aumentado ainda mais para por as contas em dia. O desafio que fica é planejar a austeridade para o ano seguinte, o corte de gastos e redução de déficit do Estado. Leia-se: acabar com pensões, seguros e benefícios, fazer demissões. No contexto em que os EUA se encontram, isso é uma péssima notícia. Se no âmbito externo essa crise tem seus efeitos (como o dólar em queda livre, a ascensão econômica da China e agora o avanço iraniano como poder militar dominante no Golfo, agora sem a presença permanente dos EUA), internamente Obama perdeu popularidade em um nível absurdo. Isso explica, aliás, a briga com os partidos, estando tão próximos das próximas eleições presidenciais. Em um país onde fazer plano de saúde pública é “comunismo”, o “presidente da esperança” parece cada vez mais constrangido por fatores fora de seu alcance e impotente para fazer valer suas mudanças.

O fato é que, mais do que nunca, o mundo acompanha atentamente o que se passa em Washington. O que for decidido hoje vai ter seus efeitos não apenas nos EUA, mas em boa parte das economias do mundo, para bem ou mal. É complicado até mesmo definir quais serão os efeitos em si dessa crise acentuada; a certeza é que serão profundos e sistêmicos. Seja qual for o resultado, no fim das contas vemos que, por mais mal das pernas que ande, os EUA ainda são a economia mais importante do mundo. Ainda…


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