100 anos depois: visões da guerra

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O Brasil na política dos gigantes

Em 1914, o Brasil era outro. Era uma república nova, de fronteiras recém-delineadas, e muito dependente da produção e exportação de café. Um país dos grandes Barões de Café, e de seus estados produtores, que se enriqueciam a cada nova orientação de política fiscal e econômica em benefício do produto. Estado também dos grandes latifundiários que concentravam o poder político e econômico em outras regiões mais ao interior do país. No período, o Brasil era centro da produção mundial cafeeira, dominando quase um quinto do total. A despeito de tentativas de novos exportadores, como a Colômbia, a competição com o café brasileiro era ainda impensável.

À frente da Presidência, estava o político mineiro Wenceslau Brás. O presidente ainda buscava a unidade nacional, sonho de militares, diplomatas e intelectuais brasileiros. A despeito da estabilização das fronteiras no início do século, o país ainda defrontava-se com disputas internas, como a guerra do contestado entre Santa Catarina e Paraná.

Na diplomacia, como em outras áreas de governo, mantinha-se o principal traço do final da monarquia: a indistinção entre a carreira pública e o espaço privado. Não havia, portanto, a tão aclamada burocracia do atual Itamaraty. Nossos diplomatas eram representantes de famílias com tradicional envolvimento na política ou na vida militar. O ministro à época, Lauro Müller, carregava essas características. O sucessor do Barão do Rio Branco, descendente dos primeiros imigrantes alemães no país, era ex-militar e havia sido governador provisório de Santa Catarina, quando foi convidado à carreira diplomática.

Em seu conjunto, a diplomacia brasileira ainda vivia sob o impacto do falecimento de Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco. Sua atuação brilhante, estabilizando as fronteiras do Brasil e corretamente, aproximando-se da potência ascendente – ao optar pela substituição do eixo Brasil-Europa pelo Brasil-Estados Unidos – inspirou a orientação dos anos ulteriores. Porém, seu estilo centralizador no Itamaraty deixou poucos espaços para a formação de uma burocracia coesa. Assim, os ministros tentavam ainda suprir o vazio sua ausência.

Iniciado o conflito na Europa, o Brasil optou pela neutralidade. Os intelectuais e homens públicos da época dividiam-se quanto à entrada do Brasil na guerra. De um lado os germanófilos, como Monteiro Lobato e Lima Barreto, defendiam a Tríplice Aliança. De outro, a maioria dos intelectuais, altamente influenciados pela cultura francesa da belle époque, preferiam a Entente.

Com a guerra, as exportações de café para nossos principais mercados decresceram significativamente. A utilização dos submarinos como arma, interrompeu as vias marítimas e dificultou o processo. Além da dificuldade logística, a Grã-Bretanha também inseriu o produto na lista de contrabando de guerra, complicando ainda mais a já difícil exportação cafeeira.

torpedeado navio brasileiro

O torpedeamento do navio mercante brasileiro Paraná, em 1917, pelos alemães foi um dos fatores mais imediatos que motivaram a entrada do Brasil na guerra. A imprensa e a opinião brasileira alvoroçou-se, pressionando o governo para entrar no conflito. Os a favor da Tríplice Entente, que já eram maioria, receberam o empuxo faltante para verem concretizada seu interesse. Em junho, o Brasil encerrou sua neutralidade e, após o torpedeamento do quarto navio mercante, declarou guerra à Tríplice Aliança. Assim começou uma história do único país sul-americano na Primeira Guerra Mundial, que teria consequências e influências futuras em sua história econômica e diplomática.

A participação brasileira foi bastante peculiar. A princípio, havia enviado uma missão médica direto à França e uma divisão naval, que iria primeiro a Dacar, a capital colonial francesa – futuro Senegal –, para depois juntar-se à Marinha da Grã-Bretanha. Porém, a divisão naval foi acometido pelo vírus da gripe espanhola, que provocou o falecimento de grande parte da tripulação. O resultado foi a entrada tardia da Marinha do país no conflito, um dia antes da assinatura do armistício, em 1918.

A história do país no conflito foi curta e com alguns prejuízos econômicos. Mas, se por por um lado, a participação brasileira no guerra não fora tão expressiva, por outro, o país foi capaz de retirar um número significativo dividendos positivos de sua atuação, tanto no plano econômico quanto diplomático. A economia da guerra dificultou o escoamento do café brasileiro para a Europa. Como forma de solucionar a dificuldade, o Brasil aproximou-se comercialmente dos Estados Unidos, passando a depender da demanda norte-americana. Essa nova relação comercial também culminou em muitos investimentos estadunidenses no país, tornando o Brasil não só um importante parceiro político, mas também comercial.

Um impactos mais interessantes da Primeira Guerra esteve no ponto de vista diplomático. No período, o mundo veria o germinar de uma nova característica do sistema internacional, a presença de instituições multilaterais, e o Brasil, com sua diplomacia oportunista, começaria a construir um consenso entre elites nacionais da importância que se desejava para o país nesse novo sistema. Dada sua participação no conflito, os bons relacionamentos diplomático-econômicos com os governos estadunidenses e a habilidade política do embaixador brasileiro Domício da Gama nos Estados Unidos, o governo brasileiro obteve três delegados nas Conferências de Paz de Versalhes, Epitácio Pessoa, Pandiá Calógeras e Raul Fernandes. As grandes potências participavam com cinco e as potências menores com dois ou um.

O fim da conferência foi o início do projeto do presidente norte-americano Woodrow Wilson de uma grande organização para regular as relações entre os países, a Liga das Nações. De forma semelhante ao sistema ONU, a Liga era composta por um Conselho Executivo, de membros permanentes e rotativos. Devido ao prestígio, o Brasil era recorrentemente reeleito como membro-rotativo, e desde 1921, desejava um posto permanente.

Aos poucos, construiu-se o consenso entre alguns setores das elites nacionais de que o Brasil, por seu prestígio político-diplomático, deveria estar no centro das grandes decisões internacionais e, portanto, seria o representante autodeclarado da América – considerando que os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versalhes. Ideias que repercutiram em um dos mais peculiares episódios de nossa diplomacia, a retirada do país da Liga das Nações, quando da inclusão alemã como membro-permanente. Mesmo após esse período, o entendimento das elites do lugar do Brasil a ser ocupado no mundo permaneceu, e viria a ser retomado, décadas depois, ao tratarem da reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Ao observarmos o conjunto da história do Brasil na Primeira Guerra Mundial, vemos a narrativa de um país em transição, de regime e na formação de suas ideias político-econômicas. Se o conflito teve alguma contribuição significativa para o Brasil, o campo da política externa salta aos olhos como um dos principais. Poder-se-ia argumentar que o Brasil havia realizado uma leitura errada de seu papel no mundo por razões de legitimidade interna, e, por isso, teria passado por um constrangimento internacional. Porém, ilusão ou não, não se pode negar que a diplomacia brasileira ainda persegue um status diferenciado no mundo e Primeira Grande Guerra teve papel importante na construção desse imaginário. Tratou-se, portanto, da história de um Brasil que, por diversas razões, arriscou-se na política dos gigantes.


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100 anos depois: Visões da Guerra

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Réconciliation

[Franz Marc, Réconciliation, 1912]

Sobre reconciliação e transformação

Uma guerra pode ser analisada sob diferentes perspectivas. Os principais aspectos políticos, econômicos e estratégicos tendo sido apresentados em textos anteriores da série “100 anos depois: Visões da Guerra” (confiram aqui), a reflexão de hoje se concentra nos aspectos de reconciliação e transformação do conflito.

Em uma linha temporal, pode-se avaliar que qualquer conflito passa por diferentes momentos: prevenção (antes), gestão de danos (durante), e resolução e transformação (depois). Isto significa que, quando os mecanismos pacíficos de negociação e diálogo se esgotam, têm início confrontações diretas que levam ao sofrimento de todos, mas especialmente da parte que se mostra mais frágil durante os confrontos. Fatores que impactaram diretamente no pós-Primeira Guerra foram: a duração do conflito, sua quantidade de vítimas, o poder de destruição vislumbrado e as perdas provocadas por um confronto sem precedentes.

Um legado importante para esse processo, protagonizado por parte do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), foi a evolução no tratamento dos prisioneiros durante a guerra. Antes, no decorrer de um conflito, dificilmente poderia ser esclarecido se os soldados dados como desaparecidos tinham efetivamente morrido durante os combates ou se encontravam em poder do inimigo. Destaca-se a importância da “Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra” no árduo processo de reestabelecimento de laços familiares entre aqueles milhares de prisioneiros que, protegidos pelo direito internacional humanitário, não mais podem constituir alvo ou “moeda de troca” durante o conflito, e suas famílias. Os esforços neste sentido culminaram na Convenção relativa aos Prisioneiros de Guerra de 1929 (arcabouço utilizado durante a Segunda Grande Guerra) que baseou a própria III Convenção de Genebra de 1949. Garantir, reciprocamente, a dignidade de tratamento dos combatentes em poder do inimigo por si só constitui um argumento importante para criar as bases futuras de reconciliação pós-conflito.

A resolução do conflito, no momento em que as partes chegam a um acordo de cessar-fogo, constitui momento essencial para o fim das hostilidades, porém representa apenas o primeiro passo de um longo caminho de transformação que deve ser percorrido pelos beligerantes para uma paz duradoura.

Conceitos como memória, perdão, verdade e justiça se enquadram no dito momento de transformação, talvez o mais complexo e demorado a ser alcançado. Entender a paz não somente como ausência de guerra (a chamada “paz negativa”), mas principalmente como construção de um ideal comum de convivência destaca-se como elemento crucial no processo de reconciliação.

Com a Conferência de Paz de Paris, em 1919, foi ainda constituída a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), organismo internacional multilateral destinado à meta de manutenção da paz que se desenhou no pós-Guerra, porém diante de um contexto geopolítico de grandes diferenças e desconfianças, pautado pela visão dos “vitoriosos” que logo veria uma nova ascensão de regimes totalitários. O “esboço” da estrutura da atual Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou ideais importantes, apesar de suas dificuldades de concretização na prática, e lançou as bases para o debate sobre responsabilidades coletivas em prol da reconciliação e da paz.

Uma Europa pacificada não seria, contudo, realidade duradoura após o final da Primeira Grande Guerra, que só foi “primeira” porque não foi única, tendo sido seguida, poucos anos depois, por mais um confronto de dimensões mundiais.

Charge Plantu

[Tradução: 1) Membro de milícia vingando a morte de seu cunhado em 1917; 2) Soldado vingando o estupro de sua prima em 1944; 3) Bebê pensando em vingar seu pai em 2023.]

A construção de uma memória coletiva em que a vingança não figura como atitude prioritária leva gerações, tal como a charge acima ilustra. Se a guerra oficialmente se encerrou em 1918, certamente na prática levaria décadas para desaparecer do imaginário popular – tempo não respeitado pela subsequente consecução da Segunda Grande Guerra.

Relembrar o ocorrido, com o grande objetivo de não reproduzir atos nefastos como aqueles perpetrados há 100 anos, constitui parte do processo de transformação ainda vivido pelo continente europeu e pelo mundo inteiro. A imagem abaixo retrata o projeto comum de paz, união e democracia por meio de um abraço carregado de simbolismo e impensável há exatamente um século.

Abraço

Os presidentes da França e da Alemanha, Francois Hollande e Joachim Gauck, respectivamente, estiveram na última semana em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, em um monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França, local onde estão as cinzas de aproximadamente 12 mil soldados desconhecidos, cujas vidas se perderam durante os anos de conflito.

Nas palavras do general norte-americano William T. Sherman, “somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno”. Se as consequências da guerra são dolorosas, tal como as da Primeira Guerra o foram, construir coletivamente os meios para superá-las se faz mais do que necessário. Deve-se potencializar, portanto, uma reconciliação não apenas baseada em imposições, mas principalmente na transformação de mentalidades de modo a que não mais se enxergue a guerra como uma opção e tampouco o outro como inimigo.


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Imagem da Semana

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Reencontro argentino

A imagem da semana foi o emocionante reencontro da presidente da organização argentina “Avós da Praça de Maio”, Estela de Carlotto com seu neto, Guido de Carlotto – filho de pais militantes que foram assassinados durante a ditadura militar (1976-1983). A organização tem como objetivo descobrir o paradeiro de crianças desaparecidas nesse período por meio de um banco de DNA iniciado nos anos 1990 com o objetivo de comparar os dados das avós com possíveis netos que voluntariamente buscam o exame genético no país.

Antes da Copa do Mundo, foi realizado um encontro das Avós com a seleção de futebol argentina, tendo a foto com o jogador Messi (abaixo) motivado Guido a realizar o teste de DNA – ele hoje tem 36 anos e cresceu como Ignácio Hurban, com poucas e vagas informações sobre seus pais biológicos, já desconfiando há algum tempo de sua própria identidade. Seu parentesco com Estela foi, desta forma, confirmado.

Messi

O histórico de militância dos pais falecidos, somado à luta da avó para reconstruir seu passado e reencontrar o neto roubado apresenta um simbolismo ímpar para um país que, como vários na região, viveu um triste e violento período ditatorial. Há décadas buscando virar essa página de sua história, certamente a líder Estela tem sua motivação renovada para seguir na luta em apoio às suas centenas de companheiras na organização para as quais os netos seguem desaparecidos…


Troca de parcerias

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O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


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100 ANOS DEPOIS: VISÕES DA GUERRA

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Plano de Schlieffen

Nada de velho no front. As novidades introduzidas pela Grande Guerra, a mãe de todas as demais guerras do século XX, influenciaram, para bem ou para mal, o pensamento estratégico-militar nos últimos cem anos. A velha guerra, inevitável e apocalíptica, foi vítima da agonia imperialista que abocanhou as grandes potências no último quartel do século XVIII e contaminou todo o mundo. A paz centenária foi cortada pelo barulho estridente das metralhadoras, e a belle époque sucumbiu ao quadro vermelho enegrecido da destruição.

Uma triste poesia aviva a memória dos esquecidos. Wilfred Owen, militar e poeta inglês, narrou em seu histórico poema “É doce e honroso” o desespero da morte provocado pelas bombas de gás e finalizou criticando a irracionalidade do conflito: “Meu amigo, você não iria, com tão grande entusiasmo e idealismo, contar/Para as crianças desejosas de alguma glória desesperada/A velha mentira: é doce e honroso morrer pela pátria.”. Sete dias antes do armistício, Owen morreu pela pátria, sem doçura ou honra.

Traço comum também está na obra de Erich Remarque, que sobreviveu às trincheiras e cuja frase que inicia este post parafraseia seu livro. A ruína da guerra centenária é retratada, por exemplo, nas menções aos efeitos do gás nos combatentes, que os fazia “vomitar seus pulmões queimados”. Mais impressionante, e reflexo da ruína, é o sentimento de desilusão: “Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.”

O ar melancólico carregado por esses e outros sopros poéticos está indissoluvelmente ligado à capacidade de produzir o horror, até então sem precedente histórico. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial inaugurou o período mais extremo da guerra moderna, desde a queda de Constantinopla (1453): a totalização da guerra. O aprimoramento das técnicas militares ampliou largamente o potencial de destruição.  A distinção entre alvos civis e militares se fez cada vez menos presente no planejamento estratégico-militar. Retornou-se à barbárie que se supunha superada: todas as atividades da vida de um Estado passaram a ser objeto de ações adversárias. O extermínio de populações, se necessário, tornou-se aceitável enquanto condição para se alcançar uma vitória absoluta sobre o inimigo.

A Grande Guerra é a antítese do progresso, material e filosófico, da Revolução Industrial. As estradas de ferro e a telegrafia sem fio, que tanto aproximaram povos e nações, colocaram-nos em campos opostos. Do motor a explosão e o motor elétrico, vieram os aviões, os carros de combates – estes dois não foram plenamente aproveitados neste conflito – e os submarinos, acompanhados de uma artilharia pesada (agora móvel) e com maior calibre, de metralhadoras mais leves e automáticas, dos gases de combate e do lança chamas. A guerra submarina, a propósito, talvez seja a principal expressão do desenvolvimento científico e tecnológico a serviço da belicosidade e, ao mesmo tempo, do avanço do front em direção aos não combatentes. Os submarinos, não apenas cortavam os suprimentos logísticos dos beligerantes, senão também condenavam à fome os cidadãos.

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Por suas características, a Primeira Guerra Mundial é enquadrada como uma guerra de segunda geração (iniciada em 1860 e encerrada com esse conflito). Nela, prevaleceram a supremacia do fogo sobre o movimento e a disciplina sobre a iniciativa. O combate era simultaneamente estático e de atrito, em que o atacante “empurrava a linha” e o defensor “segurava a linha”. A divisão do confronto centenário em duas fases retrata bem essa geração da guerra: a primeira fase, de movimento, de agosto a dezembro de 1914, com a tentativa frustrada da Alemanha implementar o Plano Schlieffen, e a segunda, de posição, após a fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, 1915, até a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918.

A segunda fase é, sem dúvidas, a mais agonizante. As trincheiras transformaram-se em sua marca inesquecível. Naqueles estreitos buracos de podridão, conviviam, harmoniosa e heroicamente, o ódio, o companheirismo e a esperança. Os combatentes bem sabiam que bastava um único comando para que esses sentimentos aflorassem. Eis o grito: “para cima!”. Todos saíam e se lançavam contra o inimigo entrincheirado, sem se importar com os canhões, metralhadoras e granadas, até o assalto final, quando a baioneta, a faca e a pá se convertiam nas melhores armas – para os sobreviventes, é claro, desse curto percurso fúnebre.

A tentativa alemã de vencer a defesa de Verdun, travada entre fevereiro e julho de 1916, é bastante representativa da segunda fase da guerra. Trata-se de uma batalha de 2 milhões de soldados, com um milhão de baixas. Imponência maior é demonstrada pela quantidade de granadas lançadas nesse período: 22 milhões de alemãs contra 21 milhões de francesas (quase 290 mil granadas por dia!). Ressalta-se que não é por acaso que a melancolia ditou o tom da literatura pós-guerra. Nem é o acaso que levou Einstein a perguntar a Freud, na carta que lhe enviou, se seria possível controlar a evolução da mente humana, de modo a torna-la à prova das psicoses do ódio e da destruição.

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A Primeira Guerra Mundial põe fim a uma geração. Só que, como todo acontecimento humano, a guerra traz suas conexões entre o passado e o futuro. A gênese da blitzkrieg remonta as tropas de assalto alemãs (sturmtrüppen) utilizadas intensamente na primavera de 1918. O Plano Schlieffen recupera a mesma estratégia que o general cartaginês Aníbal empregou para aniquilar os exércitos romanos na Segunda Guerra Púnica e prenuncia o que seria o maior objetivo estratégico-militar norte-americano no século XX: ser capaz de lutar duas guerras ao mesmo tempo em qualquer parte do globo. E a extensão do front para a população civil pode ser notada hoje, grosso modo, nos bombardeios israelenses a única usina elétrica na Faixa de Gaza.

Nem é doce nem é honroso morrer pela pátria, principalmente quando novas invenções elevam o medo e a dor da morte a um patamar jamais visto. Por isso a guerra nunca morreu na memória histórica da humanidade e tampouco deixou de influenciar o século XX de diversos modos. Ainda há muito a ser contado e lembrado.


Categorias: Defesa, Post Especial, Primeira Guerra Mundial, Segurança


O dilema Israel-Palestina

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Gaza

Nos estudos de relações internacionais, um tema bastante conhecido nas análises da Teoria dos Jogos envolve o chamado “dilema do prisioneiro”, uma grande situação de incerteza, em que a confiança no “outro” se torna a base para negociações que visem otimizar os resultados para todos os envolvidos. Contudo, essa vertente teórica baseia-se na lógica de que os atores envolvidos são racionais e procuram a todo momento maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, com frequência independentemente do “outro” na negociação (veja mais sobre essa teoria em nossa coluna “Conversando com a Teoria”).

O que se tem, portanto, é que, no grande tabuleiro de decisões, “trair” predomina sobre “cooperar”, pois a opção “trair-trair” representa a solução dominante mais proveitosa, independentemente da decisão do outro. Entretanto, trata-se de um “equilíbrio ineficiente”, já que a opção “cooperar-cooperar” é a que de fato potencializa os resultados para ambas as partes. (Entenda melhor o dilema aqui.)

O tema central da discussão é, portanto, a confiança. Ocorre que diante de situações de crise, esse tema representa, de fato, aquilo que mais dificilmente se logra garantir, justamente porque as partes envolvidas se negam a “dar o primeiro passo” no sentido de acreditar no outro, arriscando-se a ponto de permitir possíveis perdas.

O histórico conflito entre Israel e Palestina representa um dos mais complexos cenários de incerteza e falta de confiança mútua que resulta em dramáticas consequências para vítimas inocentes. O embate atual, que já completa praticamente um mês, figura entre os mais sangrentos da história na região e reflete uma nítida situação em que a culpa é de todos, mas, assumidamente, de ninguém – sendo os civis os principais afetados diante de uma comunidade internacional que assiste passivamente a uma situação dita “incontrolável”.

O terceiro ataque a uma das escolas mantidas pela Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), ocorrido neste domingo e caracterizado como ato criminoso pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, retrata o descontrole que se está criando nesta zona de conflito. O número de deslocados pelo conflito remonta a mais de 440 mil, segundo a UNRWA, superando toda a estrutura existente para apoio humanitário aos afetados. O vídeo do porta-voz da agência desabando em lágrimas em plena transmissão televisiva ao vivo é extremamente tocante.

O governo de Israel afirma não mirar propositalmente em prédios civis, mas reitera que o grupo extremista Hamas se “esconde” em locais de grande concentração de inocentes – atribuindo a culpa pelos mortos e feridos ao próprio grupo. Já o Hamas nega qualquer acusação neste sentido, reafirmando que seus ataques se justificam como legítima defesa e em nenhum momento são proporcionais àqueles perpetrados pelos israelenses.

Talvez nunca se descubra efetivamente “quem começou”, mas será que a pergunta realmente a ser feita é mesmo esta? Em uma situação de incerteza como a que se vive no momento, o dilema do prisioneiro se aplica perfeitamente para analisar a falta de confiança e a busca pelo resultado “mais seguro”, independentemente do custo humano envolvido, que Israel e o Hamas vêm alastrando.

Enquanto as duas partes não visualizarem o cessar-fogo e as negociações como a “solução ótima” para o conflito, a opção “trair-trair”, infelizmente, vai continuar predominando. Diante do fracasso do cessar-fogo proposto para ontem (previsto para durar 72h, mas que durou efetivamente apenas 1h30), as negociações entre as partes no Egito saem absolutamente prejudicadas. Iniciativas diplomáticas possuem, por consequência, cada dia menos credibilidade e a desproporcionalidade gigantesca entre as partes em termos de organização militar e infraestrutura tornam os palestinos cada dia mais vulneráveis.

Em respeito às vítimas de ambos os lados, mas especialmente daquele mais frágil, e em apoio aos civis que se encontram em situação de risco absoluto no território palestino, a principal pergunta que deverá ser respondida nos próximos dias é quem, de fato, dará o primeiro passo para cooperar e reconhecer que o ganho coletivo pode representar maiores ganhos individuais também…


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Devo, não nego…

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Nas últimas semanas, o centro do noticiário sul-americano foi a Argentina. Após a dramática derrota na final da Copa do Mundo, os hermanos enfrentam outro desafio, desta vez muito mais sério, com uma nova crise da dívida. A retenção dos pagamentos a credores “abutres” resultou, no dia de ontem, no vencimento do prazo para negociações e, oficialmente, no segundo calote do país em menos de quinze anos.

Para quem não lembra, no ano de 2001 aconteceu a mesma coisa – e a crise atual é consequência daquela. No turbilhão do começo do século XX, a Argentina simplesmente não tinha dinheiro para pagar os credores e fez valer o ditado do “devo, não nego, pago quando puder”. A dívida foi renegociada ao longo da década, e alguns investidores resolveram comprar esses títulos mais baratos – esperando receber de volta os ativos no valor original, lucrando horrores em mais uma das divertidas apostas que apenas o capitalismo nos proporciona. Essa é a fonte do problema – um grupo liderado pelo magnata Paul Singer quer receber centavo por centavo o valor total, enquanto a maioria dos credores (especialmente aqueles que emprestaram o dinheiro originalmente) aceitou uma solução intermediária em que receberiam menos, mas receberiam. O dinheiro (a bagatela de alguns bilhões) foi depositado em banco norte-americano, os “abutres” entram na justiça e com isso, uma corte da cidade de Nova Iorque decidiu o destino de uma nação do outro lado do planeta, em um daqueles momentos bizarros do Direito Internacional.

Tecnicamente, não é um calote – a Argentina tem o dinheiro dessa vez. Mas como ainda há litígio, não pode desembolsar, e por isso o atraso. O cenário tem um impacto negativo, e como usual tenta-se identificar culpados nisso tudo, mas é complicado. Apesar de relativamente imoral, a atitude dos investidores é legítima – já estava definido por acordo que as divergências seriam levadas àquela corte, então não se trata de ingerência dos EUA ou qualquer coisa do tipo. A Argentina apresenta boa fé para o pagamento, mas ao mesmo tempo não deixa de ser a principal culpada pelas desastrosas políticas econômicas do século XX que fizeram de seu PIB, outrora seis vezes maior que o brasileiro, agora cinco vezes menor, e da postura intransigente durante as renegociações.

O que parece certo é que o impacto sistêmico não será tão grande como o de 2001 – provavelmente haverá uma renegociação. Mas as consequências práticas e pontuais serão visíveis. O mercado financeiro sofre com essas crises, e a perda de confiança desvaloriza o Peso, que por sua vez esfria a economia. O resultado é inflação e desemprego. Por sua vez, o problema respinga no Brasil, que vende menos para um de seus maiores parceiros comerciais. Resta saber se o resultado disso fortalecerá Kirchner pelo discurso de combate aos abutres estrangeiros, ou se fortalecerá a oposição e dividirá ainda mais o país.


Categorias: Américas, Economia, Política e Política Externa


100 anos depois: visões da Guerra

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“O dinheiro é a raiz de todos os males”. O famoso adágio, na verdade uma corruptela de citação bíblica, não poderia ser mais verdadeiro quando consideramos um dos maiores terrores que afligiu a raça humana, havendo quem considere que a Primeira Guerra Mundial tenha sido um conflito bem mais violento (apesar de menos mortes) que a Segunda. Nesse caso, o impacto na Economia andou de mãos dadas com a Política, e este será o tema de nossa imersão pelo tema de hoje.

Para entender a guerra de 1914, devemos retroceder um século antes – na época das campanhas napoleônicas, raiz da criação do principal fator político do conflito, o chamado Concerto Europeu. Com a saída de cena do imperador francês derrotado, as potências europeias instituíram um sistema (chamado até por alguns de uma governança primitiva) em que reuniões diplomáticas manteriam a estabilidade entre as potências e evitariam novas guerras ou que um novo Napoleão surgisse. O problema é que, como nos aponta Henry Kissinger, não contavam com um ardiloso general prussiano, Otto von Bismarck, que não apenas conseguiu dar vida ao pior pesadelo da França desde os tempos de Richilieu, ao unificar os germânicos, mas habilmente manteve o sistema estável fazendo e desfazendo alianças enquanto criava um gigante industrial.

O surgimento da Alemanha, incrustada no meio da Europa, causou não apenas um tremor político, mas também econômico. Até meados do século XIX, a Grã-Bretanha, grande potência mundial, o império onde o Sol nunca se punha, se encontrava na liderança econômica e financeira com sua marinha mercante, o maior mercado consumidor e seus banqueiros. No começo do século XX, isso mudou – rivais industrializados como EUA, Alemanha e Japão despontavam. Porém, todos compartilhavam a maior característica da economia internacional no momento – a adoção do padrão-ouro clássico, que garantia o equilíbrio de preços mediante o lastreamento de moedas em ouro com câmbio fixo, não apenas fortalecia a Libra, como permitiu ao mundo conhecer um período extremamente integrado de produção e comércio internacionalizados.

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Porém, o século XX trouxe nuvens sombrias. A balança europeia, sagazmente equilibrada por Bismarck, não teve o mesmo tratamento por parte de sucessores menos doutos como Napoleão III ou o Kaiser Guilherme II, e o resultado foi a guerra Franco-Prussiana, o conflito entre as potências continentais que resultou no sistema de alianças que seria a gênese da I Guerra Mundial. Além da rivalidade geopolítica, a instabilidade crescente era reflexo também de conflitos econômicos, seja a luta por mercados, seja a entrada tardia da Alemanha no clube dos Impérios. O efeito cascata das alianças, que deveria neutralizar as animosidades pela iminência de conflito, não resistiu ao avanço tecnológico e industrial dos beligerantes representado em uma genuína corrida armamentista assentada em linhas férreas, nem ao jogo de provocações entre as potências que estourou naquele julho de 1914.

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A consequência econômica mais profunda e duradoura do conflito, certamente, foi o choque do padrão-ouro e o fim do comércio liberal. Autores como Jeffry Frieden consideram que aquele tenha sido um momento com integração de mercados ainda maior que o atual, pois apesar da tecnologia ainda incipiente haveria menos barreiras ao comércio. A consequência mais famosa, a Crise de 1929, seria um dos frutos dessa instabilidade financeira. Destruídos pela guerra, os países europeus abandonaram o padrão e se afundaram em dívidas com financiamento de títulos norte-americanos. De fato, a entrada dos EUA se deu muito mais pelo risco de calote em caso de derrota de seus devedores do que pelo clamor da opinião pública de lá. A crise de superprodução subsequente, o crack de 29 e o aumento da intervenção estatal nas economias têm seus efeitos até hoje. Se o atual sistema foi moldado em Bretton-Woods, após a Segunda Guerra, a herança de barreiras comerciais e intervencionismo que dificulta o serviço da OMC ate hoje começa com a derrocada dos Europeus em 1918.

Politicamente, a destruição na Europa também significou o fim dos Impérios. A grande onda de independências que sucedeu com o final da Segunda Guerra Mundial não surgiu de uma hora para a outra – a fragilização do poder metropolitano, participação de soldados coloniais e de protetorados na guerra europeia e o despertar ideológico nacionalista teve seus impactos do Oriente Médio à Indochina. Quem perdeu com isso, definitivamente, foi a Inglaterra, alijada de sua posição de centro econômico e político do mundo. Tal posto viria a ser assumido por uma potência relutante, os EUA, que já apresentavam a maior economia do mundo mas fechados ao comércio. Sua progressiva participação em assuntos internacionais e integração aos mercados estrangeiros teria suas consequências nas décadas seguintes.

Enquanto isso, na Europa, o tratado de Versalhes causava enorme pressão econômica e política nos derrotados.  A crise fomentava o conflito entre os socialistas, em excitação após o sucesso da revolução na Rússia, e partidos de extrema direita que tiveram os resultados lamentáveis vistos 20 anos depois.

Por fim, mas não menos importante, a breve participação do Brasil não conflito não deixou de afetar nossa economia de maneira profunda: as oscilações no preço de nossa maior exportação, o café, por causa do conflito, fizeram com que o país adotasse diversas medidas com a finalidade de garantir o preço do grão e proteger o produtor nacional. Apesar de todos os esforços, a situação se mostrou insustentável após a crise de 1929, e com a ascensão de Getúlio Vargas, o País passa lentamente a tomar o rumo da industrialização, ainda que pontual, consumada durante a guerra mundial seguinte. Sem o choque na produção cafeeira decorrente do conflito, a gênese do processo de evolução da matriz econômica brasileira e uma das causas da ascensão de Vargas, a industrialização poderia ter sido muito mais tardia.

Portanto, vemos que a consequência mais profunda do conflito foi o legado do conflito entre medidas liberalizantes e protecionistas. Até hoje os governos enfrentam dificuldades para adentrar mercados enquanto levantam barreiras para proteger seus setores sensíveis, barreiras estas que surgiram em sua versão moderna como um reflexo necessário do esforço de reconstrução pós-guerra. A época dourada do livre comércio encerrada em 1914 não teria semelhante até que caísse a Cortina de Ferro, e ainda assim com um grau menor de integração. Porém, a economia também encontrou efeitos mais pontuais (e positivos) como resultado do desenvolvimento de novas tecnologias. Basta lembrar de coisas hoje rotineiras, como os aviões com fuselagem de metal (desenvolvidos durante a guerra), fertilizantes (cuja necessária fixação de nitrogênio foi descoberta pelo mesmo homem que inventou armas químicas usadas pela Alemanha) e até mesmo a cirurgia plástica (surgida em sua acepção moderna com o pioneiro Harold Gillies tratando de soldados feridos ou desfigurados), que movimentam a economia e trouxeram inúmeros benefícios para a sociedade, tiveram sua origem naquele nefasto quinquênio.


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Série Especial: 100 anos depois: Visões da Guerra

Por

“Filas de rostos pálidos murmurando, máscaras de medo,

Eles deixam as trincheiras, subindo pela borda,

Enquanto o tempo bate vazio e apressado nos pulsos,

E a esperança, de olhos furtivos e punhos cerrados,

Naufraga na lama. Ó Jesus, fazei com que isso acabe!”

(Siegfried Sassoon citado por Eric Hobsbawm em “Era dos Extremos”)

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Introdução

Quando começou o século XX? Para muitos, a resposta parece óbvia. Mas, para as relações internacionais, pode-se dizer que esse marco temporal remete-se ao ano de 1914. Afinal, o que tal data tem de tão importante para autores famosos das mais variadas linhas de pensamento como Eric Hobsbawm em seu livro “Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991)” ou Jeffry Frieden em “Capitalismo Global – História econômica e política do século XX” pontuarem 1914 como o início do último século ou fase do “Tudo o que é sólido desmancha no ar…”*? A resposta, num primeiro momento, é bem simples: 1914 remonta ao início do primeiro grande conflito de proporções globais, a Primeira Guerra Mundial.

No dia 28 de julho de 1914, há exatos cem anos, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia em virtude de instabilidades políticas cujo estopim foi o conhecido assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando em junho do mesmo ano. A partir de então, as grandes potências da época organizaram-se em duas alianças: a Tríplice Entente composta por Reino Unido, França e Império Russo e a Tríplice Aliança formada pelo Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália.

Também conhecida como “Guerra das Trincheiras”, a Primeira Guerra Mundial perdurou até 11 de novembro de 1918, quando fora assinado o Armistício de Compiègne entre a Alemanha e a Tríplice Entente, esta já não mais contanto com a participação russa, mas possuindo o adendo dos estadunidenses, os quais entraram no conflito em 1917. Durante mais de quatro anos o mundo conheceu o que viria a ser “A Era da Guerra Total”**, posteriormente também denominado de “Século das Revoluções”***.

Salão do Palácio de Versalhes palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Salão do Palácio de Versalhes: palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Seu marco temporal final, conforme mencionado acima, perdurou até 1918. Todavia, mesmo passados cem anos, vemos nas relações internacionais contemporâneas uma ordem que se remete e resulta daquele grande conflito. A assinatura do armistício trouxe um ponto e vírgula, mas não um ponto final aos conflitos entre as grandes potências. Exemplo maior dessa constatação veio logo em seguida com as conhecidas Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria.

Mesmo conhecendo o que havia de pior à época, a Primeira Guerra Mundial trouxe inúmeras mudanças ao cenário internacional nos seus mais variados âmbitos, os quais incidiram na política, economia, defesa, estratégia, sociologia, dentre outros assuntos vitais para as relações internacionais. Deste modo, procurando compreender o conflito, bem como entender o que a guerra trouxe de novo ao século XXI, a Página Internacional inicia hoje uma série especial intitulada “100 anos depois: Visões da Guerra”.

Ao longo das próximas semanas, traremos alguns textos com o intuito de trabalhar com os aspectos da Primeira Guerra Mundial citados no parágrafo acima. Dentre os mesmos, procuraremos lançar observações aos seguintes questionamentos:

1) Quais foram os impactos econômicos e políticos do conflito na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos?

2) Quais foram as nuances estratégica-militares e como elas influenciaram o pensamento estratégico no decorrer do século XX?

3) Qual foi o papel do Brasil no conflito? Como se portava o ambiente nacional naquele período e em que se sustentava nossa Política Externa?

4) Quais foram os reflexos da guerra na memória da Europa? No pós-guerra, que faceta os países tomaram após as reconciliações?

5) Qual o legado do conflito para a Segunda Guerra e a Guerra Fria, bem como para o surgimento das Relações Internacionais enquanto campo de estudos/conhecimento?

6) Quais foram os impactos sociais e culturais da guerra? Qual era o ponto de vista das populações que vivenciaram esse momento histórico?

Assim, a Página Internacional não poderia deixar em branco o centenário de um evento histórico que mudou o decurso político e proveu os meios de sustentação para o surgimento das Relações Internacionais, propriamente ditas. Nosso objetivo será incitar o debate e observar como aproximadamente quatro anos (1914-1918) tiveram no século XX e ainda possuem, em pleno século XXI, influência direta nos ordenamentos internacionais. Os anos que despedaçaram a Europa foram os mesmos que criaram um novo meio de se fazer e viver a política internacional.

Boa leitura!

* O excerto faz jus ao título do sexto capítulo do livro de Frieden, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “Tudo se desmorona, 1914-1939”.

** O excerto faz jus ao título do primeiro capítulo do livro de Hobsbawm, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “A Era da Catástrofe”.

*** O excerto faz jus a uma frase do documentário “Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá” do cineasta Silvio Tendler.


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Boa educação?

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O que é um insulto? Pode ser uma expressão usada para expressar algum descontentamento e frustração, praguejando contra si mesmo ou o universo, mas geralmente é algo utilizado para ofender o interlocutor. Rebaixar suas características morais, apontar algum sinal de inferioridade física ou social, depende do contexto e do entendimento do que está sendo comunicado – amigos podem se ofender com naturalidade, por vezes sem o sentido de insulto, mas experimente fazê-lo a um colega de trabalho.  Existem contextos que não podem aceitar esse tipo de conduta, e um deles é a diplomacia. Por isso causa tanta perplexidade a inusitada declaração de um porta-voz de Israel sobre a crítica brasileira ao conflito em Gaza: após o Itamaraty ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv (o que é considerado um sinal de alerta nas relações diplomáticas), Israel qualificou a atuação do País como “um anão” no cenário internacional. A resposta veio polida, por meio do chanceler Luiz Alberto Figueiredo, classificando a morte de civis como inaceitável e desproporcional. A tréplica veio em tom de deboche lembrando a lavada da Alemanha sobre o Brasil na Copa como exemplo de desproporcionalidade, e parece que novos capítulos virão.

É interessante notar que a diplomacia brasileira é uma das mais cautelosas do mundo – mantém boas relações com todos os países da ONU, evita opinar sobre temas mais arriscados ou que possam ter repercussões futuras, como a responsabilidade de proteger, e apresenta um dos corpos diplomáticos mais capacitados (basta comparar com as coisas que apareceram quando vazaram as correspondências norte-americanas…). Por isso soa tão… estranho, para dizer o mínimo, esse tipo de indelicadeza. É como se fosse gratuita.

Desde tempos antigos, o respeito e decoro fazem parte da relação entre nações estrangeiras com representantes oficiais – nos tempos dos reis e imperadores, o embaixador representava o papel do próprio soberano! Porém, a evolução histórica mostra que as práticas se adaptam ao tempo, e Hedley Bull já dizia que no século XX temos uma mudança bem atípica nesse cenário que ele denominava de “diplomacia do insulto”. Basicamente é usar os canais oficiais para desqualificar países adversários em uma guerra de palavras, por vezes de baixo calão. Basta lembrar do enxofre do diabo sentido por Hugo Chavez na ONU, Kadaffi rasgando a carta da instituição ou a Coreia do Norte chamando Barack Obama de um “macaco malvado”. É possível notar que esse fenômeno acontece por conta  de outro fenômeno, o da diplomacia presidencial, em que uma figura única concentra o papel de decisão e interlocução de questões da sua política externa, sem muito controle do corpo diplomático. Mas no caso de Israel, o descontentamento brasileiro vem justamente pelo ultraje de ter sido algo lançado pelo porta-voz do MRE deles.

Que tipo de motivação leva a essa resposta? Uma das justificativas de Israel é combater terroristas. Em uma interpretação maniqueísta, o Brasil expressar indignação com a morte de mulheres e crianças faz com que seja simpático aos que Israel denomina terroristas? A preocupação com o respeito a garantias fundamentais (sem esquecer do adágio de que em casa de ferreiro o espeto é de pau…) é sintoma de uma diplomacia irrelevante? Esta parece ser a lógica que transparece no comunicado. O que surpreende, visto que por meio do Mercosul o Brasil é um dos poucos países com acordos de livre-comércio com Israel. Ou ainda o fato de que um dos principais articuladores da criação do Estado de Israel foi o brasileiro Osvaldo Aranha, e que o país presidiu a sessão da ONU que o criou. Considerar um país responsável pela sua existência como irrelevante parece, no mínimo, contraditório.

A troca de ofensas, por mais brandas ou debochadas, mostra que a situação de Gaza chega a um ponto em que a indignação supera a ponderação. E deixa transparecer a blindagem que existe no cenário internacional à atuação israelense. Basta verificar o resultado da votação de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (que, francamente, não tem muita credibilidade sendo que já foi presidido por verdadeiros campeões da justiça como a Líbia) para o estabelecimento de uma investigação de crimes humanitários nessa ofensiva israelense em que os EUA foram o único país contrário à resolução (e com os aliados europeus se abstendo, em maioria). No fim das contas, Israel não precisa se preocupar muito com dissabores diplomáticos e pode subir o tom de voz quando quiser pelo simples fato de ter um aliado superpoderoso que pode e vai abafar qualquer contratempo. Mas também fica claro que, ao emendar às justificativas de praxe uma carga de insulto, tenta-se mudar o foco da questão ou evidencia-se a falta de argumento. Como diz a sabedoria popular, “apelou, perdeu”. E isso não contribui em nada para legitimar a posição de Israel nesse conflito em que cada vez mais parece lhe caber o papel de vilão.


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