Peregrinação

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kirchner

Religiosos do mundo todo realizam viagens a lugares místicos ou sagrados para seu credo com a intenção de se aproximar da respectiva divindade, cumprir alguma penitência ou simplesmente fazer turismo. Nos últimos dias a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, perfaz seu calvário em busca da solução para o poço de problemas financeiros que se tornou seu país.

Primeiramente, um encontro com o papa Francisco no sábado. Após a troca de presentes (incluindo uma pintura da onipresente Evita, de modo irônico a resgatar a fonte inicial dos problemas platinos, a praga do peronismo) ficou claro que, apesar das rusgas no passado, o papa demonstra apoio à presidente em suas reivindicações com esta oportuna passagem pelo Vaticano. Como visto há algumas semanas, a Argentina tenta em vão pagar sua dívida com credores internacionais, que impediram o repasse dos recursos por discordarem do valor dos juros. Talvez, mais que o apoio do “soft power” eclesial, Cristina precise de um milagre para dobrar Paul Singer, o líder dos credores.

Daí vem a segunda parte da sua peregrinação – em Nova Iorque, onde se prepara para a Assembleia Geral da ONU daqui a dois dias, Cristina teve reunião hoje com George Soros. Outrora um dos “vilões” da economia internacional (e apontado por muita gente como culpado pela crise asiática de 1997) o megainvestidor tem muito interesse na solução do impasse, já que é um dos credores favorável ao pagamento. Sua intercessão no “clube dos magnatas” pode vir a ser bem mais oportuna para a solução dos problemas de Cristina.

Porém, de nada adianta resolver a questão das contas quando permanece a crise doméstica. Há quatro dias foi aprovada (na verdade “ressuscitada”) uma lei que controla preços e taxas de lucro, semelhante a uma implantada na Venezuela no começo do ano. A tentativa desesperada de conter a inflação galopante (na casa de 40%) a expensas do setor privado pode resultar, assim como no país bolivariano, em desabastecimento e mercado negro. Mas isso não abala a presidente, que tem entre seus planos a inusitada (apesar da não inédita) ideia de mudar a capital de Buenos Aires para a pacata Santiago del Estero, no noroeste do país, com menos de 300 mil habitantes e longe de tudo – inclusive dos protestos. Afinal, se a ideia deu certo no Brasil, por que não? A cada dia o noticiário mostra que, com tais políticas, cada vez mais um milagre seja necessário dentro da Casa Rosada.


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O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo

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Fome no mundo

Que a fome é um dos mais graves problemas sociais no mundo ninguém desconhece, mas não deixa de ser assustadora a estimativa de que, ainda nos dias de hoje, uma em cada nove pessoas no planeta sofre de fome crônica, totalizando aproximadamente 805 milhões de indivíduos em tal situação.

O dado foi divulgado essa semana com o lançamento do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo” (SOFI 2014, na sigla em inglês), por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

As agências romanas, que lidam mais diretamente com o tema da alimentação no sistema das Nações Unidas, publicizaram as últimas tendências no que se refere ao combate à insegurança alimentar e nutricional. Apesar de os números ainda demonstrarem que grandes esforços internacionais ainda são necessários na luta contra a fome, as perspectivas não deixam de ser positivas.

Na última década, cerca de 100 milhões de pessoas deixaram de passar fome, em um percentual mundial que baixou de 18,7% para 11,3%, segundo os dados do relatório. Nos países em desenvolvimento, a diminuição é ainda mais expressiva, caindo de 23,4% para 13,5%. Lembrando que a redução pela metade da fome no mundo se enquadra no primeiro dos “Objetivos do Milênio” até 2015, meta já alcançada por 65 países em desenvolvimento no mundo, dentre os quais se encontra o Brasil.

O estudo do caso brasileiro demonstra que os esforços empreendidos notadamente a partir do Programa “Fome Zero” têm garantido bons resultados e uma redução de 75% da pobreza extrema no país entre 2001 e 2012. Entretanto, dadas as proporções continentais de nosso país, o número de pessoas que permanece em situação de fome ainda é representativo: cerca de 16 milhões de pessoas (8,4% da população brasileira) – o que representa, por exemplo, o total de habitantes de Portugal e Finlândia somados…

O problema da fome tem solução, isto é fato. Engano é apenas pensar que se trata simplesmente de uma questão de doação de alimentos – pelo contrário, a fome representa um problema complexo que requer ações múltiplas e coordenadas em seu combate. O acesso aos alimentos deve ser viabilizado em consonância com o acesso à terra, a serviços públicos de qualidade, à tecnologia, etc. – um esforço integrado que viabilize a consecução do direito humano à alimentação adequada para a totalidade dos cidadãos do planeta.

[No site da FAO podem ser encontradas maiores informações sobre o tema: http://www.fao.org/publications/sofi/en/]


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Há… uma semana!?

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relogio

Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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O abacaxi ucraniano

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Ukraine soldier Russia Slovyansk

A quantas anda a Ucrânia? Talvez a palavra-chave seja insatisfação, que está aparecendo por todos os lados.

Semana passada um cessar-fogo iniciado no dia 5 tem tido sucesso (leia-se – respeitado por quase todos) em evitar as mortes que pipocavam diariamente em confrontos entre forças ucranianas e separatistas. Mas nem tanto – confrontos isolados levaram a pelo menos seis mortes que abalam o tênue acordo. Como se vê no caso de Israel e Palestina, sempre há aqueles mais beligerantes dispostos a arruinar o esforço de entendimento.

Enquanto isso, o parlamento da Ucrânia tenta resolver o impasse agradando a todos – na terça ratificou o famigerado acordo de comércio com a Europa e concedeu status especial às regiões em distúrbio. Basicamente, concede um grau mínimo de autonomia a essas localidades por três anos e possibilitando que façam eleições além de anistiar os combatentes (exceto aqueles envolvidos na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines) e atender a maior parte das reivindicações sem que os separatistas precisem largar Kiev pra trás. Na ideia, reivindicações de todos os lados são atendidas. Na prática, é praticamente a aceitação de que estão prestes a perder nacos de seu território (tendo sido aceito com relutância pelo presidente Poroshenko), enquanto o acordo com a União Europeia, visto como um passo necessário ao ingresso no clube europeu, irrita tanto os líderes separatistas quanto Moscou.

Por fim, nesta semana entraram em vigor as mais novas sanções da UE, EUA e Canadá contra a Rússia, reflexo direto da crise na Ucrânia. São mais diretas pois afetaram não apenas o acesso a mercados financeiros, mas também o setor petrolífero e empresas estatais russas. Desnecessário dizer quem fica insatisfeito nessa história, mas a Rússia o faz com classe – o presidente Putin afirma que é um esforço ineficaz e que pode até mesmo ajudar a Rússia em longo prazo, enquanto quer levar os países ocidentais à OMC por essa “injustiça” comercial. No fim das contas o efeito colateral é um rejuvenescimento da OTAN e, apesar do conflito ser uma possibilidade remota (pra não dizer impossível), a aproximação que se desenhava entre Rússia e EUA nos últimos 20 anos parece ser coisa do passado.

O centro de tudo, é claro, é quem mais sofre. A Ucrânia sofre o risco de fragmentação, instabilidade interna constante ao longo do ano e consequências econômicas nocivas. A depender do resultado do plebiscito na Escócia, os grupos separatistas podem ganhar ainda mais força. Mas sempre fica a lição de que, no mundo atual e interdependente, as consequências vão muito além das suas fronteiras. Pelo menos eles ainda têm a amizade inabalável do grande Canadá.


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O “sim” da discórdia?

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Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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Economia doente

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A epidemia de ebola na África, que ocupa as manchetes por causa das mortes e da instabilidade política, já está migrando para outro setor do noticiário – a extensão da epidemia, a longa duração e a quantidade de pessoas afetadas já pode causar impactos reais na economia dos países afetados.

Economia em si é algo ligado diretamente às causas dessa epidemia, da falta de condições sanitárias e de profilaxia que levam ao alastramento do vírus, à ganância das indústrias farmacêuticas que deixam de lado o tratamento de doenças tropicais como malária já que, dificuldades inerentes do combate a viroses à parte, não rendem lucros como remédios para calvície ou outros problemas mais urgentes para o primeiro mundo. Porém, aqui falamos de consequências reais e imediatas. Ao longo das semanas de epidemia, seguindo o rastro de mortes (milhares a cada semana) se seguiram a retirada de empresas, investimentos, redução ou completa suspensão da operação de linhas aéreas e problemas de produção, desabastecimento e saques. Apesar do auxílio externo, países como Guiné, Serra Leoa e Libéria terão sua economia afetada em médio prazo por conta dos efeitos imediatos e a recuperação pode levar muito tempo já que não existem estimativas confiáveis de quando a doença será controlada. Nesse caos, Serra Leoa chegou à medida extrema de decretar uma quarentena nacional por três dias na tentativa de identificar mais facilmente as pessoas afetadas.  O perigo de expansão da doença para outros países, especialmente a Nigéria, acima de tudo é um risco humanitário, mas que pode piorar a situação econômica da região.

Historicamente, não é nenhuma novidade. Na esteira da Primeira Guerra Mundial, a crise da Gripe Espanhola causou ainda mais prejuízos econômicos no mundo – e mudou até mesmo a política do Brasil já que vitimou o presidente eleito Rodrigues Alves em 1919. Nem precisamos dizer o resultado da Peste Negra na Europa durante a Baixa Idade Média. Porém, a crise do ebola se assevera por conta das condições de propagação da doença e pelo fato de serem economias que apesar dos pesares conseguiam manter uma taxa de crescimento estável nos últimos anos. Com isso, o ebola vai conseguir o feito de ser uma doença que não apenas afeta os humanos, mas também está adoecendo as próprias nações .


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Imagem da Semana

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Ebola

E um dos assuntos cujas imagens e dados mais têm impressionado é a crise da epidemia de Ebola, na África Ocidental, que já tem mais de 3.000 casos e 1.550 mortes confirmadas, segundo o último boletim oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS). A transmissão, principalmente em Serra Leoa, na Libéria e na Guiné, ainda não foi controlada e os casos se multiplicam a cada dia.

Essa semana houve o primeiro caso confirmado de um cidadão britânico, o qual foi removido em operação digna de filme de ficção científica (foto), com a grande mídia e a Europa em comoção diante da possibilidade, ainda que remota, de que a epidemia se alastre para outros continentes.

O drama que está sendo vivido pela região afetada denota as dificuldades em se controlar uma epidemia deste porte sem infraestrutura para atendimento, com comunidades cada dia mais isoladas e sem condições mínimas para recuperação (alimentos e medicamentos).

O risco de que se generalize e se estigmatize (ainda mais) o continente africano diante da presente situação é claro. Clara também é a necessidade de disseminação da informação e de apoio adequado aos países para que criem localmente condições de superação da epidemia com a urgência que a situação demanda…

[Para dúvidas frequentes sobre Ebola, acesse a página oficial do Ministério da Saúde sobre o tema.]


O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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100 anos depois: visões da guerra

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Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

O legado empírico e teórico para as Relações Internacionais

A Grande Guerra, mais conhecida como Primeira Guerra Mundial (IGM), começou o período bélico do século XX, ou seja, iniciou a sequência do que viriam a ser longos anos e décadas de conflito direto ou indireto entre potências de determinadas conjunturas. Obviamente, tratam-se da Segunda Guerra Mundial (IIGM) ocorrida entre 1939 e 1945 e da Guerra Fria, a qual terminou por volta de 1990, quando, em 1989, caiu o famoso Muro de Berlim e, em 1991, finalmente ruiu o Império Soviético. Se, por esse lado, houve mais destruição territorial e desmoronamento de Estados-nações, por outro as Relações Internacionais, com letras maiúsculas, vieram a conhecer seu período de existência, propriamente dito. Momentos nos quais essa área tomou corpo como ciência e trouxe consigo os grandes debates internacionalistas. Pode-se dizer, de outro modo, que da IGM o movimento empírico trágico dos conflitos sustentou o curso expressivo teórico dessa arena mundial.

Por conseguinte, o legado empírico da IGM foi ter conformado o futuro das relações econômicas e geopolíticas entre as principais potências. O pontapé da IGM foi o assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, fazendo com que a Áustria-Hungria declarasse guerra à Sérvia. Formaram-se, de lados totalmente opostos, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália).

Até aqui, nada de novo na “Guerra das Trincheiras”. Entretanto, somente em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Entente. Isso, inclusive, vai ser um traço característico do país: adentrar os conflitos em momentos posteriores ao seu início e sempre ter como palco territórios para além mar. Como se sabe, a Aliança foi a grande derrotada da IGM, quando, em 1918, fora assinado o Armistício de Compiègne e, em 1919, tomou forma o muito conhecido Tratado de Versalhes. Na teoria, o acordo simbolizou a “estabilidade e paz futura” nas relações intereuropeias. Todavia, na prática, proveu a culpa por todas as mazelas da guerra à Alemanha, a qual saiu derrotada e fracassada das mesas de negociação.

Adolf Hitler

Adolf Hitler

Já no final da IGM e logo após a mesma, essa postulação de vitoriosos e derrotados trouxe consigo a propagação de duas ideologias que marcaram fortemente a IIGM e a Guerra Fria, quais sejam o Nazifascismo e o Socialismo tendo como lideranças a própria Alemanha (acompanhada da Itália) e a Rússia, respectivamente. Tem-se, aqui, logo no começo do século XX, a faísca das relações interestatais procedentes. O Nazismo tornou-se ponto de apoio alemão, fez surgir lideranças como Adolf Hitler que invadiu a Polônia em setembro de 1939 e começou a IIGM. Por sua vez, o Socialismo Russo ganhou devotos e serviu de base para a criação da União Soviética, que mais tarde viria a ser um dos lados da balança no conflito frio.

A marca da Guerra Fria: o bipolarismo entre Estados Unidos e União Soviética

A marca da Guerra Fria: a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética

A Alemanha também perdeu a Segunda Grande Guerra, a Europa ficou devastada e estatísticas somam aproximadamente 60 milhões de mortos nos seis anos de pleito. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu logo após, em 1948, como outra tentativa de se estabilizar a paz internacional. Mas, de caráter central, da IIGM tornaram-se potências os Estados Unidos e a União Soviética, os quais duelaram, mesmo que indiretamente, na conhecida Guerra Fria. Episódios como a Crise dos Mísseis de 1962 mostram a importância do conflito que terminou por volta de 1990, quando a União caiu e os Estados Unidos saíram vencedores. De lá pra cá, o mundo viu-se unipolar, multipolar e uni-multipolar. Em pleno século XXI, cogita-se uma possível queda estadunidense frente a uma elevação constante da China comandando iniciativas a exemplo dos BRICS. O debate é recente e ficará para o futuro próximo decidi-lo. A única certeza é a de que a atual conjuntura é fortemente impactada pela IGM.

De modo paralelo, mas convergente, o legado teórico da IGM foi ter provido a criação, propriamente dita, das Relações Internacionais enquanto área de conhecimento, campo de estudos e/ou ciência. Foi em 1919, mais precisamente na Universidade de Gales, no Reino Unido, que se criou a cadeira Woodrow Wilson de Relações Internacionais, tornando-se a primeira instituição mundial a adotar formalmente a disciplina acadêmica. Essa data, inclusive, abrange o período inicial do livro de Edward Carr intitulado “Vinte anos de crise – 1919-1939”, conhecida obra retratante da geração do Primeiro Debate Teórico das Relações Internacionais: Realismo versus Idealismo/Liberalismo.

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

A arguição de ambos os lados vai ter como ponto de fundamento justamente o que fora dito anteriormente, ou seja, a ótica da guerra e a busca plena e final de uma ordem de paz. Teóricos como Hans Morgenthau e Raymond Aron foram fortemente influenciados pela IGM, IIGM e Guerra Fria, fatos que comprovaram e deram sustentação às suas obras literárias. Se, de um lado, realistas se baseavam nas relações entre Estados e na anarquia internacional, de outros os liberais postulavam que um mundo melhor e mais pacífico deveria ser buscado.

Dessa primeira contenda proveio o Segundo Debate Teórico das Relações Internacionais com oposição entre Tradicionalismo versus Behaviorismo por volta da década de 1950. Aqui tomou forma uma querela metodológica no se pensar “Como fazer as Relações Internacionais?”. A explicação da realidade se opunha à compreensão da mesma e o novo “pensar científico” proveu as bases para o que veio a seguir. Em 1970/80, o Terceiro Debate Teórico das Relações Internacionais, o Neorealismo versus Neoliberalismo (Neo-Neo) surgiu contrapondo nomes como Kenneth Waltz e Robert Keohane. Obviamente, novas nuances surgiram aqui, mas a velha ótica do conflito e a busca por cooperação permaneceram da herança do primeiro debate pós-IGM.

Similarmente ao legado empírico da IGM para o atual século XXI, o teórico também se encontra em constante mutação e volubilidade. Já se postula a geração de um Quarto Debate Teórico das Relações Internacionais entre Positivismo versus Pós-Positivismo. É daqui que provêm teorias como Construtivismo, Teoria Crítica, Feminismo, Pós-Modernismo, etc. Se, como dito lá atrás, a China e os BRICS colocam reticências na conjuntura geopolítica mundial, pode-se afirmar o mesmo dessas novas concepções conceituais e teóricas, posto que elas também questionam os discursos dominantes anglo-saxões das Relações Internacionais.

Permanecem a dúvida e a incerteza para com as atuais conjunturas das relações internacionais, com letra minúscula, e das Relações Internacionais, com letra maiúscula. De todo modo, temos a confiança de que a IGM carrega consigo um imenso legado empírico e teórico para essas áreas. O jargão parece senso comum. Todavia, seria infundável afirmar que a Grande Guerra não deteve aspecto central nas relações internacionais. Todo esse jogo econômico e geopolítico do século XXI fundamenta-se lá atrás, entre 1914 e 1918, justamente no nascedouro da “ciência internacional”.


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