As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz


O mundo às urnas

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Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


Categorias: Américas, Brasil, Europa, Política e Política Externa


Imagem da Semana

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Independentemente dos resultados das eleições de hoje por todo o país, a imagem do dia reflete uma triste, apesar de recorrente, situação em época eleitoral: lixo espalhado pelas ruas, principalmente nas proximidades de locais de votação pelo Brasil afora. A foto acima é do Rio de Janeiro e ilustra o extremo de uma situação de poluição eleitoral.

Se a Lei das Eleições (n. 9.504/97) determina que o recrutamento de eleitores ou a chamada propaganda de “boca de urna” pode resultar em multa e detenção, a poluição nas ruas revela uma forma velada de influenciar os eleitores indecisos na última hora, o que, indiretamente, não deixa de constituir também crime eleitoral.

Aliás, toneladas de materiais (panfletos, cavaletes, faixas, etc.) têm sido apreendidas em todo o país durante o período pré-eleitoral por estarem dispostas em locais/horários irregulares. O Distrito Federal bateu o recorde nacional: 350 toneladas de propagandas ilegais – cuja destinação final, ao menos, deverá ser a reciclagem

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Um ideal para lutar?

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1out2014

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


Categorias: Conflitos, Cultura, Defesa, Segurança


Eleições, sociedade e mídia

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Este post, diferente de outros que já escrevi, é muito mais um desabafo do que uma análise. Não é e nem deve ser interpretado como uma apologia a qualquer candidato a Presidente da República ou a qualquer outro cargo eletivo. Ele é o relato da frustração temperada pela desesperança: um povo que não conhece a si e nem a própria história é incapaz de transformar seu destino.

Os fatores dessa frustração serão concentrados, neste texto, em dois atores fundamentais do atual ciclo eleitoral: sociedade e mídia. Nesse período, praticamente todos, sem exceção e principalmente quem nunca se interessou, tornam-se especialistas em política. Por isso, não raro, constata-se a elevação do nível de bobagens divulgadas, a ascensão do sentimento de intolerância e o baixo nível do debate em torno de programas de governo – os quais, na verdade, deveriam ser de Estado.

Em primeiro lugar, as ideias e as propostas dos presidenciáveis – à exceção daqueles que conhecemos – são cada vez menos direcionadas para os eleitores e cada vez mais direcionadas para mídia. Importa aquilo que repercute, não necessariamente o que é essencial para o país. E a repercussão tem um preço: a construção de estereótipos, que alimentam a desinformação e a intolerância. “Isso é coisa de PTralha!” ou “Os tucanos privatizaram o país!”. Mesmo quem propõe o fim dos estereótipos – ou da polarização, como queiram – ou fica no vazio, ou fica na farsa.

Nós, sociedade, caímos na armadilha. Talvez por causa de nossa volúpia por simplificações grotescas. É mais fácil aceitar e reproduzir uma informação, especialmente quando ela reforça nossa identidade e convicções como contrárias àquelas que negamos, do que ir atrás da informação. O compromisso com a veracidade acabou. Prevalece a desinformação ou, pior, a falsificação da informação combinada com a intolerância e o sensacionalismo, que também são utilizadas nas campanhas. Um exemplo claro é a afirmação de que o Brasil propõe dialogar com terroristas que cortam cabeças. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer os princípios constitucionais de nossas relações exteriores e a tradição diplomática brasileira.

Em segundo lugar, ou a voz das ruas dos protestos de junho de 2013 não foi ouvida pelos presidenciáveis, ou o povo não soube o que pedir nem o que esperar. No máximo, apenas dois dos candidatos poderiam acolher essa voz, porém, estão bem abaixo nas intenções de voto. Isso leva inevitavelmente a seguinte dedução: o povo é radical e genérico no pedido, mas conservador na mudança, seja por temor, seja por inaptidão. Daí resulta a escolha na hora de votar, preferindo a opção “menos pior”, que pode ou não ser diferente da situação, em vez da melhor opção, aquela em que se confia de fato.

Outro ponto que cabe observar é a inversão das prioridades no debate eleitoral. São os temas polêmicos – legalização das drogas, aborto, criminalização da homofobia, etc. – que ocupam o centro do debate e não as políticas e as estratégicas dos programas de governo que contemplam esses temas. Não faz sentido discutir legalização das drogas e aborto, por exemplo, descolados dos programas para saúde e segurança públicas, bem como sua integração com outras políticas públicas. Dizer se é favorável ou contra não é o mesmo que propor ações consonantes com as próprias posições no contexto de uma ampla e integrada estratégia. Em grande medida, a mídia é a responsável por polemizar, por canalizar o debate em torno desses temas estruturados, não estruturantes, deixando a sociedade à deriva da audiência.

Finalmente, a votação clarifica o profundo abismo social no Brasil. Ela praticamente reflete uma versão adaptada da luta de classes das análises marxistas. Quem tem menor renda, vota no PT; quem tem mais, no PSDB (ou PSB). Ambos se criticam pelas razões inversas, enxergam-se como mutuamente excludentes e cultivam um sentimento recíproco de intolerância. Uns dizem, por exemplo, que políticas de transferência de renda são compra de votos, outros propagam o apocalipse dos programas sociais. Convém lembrar que nenhum candidato propõe o fim de programas dessa natureza. Os argumentos dos dois são injustificáveis. Trata-se de uma política de Estado, aliás, tão velha e praticada quanto à própria Economia. É, antes, um problema de ênfase – investir demasiadamente em uma área em detrimento de outra –, não motivo de intolerância e de segmentação social. Isso deve ser compreendido e aceito pela sociedade sem titubear.

Está chato! Sinceramente, ou nós – e também a mídia – evoluímos conscientemente enquanto seres pensantes em política, ou nós deixamos, de acordo com o senso comum, esse assunto relegado na discussão – como futebol e religião – para evitar brigas. Não é assim que se pensa no futuro do país, pela exclusão das diferenças. É, sim, pelo diálogo construtivo das alteridades, indispensável ao jogo democrático. Mas talvez isso fique para 2018, quando voltaremos a falar de política novamente.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Há um ano...

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Marina

A primeira semana de outubro de 2013 tinha um noticiário agitado (e trágico) ao mesmo tempo em que, profeticamente, jogava luzes sobre algo que está por acontecer exatamente um ano depois.

Primeiro, uma postagem sobre o naufrágio de um navio de refugiados, abordando as condições desumanas a que são submetidos, encontra ecos em 2014 com a recente notícia da catástrofe no mar de Malta que vitimou mais de 500 pessoas entre refugiados sírios, egípcios e palestinos rumo à Europa. Ainda nessa semana, as notícias de maus-tratos a refugiados em abrigos na Alemanha expõe ainda mais o problema da adaptação (e da tolerância) a estes. Trata-se de um desafio a ser enfrentado pela comunidade internacional como um todo, já que o aumento da crise na Síria, as ofensiva contra terroristas no Oriente Médio e possivelmente a crise da Ucrânia vão gerar um fluxo crescente de refugiados para a Europa, e não será tolerável que continuem a enfrentar os riscos da viagem clandestina ou do naufrágio em embarcações superlotadas.

Porém, em postagens mais “domésticas”, o destaque ficava para a “imagem da semana”, com o impedimento da criação do novo partido de Marina Silva, e a postagem seguinte consagrando sua aliança com Eduardo Campos para o pleito presidencial de 2014. Como esperado na análise, Marina entrou como vice do ex-governador de Pernambuco, mas quis o destino que viesse a assumir a chapa pelo trágico falecimento de Campos e causasse uma reviravolta no cenário eleitoral. Surpreendentemente, seja pelas condições em que assumiu a candidatura, seja pelo resgate de uma parcela do eleitorado fiel a ela, o fato é que estaria tendo um desempenho muito superior ao candidato falecido. Hoje, apesar de pesquisas serem algo incerto, pode-se dizer que se apresentam chances realistas de enfrentar a atual presidente no segundo turno. Neste fim de semana, com o primeiro turno, saberemos quais os resultados de um cenário que se desenhava há pouco mais de um ano. E as consequências para o Brasil, especialmente na arena internacional, dependem também disso.

E vamos que vamos, postando e relembrando…


Categorias: Há um ano...


Democracia, pero no mucho

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O mundo se volta para China esperando a reação de Beijing aos protestos em Hong Kong.  Iniciados nesse fim de semana, à moda dos protestos de ocupação europeus e nos EUA, pequenas multidões se aglomeravam em espaços públicos pedindo por democracia. Apesar de nem chegar perto da truculência de 1989 (mesmo por que o governo da região é autônomo), a polícia honconguesa fez o que qualquer polícia do mundo faria e chegou atirando gás nos manifestantes. A reação, como qualquer massa de manifestantes no mundo faria, foi de se aglomerar ainda mais em protesto à violência policial. O resultado é que hoje temos 80 mil pessoas nas ruas e uma incógnita.

A razão de tudo isso são as eleições do governante da ilha. Desde que deixou o domínio inglês, Hong Kong funciona num modelo de “um país, dois sistemas”, com uma autoridade semiautônoma na ilha e funcionando no capitalismo de mercado. Um dos pequenos benefícios disso era a capacidade de escolher os próprios governantes. Nisso a China não mexe – mas neste ano, porém, resolveram que é o governo central quem vai escolher os candidatos, possivelmente limitando aos amigos de Beijing. Ou seja, o povo de Hong Kong vai escolher seus líderes – mas entre os escolhidos pela China. E isso enfureceu a massa.

Agora o governo insular fica em uma encruzilhada. Tem de reprimir os protestos pois ainda é assunto de sua responsabilidade, e trazer Beijing para este cenário seria preocupante, sem contar que desagradar o governo central seria ainda pior. Por outro lado, angariar a insatisfação da população sem atender às demandas pode resultar em ainda mais protestos e a coisa sair do controle. Sem contar que Hong Kong tem uma transparência muito maior que outras partes da China para a mídia internacional, então os resultados podem ser catastróficos. A própria China já se move no sentido de tentar abafar o caso, seja para evitar intrusão estrangeira, seja para que o exemplo não espalhe ideias estranhas para outras regiões menos satisfeitas do país, mas qualquer repressão mais pesada pode ter o efeito inverso e espalhar ainda mais insatisfação como quase todas as revoltas do mundo nos últimos 3 anos demonstraram.

Desdobramentos internacionais à parte, talvez a grande lição disso tudo… seja para o Brasil. A uma semana das eleições nacionais, onde insatisfação com os rumos da política se tornam piada, fúria retórica vazia ou indiferença, a revolta do povo honconguês diz muito sobre espírito cívico, sem apelar às bobagens do nacionalismo ou da violência.


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Perfumes revolucionários?

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Perfumes

Uma das notícias intrigantes da última semana havia sido o anúncio, por parte da empresa pública de cosméticos cubana Labiofarm, do lançamento de duas novas fragrâncias intituladas… Ernesto e Hugo. A dita “homenagem” ao cubano Ernesto Che Guevara e ao venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção – não pelo tipo de fragrância ou pelo interesse dos amantes de perfumes pelo mundo afora, mas principalmente pelo impacto político de se transformar o nome dos líderes revolucionários comunistas em marcas para venda no mercado internacional…

Segundo o laboratório, a escolha dos títulos se deu após pesquisas junto ao público e as famílias de Che e Chávez teriam autorizado o uso de seus nomes para este fim. Nas palavras de Mario Valdés, diretor da área de investigação e desenvolvimento da Labiofarm, “Hugo tem notas cítricas e amadeiradas que dão uma expressão de masculinidade” e “Ernesto tem algo de essências frutadas com elementos de carvalho, que dá um sentido varonil” […]. Por mais que possa parecer irônico, os produtos foram efetivamente anunciados com previsão de lançamento no mercado no início de 2015.

Ontem, contudo, o governo cubano se pronunciou por meio de nota no jornal estatal Granma, caracterizando como “irresponsável” o anúncio dos perfumes, proibindo sua fabricação sob a justificativa de que “os símbolos da revolução são e sempre serão sagrados”.

Discussões entre o governo cubano e suas empresas à parte, o episódio traz a particularidade de mostrar como importantes símbolos políticos podem ter sua imagem capitalizada por empresas que alcançam um nicho de mercado em ampla expansão. Quem nunca viu alguém usando uma camiseta com a clássica estampa de Che Guevara sem nada saber sobre sua história em si? A ideia de “revolução” se torna, cada dia mais, uma mera marca para ser comercializada em prateleiras pelo mundo afora enquanto a real importância política de figuras marcantes (ainda que polêmicas) parece se banalizar diante de aparências que maquiam a complexidade dos interesses políticos e econômicos em jogo…

[PS: Dois outros modelos femininos estavam também sendo produzidos pelo laboratório: Amalia, em referência a Amalia Simoni, importante nome feminino durante a Revolução Cubana, e Alba, em alusão à “Alternativa Bolivariana para as Américas”…]


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Clube do Bolinha – ou das bolinhas?

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Na semana em que a questão de gênero teve grande relevo com o discurso da Emma Watson na ONU, vem da Espanha mais um caso de como isso é um problema ainda.

Há alguns dias a seleção espanhola da Copa Davis (a Copa do Mundo de tênis) foi eliminada pelo Brasil e ficou de fora do grupo especial. Desfalques espanhóis e dedicação dos atletas brasileiros à parte (que foi realmente sensacional), seria mais ou menos como se o Brasil (uma “superpotência” do esporte) perdesse para o Paraguai (que tem bons atletas mas não faz nada de excepcional há anos) e ficasse fora da Copa no futebol. E claro que cabeças rolaram – especificamente do técnico, o ex-jogador (que já foi número 1 do mundo) Carlos Moyá.

E o gênero com isso? Para seu lugar, foi chamada Gala León, também ex-tenista e diretora esportiva. A reação mais contundente foi de Toni Nadal (tio do Nadal famoso), que considerou a escolha equivocada e que a técnica terá dificuldades “no vestiário” por se tratar de uma equipe masculina. A repercussão negativa dos comentários, tachados de machistas a antiquados, revela um problema nada velado na sociedade e que fica ainda mais evidente no mundo tradicional do esporte.

É comum vermos homens dirigindo equipes femininas ou atletas mulheres. Mas o inverso é uma raridade – quando ocorre, geralmente é algo por laços familiares ou é temporário. Pode-se argumentar sobre diferenças fisiológicas para a prática do esporte entre homens e mulheres, mas em teoria a preparação exige o conhecimento, algo que ambos os gêneros compartilham em igual medida. O que existe, no caso, é uma barreira social, histórica e econômica. Estudos apontam que, apesar das tendências de queda, a remuneração de homens e mulheres na mesma posição ainda tem uma diferença substancial em termos de valores. Mesmo no Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média apenas 73% do que os homens. Os avanços no mercado de trabalho ainda não têm o impacto suficiente em diversas sociedades para reverberar em mudança na estrutura e percepções de gênero mais enraizadas.

Também devemos lembrar que, como no caso da Espanha, um país às portas da crise política (a Catalunha está prestes a seguir o exemplo da Escócia e puxar um referendo para separação da Espanha) e já em crise econômica há algum tempo, o conservadorismo ganha força em momentos de insegurança. E parte do conservadorismo significa uma estrutura tradicional em que a igualdade de gênero vira mais um problema que solução. Certo ou errado, o fato é que León não deve ter problemas em trazer a equipe (mais que gabaritada) de volta ao grupo mundial da Davis – seu grande desafio, possivelmente, será a mera manutenção de seu cargo nesse contexto adverso.


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Em semana de Assembleia Geral da ONU, o discurso de uma mulher foi o destaque da semana no palanque da ONU – e não foi Dilma Roussef. Apesar de o Brasil tradicionalmente sempre abrir as sessões, o grande evento até o momento foi um discurso feito no domingo pela atriz Emma Watson, embaixadora da boa-vontade da organização para a agência ONU Mulheres. O discurso foi uma das formalidades para a campanha “He for she”, de incentivo à participação dos homens no combate à violência e às desigualdades de gênero. O que chamou a atenção foi a repercussão – um site anônimo promete divulgar fotos íntimas da atriz em represália a sua atuação. Apesar do objetivo de intimidação, no fim das contas, se isso ocorrer na verdade apenas reforçará e dará mais legitimidade ao objetivo da nobre luta desta jovem atriz.