Ciao, Bento

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Segunda-feira é um dia complicado, por que sempre pode aparecer uma surpresa. Estava preparado para fazer uma postagem sobre o escândalo frigorífico da carne equina na Europa quando do nada vem a notícia que o abatido papa Bento XVI vai renunciar no fim do mês. 

Esperem, renunciar? Sim, eles podem, apesar desse expediente não ser usado desde 1415. Na era moderna, os papas sempre encerraram o pontificado com seu falecimento. Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, que foi o primeiro papa alemão desde o século XI, deixa assim a sua “marca” para os livros de curiosidades, assim como seu antecessor João Paulo II foi o primeiro papa não italiano em séculos. 

Mas… e daí? A única coisa que se especula é que a saída tenha a ver com sua idade avançada. Muito stress pra pouca saúde. Lembramos que a Igreja Católica passa por um momento delicado atualmente. Ao mesmo tempo em que cresce em regiões da África e da América Latina, perde fieis em rincões tradicionais como o Brasil e a Europa. Sem o carisma do antecessor, tentou inovar, como a sua famosa conta do Twitter. Mas no fim das contas, o papado de Bento XVI é marcado por problemas, com a tentativa de disciplinar a atuação da Igreja, com punições mais acentuadas a denúncias de abusos, mas ao mesmo tempo sem que parassem de estourar escândalos e continuando com uma postura rígida acerca de temas mais sensíveis como aborto e casamento homossexual. 

Nesse sentido, a saída dele tem muita importância. Muita gente vai estar interessada no que o novo pontífice vai falar, católicos ou não. Vale lembrar que ainda é uma das maiores igrejas do mundo, e a única das “grandes” com uma liderança única significativa, que mesmo sem poder na prática, interfere potencialmente nos valores de uma parcela gigantesca da humanidade. A dúvida é se o novo papa vai ter uma postura mais “liberal” ou continuar o processo conservador de Ratzinger, nesse desafio de balancear o discurso e agradar a gregos e troianos. É tentador trazer pro debate coisas como as profecias de São Malaquias ou especular novos candidatos, mas por enquanto o jeito é esperar a fumaça branca no Vaticano.


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Futebol na África: o melhor e o pior do continente

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Algo que sempre me fascinou foi buscar vínculos entre esportes e relações internacionais. Na maioria das vezes, este exercício exige um tanto de imaginação e outro tanto de adaptação. As intersecções são sombrias na maioria das vezes, apesar da influência de fatores políticas em diversos eventos esportivos. Podemos tomar como exemplo a rivalidade nas Olimpíadas durante a Guerra Fria ou mesmo a tentativa de capitalizar nas conquistas esportivas por governos totalitários. Pode-se inclusive pensar o futebol como um mecanismo de soft-power brasileiro.

Neste fim de semana, chega ao fim a maior competição de futebol entre nações da África. Na final estão Nigéria e Burkina Faso. Apesar das dificuldades já apontadas, o futebol africano é um excelente campo para obter um pouco do melhor e do pior deste continente fascinante. Afinal, quando é que temos a oportunidade de ouvir falar de Burkina Faso? Dentro de campo, os esportistas africanos mostram talento, fato corroborado pelos que jogam nas maiores ligas do mundo. Fora dele, no campo político-social, ressurgem questionamentos antigos.

Algumas histórias são marcadas pela superação, como a Zâmbia (campeã de 2010) que homenageou sua maior geração de futebolistas, vitimada por um acidente aéreo, na véspera da partida final. Outras histórias, no entanto, demonstram um pouco do que o continente ainda tem de pior, como no ataque à seleção de Togo antes da competição também de 2010.  Além disto, em outro exemplo negativo, o torneio deste ano foi obrigado a uma mudança de última hora da sede, a impossibilitada Líbia deu lugar à África do Sul.

Enquanto a Nigéria, finalista no futebol, aproxima-se do posto de maior economia continental e sua ministra de finanças prevê a chegada de nações africanas ao rol dos países em desenvolvimento; as divisões internas, o choque de visões pós-primavera árabe e o avanço do radicalismo ainda apontam para outras necessidades. À medida que melhore sua produtividade, aumente o fluxo de investimentos estrangeiros, intensifique avanços estruturais; a África verá questões mais fundamentais voltarem à pauta mais um vez. Nem a emergente Nigéria escapa de problemas internos, sob a bandeira do Boko Haram.

Neste ano houve ainda uma última coincidência. O Mali, assolado por uma grave crise, disputa na tarde deste sábado o terceiro lugar na Copa das Nações Africanas. Quem sabe o recente bom presságio esportivo, não fortaleça o desejo de o país reencontrar um pouco de estabilidade. Caso torne-se uma distração, características de outras interações futebol-política, poderemos ver mais do que há de pior no continente. O futebol ainda é um pano de fundo interessante, com indícios de grandeza do continente. Torçamos pelo melhor. 


Categorias: África


Um crime nada perfeito

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Depois do Egito, da Síria, chegou a vez da Tunísia mostrar que a queda de grandes ditadores e a consecutiva transição democrática não é algo simples e romanceado como o Tio Sam advoga mundo afora. Democracia não se vende e nem mesmo se força em um país, mas sim é construída de acordo com os valores e as demandas da sociedade daquele país. E esse processo nem sempre é simples e fácil. Pelo contrário, na maioria das vezes, é doloroso e cheio de idas e vindas. 

Essa introdução não poderia significar outra coisa que não o aumento das complicações internas na Tunísia. Isso mesmo, mais problemas. Novas idas e vindas. O país já não se encontra em um cenário de grade estabilidade desde o final do ano passado. Apesar de a queda do ditador Ben Ali forçar mudanças na sociedade e no sistema político (que passou de apenas três partidos para um multipartidarismo de quase cem partidos!), nenhuma delas significou que a população atingiu um nível de satisfação aceitável. Pelo contrário, o cenário ainda é tenso. O fato de o governo não conseguir lidar com o problema do desemprego, daquela tal assembleia constituinte estar travada há mais de dois anos e das manifestações estarem sendo reprimidas com excessiva violência, são alguns exemplos de como andam as coisas por lá. 

Não bastasse a multiplicação dos protestos pela situação política e econômica, que já são complicadores por si só, um novo ingrediente foi adicionado a essa mistura. O principal líder da oposição laica, representante do Partido dos Patriotas Democratas Unificados (PPDU) e da recém criada Frente Popular pelos Objetivos da Revolução, Shokri Beladi, foi assassinado no dia 06 à porta de sua casa. 

Beladi vinha aumentando o tom de suas críticas contra o governo, principalmente, pelas iniciativas radicais dos grupos salafistas e dos políticos que participaram da RCD (ex-partido de Ben Ali), e, consequentemente, de seu apoio ao partido governista, o Ennahda. O assassinato foi suficiente para deslanchar um efeito dominó. A oposição gritou, uma parcela significativa da população saiu às ruas em protesto e o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, decretou a dissolução total do parlamento e a convocação de um gabinete de técnicos para tentar apaziguar o país. Tudo aponta para um crime político. Mesmo porque bastou Beladi acirrar suas críticas ao governo que poucos dias depois já estava morto. 

Agora, se teve algum partido governista envolvido, se foram grupos salafistas ou mesmo se visava-se incriminar alguém, não é sabido ainda. O que se sabe é que o crime desencadeou uma instabilidade política de grandes proporções na Tunísia. Novos protestos estão correndo as ruas e o próprio partido do primeiro-ministro se negou a aceitar a dissolução do parlamento. Tudo está progredindo rapidamente e os próximos dias serão cruciais. Mas o que é mesmo interessante dessa história toda é que se crime político buscava silenciar a voz da oposição laica acabou por despertar a voz de muitos outros que antes encontravam-se calados. 


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


O risco não compensa…

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Quando ouvimos as longas e, por vezes, cansativas palestras sobre citações e plágio no início da universidade, muitas vezes nos perguntamos o motivo da insistência dos professores e funcionários a este respeito, pois “não copiar” o trabalho alheio parece ser um conceito muito claro a ser compreendido. Acontece que não.

Denúncias de plágios cometidos por políticos de alto escalão (frequentemente em suas teses de doutorado) costumam fazer alarde em meio à opinião pública pela gravidade da situação, prejudicando a imagem de governos e derrubando nomes fortes de suas posições.

Hoje a Universidade de Dusseldorf anunciou que a Ministra da Educação (!) da Alemanha será obrigada a renunciar a seu título de doutorado devido a plágio. Ela nega e afirma que não deverá deixar o cargo, mas a polêmica repercute negativamente para todo o governo Merkel. Aliás, no ano passado outro ministro alemão renunciou ao cargo após denúncias similares – o então Ministro da Defesa foi, à época, acusado de plágio também em seu doutorado pela Universidade de Bayreuth…

Na Hungria, uma polêmica nacional no ano passado levou à renúncia do presidente do país após pressão devido à sua acusação de plágio no doutorado de duas décadas atrás (!). Também o Vice-primeiro-ministro húngaro foi acusado de plágio pela Universidade Eotvos Lorand pouco tempo depois.

Para finalizar a lista de personalidades políticas nesta situação, também o Primeiro-Ministro da Romênia foi acusado de ter quase metade de sua tese “duplicada” em 2012, além do caso do então Ministro da Educação e da Ciência no país.

Com esta enorme lista de casos (conhecidos) pelo mundo afora, envolvendo a imagem nacional e internacional dos países, a questão do plágio assume uma proporção muito maior do que se poderia jamais imaginar [interessante artigo a respeito aqui]. Dada a importância da originalidade na pesquisa científica para o seu desenvolvimento contínuo, a conclusão é que o risco – absolutamente – não compensa. 


Categorias: Europa, Mídia, Polêmica


Vendendo o peixe

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O programa nuclear do Irã é aquela incógnita. Alega que é civil, mas tem jeito de ser militar. Nessa discussão com suas idas e vindas, é sempre uma boa notícia quando uma das partes (o Irã ou o grupo de países que tenta negociar a suspensão do programa) resolve voltar às negociações. E nessa semana a boa novidade foi o fato de os EUA e o Irã terem se mostrado abertos a discussões diretas sobre o tema. Claro que isso se seguiu da usual desconfiança e troca de farpas, com os EUA dizendo que a negociação seria possível apenas com representantes “sérios”, enquanto Teerã acusa Washington de não cumprir seus compromissos. 

Já disse isso aqui em algumas postagens anteriores, e por mais que se critique a possível interferência internacional, o caso do Irã é chato porque eles mesmos costumam complicar as coisas. Entram em negociações pra em seguida fazer testes que praticamente anulam suas boas intenções. E a última semana não foi exceção, ainda mais com o aniversário da revolução de 79. 

Na segunda-feira o país anunciou que mandou um macaco para o espaço num foguete e trouxe de volta com vida. A informação, como tudo que vem de fonte estatal, é meio contestável, mas se for verdade, palmas pra Teerã (que mesmo com sanções tem um programa espacial que funciona, enquanto nós… bom, deixa pra lá). O problema é que o mesmo mecanismo que lança um macaco em órbita pode ser usado num míssil balístico, e nesse caso viola as sanções da ONU.

Pra coroar a semana, na sexta-feira o próprio Ahmadinejad participou do anúncio do lançamento de um caça made in Iran” supostamente de quinta geração (invisível ao radar, etc.). É no mínimo suspeito, com um design cheio de falhas e que parece copiado dos modelos norte-americanos, falta de aviônica (apesar de ter algo muito parecido com um moderníssimo toca-fitas de automóvel no painel) e que se parece muito mais com uma maquete. O vídeo de divulgação mostra um avião ao longe que possivelmente é uma miniatura controlada por rádio. Mas não deixa de ser o anúncio de que o Irã estaria entrando num clube seleto, em que estão apenas os EUA, Rússia/Índia e China, e apesar de ser para “defesa”, teria obviamente as características de uma arma ofensiva. 

A ideia aqui é bem clara – pouco importa se o macaco voltou vivo (isso se chegou a ir pro espaço), ou se esse blefe que chamam de avião funciona (pra ser justo, pode realmente ser apenas uma maquete/mock-up do modelo, mas é difícil, considerando o perrengue econômico daquele país, que simplesmente não tem dinheiro pra fazer um avião dessa linha). Ahmadinejad quer mostrar seus brinquedos para o mundo, que olhem para o Irã com respeito (ou temor?), e nisso tem sucesso. No jogo de palavras, as intenções de Teerã ficam um pouco conflitantes, com a divulgação de um programa nuclear pacífico contrastando com os testes e ameaças. É demonstração de força, naquela linha de “a melhor defesa é o ataque”. A ideia parece ser que pareça robusto nas negociações, buscando ser um interlocutor de igual para igual com os EUA e amigos, e faz todo sentido – o problema é que até agora isso nunca deu sinais de ter funcionado. Resta o alívio para a estabilidade regional de que, por enquanto, se fica apenas na propaganda e no discurso mesmo.


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Há um ano...

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A virada de janeiro para fevereiro de 2012 foi bastante agitada. Duas postagens em pouco mais de uma semana tratavam do mesmo tema, a crise da Síria. A primeira, sobre como ainda era uma questão secundária no noticiário internacional, enquanto se dava muita atenção ao Irã, possivelmente sem necessidade. A segunda, mais contundente, falava de como China e Rússia vetaram a atuação do CS da ONU para lidar com os massacres no país. Em ambos se via as questões da soberania, da não-intervenção, e dos ouvidos moucos e vista grossa das potências a temas importantes quando havia interesse econômico na jogada. Esses dois países ainda bloqueariam muitas outras tentativas de condenação aos massacres de Assad naquele ano, mas gradualmente mudam seu discurso enquanto sobe a contagem de corpos. Mas, na prática, está tudo estagnado e até hoje temos notícias de como o país está sendo, literalmente, destruído

No comecinho de fevereiro, tínhamos uma postagem sobre a presidente Dilma, sua visita a Cuba e um pouco do perfil de sua política externa. Após dois anos de mandato, dá pra ver claramente que o perfil de Dilma lá fora é bem menos “espetaculoso” que o de Lula, evitando o personalismo e algumas alianças meio estranhas (lembram do “nosso amigo e irmão Kadaffi”?). Vemos uma diplomacia com mais pé no chão e menos disposta a aventuras (mesmo por que as condições pra isso parecem ter se perdido). Se essa ponderação toda vai dar certo, só vamos saber lá pra 2014, mas o perfil é bem diferente de Lula nessa aspecto, isso não podemos negar. 

Por fim, no dia 06 de fevereiro, uma postagem breve sobre a queda de governos na Europa, fulminados pela crise econômica. A situação ainda está mal na Europa, e algumas previsões (como a saída de cena de Sarkozy) se concretizaram, mas poderia estar pior. Na melhor das hipóteses, temos o risco de uma quebra geral evitado, mas não impedindo que países como Portugal estejam retraindo e invertendo padrões de imigração do século XIX. E Europa ainda tem muito caminho pela frente, e muitos governantes ainda vão rodar nessa brincadeira. Isso aí pessoal, postando e relembrando!


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O adeus de Hillary Clinton

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Apesar de algumas desilusões, a eleição de Obama em 2008 representou a possibilidade dos Estados Unidos buscarem uma espécie de reconciliação com a sociedade internacional. A imagem da superpotência foi deteriorando-se com o passar do governo Bush (filho). Em grande medida, coube a secretária de Estado devolver aquela aura de aceitação que outrora marcara a influência norte-americana.

Será impossível negar que ela tentou. Nos seus quatro anos no cargo, visitou 112 países e participou de 1700 reuniões com líderes mundiais. Sem conquistas notáveis, muito menos atuações que merecerão menção em revisões históricas, Clinton manteve posturas firmes em questões envolvendo China e Irã. Ao contrário de seu marido, não centrou esforços no processo de paz no Oriente Médio.

Este período cauteloso, sem novidades retóricas ou políticas, pode ser atribuído à visão estabelecida pelo presidente Obama. De um discurso abrangente, que clamava os Estados Unidos como a nação indispensável, passou-se a uma abordagem focada em objetivos específicos e adotou-se o princípio da divisão de responsabilidades. De início, reconheceu a impossibilidade de seguir com ambições excessivas.

Mesmo com tentativas no sentido contrário, o terrorismo segue como prioridade na agenda de assuntos internacionais. O ataque à embaixada americana na Líbia, sem contar o evento de ontem na Turquia, pressionou Clinton a apresentar seus argumentos perante os senadores e a própria sociedade. É difícil apontar o pico da atuação da secretária de Estado, mas o ataque em Benghazi lidera a escolha para o pior momento. 

Mudanças climáticas, países emergentes, não proliferação nuclear, Cuba, América Latina, China, Irã, paz no Oriente Médio, primavera árabe, Iraque, Afeganistão. São temas a perder de vista. É virtualmente impossível ser indispensável em tantos assuntos ao mesmo tempo. Talvez a principal conquista da ex-secretária de Estado seja justamente ter mantido a moderação, não cometendo gafes diplomáticas e não desgastando a imagem do país, já tão maltratada em decisões anteriores.

O sucesso não foi retumbante, mas suficiente para deixá-la credenciada a postular-se novamente a corrida presidencial. Uma opção que ela fez questão de não descartar, apesar de não confirmar. Neste caso, terá que lidar com o papel proeminente que Biden, o vice-presidente, ganhou no segundo mandato de Obama. Mesmo o sucessor de Clinton, junto com o governo, terá muito mais campo para explorar e assumir bandeiras da campanha de 2008. Será difícil esse adeus de Hillary virar um até logo. 

Imagem: fonte


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Corrupção…"a la española"

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Anotações da contabilidade feita por tesoureiros do Partido Popular da Espanha entre 1990-2009.

Fonte: El País.com

Desta vez não estamos falando da “Pátria amada, Brasil”. Não por falta de oportunidade. Afinal, hoje mesmo ocorreram novas eleições para a presidência do Senado e o candidato favorito era nada mais nada menos que Renan Calheiros. Ele “só” foi denunciado ao Superior Tribunal Federal (STF) por falsidade ideológica, peculato e uso de documentos falsos. Está rolando até uma campanha no site “avaaz.org” intitulada “Ficha Limpa no Senado: Renan não” para bloquear a suposta candidatura do dito cujo. “Renão” não deu certo e acabo de saber que ele é o novo presidente do Senado. 

Já começo a escrever sobre o Brasil e este nem é o ponto principal do texto. Quando vejo já da um parágrafo. Poderia dar um livro de 500 páginas, pois fontes e acusações não faltam. Mas, falemos de Espanha. Sim, aquele país europeu, membro da União Europeia que, segundo dados da revista Carta Capital publicada semana passada (ano XVIII, n. 733) está com uma taxa de desemprego entre estrangeiros de 36,5% e entre cidadãos do país de 24%. É muita coisa e mais informações podem ser obtidas aqui.

Como disse em textos passados, é tudo culpa do euro. A união monetária tornou-se o pior dos males de uma Europa destruída e arrasada economicamente. Assim, nada melhor do que culpar problemas domésticos com fontes ditas supranacionais. Sim, o euro teve seus erros e agora os países estão pagando o preço, literalmente, por isso. Mas o que quero dizer é o seguinte: quando encontramos problemas internacionais, esquecemos alguns de ordem interna. 

Hoje veio à tona um grande caso de corrupção entre os espanhóis: Luis Bárcenas, ex-tesoureiro do Partido Popular (PP) foi acusado de ser o principal articulista no repasse de comissões ilegais de empreiteiras a líderes do partido. Até o atual primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, está envolvido no caso e a oposição pediu a retirada imediata do mesmo de seu cargo e a convocação de eleições antecipadas. Houve, inclusive, levantes populares anticorrupção, mas a polícia conteve as manifestações que rumavam à sede do PP. 

Pela grande movimentação que vi no jornal espanhol “El País”, trata-se de uma reviravolta na política da Espanha. Faltam algumas provas, são só acusações. Entretanto, são acusações severas, documentadas e articuladas. De acordo com este mesmo jornal, são repasses de empresários diretamente ligados e contratados pelo governo. É a velha conhecida “cooperação” público-privada. O caixa do ex-tesoureiro chegou em quase 1 milhão de euros. Parece pouco, mas para a massa desempregada não soa nada bem. 

PS: Pois bem, escrevi este texto enquanto saiu o resultado da eleição de Renan Calheiros no Senado. Comecei falando do Brasil sem pensar no resultado que veio a calhar. Servindo para o caso espanhol também, deixo uma frase do Barão de Itararé: “O político brasileiro é um sujeito que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas”.


Categorias: Brasil, Europa, Polêmica, Política e Política Externa


A invasão misteriosa

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Naqueles grandes filmes e romances policiais sempre há, no enredo, um crime misterioso. Todos eles começam quase que da mesma forma. Alguém morre. Um policial, detetive ou um interessado qualquer é envolvido de alguma forma na história. Começa-se, então, a buscar o tal assassino. A partir desse ponto que esses enredos podem mudar, sem que se altere esse esqueleto inicial. 

Mas e se, hipoteticamente, tivéssemos uma situação na qual se sabe claramente quem cometeu o crime, contudo, o alvo não é de conhecimento de ninguém. E, para piorar, uns juram de pés juntos que quem morreu foi Beltrano e outros confirmam que foi Fulano. Em um romance policial esse enredo talvez ficasse um pouco estranho. Contudo, para o Oriente Médio, é mais do que suficiente para gerar nosso mais novo bafafá internacional. 

Como comecei dizendo, não se sabe ao certo o que foi o alvo. Apenas que ontem houve um bombardeio de aviões israelenses em território sírio. O governo de Israel manteve aquela postura de sempre depois cometer alguma violação em território alheio. Silêncio. Agências de notícias dos Estados Unidos apontaram que, quase na fronteira com o Líbano, um carregamentos de mísseis antiaéreos de fabricação russa, os SA-17, foi alvo desses aviões. Já o governo sírio afirmou que as tais aeronaves voaram baixinho, abaixo do alcance dos radares, e destruíram um centro de pesquisa militar a 15km de Damasco. 

As condições nas quais o ataque ocorreu já são suficientes para render uma história interessante. Agora, adicionada essa completa divergência de informações, temos material para um best-seller. A situação toda é difícil de averiguar, principalmente, pela falta de detalhes do que tem ocorrido dentro da Síria, pelos locais que os supostos eventos ocorreram e pelo total silêncio de Israel. 

Olhando mais de perto o ocorrido, independentemente de qual das versões seja confirmada, houve aí uma clara violação de soberania da Síria. E, em caso de guerra civil ou não, invadir o espaço aéreo de um país e bombardear uma área qualquer (por mais ínfima que seja) sem o crivo da ONU é intervenção em assuntos internos. Basta lembrar de todo o problema que ocorreu na invasão do território equatoriano pelo exército colombiano para buscar o número 1 das FARCs em 2008 e das bombas e mísseis sírios que ultrapassaram a fronteira com a Turquia durante esse conflito atual (para mais, clique aqui). 

Uma violação que parece ter sido muito bem pensada por Israel, em caso de o alvo ter sido o carregamento de mísseis. Puro cálculo de estratégia e poder. Como o governo teme que o Hizbollah recebesse armamentos antiaéreos e conteste seu poderio de sua Força Aérea, destruir o carregamento enquanto ainda é transportado para o Líbano é a melhor forma de cortar o mal pela raiz. Isso porque, uma vez chegado no país vizinho, essas armas desapareceriam em estoques e túneis subterrâneos, podendo jamais serem localizadas novamente. 

Enquanto isso, do lado sírio, outro movimento foi muito bem pensado. O tal centro de pesquisa militar destruído foi, segundo a agência de comunicação do governo sírio, também alvo dos rebeldes, também conhecidos como CNFROS. Todavia, eles não tiveram sucesso em ocupá-la. Uma bela forma de ligar a atuação de Israel à Coalização para as Forças da Revolução e a Oposição Síria (CNFROS). 

A complexidade desse quase-romance policial cresceu ainda mais quando o Irã também anunciou que Israel poderia sofrer retaliações. O inimigo mortal do governo israelense aliado ao Hizbollah e a Síria de fato poderiam oferecer riscos. Mas no cenário atual, qualquer retaliação, por mais que não possa ser descartada, pode ser mais custosa que benéfica. 

A situação é complexa e, de certa forma, um retrato do funcionamento das relações internacionais no Oriente Médio. Uma região onde ainda a disputa pelo poder militar e o receio do crescimento do poder do outro são o imperativo. E que as forças armadas ainda ditam as regras.

[Para mais: 1, 2, 3, 4, 5]


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Névoa cinzenta

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As palavras poluição e China – frequentemente vistas na mesma frase – têm ilustrado as manchetes internacionais nos últimos dias. Os níveis altíssimos de poluição em Pequim voltaram a assustar, obrigando empresas aéreas a cancelarem voos e moradores a ficarem em casa para se protegerem da impressionante névoa cinzenta…

Para se ter uma ideia, o tamanho das partículas do ar estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas… com uma visibilidade de apenas 200 metros nas ruas, o pacote do governo com medidas para conter a poluição atmosférica (prometido há duas semanas) se faz mais do que urgente.

Com taxas de câncer de pulmão crescendo assustadoramente no decorrer da última década e os atuais níveis alarmantes de poluição, o governo tem até aconselhado a população a reduzir as atividades realizadas ao ar livre (!).

Acontece que a situação vivenciada atualmente pela China não é nova, e crises parecidas já ocorreram nos Estados Unidos (1948), na Bélgica (1930) e na cidade de Londres (1952). Daí foi criado o termo “smog das palavras inglesas para fumaça (smoke) e neblina (fog). Nestas oportunidades, as crises contribuíram para a criação de medidas contra a poluição, muitas vezes consequência direta do processo de industrialização acelerada.

Se quiser, a superpotência chinesa certamente tem condições de enfrentar o problema que pode mesmo representar um obstáculo ao crescimento econômico do país. Sendo o segundo maior emissor de gases de efeito-estufa no mundo, a redução das emissões de dióxido de carbono depende de muita vontade política para que compromissos ambientais sejam assumidos. Enquanto isso não acontece, tem até chinês vendendo ar puro em lata contra a poluição… qual sabor você preferiria: “Taiwan pós-industrial” ou “Tibete fresco”? […]


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