From Russia with love

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Ontem, teve grande repercussão no noticiário a visita a Brasília do primeiro-ministro Medvedev da Rússia. Se falou de muita coisa, de rodada Doha e eleição da OMC ao embargo russo de carne bovina de estados brasileiros (que aliás, continua). Mas o que chamou a atenção mesmo é que vamos comprar equipamento de defesa antiaérea (aqueles famosos SAM) deles. 

É interessante como hoje o Brasil parece diversificar (outro jeito de dizer “atirar pra todos os lados”) os fornecedores militares. Há alguns anos a expectativa era de uma aproximação cada vez maior com a França nesse setor, mas parece que era muito mais um negócio de compadres entre Lula e Sarkozy – sem os dois na parada, o principal negócio (o F-X2, de compra de caças) esfriou e não parece mais favorável a Paris. Ao mesmo tempo, nos aproximamos da Rússia, comprando helicópteros e outros equipamentos. Quando se falava em reaparelhar o Brasil e defender de “potenciais” ameaças sul-americanas, um dos pontos que os mais exaltados sempre levantavam era que deveríamos evitar ter o mesmo fornecedor dos vizinhos pra evitar que alguém de fora tivesse o poder de decidir os rumos de um eventual conflito por essas bandas. No fim das contas a possibilidade de conflito é bem remota, e as ameaças de verdade ainda são combatíveis de um jeito mais simples, como reforço de patrulha nas fronteiras e tudo mais. 

E certamente o Brasil não parece inclinado a depender de um único fornecedor, ainda mais com os planos de Defesa em longo prazo que temos desde a END de 2008. A aproximação com a Rússia é uma boa, ainda mais em um setor que ainda está mal das pernas que é o da defesa do espaço aéreo. A Índia está se dando muito bem fazendo o mesmo, e Medvedev até comentou que a tal transferência de tecnologia pode acontecer se o Brasil pagar o suficiente. Mais direto impossível, mas do discurso pra prática existe um abismo, e do lado de cá não estamos mais em 2008 e a montanha de dinheiro que parecia disponível na época parece cada vez mais uma miragem. 

A aproximação bilateral é vantajosa para os dois países, em muitos sentidos, mas tem muito chão pela frente pra que haja uma eventual cooperação militar. Se nessa brincadeira conseguirmos negociar a suspensão do embargo da carne, já vai estar ótimo.


Categorias: Brasil, Defesa, Economia, Europa, Paz, Segurança


Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor Victor Uchôa, graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, nos brindou com um excelente texto sobre a cruel, porém real, realidade do tráfico internacional de pessoas. Lembrando a todos que  quiserem ter seus posts aqui no blog que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]


Humanos de segunda classe

A atual novela “Salve Jorge” trouxe à tona pela primeira vez ao grande público o problema do tráfico de pessoas no Brasil. Assim, o assunto se transformou em uma espécie de moda das discussões cotidianas. Entretanto, a necessidade de adequação da trama ao gosto do público fez com que ela fosse ineficaz em demonstrar a dimensão do problema, tanto em quantidade de pessoas exploradas, quanto as reais condições em que vivem. Esse crime é tratado pela ONU como o mais hediondo praticado pela humanidade. 

Em nosso país são movimentados aproximadamente 32 bilhões de dólares ao ano com essa atividade, sendo o mais rentável dos crimes, superando em muito o tráfico de drogas. No mundo, é o terceiro negócio que envolve maior movimentação financeira, também chegando a envolver cerca de 2,4 milhões de pessoas exploradas por ano. Mesmo assim, o assunto seguiu longe dos noticiários nacionais, que deram maior atenção a praticamente todos os outros tipos de ações criminosas, a despeito da dimensão desse problema. Essa falta de interesse da imprensa é facilmente explicável. 

O trafico internacional de pessoas envolve basicamente a exploração de crianças e mulheres, que são forçadas por meio da violência e da fraude a se mudarem de seus países, na esperança de uma oportunidade. Diferentemente das personagens principais da ficção, a falta de direitos e de cidadania é iniciada na própria terra natal. Muitos dos refugiados e imigrantes de países periféricos não possuem a documentação que garante os direitos civis em seus próprios países. A exclusão tem rosto de dupla cidadania. No caso brasileiro, a maioria dos casos ocorre com mulheres, negras e de baixa renda, o que é comumente reconhecido na sociologia como uma espécie de santíssima trindade da vulnerabilidade. 

A insignificância dos explorados explica uma questão que pode surgir. Como uma teia criminosa tão ampla e tão óbvia se mantém com certa tranquilidade, permanecendo ilesa a justiça dos países e dos holofotes da mídia? A resposta é simples. Refugiados e imigrantes pobres de países periféricos são facilmente tratados como pessoas sem importância, tanto pelas autoridades dos países em que foram retirados, quanto dos que se tornaram seu destino final. Eles praticamente não existem. Assim, a grande maioria dos casos é completamente desconhecida, não tratados pela imprensa, enquanto os casos noticiados são as raridades que fogem a regra de exploração dos seres humanos em piores condições possíveis. O número de casos expostos é bastante reduzido. O tráfico de pessoas consegue ser o mais rentável dos crimes, enquanto tem rosto de problema pouco prolifero. 

O sucesso na exploração de pessoas em péssimas condições econômicas e jurídicas não tem como seu único exemplo o tráfico de pessoas. O mesmo pode ser visto no Brasil em um caso que em muito se parece a esses crimes, como os bolivianos que participam de trabalhos análogos a escravidão em fábricas de tecidos, ou com a prostituição infantil, que em sua maioria envolve crianças em situação de extrema pobreza. Recentemente, nosso próprio STF livrou uma dezena de acusados de estuprarem uma criança de 12 anos, por esta supostamente se prostituir. A justiça brasileira pode achar plausível que uma pessoa nessa idade possa tomar decisões autônomas de sua vida, e que a relação sexual com um adulto seja feita com consentimento. 

Claro, desde que essa criança seja parte das pessoas sem rosto ou dignidade. Pesquisas financiadas pelo escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) atestaram que um dos principais motivos para a facilidade da manutenção desses esquemas criminosos é da falta de importância dada ao tema pela sociedade civil. Afinal, grande parte da população acredita que foram essas mulheres culpadas pelo seu mal, ora por ganância, ora por pura vontade de servir como prostitutas. 

Outra ideia comum é a de que tais pessoas estejam em melhores condições sofrendo exploração do que anteriormente, vivendo como miseráveis em seus países. Uma tragédia justifica a outra. A falta de direitos outorgada por viverem em um país como imigrantes ilegais é por fim legitimada pelo discurso de criminalização da vítima, ato bastante comum no Brasil, sobretudo quando os crimes são sexuais e contra mulheres. Não à toa o nosso país é campeão mundial em pessoas exploradas. E Assim, o ato mais hediondo do mundo e o terceiro mais rentável fecha sua área de proteção graças à falta de interesse da sociedade dos países envolvidos sobre quem são tais explorados. Afinal, quem daria grande importância aos males de humanos de segunda classe?


Categorias: Brasil, Mídia, Post do leitor


Imagem da Semana

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E a Página Internacional faz renascer uma coluna histórica do blog. A partir de hoje, semanalmente publicaremos uma imagem que marcou a semana com uma breve legenda. O objetivo é deixarmos registrado fotos icônicas, cômicas, irônicas, tristes, alegres; enfim, fotos importantes para a semana.

E pra começar…

…nada mais marcante do que o meteoro que caiu na Rússia na semana passada e gerou o maior bafafá pelo mundo. 

Mais impressionante ainda é a lembrança nada pequena que deixou no território russo: 

É isso aí, pessoal! Até semana que vem para mais registros fotográficos das relações internacionais! 


Aniversário, Top Blog e Nova Coluna

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Caríssimos leitores, 

O post de hoje é especial. Não somente por não ser como os demais, mas também porque representa um momento de muita alegria e celebração para a Página Internacional que gostaríamos de compartilhar com todos vocês. Primeiro, gostaríamos de comemorar o aniversário de quatro anos do blog. 

O blog foi criado em 2009, pelo colaborador Alcir Cândido. À época, ainda não tínhamos muitos colaboradores (inclusive esse que escreve essa mensagem não estava no rol dos escritores) e o Alcir dava seus pulos para manter as atualizações diárias de qualidade. Os meses foram passando e o blog foi crescendo e sendo bem recebido pelo público. Vieram novos colaboradores, premiações e até nosso livro.

Agora, em 2013, completamos nosso humilde aniversário de 4 anos. Um período até que breve quando comparado ao tempo de existência de muitos blogs por aí. Mas, com toda certeza, é um tempo no qual a Página Internacional foi se condensando nesse espaço de debate que vocês bem conhecem. Por isso, acreditamos que devemos tudo o que já obtemos até o momento a todos vocês, nossos queridos leitores. Não fossem suas visitas diárias, os comentários, os posts do leitor, e os votos nos inúmeros concursos que participamos, não poderíamos falar de 4 anos de uma bela história. 

Falando em votos, recentemente recebemos o resultado de nossa colocação no Prêmio Top Blog 2012. A Página Internacional conquistou também o segundo lugar no Júri Popular na categoria de Política. O evento foi realizado no último dia 26, em São Paulo, mas, não eram anunciadas as colocações de todos os blogs, apenas dos vencedores. Mais uma vez, devemos muito a vocês. Mesmo porque, o Júri Popular é baseado totalmente no volume de votos dos eleitores! 

Colaboradores Álvaro Panazzolo e Raphael Lima na cerimônia do Top Blog em São Paulo

Aproveitando esse momento festivo, para anunciar o retorno de uma das mais antigas colunas desse blog, a “Imagem da Semana”. Em 2009, publicávamos uma imagem que marcou os acontecimentos da semana, mas, aos poucos esse hábito foi se perdendo. Agora o retomamos com força total a partir do nosso próximo post! 

 Mais uma vez, obrigado a todos!! 

Equipe Página Internacional


Categorias: Post Especial


Volta ao mundo em 80 dias

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Julio Verne que me perdoe mas hoje a volta ao mundo que interessa não é a de Phileas Fogg. Muito menos de alguém com a vida fácil e rotineira desse típico personagem inglês. A viagem que chama atenção é a da famosa blogueira e ativista política cubana, Yoani Sanchéz, que, após 20 tentativas, e praticamente 7 anos depois, finalmente conseguiu deixar o país para um tour pelo mundo. 

Convites de interessados em entrevistas, filmes e palestras não faltaram. Faltava mesmo era boa vontade do regime castrista de deixar uma das maiores dissidentes políticas do país sair zanzando por aí. A última autorização de saída negada foi em 2012 quando o cineasta brasileiro Dado Galvão convidou Yoani para a estreia do documentário “Conexão Cuba Honduras”, que contava com entrevistas e participações da blogueira. Até o visto brasileiro já se tinha, e, aos 45 do segundo tempo, ela foi impedida novamente de sair. 

Essa atual viagem somente foi autorizada em virtude da reforma imigratória que, no início de fevereiro “facilitou”, digo, diminuiu um pouco a grande complicação burocrática, para se deixar o país. Exigências como a de uma carta-convite e do pagamento da autorização de saída foram abolidas, apesar de o governo poder manter seu veto a quem lhe interessar. Mas, a despeito das inúmeras dificuldades (muitos, incluída a própria blogueira, apontaram que ainda há muitas barreiras proibitivas), Yoani conseguiu. 

E o primeiro país que decidiu encaminhar-se foi o Brasil. Após uma breve escala no Panamá chegou hoje a Salvador. Foi recebida calorosamente por alguns e em meio a protestos por outros. O mais interessante foi sua reação frente aos protestos que acusavam de estar ligada à CIA e à espionagem estadunidense. Disse que gostaria muito que em seu país as pessoas pudessem se manifestar livremente e sem serem punidas, e que era um banho de pluralidade e democracia. Uma frase imponente que destaca bem o tema que vai levantar nos próximos meses: a liberdade de expressão. 

Com esse acontecimento histórico, posso levantar alguns pontos e hipóteses interessantes sobre os dias que virão. 

A vinda de Yoani é sim um interessante reflexo de um regime que lentamente vai se abrindo e que é sempre teve “dificuldades” de lidar com a dissidência política. As reformas anunciadas por Raúl Castro, incluída a imigratória, apontam para uma mudança gradual na qual o caráter é um distensão sem que se perca o controle político em muitos aspectos. Ao mesmo tempo, quando autorizou a saída da blogueira, o governo deveria já ter em mente o aumento da pressão e exposição que Cuba terá nos noticiários nos próximos dias. 

Pressões externas nunca foram o problema para o país que desde o anos 1960 está excluído da maior parte dos organismos internacionais e ainda sofre sanções de diversos países. Mas, por outro lado, deixar Yoani zanzando por aí talvez seja um sinal estratégico de inflexão na postura externa. O tempo dirá melhor se algumas dessas hipóteses de fato se confirmam ou se é tudo mera especulação provinda de um ato impensado. 

Em sua volta ao mundo, nos próximos 80 dias, Yoani vai trazer o tema da liberdade de expressão e dos direitos humanos de volta ao centro da pauta. O governo cubano terá que dar seus pulos frente a qualquer aumento de pressão, algo que nunca foi um problema. E o Tio Sam se deleitará com esses temas na agenda internacional. Entre protestos e abraços, com certeza, serão 80 dias intensos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


Há um ano...

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O tempo continua passando rápido. Rápido até demais e, por isso, a Página Internacional sempre procura retomar o que foi importante há cerca de um ano. Voltemos, então, aos meados de Fevereiro de 2012. 

Em um post intitulado “Elefantes na sala”, Raphael mostrava que o elefante era a crise financeira e a sala a União Europeia tendo como possível móvel de canto a Grécia. Este processo ainda não teve fim e nos dias de hoje o país continua com uma política de recuperação de seus índices econômicos. Desde Outubro do ano passado mais de 20 mil gregos perderam suas ocupações e a taxa de desemprego chegou aos 36% entre os jovens (25-34 anos). Falta chão ainda, mas a União Europeia tem se mostrado consistente em promover mudanças. Já não há mais um “medo” de haver um retrocesso vertiginoso na integração. 

Escrevi outro texto sobre a crise na Síria e os reflexos da Primavera Árabe (veja em “Alguém quer damascos?”) Existem uma certeza e uma dúvida sobre isso. Primeiro, é fato que os acontecimentos na Síria tomaram proporções catastróficas. Assad, o qual possui estudos em Direitos Humanos (sim, é verdade!), não abre mão do poder. Do outro lado, a primavera já virou inverno, verão e outono. Não sabemos quais são e quais serão seus resultados a curto prazo. É só olhar o que vem acontecendo no Egito, por exemplo. 

Uma excelente análise sobre ensino superior e universidades foi publicada pelo Luís Felipe em “Estudar ou não estudar?”. Carreira profissional, custos de vida, falta de oportunidades, mercado rigidamente concorrido e assim por diante são algumas facetas da vida de todos nós. Bem escreveu que “o diploma sozinho não garante um futuro seguro”. Falando nisso, a Ministra da Educação da Alemanha pediu demissão semana passada após perder seu título de doutorado. Motivo? Acusação de plágio! Ironias do destino, seu pseudo-diploma resultou em adiamento da aposentadoria.

E, claro, também era tempo de Carnaval há um ano! É ritmo de festaaa… Falava-se na projeção internacional do Brasil pós-Lula e pró-Dilma. Hoje só se fala no feriadão prolongado do Senado e da Câmara dos Deputados (veja aqui).

Mas agora o ano começa de verdade! Já tem até ovo de páscoa nos supermercados.


Categorias: Há um ano...


Ainda é Carnaval

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Um fato quase me passou despercebido nesta passagem de ano.

Um dos pilares democráticos do país, o Legislativo, iniciou seu período de descanso, com merecimento duvidoso, sem aprovar o Orçamento para o ano seguinte. Claro, o impasse é justificável na visão deles devido à uma decisão do STF. Gerou-se, desta forma, uma dificuldade de ação para o Executivo.

Além disto, como se não bastasse, o Congresso ainda deixou de finalizar a lei com os novos parâmetros para o Fundo de Participação dos Estados (FPE). Com o mecanismo vencido no final de 2012, criou-se um vácuo em termos de ordenamento jurídico. Assim, surgiu outra ameaça: a de não conseguir abastecer os estados com recursos.

Tudo bem. Após mais de um mês, os trabalhos foram reabertos em 4 de fevereiro. As duas casas legislativas têm novos presidentes. O eleito no Senado enfrentou uma petição colaborativa contra sua eleição e atualmente já existe outra, em moldes similares, pelo seu impeachment. Nada mal. Entre suas primeiras ações, o presidente de uma delas adotou 10 dias de recesso parlamentar pré e pós-Carnaval. No dia 16, doze dias corridos do início dos trabalhos em 2013, o Congresso já estava vazio.

Apesar da longa introdução, não foi a atuação do Legislativo brasileiro que quase me passou despercebida. Porém, foi uma atuação também ligada ao Legislativo, somada a esforços do Executivo, desta vez nos Estados Unidos. As negociações sobre o abismo fiscal seguiram dia 31 de dezembro, sendo finalizadas no primeiro dia de 2013. Foi uma solução paliativa, sim. Contudo, evitou-se o desastre que teria lugar com o aumento de impostos e corte em programas do governo. Chamou-me a atenção por envolver tantas reuniões, entrevistas, discursos de líderes em plena véspera de ano novo. Surpreendeu-me.

Naquele momento foi tudo. Hoje, com olhar retrospectivo, irrita-me lembrar a nossa situação, menos extrema, e comparar a atuação de ambos os Legislativos. O nosso, tratando questões depois de recessos emendados e o deles trabalhando no ano novo. Sem entrar naqueles argumentos repetidos tantas vezes em vão, isto me leva a outra memória. Uma vez, o ex-presidente Lula afirmou que nós, o povo brasileiro, havíamos nos cansado de sermos tratado como um cão vira-lata e que queríamos autoestima. Será que somente dizer isto basta ou é necessário mostrar instituições que corroborem este anseio?

A baixa produtividade, os 55 dias de férias, os recessos, as verbas indenizatórias, entre tantos outros temas. Isto talvez ajude a projetar uma imagem contraditória a nossas ambições, não? Antes eu não tivesse percebido nada disto. Afinal, para alguns ainda é carnaval e o ano só começa depois dele mesmo.  

Para um pouco da recente repercussão internacional: 1,2,3

Imagem: fonte


Categorias: Brasil


Você conhece Ordos?

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Avenidas vazias na cidade de Ordos, na China.

Fonte: Time.com


Não, não. Não é algum lugar da Terra Média d’O Senhor dos Anéis. Muito menos o nome de um dos sete reinos de “Game of Thrones”. Até hoje eu nem sabia da existência de Ordos. Sim, é uma cidade e ela não é mera ficção. Ordos está localizada na Mongólia interior, ou seja, na China. Começou a ser construída em 2003 e foi projetada para abrigar mais de um milhão de habitantes. Hoje, em 2013, comporta apenas trinta mil pessoas. É uma cidade fantasma! 

Há relatos sobre a existência de algumas dezenas de cidades abandonas por diversos motivos. Pripyat, na Ucrânia, tornou-se inabitada em virtude da explosão nuclear de Chernobyl e Craco, na Itália, foi desabitada em 1975 em razão de um intenso terremoto que abalou toda estrutura física da mesma. Há ainda outros exemplos de lugarejos tomados pelo tempo, principalmente por causas econômicas. Mercados escassos de mineração, fim de reservas fósseis e assim por diante acabaram por desabitar cidades inteiras. Mas Ordos é diferente. 

E por que? Porque ela é uma cidade moderna e bem planejada. Em matéria publicada na revista Carta Capital da semana passada (ano XVIII, número 735), a colunista Janaína Silveira diz que lá há museu, biblioteca, montadora de carros, aeroporto, centro de exibições… Apenas com a visualização de algumas fotos é possível observar a grandiosidade do projeto. Distritos vazios, avenidas sem movimento e monumentos com cavalos (símbolos da cultura mongol) em praças desocupadas podem ser vistos no site do jornal “Time”.

Ao contrário das outras cidades fantasmas, Ordos nem chegou a ter uma população numerosa. Todavia, o motivo da sua construção é bem fundamentado: a região é rica em carvão, petróleo e gás. Sozinha possui 150 bilhões de toneladas de carvão mineral, um sexto de todas as reservas chinesas. E é este o principal motivo de ter trazido esta notícia ao blog. Com esta onda em prol do desenvolvimento de energias sustentáveis e renováveis, não seria um “tiro no escuro” dos chineses? As perspectivas variam bastante, alguns acreditam que sim, mas outros preveem um futuro de bonança para a cidade. 

Em Pequim, os reflexos da poluição são sempre visíveis. Pessoas estão andando com máscaras nas ruas em dias nos quais é impossível até observar os grandes prédios cobertos por uma densa camada de fumaça. Os níveis de poluentes na capital foram considerados perigosos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Grande parte da pujança econômica chinesa e do seu elevado crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) advém das amplas indústrias e do uso irrestrito de combustíveis fósseis.

Juntando-se a isso, Ordos também é exemplo da bolha imobiliária do país. Interessante, não? Olhando a foto acima, daria um bom cenário para as gravações do “The Walking Dead”.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Meio Ambiente


Queda de braço

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Estava pronto para começar meu post sobre toda a situação do teste nuclear da Coréia do Norte quando uma notícia me chamou a atenção. E não teve jeito. Pyongyang terá que esperar. Porque a bola da vez é a nova disputa judicial da Apple. Sim, a gigante estadunidense está tendo problemas no mercado brasileiro. 

Infelizmente as reclamações do preço do iPhone não são o problema por aqui. Mesmo porque não chegam a impedir o brasileiro de classe média-alta de adquirir esse tão sonhado smartphone. Também não se cogita proibir a venda do iPhone no Brasil e não há nenhuma reclamação severa sobre o produto que pudesse impedi-lo de circular por ai. Então qual é o tal problema da Apple no país? 

O entrave é de registro. Acontece que, nas terras brasileiras, alguém teve a brilhante ideia de nomear um telefone de iphone bem antes da Apple. A Gradiente, famosa empresa brasileira de eletroeletrônicos, entrou com um pedido de registro exclusivo do nome no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no início dos anos 2000, que lhe foi concedido “logo” em 2008. Já a Apple somente tentou registrar a marca no Brasil em 2007, quando lançou o primeiro aparelho com esse nome. 

Mas até então não se falava disso. A Gradiente passava por uma barra pesada desde 2006 e só conseguiu voltar ao mercado de fato em 2012. E quando lançou seu novo iphone em dezembro de 2012, a polêmica começou. É interessante que o INPI não pode proibir a venda do iPhone da Apple no Brasil. Só quem poderia fazê-lo seria o judiciário, que duvido que tomaria uma postura dessas (porque quase todos os representantes desse poder devem com um desses no bolso…). Toda essa queda de braço gira em torno daquilo que as grandes empresas mais querem: monopólio. No caso, a Apple quer o monopólio sobre esse nome mundo afora. E o interessante é que, no Brasil, houve 4 entradas de registro para o nome iphone antes de 2008 no INPI, e, por mais incrível que pareça, nenhum deles foi da Apple. O monopólio foi, então, garantido à Gradiente. 

Por isso, a Grande Maçã quer derrubar esses nomes um a um. O argumento que levantou contra a Gradiente foi o fato de a empresa não ter lançado nenhum produto com o nome iphone desde que conseguiu o registro. Portanto, para eles, em 4 anos, essa exclusividade já teria caducado. Caberá à Gradiente mostrar nos próximos meses que vendeu iphones ou apresentar algum argumento mais contundente nessa queda de braço. 

O que parece ficar de lição nesse duelo é o apetite insaciável de megaempresas na busca de “exclusividade” e o a oportunidade que uma empresa que retorna lentamente ao mercado viu no nome iphone e em uma possível briga judicial com a Apple. Porque, convenhamos, a Gradiente já imaginava um entrave desses. Essa foi uma excelente oportunidade para se lançar ao mercado novamente, e, acima de tudo, de ser mais lembrada pelos consumidores, se fizesse as jogadas corretas. O vídeo que divulgou na internet explicando o tal Gradiente Iphone parece resumir bem essa tentativa. Resta saber se o poder de megaempresa da Apple é capaz de derrubar seu monopólio sobre o nome e se bater de frente com a Grande Maçã foi uma estratégia de marketing bem sucedida.

[Não é a primeira vez que a Apple tem que enfrentar registros com o nome iphone por ai. Clique aqui para conferir outro interessante]


Categorias: Brasil, Mídia, Polêmica


Carne de cavalo?

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Já que não foi assunto da segunda-feira, de hoje não pode passar no blog um breve comentário sobre a polêmica questão da carne de cavalo mascarada de carne bovina que está ilustrando as manchetes de toda a Europa nestes dias.

A situação ilustra de forma notável as relações comerciais internacionais e a forma como os problemas locais hoje podem alcançar imediatas proporções globais. Resumo (dos primeiros atos?) desta ópera europeia: escândalo no Reino Unido; cavalos desaparecidos na Irlanda; reclamações com empresas de comidas congeladas na França; matadouros detectados na Romênia, país fornecedor de carne; investigações, processos e acusações em todo o continente; e reunião extraordinária de emergência da União Europeia marcada para esta tarde na Bélgica.

Ufa! A extensão deste problema ainda não está 100% clara e a cadeia alimentícia de consequências é complexa. Na verdade, o escândalo começou em janeiro com problemas detectados em relação à carne de hambúrgueres no Reino Unido e na Irlanda. Na última semana, contudo, testes realizados em comidas congeladas provenientes da França reativaram a polêmica ao demonstrarem que o recheio de carne dita “bovina” de lasanhas congeladas poderia ser até totalmente composto, na verdade, por carne equina.

As investigações judiciais em relação à proveniência da carne e as rotulagens dos produtos estão ocorrendo e as medidas/sanções a nível europeu estão sendo discutidas agora em Bruxelas. Trata-se certamente de um grave problema internacional, o qual demanda mobilização de todas as partes para descobrir as fraudes, avaliar as proporções exatas do problema, e evitar ainda que toda a produção de carne europeia seja afetada, o que pode gerar graves consequências a uma Europa já economicamente pouco estável nestes últimos tempos… 


Categorias: Economia, Europa, Polêmica