Imagem da Semana

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A imagem da semana não poderia ser diferente do velório de Chávez. Os chefes de Estado da América do Sul tiveram a oportunidade de despedir-se do líder mais polêmico e que mais dividiu opiniões em sua na história recente.

Na ocasião, tivemos a presença de grande parte da patota sul-americana da Unasul, inclusive o Lulinha paz e amor e nossa querida presidenta, Dilma Rousseff. 

Agora o presidente interino e candiado, Nicolás Maduro, afirmou que o corpo do líder será embalsamado e colocado em uma urna de vidro, como foi o de Lênin na Rússia e o de Mao Tsé-Tung na China. Dessa maneira, todos que visitarem o museu da Revolução poderão ver o corpo do líder bolivariano.

Descanse em paz, Chávez. 


O Grillo falante

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Na história do Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser menino de verdade passou por muitas aventuras acompanhado de um grilo falante, uma alegoria de sua consciência. O tal grilo ajudava-o a discernir o “bem” do “mal” enquanto o garoto aprendia com a vida. Coincidência ou não com nosso tema de hoje, o texto foi escrito por um italiano de Florença, Carlo Collodi, no final do século XIX. 

E é justamente sobre a Itália que vamos falar. 

Enquanto o livro de Collodi apresentou aos leitores boas alegorias educativas, a crise na Europa tem revelado e dado força a figuras peculiares quase alegóricas (clique aqui para mais sobre isso no blog). A maior ilustração desse cenário foram as eleições parlamentares do país na última semana de fevereiro, que parecem ter revelado um personagem muito parecido com a consciência de Pinóquio, Beppe Grillo. 

A semelhança vai muito além do nome. Como na história, se o boneco ignorasse sua consciência, situações complicadas poderiam ocorrer com ele. Da mesma forma, a política italiana não pode mais ignorar Grillo e seu partido, o Movimento 5 Estrelas, depois desse pleito. O ex-comediante conseguiu cativar os eleitores italianos com um discurso de grande mudança das instituições políticas tradicionais do país. Vociferando por rupturas na lei eleitoral, por reduções de salários de políticos, pelo fim de um reembolso de políticos pós-eleições, pela limitação de apenas dois mandatos por candidato e por investimentos maiores em programas sociais, conquistou grande parte a Itália. 

Olhando os números, o Movimento 5 Estrelas conquistou 108 cadeiras na Câmara (do total de 630), com 25,5% dos votos. Ficou apenas atrás da coalizão do sempre polêmico Berlusconi (29,18%, 124 cadeiras) e da de Pier Luigi Bersani (29,54%, 340 cadeiras). No Senado, teve um desempenho parecido; com 23,79% dos votos e 54 cadeiras, ainda atrás de Bersani (31,63%, 113 cadeiras) e de Berlusconi (30,71%, 116 cadeiras). 

Ora, analisando os números Grillo não parece ter tanta importância assim. Se as eleições dependesse de valores absolutos essa análise poderia estar certa. O problema é que, especificamente no Senado, cada região tem um peso diferente e nem sempre aquele com maior número de votos leva a maioria. E nessas eleições,  Berlusconi conseguiu alguns dos mais importantes nessa disputa.

Agora o país vive um impasse. Como nenhuma coalização foi capaz de obter a maioria no Senado e na Câmara, para que se escolha um primeiro-ministro é preciso uma aliança de partidos maior, para se obter um voto de confiança. Mas Grillo já mostrou ter outra característica em comum com o nosso personagem do Pinóquio, sabe falar. E bem. Negou-se a fazer alianças com as coalizações com Bersani a menos que ele concorde com suas exigências de mudanças

A temporada de negociações está aberta até as próximas semanas, quando os novos representantes tentarão selar alianças e se apresentarão à Câmara e ao Senado. O presidente do país não quer novas eleições; Bersani e Grillo negaram aliança com Berlusconi (nesse caso não acredito que haja o tipo de pragmatismo para uma parceria do estilo Lula-Haddad-Maluf…); Bersani não parece não estar muito otimista; e Grillo já até se ofereceu para tornar-se primeiro-ministro

Esse cenário inesperado é resultado da grande insatisfação pública e do espaço que se abre em tempos de crise. Como na história do Pinóquio, se os representantes da Itália não negociarem com Grillo, a nova consciência (para alguns a “desconsciência” ) italiana, o cenário futuro não é bom. Mesmo porque, quem poderá negar que em novas eleições o Movimento 5 Estrelas não ganhará mais representantes? Se a Itália quiser ser um “menino de verdade” é preciso negociar e ouvir nosso Grillo falante. Do contrário, o cenário não parece ser positivo.

[Para mais, 1, 2, 3, 4, 5]


Categorias: Europa, Política e Política Externa


Há um ano...

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Talvez não haja melhor forma de tornar nossa memória mais eficiente do que exercitando-a. E nossos domingos já são tradicionais para esse tipo de exercício. Em nossa ânsia de tentar manter vivos os assuntos que correm na mídia sobre o internacional, voltamos a refletir sobre o que se passava no blog há um ano. Vamos aos comentários de alguns textos daquela semana de março de 2012. 

No dia 2 de março de 2012, a Bianca trazia um texto especial para a Página Internacional. No post fez uma homenagem às mulheres de Angola pelo Dia da Mulher Angolana e tratou da importância da luta dessas mulheres no país. O dia 2 de março de 2013 passou de certa forma em branco para nossa mídia. Mas com esse exercício somos capazes de celebrar e homenageá-las mesmo assim! 

Em “E no front econômico…”, Álvaro trouxe um debate que se estendeu até meados de 2013: a “guerra cambial”. No seu post, mostrou o que significava a tal “guerra cambial” e os efeitos que isso tinha para o Brasil e para alguns países europeus, como a Alemanha. O termo foi cunhado pela equipe econômica do governo Dilma e vinha sendo exportado mundo afora pelo ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega. Depois de toda esse “conflito de discursos” a discussão finalmente tornou-se tema da reunião do G-20 em fevereiro de 2013. Seria um sinal de que as relações internacionais finalmente tornaram-se mais democráticas para as demandas dos emergentes? Não, não, pessoal! O que aconteceu foi que as grandes potências como a UE e os Estados Unidos estavam sendo afetados pela nova política econômica agressiva do Japão, que envolvia manipulação de câmbio. O resultado foi o esperado. Assunto enterrado de vez no conformismo e na inação das potências na declaração final da reunião… 

Já há exatamente um ano, no dia 6 de março, eu postei um texto sobre temas de Segurança na relação entre o Brasil e o Tio Sam. Havia dois assuntos muito curiosos à época. O primeiro deles era a relação dos EUA com a postura do Brasil de não ratificar o protocolo adicional do tratado. O Brasil tinha assinado o acordo, mas o governo não se mostrou muito a favor desse protocolo que tornava as fiscalizações da AIEA mais rígidas e invasivas. Resumo da ópera: o Tio Sam afirmou que o governo brasileiro poderia tomar o tempo que fosse necessário para ratificar o tratado. Uma mudança interessante que eu questionei o porquê. Da mesma forma, o segundo tema foi a compra e depois revogação de compra de 20 Super Tucanos brasileiros pelo governo estadunidense. E foi interessante que assim que assim que a mídia divulgou o ocorrido, a Boing mandou negociadores para o Brasil para tratar do projeto FX-2. Claro que ficaram com o rabo entre as pernas de isso afetar a escolha do governo brasileiro. Uma escolha que parece que não irá sair até que os nossos caças comecem a se desmanchar no ar… 

Há um ano o blog também falava de eleições. Primeiro com um post meu sobre o processo eleitoral russo e a malandragem de Putin (de trocar de cargo de primeiro-ministro com o Medvedev para poder se reeleger). Logo após, o Cairo tratou do assunto também em “De novo, Putin?”. Segundo ele, as eleições tinham sido justas e dentro do processo democrático. Entretanto, apontou para um mal que vem se desenvolvendo na Rússia desde o fim da União Soviética: a falta de eficiência governamental em todas as partes do território, que ainda estão presas nos fantasmas do comunismo. Isso tudo culminou em um cenário de aceitação de situações malandras como essa de Putin e Medvedev. 

 Bom, ficamos por aqui. Postando e relembrando!

[Na mesma semana foi postado um estudo de caso sobre o Neorrealismo. Vale a pena “Conversar (novamente) com essa Teoria” nesse post. Clique aqui para conferir!]


Categorias: Há um ano...


Vai uma bebida aí?

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Em uma semana de emoções exacerbadas, nada melhor do que voltar nossa atenção para temas menos conflituosos. Que tal falarmos do excesso de bebida por exemplo? Uma discussão séria, apesar dos contornos cômicos, ocorreu na sede das Nações Unidas.   

Um diplomata norte-americano levantou a questão, voltando seu comentário não para a saúde pública, mas para o comportamento dos companheiros de seu comitê. Durante sessões para definição de questões administrativas e orçamentárias das Nações Unidas, ele afirma ocorrer um consumo excessivo de bebidas alcoólicas, especialmente em reuniões que se estendem até tarde da noite. Ele sugere, modestamente nas suas palavras, que as salas de reunião sejam declaradas como áreas onde o consumo das bebidas é proibido.  

Talvez até mais curiosa que a própria discussão foi admissão do mesmo diplomata, autor da proposta, do fato de sua delegação já ter aproveitado oportunidades (leia-se: a embriaguez alheia) para chegar a soluções mais vantajosas para seu país. Bom, se alguém um dia já imaginou uma negociação complicada, aparentemente sem solução, fica aí o alerta ou a dica. Cuidado!   

Aproveitando a sugestão, Barack Obama poderia propor uma recepção noturna para discutir o tal abismo fiscal. Quem sabe não surja uma “oportunidade” junto aos republicanos e o presidente não consiga o acordo que ele tanto sonha. Será que atual abordagem adotada, almoços e jantares para complementar as sessões oficiais, poderia descambar para algo daquilo que o diplomata norte-americano denunciou?  

Brincadeiras à parte, há momentos de descontração na diplomacia também. Parece fazer parte do jogo, a despeito dos problemas levantados. Outro momento engraçado foi protagonizado por John Kerry, em visita à França. O secretário de Estado dos EUA começou seu pronunciamento em francês e logo voltou ao inglês, brincando que caso contrário não o deixariam voltar para casa. No final das contas, não é só a bebida que é capaz de acalmar as tensões e diminuir as barreiras.  

Para finalizar, voltamos ao evento da semana. O Council of Foreign Relations, em sua edição de “The World Next Week”, lembrou que na terça-feira, 5 de março, completou-se 60 anos da morte de Joseph Stalin, líder soviético durante a Segunda Guerra Mundial. Em uma coincidência história, Hugo Chávez viu sua vida cessar no mesmo dia, deixando um legado que divide opiniões em calorosos debates.  

Imagem: fonte


Categorias: Política e Política Externa


Mulheres do mundo

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Hoje é o dia internacional da mulher. Essa data tem origem já no começo do século XX, época de lutas sociais. A comemoração ficou, e hoje em dia a cada ano a ONU dedica a data a um tema, e o de 2013 é o clamor pelo fim da violência contra a mulher. Parece muito significativo poucos meses depois do emblemático ataque sexual a uma indiana que chocou o mundo, mas revela uma realidade crua ainda para a maioria das mulheres do mundo. Mesmo com esse dia especial, mudou alguma coisa? 

As estatísticas mostram que uma enorme porcentagem de mulheres ainda vai sofrer algum tipo de violência na vida, existem desigualdades no mercado de trabalho, e o mundo ainda é dos “homens”. Basta ver o noticiário pra ter uma noção, girando em torno de figuras masculinas. Quando não, são eventos ligados à guerra, que está ligada ao gênero da lança e do escudo por boa parte de estudiosos feministas. 

E as mulheres que chegaram ao topo? Pelo mundo, há uma progressiva percepção do “empoderamento” de mulheres (pensem nas Dilmas e Merkels por aí), mas isso repercute em verdadeiro sentido de crescimento? Ou essas mulheres poderosas estão apenas se adaptando a um padrão de vivência e estrutura tradicionalmente masculina, se igualando a “eles”? Acho o caso mais interessante desse tipo de discussão o lance do título de “presidenta”. Ao mesmo tempo em que mostra a diferença de se ter uma mulher o cargo, serviria para criar essa “categorização”. Diferencia com uma ideia de nova atitude, mas ao mesmo tempo deixa de igualar com o que já está consolidado. Quem está certo nesse caso? Parece ser muito mais que semântica, e representa como, mesmo no mais alto grau de hierarquia de um Estado, uma questão de gênero pode trazer muita discussão e incerteza ainda, a depender de quem lida com essa informação. 

Não são questões fáceis de discutir em tão pouco espaço, mas fica o registro dessas considerações sobre as mulheres no mundo de hoje. O alento é que a situação poderia ser pior, e a esperança é de melhora. Falta muito, mas quem sabe em postagens futuras não tenhamos conquistas mais sólidas para celebrar. Enquanto isso, podemos parabenizar a todas as mulheres pelo seu dia, e mais do que presentes, mimos e agrados, o desejo de que ganhem respeito pelo que são e merecem.


Categorias: Cultura, Post Especial


O adeus a Chávez

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“Até a vitória sempre!”: tendo sido esta a última declaração pública de Hugo Chávez ao final do ano passado, o falecimento do líder venezuelano foi oficialmente anunciado na noite desta última terça. Sua morte talvez não tenha sido recebida com tamanha surpresa (já que há quase três meses o “comandante” não era visto em público), mas ainda assim com grande comoção.

Reações distintas por parte dos distintos atores, já que as opiniões sobre o radicalismo de Chávez não eram (e nunca foram) unânimes. Herói para alguns, vilão para outros, fato é que Chávez marcou uma geração e sua herança política envolve toda a América Latina.

Com seu amplo “projeto bolivariano”, permaneceu 14 anos (!) como presidente, posição que muitos acreditariam que este não deixaria tão cedo, em uma prática nada saudável de concentração excessiva de poder. Renovava, por um lado, sua popularidade com seu carisma e seu foco nos pobres e nos projetos de cunho social e se tornava, por outro, bastante impopular principalmente devido às acusações de violação de direitos humanos, à censura a emissoras de televisão e rádio, e à corrupção no gerenciamento da riqueza do país segundo suas ambições esquerdistas. Contradições que tornaram seu nome conhecido no mundo inteiro durante a última década, o que torna sua morte ainda mais noticiada.

Maior provedor de petróleo dos EUA, ao mesmo tempo em que seu principal (e mais radical) antagonista nos últimos tempos, talvez as relações entre EUA e Venezuela constituam o centro de qualquer análise envolvendo o comandante. Tendo seu legado extremamente criticado pela imprensa estadunidense, parece existir a intenção por parte do governo de “normalizar” suas relações com Caracas após a morte de seu líder. Ruptura ou continuidade? No aguardo das eleições presidenciais, o seguimento dessas relações bilaterais é incerto, mas fato é que a ausência do polêmico Chávez por si só certamente representará uma grande mudança de posicionamento por parte dos Estados Unidos.

Incerto também parece ser o futuro do Mercosul (ao qual a Venezuela apenas recentemente se integrou) e da Alba, a Aliança Bolivariana das Américas (criada 2004 e bastante enfraquecida com a morte de seu idealizador). Os efeitos da futura eleição de um novo líder venezuelano na região ainda deverão ser sentidos e resta-nos apenas aguardar para avaliar como uma Venezuela sem Chávez buscará (re)afirmar-se no cenário internacional atual… 


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais, Victor Uchôa, nos enviou mais um texto muito interessante. Desta vez, o tema é nossa rejeição em comer carne de cavalo. Vale a pena conferir! Lembrando a todos que quiserem postar na Página Internacional, que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

Por que ainda não inventaram o Mc Horse?

O escândalo da venda de carne bovina com traços de carne de cavalo esteve nos noticiários nas últimas semanas. Sabemos que se trata de um problema econômico e politico. No entanto, pretendo usar esse acontecimento para traçar um paralelo entre a alimentação e a cultura ocidental. Vamos a ele. 

Em fevereiro de 1930, milhares de pessoas marcharam pelas ruas do centro da cidade de Chicago. A crise econômica iniciada pela quebra da bolsa jogou milhões de americanos na situação de não conseguirem prover ao menos a própria alimentação. Nessa época surgiriam como solução os famosos hambúrgueres, inicialmente lanches de rua muito baratos. A outra ideia para o fim do problema, a mesma que levara milhares de pessoas indignadas ás ruas, foi o inicio da comercialização de carne de cavalo, ao custo de um terço do valor da carne bovina, nos mercados do país. 

A venda da carne de cavalo foi um dos maiores fiascos da indústria alimentícia do começo do século XX. Pensando que o consumidor americano compraria baseado apenas no preço, os produtores de carne esqueceram-se das implicações culturais que permeiam os hábitos alimentares. A exposição de carne de cavalo para consumo humano na época foi recebida com asco e revolta. 

Uma das teorias que explicaram esse fato histórico americano trata de como há influência nos hábitos e valores dos alimentos de acordo com a analogia que fazemos em relação aos animais e seres humanos. Os seus idealizadores defendem que quanto menor a proximidade entre os animais e suas partes do corpo, maior o valor econômico da carne. Explicando em poucas palavras, há preferência pelas partes do boi sem similaridade com órgãos humanos, como a picanha ou a alcatra, que teriam maior valor monetário e cultural em relação a partes como a língua, o fígado e o pescoço, por manterem menor aproximação com a anatomia humana. 

Em outro momento, chegamos ao ponto central dos fatores sociais que levaram ao protesto em 1930. Comemos carne de vaca e de porco com facilidade, animais que já nasceram em nosso processo industrial para serem abatidos em massa. Entretanto, temos mais dificuldade em comer a carne de cavalo, um animal que por vezes é de estimação ou utilizado em trabalhos humanos como o transporte de cargas. Finalmente, há um tabu em relação à carne de cachorro, certamente os animais com quem mantemos as mais fortes relações afetivas. Observando outras culturas, notamos como essa hierarquia de valores e aceitação por tipos de carne é modificada, dependendo do papel que os animais ocupam enquanto interagem com seres humanos. 

O problema da mistura da carne equina é motivado pelo não cumprimento do tipo de mercadoria estipulada nos contratos. Mas a indignação com o caso pode ter outros fatores. Os órgãos responsáveis pela inspeção da carne afirmaram que o seu consumo não traria riscos à saúde. Então, por que proibiram a sua venda? Parece certo que ninguém compraria um produto que promete algo sendo outro. A sua comercialização seria até mesmo antiética. Mas para a população, umas das motivações para a recusa não estaria no fato de ter nojo de se alimentar de carne de cavalo? Talvez até mesmo dó de consumir um animal que por vezes é de estimação, ou que minimamente está em contato com o ser humano enquanto cumpre trabalhos. Certamente, assim como muitos outros, eu pensaria bastante antes de ingerir carne equina. Na opção de outro animal, a rejeitaria sem pensar. 

Agora, façamos uma abstração. Imaginem se ao invés de traços de cavalo, achassem traços de carne de cachorro! Os cães são o limite de animais próximos de serem sagrados que é permitido pelos costumes e a religiosidade ocidental. Certamente, o produtor flagrado nessa fraude jamais venderia novamente, o chamariam de genocida, milhares sairiam às ruas defendendo a sua condenação a cadeira elétrica. Claro, o exemplo de carne de cachorro é um exagero para produzir uma reflexão final: 

Nós não comemos quem ou o que premiamos com traços humanos. Em partes, a indignação com a carne de cavalo reflete uma preocupação e uma oposição também culturais.


Categorias: Polêmica, Post do leitor


Imagem da Semana

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A imagem de destaque dessa semana é, no mínimo, inesperada. Trata-se de um abraço dos Estados Unidos na Coréia do Norte (!).

A foto, divulgada sexta-feira, é na verdade de uma visita recente do ex-jogador de basquete norte-americano Dennis Rodman a Pyongyang. Em evento esportivo financiado pelo governo de Kim Jong-Um, o polêmico ex-astro da NBA fez declarações muito positivas em relação ao regime norte-coreano e desagradou a Casa Branca.

Em relação ao assunto, o posicionamento oficial dos Estados Unidos foi de afirmar que o governo norte-coreano faria muito melhor em investir no bem-estar de seu próprio povo ao invés de patrocinar este tipo de evento… 


Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, Victor Uchôa, nos brindou com mais um excelente texto. Desta vez sobre os preparativos para a Copa no Brasil e as consequências nacionais. Lembrando que todos podem postar na Página Internacional, basta enviar um texto para [email protected]. Boa leitura!]

Carnaval, futebol e samba

Recentemente, o Brasil viveu um dos momentos de maior destaque internacional em sua história. A vitória na disputa para ser a próxima sede tanto da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas de 2016, em um espaço de dois anos, fez com o mundo voltasse por um instante o olhar para o país. 

Com exceção do prefeito de Tóquio, que chegou a chamar a vitória do Rio de Janeiro como sede olímpica de “resultado político e obscuro”, a maioria dos países e da mídia internacional recebeu a escolha com certa naturalidade, uma reafirmação da estabilidade econômica e da maturidade alcançada nos últimos anos. 

Aqui no Brasil, como esperado, a euforia com o resultado seguiu a preocupação de que os problemas internos muito conhecidos pela população afetassem os dois eventos. Parte da mídia direcionou o foco de sua cobertura e das suas cobranças a marcha de construção dos estádios e dos prédios esportivos. Ocorre que o Brasil, mesmo bastante criticado, chega à reta final de entrega das obras da Copa dentro do que era previsto, sem dramaticidade. No entanto, o êxito das obras não pode mascaras os diversos fracassos que o país não foi capaz de evitar em todos esses anos de preparação. 

Os problemas iniciais de atraso, que seriam incontornáveis em outros países, aqui não afetaram o cronograma. Porém, um alto preço foi pago. Foi somente graças a flexibilidade jurídica que torna possível um grande aumento nos custos das obras, como também a aceitação de que novas licitações de última hora sejam aprovadas, que o país evitou até aqui o fiasco de não respeitar os prazos estipulados pela FIFA e o COI. O atraso inicial no nosso caso, inclusive, já serve como desculpa a novas manobras desse tipo, que enchem as contas bancárias das empresas responsáveis pelas obras e facilitam desvios de verbas públicas. 

Problemas de infraestrura, como nos transportes públicos, trânsito, qualidade dos aeroportos entre outros, persistem sem solução. Inclusive, propostas de melhoria feitas pelos governos federais e estaduais foram retiradas de pauta ou atrasadas para um momento posterior a esses eventos. A Copa e as Olimpíadas foram defendidas como incentivadoras dessas melhorias, como provas da importância de ser a sede dos dois principais eventos esportivos do mundo. 

Já as questões humanas, da melhoria da qualidade de vida com a realização dos eventos no país ainda são mais duvidosas. Inclusive, mesmo durante a realização da Copa do Mundo e das Olímpiadas, tanto a população quanto os turistas terão de conviver com o medo da criminalidade crescente. A expulsão de parte da população para a construção de algumas obras e a falta de planejamento ao desenvolvimento de áreas carentes nos entornos dos estádios tornam a realidade ainda mais contrastante, e os benefícios de ser sede ainda mais questionável. A falta de certezas aos ganhos da população ao término das Olímpiadas, mesmo após a grande quantidade de investimentos, seria uma tragédia. A vergonha internacional de mostrarmos um Brasil caótico fora dos ginásios esportivos seria a consequência final dos fiascos da preparação brasileira. 

A verdade é que o Brasil tem experiência na realização de grandes eventos, reconhecida pelos maiores especialistas e investidores. Essa afirmação se torna evidente ao observarmos a explosão do número de festivais de música, fóruns internacionais, reuniões de negócios e festas regionais, como o carnaval, todos realizados com êxito. 

A própria escolha para ser sede dos dois maiores eventos do mundo seria uma provar por si só. O problema do país nunca foi o de não conseguir realizar eventos satisfatoriamente. Ele é, e ao que tudo indica continuará sendo, o momento da volta á realidade. O mundo fora do estádio ou do ginásio que teima em continuar a existir. O trânsito caótico, a criminalidade, a falta de transporte publico e aeroportos. Principalmente, a massa de excluídos dos benefícios da grande festa. Aqui, o carnaval ainda não sobrevive ao fim da avenida.


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Há um ano...

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No dia 01 de março do ano passado, tínhamos uma postagem com nome bem sugestivo: “A única certeza é a incerteza”. O tema era o programa nuclear da Coreia do Norte, mas serve muito bem pra mostrar o estado de coisas da maioria dos eventos daquele momento, que têm seus reflexos hoje em dia. Alguns mais previsíveis, outros nem tanto…

Já começamos com essa mesma postagem – no ano passado, o que se falava era sobre suspensão de testes, negociações e visitas de técnicos e inspetores da AIEA, com uma previsão otimista contrastando com a imprevisibilidade de Pyongyang. O que temos hoje? A Coreia do Norte comemorando mais um teste nuclear bem-sucedido, e os vizinhos em pânico com a perspectiva de um acirramento de tensões. Se isso vai se concretizar, ou se os norte-coreanos vão recuar uma vez mais em seus blefes atômicos, não dá pra saber. Quem dirá o que vamos analisar ano que vem sobre isso. 

Por outro lado, temos as surpresas meio que esperadas. No dia 06, postagem sobre as relações entre Brasil e EUA mostrava como os choques de posições entre os países sempre são seguidos de negociação e aproximação. Um dos exemplos mencionados lá era a suspensão da compra de aviões de treinamento brasileiros. O que aconteceu nessa semana? A mesma compra foi confirmada. Nas relações entre Brasil e EUA, por mais que haja percalços, a tendência é cooperação ou entendimento, e nesse sentido não devemos esperar surpresas. 

Por fim, um caso em que não houve surpresa alguma. Postagem do dia 05 comentava sobre a questão da variação do câmbio na economia mundial, e a acusação do Brasil de haver guerra cambial nesse sentido. Mais do que o tema, o interessante é a posição do Brasil. Nessa semana, o Ministro da Fazenda se pronunciou sobre o baixo crescimento do PIB em 2012, e apesar do tom otimista, é perceptível uma cutucada na crise mundial como uma das responsáveis pelo desempenho fraco. A renda das famílias e os empregos crescem, mas ao mesmo tempo a dívida e o consumo também. É um modelo que em longo prazo dá problemas, mas é mais fácil colocar uma vez mais o peso maior da culpa lá fora. Já vi isso antes… 

Bom, é isso pessoal, vamos postando e relembrando.


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