Post do Leitor

Post especial: O Decênio Iraquiano e Suas Consequências para os Estados Unidos e o Mundo

[Hoje é dia de post especial! Colaboração de nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, que traz uma análise importante sobre a guerra ao terror dos EUA e suas consequências, no dia em que se completam exatamente 10 anos da invasão ao Iraque. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Aproveitem!]

No dia vinte de março de 2003, há exatos dez anos, se iniciava uma das guerras mais infames na qual os Estados Unidos da América já participaram. Embasados em diversas contradições e manipulação de informações e discursos (inclusive desveladas depois por um ex-funcionário do governo), a Guerra contra o Iraque suscitou um amplo debate na comunidade internacional acerca das instituições básicas que a sustentam e do papel das organizações internacionais na promoção de seus objetivos de segurança coletiva, além de, obviamente, ter questionado o papel dos Estados Unidos na ordem global do século XXI. Por estas e outras razões, é prudente, então que façamos um momento de reflexão sobre tal conflito. 

Engana-se quem tira rápidas conclusões dessa guerra, quer pró quer contra a posição norte-americana no conflito ou em relação ao Iraque. Mas na exiguidade de linhas, tendências amplas podem ser apontadas. Antes, vale relembrar que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos contavam com considerável apoio internacional. A comoção com tamanhos atos de barbaridade fez Washington conseguir apoio de Moscou, a aquiescência global para atuar no Afeganistão e não ter problemas patentes em levar a OTAN ao distante país asiático. Além do mais, internamente, a histeria criada pelo medo de novos atentados terroristas deu base para medidas antes não aceitas, como um rigoroso controle imposto pelo criado Departamento de Segurança Nacional. 

Independentemente dos debates levados a cabo por muitos pesquisadores sobre a responsabilidade americana de ter nutrido seus futuros algozes,* é importante agora refletir sobre as possibilidades que o 11 de setembro trouxe para os Estados Unidos. Primeiro, uma considerável dose de apoio internacional – depois de nove meses de um governo que se fechava cada vez mais, era a possibilidade de levar adiante agendas que Washington considerava importante. Segundo, o revelar de um novo momento para a política externa do país, em que o apoio à democracia e aos valores que lhe são caros poderiam ser promovidos por meios softs. Por fim, a oportunidade de concretizar sua hegemonia, no que tange a assuntos sensíveis como, por exemplo, terrorismo. 

Todavia, nada disso fora aproveitado. A imprudência com que a administração Bush se lançou na caçada à cabeça do presidente iraquiano (conseguida em 2006), em especial com a junção de três senior players – Dick Cheney, vice-presidente, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa, e Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa – não era justificável por medidas racionais. Na verdade, os três já buscavam o desmantelamento do regime iraquiano desde finda a primeira guerra do Golfo, e criticaram veemente a postura de fraqueza do governo Clinton por não agir decisivamente para acabar com os excessos que encontravam na postura de Bagdá. Oras, quer seja pelas pretensas armas nucleares, ou pela necessidade de mudança de regime, a comunidade internacional não aceitou a nova guerra, e eis que aí, houve o ocaso do breve momento unipolar da América. 

As fissuras mais evidentes se deram em relação aos outros grandes global players. A França, aliada na OTAN, se opôs veementemente à guerra. A Rússia e a China exerceram pressão para que os “planos quixotescos” – a exportação da democracia, como acabou sendo – não fossem levados a cabo. Mesmo países com importância menor no Conselho de Segurança, como o México, se opuseram ao movimento das forças armadas vizinhas rumo ao golfo pérsico. 

Para além disso, o tiro no Iraque saiu pela culatra. O país hoje é governado pela maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o que o aproxima do vizinho Irã, grande inimigo dos Estados Unidos. Os níveis de violência continuam alarmantes, sendo frequentes os relatos de atentados terroristas no país, chegando a uma média de 300 pessoas mortas por mês, fomentados justamente pelas divisões de cunho religioso. 

A credibilidade norte-americana, já abalada por seu jogo de superpotência e excessos cometidos há muitas décadas, sofreu duro golpe com a guerra contra o regime de Saddam Hussein. O número de mortos no conflito ajudou a cristalizar uma visão negativa da atuação internacional dos Estados Unidos na região. Em casa, os soldados, sem apoio perpetraram crimes contra seus próprios conterrâneos, e bem, nem os Estados Unidos, nem Israel, (o grande aliado norte-americano na região, impossibilitado ou indiferente a auxiliar o governo americano em diversas operações), estão mais seguros em um mundo cada vez mais efervescente, em que o uso da força é visto com cada vez mais suspeita. 

Por outro lado, o sistema onusiano, impossibilitado, pelos próprios mecanismos que lhe dão forma, de agir diante da ação unilateral norte-americana, vem tentando se reformular, para fazer frente aos desafios do século XXI e dos excessos de uma potência. Além do mais, outras instâncias internacionais foram criadas para abarcar países que discordaram das posições unilaterais de Washington. A América do Sul criou o Conselho de Defesa Sul-Americano no âmbito da Unasul; a União Europeia reforçou a partir de Lisboa (2007), a Política de Defesa e Segurança Comum, a União Africana está cada vez mais ciente de suas possibilidades de atuação nos territórios de Estados-membros; e no Golfo, o Conselho de Cooperação do Golfo se mantém firme em relação às ameaças que porventura surjam às monarquias do golfo (tal como as revoltas e levantes no Estado-membro Bahrein, desde 2011). Nenhum desses grupos ignora a importância norte-americana, mas hoje reconhecem que há agendas de segurança que devem ser debatidas localmente. 

Desta feita, não defendemos aqui que a Guerra do Iraque foi a causa nem o estopim para tamanhas mudanças. Todas elas, de alguma maneira, já haviam sendo gestadas desde o 11 de setembro. O que apontamos é como os Estados Unidos remaram na maré contrária ao dar continuidade ao plano de guerra, ao atacar o Iraque e ao tentar impor a visão maniqueísta de mundo sustentado por homens como Cheney, Rumslfed e Wolfowitz. É compreensível que a política externa norte-americana tenha ecos da política interna, dos lobbies e dos mais diversos grupos de interesse, mas dessa vez, a desconsideração para com o interesse nacional, ou sequer com valores internacionalmente aceitos, formulados a partir de uma hegemonia norte-americana, foram longe demais. Arriscaram a hegemonia, conquistada após a Guerra Fria, e por imprudentes que foram, se veem hoje diante de um mundo que não esqueceu a invasão iraquiana e todas suas consequências. 

*Para mais informações sobre o tema, consultar a dissertação do autor aqui.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Post do leitor, Post Especial, Segurança


Ota Benga e "Vem Sean Penn"

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A maioria dos que lerem este post certamente terá nascido no fim do século XX, provavelmente dos anos 80 em diante. Estarão mais do que familiarizados com a ideia de que o mundo está vivendo grandes mudanças, cada vez mais velozes. Em nosso próprio cotidiano, nas propagandas que vemos ou lemos, sempre há o anuncio de algo novo, ainda mais quando falamos em tecnologia. De forma geral, foi no século XX que as alterações pisaram no acelerador. Mudanças por vezes tão radicais, que não conseguimos enxergar como eram certas coisas anteriormente ao nosso tempo. Quero mostrar, por meio de dois exemplos, os impactos do século passado no comportamento humano.

As duas fotos do início do texto representam pessoas comuns, sem significado histórico. A primeira delas é de Ota Benga, um Pigmeu aprisionado no Congo Belga em 1904, e levado dois anos depois a um zoológico Humano nos Estados Unidos. “Zoológico Humano” é um termo que pode soar estranho a maioria, mas era um tanto comum a existência de um local onde pessoas consideradas “menos desenvolvidas” eram expostas como animais, na maioria das vezes para cientistas, aristocratas e curiosos. Visitavam os zoos uma nata dos mais abonados cidadãos dos países ricos. O costume era apenas um dos prenúncios do que ocorreria no primeiro quarto do século passado: o aumento do poder da teoria cientifica do Racismo e da Eugenia.

A década de 20 e de 30 não tardaria a expor a força de tais grupos. Órgãos políticos e científicos internacionais surgiram sob as asas dessas teorias. Entre as ciências que inicialmente caminharam juntas com os Racistas está a Demografia, que havia acabado de nascer. Fácil foi para esses grupos enxergarem no Nazismo a possibilidade de porem em prática o que achavam correto. Logo, o mundo receberia sua primeira versão moderna de inserção, a visão de um ser humano universal. Por incrível que pareça, uma das bandeiras do Nazismo era a universalidade. Porém, isso só seria alcançado se as pessoas de “Raças” menos desenvolvidas e deficientes físicos e mentais fossem caçados, quando não, exterminados.

A ascensão e a queda do Nazismo foi também a demonstração real das consequências de uma sociedade Eugênica e Racista. O fim da Segunda Grande Guerra também marcou a fundação de órgãos como a ONU e a refundação de tantos outros, antes sedimentados no Racismo. As mudanças no mundo foram muito além do surgimento de novas instituições. Também houve uma mudança comportamental das sociedades e de seus grandes líderes. A inserção de valores humanitários se transformou em uma bandeira mundial, defendida no campo da política internacional. Assim, o combate ao Racismo, o respeito aos deficientes e até mesmo o combate de ideias nocivas atuais, como os que querem a utilização de métodos contraceptivos forçados em pessoas de países pobres, tem forte oposição. A “tolerância” se transformou em tema central das discussões políticas internacionais, sendo recorrente no discurso de líderes e instituições de todos os tipos.

Assim, chegamos ao século XXI, no qual entre tantos outros exemplos, está o de Ariel Goldenberg, ator brasileiro com Síndrome de Down. Durante as últimas semanas se transformou em celebridade, enquanto buscava a realização do sonho de conhecer o ator americano “Sean Penn”. Como veem, Ariel é uma pessoa bastante comum, com sonhos bastante comuns. As notícias que seu nome aparece fazem partes dos sites de celebridades e de fofocas. Mas mesmo assim, o exemplo dele pode ser usado como reforço de que cada dia os esforços políticos e da sociedade fazem com que quebremos o preconceito ao que classificamos como diferentes. Algo que para alguns pode ser bastante comum, mas olhando para apenas cem anos atrás vemos o salto do comportamento humano sobre o tema.  Ariel e Ota Benga, o presente e o passado. Entre eles a história, que nos faz compreender a dimensão das mudanças humanas no último século, muito além da tecnologia.


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Imagem da Semana

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Em semana de novo papa, muitas imagens poderiam ser usadas, como a da fumaça branca ou de sua primeira aparição, mas talvez a mais significativa possa ser a de seu encontro “cordial” com Cristina Kirchner. A imagem representa bem os desafios e contradições do novo pontífice. Francisco teve suas rusgas com Cristina K na sua época de cardeal Bergoglio, especialmente por suas críticas à política agrícola do governo, pobreza, e suas posições conservadoras. Agora Cristina deseja a protocolar sorte ao novo papa, mas em outros tempos essa imagem seria impensável. O encontro com Kirchner, apesar de ser mais complicado para a presidente argentina, é emblemático. Francisco terá de lidar com contradições, como a expectativa de mudanças contrastando com seu conservadorismo, e principalmente, com oposição. Isso pode ser possível com sua (até o momento) aparente proximidade com os fieis e seu repúdio ao fausto do Vaticano. O encontro com Kirchner parece mostrar um pouco disso, mas só o tempo dirá.


O fim do mundo

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Poucos acontecimentos chamaram tanto a atenção da mídia e do público globais quanto à sucessão papal. Para a surpresa de muitos, e após um rápido conclave, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o novo Sumo Pontífice. Logo em seu primeiro pronunciamento, o papa Francisco (nome adotado) disse, em tom de brincadeira, que seus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao “fim do mundo”. Por fim do mundo, leia-se qualquer domínio fora da Europa. Esse é o ineditismo mais marcante: o término de 1.300 anos de exclusividade do papado europeu. 

Por trás dos holofotes da escolha histórica do novo papa, está em curso um processo de reordenamento global. As ditas grandes potências carregam o ônus da construção da ordem internacional posterior à 2ª Guerra Mundial, cada vez mais desgastada, e as ditas potências emergentes, àquelas do “fim do mundo”, procuram aumentar sua influência nas principais decisões globais, contestando a velha – e, ao mesmo tempo, atual – ordem ainda vigente. 

Será que o “início do mundo”, ao qual se acrescentaria o Estados Unidos, ditarão os princípios, valores, normas, práticas e costumes que orientarão e regularão as relações internacionais no século XXI? Que papel exerce e exercerá o “fim do mundo”, particularmente os países emergentes, na política mundial? Barão do Rio Branco sentenciou que o século XX seria o século dos Estados Unidos. Dito e feito. Muitos analistas, hoje, afirmam que o século XXI pertencerá à China. Mas não será exclusivo do gigante asiático. É provável que haja uma maior distribuição de poder entre os países, porém, ainda assimétrica, variando de acordo com suas dimensões: militar, econômico, cultural, etc. Essa multipolaridade deve ser mais competitiva, uma vez que potências tradicionais e novas travarão disputas, em princípio verbais, pela redefinição da ordem internacional vigente. O ponto de partida parece ser a reforma das instituições multilaterais, notadamente a ONU, o FMI e o Banco Mundial. 

O mundo atravessa uma grave crise, mais do que financeira, de governança. Faltam lideranças e soluções mundiais representativas e equilibradas. Não é por acaso que figuras como Chávez, Ahmadinejad e King Jong-un se projetam. Assim como não é por acaso que a democracia e o estado de bem-estar social europeus são colocados em xeque. Exemplo mais recente é a Itália. Quando o uso da força aparece como solução viável, falta o controle sobre seu emprego e seus resultados, como se observou na Líbia. Além de todos os problemas já debatidos, um dos fatores que explica o baixo crescimento do comércio mundial, em 2011, conforme relatório da OMC, foi a intervenção nesse país, que provocou a diminuição da oferta de petróleo e a consequente elevação do preço do barril. 

E os países emergentes? Para não se limitar a revistas ou noticiários, destaca-se que o último relatório de desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recentemente publicado, é intitulado “A ascensão do Sul: o progresso humano em um mundo diverso”. Outra publicação da PwC Economics, muito interessante, fez projeções sobre o mundo em 2050. A estimativa é que, entre 2011 e a metade deste século, as economias emergentes cresçam 4% ou mais por ano, enquanto as economias avançadas cresçam 2% ou menos por ano. A tendência é que Nigéria, Vietnã, Índia e Indonésia estejam na dianteira desse processo. 

É claro que a pujança econômica não é um indicativo absoluto de poder. Ela é apenas um exemplo de que o predomínio euro-americano nas relações internacionais é coisa do passado. Em mundo mais multipolar e assimétrico, os países emergentes, ainda que não adentrem – por repulsão ou opção – ao seleto grupo das grandes potências mundiais, serão indispensáveis à redefinição da ordem internacional. À semelhança da frase da presidente Dilma sobre o combate a miséria, pode-se dizer que “o fim mundo é apenas o começo”. E abrir aquele sorriso acolhedor e esperançoso de Jorge Mario Bergoglio, porque ainda não se sabe o que representa esse começo…

[Post elaborado pelo colaborador Giovanni Okado] 


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


O orçamento da discórida

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O debate acerca do próximo orçamento da União Europeia foi um campo de batalha. De lados opostos, posicionaram-se os pró-austeridade e os defensores de políticas distintas para enfrentar o atual cenário econômico. Em novembro, não houve acordo. Em fevereiro, por sua vez, a inclinação para austeridade venceu.  

Enquanto Reino Unido e Alemanha pregam maior responsabilidade fiscal, visando diminuir o déficit; França, Itália e Espanha parecem mais preocupadas com o crescimento econômico e a geração de empregos. Não que os pró-austeridade não queiram uma economia próspera, pelo contrário. Existe, em realidade, visões opostas quanto ao caminho para alcançá-la.  

O orçamento europeu, discutido a cada sete anos, representa 1% da produção econômica dos países-membros e 2% do total de seus gastos públicos totais. A despeito da aparência de pouca relevância, grande parte do montante visa programas de bem-estar social, pensões e saúde, de acordo com a Comissão Europeia. Por isto, sua importância. O embate terminou com a definição de €959,99 bilhões como teto do orçamento, menos do que os €960 bilhões que o presidente francês havia dito ser seu limite.

   

Eis que, após esta longa batalha, surge o Parlamento Europeu para fomentar mais discórdias. Foram 506 votos contrários ao acordo orçamentário. Os 161 votos a favor da proposta dão mostras da opinião majoritária. Para eles, a preocupação essencial é estabelecer a flexibilidade dos gastos previstos não realizados para outras prioridades; assim como aprovar uma reunião para rever o orçamento após as eleições de 2014, caso ocorra uma recuperação econômica até lá.  

No meio de tudo isto, há ainda questões políticas mal resolvidas. David Cameron puxou a fila dos que ameaçam abandonar o barco. A líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen, também defende um referendo sobre a continuidade de seu país na União. Isto sem contar os eurocéticos italianos. Afinal, o candidato pró-austeridade, Mario Monti, sofreu uma derrota retumbante nas eleições da Itália.  

Para Cameron, sem as amarras da União Europeia, seu país estaria livre para praticar suas políticas de austeridade. Sobraria, para questões internas, o tempo que ele gasta tentando outros países a segui-lo. Na Alemanha, a agenda 2010, do então primeiro-ministro Schroder, serve de inspiração para os possíveis novos caminhos. Naquela época, as suas reformas sociais e do mercado de trabalho resultaram em derrota eleitoral. De fato, a austeridade é um capital eleitoral difícil de carregar.

Já o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008, não entende quais são os sucessos das políticas de austeridade. Para ele, o foco deveria ser a continuidade do combate ao desemprego e a reanimação da economia. O debate seguirá, mas o ímpeto de maior controle de gastos deve seguir entre os líderes europeus. Restará, porém, driblar a oposição do Parlamento Europeu. O mais difícil parecia ter sido logrado. Parecia.

Imagem: fonte


Categorias: Economia, Europa


O ápice da miséria

Por

 


“É preciso estudar as misérias dos homens, 

incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm

 quanto aos meios para combatê-las. “

A Vontade de Poder – F. Nietzsche

Procurando em qualquer dicionário, a miséria significa falta de recursos, penúria, pobreza, estado indigno e vergonhoso, falta de necessidade à vida. E não por menos Victor Hugo escreveu Les Misérables e retratou grande parte dessas características nos cinco volumes da extensa obra. Para quem já leu o livro ou assistiu ao musical lançado em 2012, logo reconhece as figuras de Fantine e Cosette, mãe e filha retratadas em inúmeras passagens como símbolo da pobreza miserável. É uma carência econômica e sentimental, mas em nenhum ponto moral. Até o personagem central, Jean Valjean, retrata este ponto com maestria: condenado por roubar um pão, passou dezenove anos na prisão e depois se reergueu, alcançando o posto de dono de fábrica e prefeito. 

A miséria no sentido de falta de recursos é dolorida. Dói ver as carências e as necessidades das pessoas que não estão lá por livre e espontânea vontade. Todavia, nada se compara à miséria de ideais. É dela que vem a intolerância, o “pó embaixo do tapete”, o “lobo em pele de cordeiro”. E, neste caso, a pele figura-se como muitas outras: um belo terno e uma gravata para passar na porta sem ser barrado por quaisquer seguranças. 

É assim que se transpassa o enredo de “Os Miseráveis” para a atual conjuntura da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Não é uma pobreza financeira, muito pelo contrário, mas uma pobreza de respeito ao outro, o qual ainda é muito visto como “o diferente”. Na verdade não é, mas para a grande massa “impensante” do Brasil acaba sendo. O ódio acaba nascendo em virtude do olhar sorrateiro, daquele que vê com repulsa, mas vira o rosto quando é percebido. 

Não se pode generalizar em momento algum. Não se trata de uma miséria da CDHM como um todo, e sim somente de um pequeno grupo que deve estar presente. Todavia não deve mandar e desmandar nas diretrizes propostas pela comissão. Como já é sabido por grande maioria, o Deputado Domingos Dutra (PT-MA) renunciou ao posto de presidente da comissão no dia 07 do presente mês promovendo um discurso no qual chamou de farsa e ditadura o que viria a acontecer dali pra frente. 

Fonte: camaraempauta.com.br

Entrou em cena o “homem da vez”: o Deputado vulgo Pastor ou Pastor vulgo Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) (foto), declaradamente homofóbico e racista. Disse, no Twitter, que os africanos são descendentes de ancestrais amaldiçoados por Noé. Totalmente contraditório com o que está escrito na página inicial do seu partido, o Social Cristão. “O ser humano em primeiro lugar”, é a grafia oficial da organização. 

Como consequência da indicação de Marco Feliciano, uma série de protestos da sociedade civil e dos próprios deputados tomou proporções gigantescas. Logo na primeira sessão comandada pelo pastor, houve confusão generalizada e até o Deputado Jair Bolsonaro, sempre polêmico e intransigente, estava lá apoiando o novo presidente.

O caso da CDHM é apenas o ápice de um problema bem maior, cujas raízes estão fincadas no alto grau de ligação entre política e religião no Brasil. Teoricamente, o Estado é laico, ou seja, neutro em questões religiosas. Entretanto, na prática o que acontece é o oposto: há, inclusive, casos de reuniões evangélicas na própria Câmara entre os deputados. Se isso contraria a Constituição e deixa de abranger inúmeros outros credos e ideais, é, no mínimo, miserável no sentido de não ter valor. 

Fica-se, portanto, o recado dado. Não se trata de um pastor, uma religião, um partido. Trata-se de um movimento maior e não democrático. Um movimento extremamente conservador e ortodoxo em sua essência, o qual, por conseguinte, barra o avanço da democracia brasileira. Pode ser evangélico, católico, testemunha de Jeová ou qualquer credo, isso independe do cerne da questão. O episódio da CDHM é o ápice da miséria partidária e política que vivenciamos. O Estado deve ser laico e ponto! Caso contrário, os direitos jamais serão humanos e nunca haverá democracia no sentido mais puro da palavra. Continuará imperando até o que denominaram de “Jesuscracia”. Pode não ser verdade e seria engraçado se não fosse trágico.


Categorias: Brasil, Mídia, Polêmica


A verdade dos números

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A matemática é uma das ciências mais sensacionais que a humanidade conseguiu criar. Dar formas abstratas a fenômenos observados, e ser capaz de prever os resultados, além de poder aplicar essa técnica a quase tudo que existe, das moléculas fundamentais ao movimento do universo. Então, por que não aplicar esse tipo de conhecimento às ciências “humanas”? Isso é a base do segundo debate das relações internacionais, mas essa discussão fica pra outro dia. Hoje falamos da divulgação dos dados do IDH de 2011, e por que é difícil misturar política com números. 

Recordando, o IDH é um indicador de desenvolvimento que mostra, grosso modo, a qualidade de vida da população de cada país. Pois bem, o foco acaba sendo sempre o Brasil, e pipocam análises sobre os dados aqui e acolá. O relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que estamos na 85ª posição, atrás de países como a Grécia (mesmo mal das pernas na economia) e o México (praticamente em guerra civil com traficantes). Na verdade, vamos mal em comparação à própria América Latina. Mas também estamos á frente de Índia e China, por exemplo, e na “competição” particular dos BRICS perdemos apenas da Rússia nesse ranking. 

Muito legal, mas… e daí? O valor disso vem das comparações. Os demais BRICS, por exemplo, tiveram crescimento maior no IDH, percentualmente. Por outro lado, o Brasil tem uma média de crescimento histórico impressionante, apesar do desempenho fraco nos últimos anos. O que isso significa? A ideia é ver os indicadores, verificar quais políticas estão dando certo ou errado e consertar o que for preciso. Mas aqui temos outra dificuldade, que é o valor político que esse número toma. 

O Brasil, por exemplo, está chiando que os resultados seriam melhores se os números utilizados fossem mais recentes. Mesmo que fossem esses dados mais novos, com mais gente na escola (um dos fatores principais para a determinação do índice)… faria alguma diferença na prática? Afinal, não adianta termos porcentagens grandes de alunos matriculados quando uma enorme parcela deles são alfabetos funcionais, a porcentagem que chega ao ensino superior (mesmo com os programas governamentais) é pequena e em comparação a estudantes de outros países levamos uma sova nas provas comparativas de ciências. Só um exemplo, mas poderíamos entrar na questão das estratégias mirabolantes de manipulação das faixas de renda, e por aí vai. E isso pra não falar de outros índices, como o coeficiente de Gini, de concentração de renda, que nos faz passar vergonha. 

O que fica de tudo isso? Primeiro, mexer com números pode ser uma dor de cabeça para astrônomos e engenheiros, mas muito mais para estatísticos, economistas e gestores, que lidam com o improvável e incerto. Por mais que isolem as variáveis, vai haver desvios e críticas aos modelos (como o próprio IDH sofre). Segundo, a apropriação desses dados, e sua distorção, pode ter efeitos muitos ruins – com políticas que rendem números bonitos, mas pouco efeito prático. A ideia é ajudar a erradicar a pobreza, mas sem bom-senso na interpretação e aplicação desses dados, eles se tornam apenas o que são, números.


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O universo e a América Latina

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No dia que já ficou marcado pela escolha do primeiro Papa latino-americano da história, um outro acontecimento também de proporções históricas para a América Latina merece destaque. No Chile, foi inaugurado hoje o maior projeto astronômico do mundo, o observatório ALMA (da sigla em inglês “Atacama Large Millimeter/submillimeter Array” ou Grande Conjunto milimétrico/submilimétrico do Atacama). [Leia mais sobre o assunto aqui e aqui.]

Dadas as excelentes condições geográficas do local escolhido, após uma década de construções, mais de 1 bilhão de dólares de investimento e a participação ativa de instituições do Chile, dos Estados Unidos, do Japão, de Taiwan e da Europa, a inauguração deste observatório parece abrir uma nova janela de oportunidades ainda desconhecidas para o estudo do universo.

Trata-se da mais avançada estrutura já construída nesta área, sendo que, reunidas, as antenas do observatório podem operar como um imenso telescópio de 16 quilômetros (!) de diâmetro. Tamanho poder de captação de imagens traz consigo a possibilidade de melhor estudar aspectos ainda obscuros para os cientistas, tais como o processo de formação das galáxias e mesmo a origem da matéria orgânica e da vida.

Se o mais incompreensível do mundo é que ele seja compreensível, o ALMA poderá representar, a partir de agora, uma impressionante ferramenta neste processo humano de constante busca pela compreensão dos mistérios do universo em que vivemos. A mobilização internacional neste sentido é grande, o que faz com que todos os olhos se voltem – ainda mais – para uma América Latina que emerge e mostra sua centralidade no contexto mundial (ou mesmo universal!) da atualidade… 


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Sua Santidade, o Papa?

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Hoje foi iniciado o Conclave, espécie de reunião e ritual que sempre define o novo Papa. Como de costume, há uma grande cobertura midiática sobre o evento e há uma multidão acampada na Praça de São Pedro que o acompanha ao vivo. Mesmo com o abrandamento da influência da igreja Católica no mundo, a escolha do próximo líder religioso e chefe de Estado do Vaticano ainda é assunto dos mais importantes. 

O interesse pelo conclave foi aumentado pela renúncia do atual Papa Bento XVI. Durante mais de 600 anos, apenas a morte havia sido capaz de destronar os eleitos ao cargo. O fato ganha ainda mais repercussão pela série de denúncias contra a igreja Católica, que podem ter influenciado na decisão de deixar o cargo. As causas de sua desistência ainda fogem ao conhecimento do público e, ao que parece, as suas motivações serão um mistério nunca revelado, alimentado apenas por teorias que mesmo somadas não serão capazes de elucidar toda a realidade. Mesmo assim, o acontecimento torna ainda mais visível as manchas causadas pelos erros de alguns membros da Igreja, denunciados por meio da imprensa e do vazamento de documentos secretos do Vaticano

Os casos denunciados, a maioria de pedofilia e corrupção estão longe de serem os maiores escândalos da história da Igreja. Manchas como a condescendência em relação à escravidão negra, a perseguição de outras crenças nas Inquisições ou o apoio regional ao Nazismo e outros modelos políticos catastróficos estão entre os erros maiores durante sua história, reconhecidos muitas vezes por seus próprios lideres. 

Evidente que todas as instituições estão sujeitas aos erros de seus membros. A religião não foge á regra. O problema é que a Igreja não soube lidar ainda com a transição entre instituição inatingível até alvo fácil das mais variadas críticas e acusações. Aliás, todas as dificuldades atuais da igreja só são aumentadas pela falta de capacidade em admitir a sua face humana. Tentativas forçadas de acobertar crimes de padres, denúncias de corrupção e de desrespeito à crença do celibato pioraram ainda mais os casos que vieram ao conhecimento popular. A Igreja não consegue lidar com a sua perda de poder, a limitação que agora a atinge. 

A queda do número de fiéis também parece um fenômeno bastante explicável em relação a falta de novas maneiras de atração a religião. Durante décadas, a massificação de sociedades inteiras como seguidoras da mesma fé foram sustentadas pelos papéis exercidos pelo Estado, a Família, a Escola e da própria Igreja, os antes tradicionais Aparelhos Ideológicos. O mundo moderno é exatamente o oposto, é o da pulverização desse tipo de controle de identidades. O presente chega a transformar o Conclave em espetáculo midiático e os segredos dos corredores do Vaticano em espaço para um reality show de espionagem e denúncias. 

A falha de Bento XVI quanto ao diálogo bem sucedido entre Igreja e sociedade também são claros. A sua defesa ao sexo apenas para reprodução, o não uso de métodos anticoncepcionais ou a abstinência sexual antes do casamento foram tratados pela maioria com revolta ou indiferença. Isso apenas para citar a decadência do poder papal em influenciar a sexualidade das pessoas. A igreja Católica ainda busca transmitir uma solidez anacrônica, para a maioria inaceitável. Enquanto isso, o restante de sua influência ideológica patina, quase desaparece, restando apenas seu ainda vasto poder político e financeiro, a maioria de origem tão obscura quanto as denúncias que pipocam na imprensa. Mais obscuro ainda é o futuro da Igreja como formadora dos valores morais e éticos ocidentais.

Os desafios do próximo chefe de Estado do Vaticano e líder da maior religião do mundo são muito maiores do que aparar arestas das denúncias e crises da igreja Católica. Na verdade, ele terá que provar que sua instituição consegue se inserir e sobreviver à nova realidade mundial, muito mais hostil aos seus interesses e regras, e ainda por cima sem o poder gigantesco que no passado justificaram os seus malfeitos.


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Post Especial – Novo Colaborador

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Hoje escrevemos um post muito especial. Trazemos uma novidade muito importante para vocês e para a Página Internacional. Com muita alegria e satisfação, é hora de congratularmos e darmos boas vindas ao mais novo colaborador do blog, Victor Uchôa

Este excepcional graduando em Ciências Sociais pela UNICAMP, agora iniciando seu último ano de graduação, sempre teve uma paixão pela leitura e pelas palavras. Interesse e vocação que o tem guiado a trilhar os caminhos de sua vida flertando sempre com o jornalismo e leituras sobre o mundo e o cotidiano. Não é da área Relações Internacionais como os demais membros do blog, mas possui uma formação diferente com uma visão crítica que só terá a agregar aos leitores, ao debate e à equipe de colaboradores. 

Como diria Mario Quintana:

“Só o desejo inquieto, que não passa, 
Faz o encanto da coisa desejada… 
E terminamos desdenhando a caça 
Pela doida aventura da caçada.”

Seu desejo pelas palavras e pela compreensão desse mundo incompleto o vão guiando sem saber onde a “caçada” irá terminar. E, para a Página Internacional, blog que começou como um sonho e um desejo coletivo do qual jamais se imaginara qual seria a “coisa desejada”, Victor se encaixa muito bem. 

Formalizamos nossas boas vindas e nosso voto de que o sucesso caminhe com ele nessa nova etapa como redator da Página Internacional. Deixamos também nosso agradecimento a todos vocês, nossos leitores, e os convidamos a enviar e compartilhar seus textos conosco. 

Que nossa paixão pelas palavras e nosso desejo coletivo continue a nos motivar!


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