Post Especial: homenagem a Kenneth Waltz (1924-2013)

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Fonte: berkeley.edu


Não há nada mais comum para uma área científica contemporânea do que ter marcos, referências e métodos um tanto quanto atuais, digamos assim. E isso é bom porque vivenciamos algumas das principais referências das Relações Internacionais ainda em vida. Lemos livros que, embora novos, já se tornaram clássicos, e é bom saber que seus autores podem responder um email a qualquer momento. Já conheci gente, seja graduando ou pós-doutor, que recebeu resposta direta de Joseph Nye e Robert Keohane, por exemplo. 

Temos a ideia de “endeusar” autores referenciais. Comprar um livro, ler, gostar e, se tiver a oportunidade, pegar até um autógrafo. Pode parecer estranho, mas, quando estava no meu primeiro ano da faculdade e participei do Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (ENERI) e do Encuentro de Estudiantes y Graduados en Relaciones Internacionales del Cono Sur (CONOSUR) em 2008, na cidade de Ribeirão Preto (SP), nunca vi tanta gente entusiasmada em ver figuras como Stephen Krasner e o já citado Keohane. É uma satisfação ter contato com gente que realmente faz as Relações Internacionais no sentido mais puro e pleno da palavra. 

Infelizmente, a partir de hoje, não teremos mais a sensação descrita acima com um dos maiores, senão o maior, teórico de Relações Internacionais, seja ele o neo-realista Kenneth Waltz (foto). Referenciado como “Waltz” para os scholars ou simplesmente “Ken” para os amigos e professores mais próximos, conforme pode ser visto no texto de Stephen M. Walt, tornou-se um dos mais célebres teóricos do período da Guerra Fria e, com toda certeza, no pós-Guerra. 

Ficou notadamente conhecido por duas obras centrais: “Man, the state, and War” de 1959 e “Theory of International Politics” de 1979. Além de ser um acadêmico brilhante, serviu no exército norte-americano durante a Guerra da Coreia (1950-1953) e foi totalmente contrário à invasão do Iraque em 2003. Talvez o primeiro episódio tenha provocado no autor um forte caráter realista, vedando qualquer aspecto pacifista em suas concepções políticas internacionais. 

Waltz reuniu todos os aspectos centrais em um autor para delimitar e sustentar um dos pilares do que hoje é conhecido com o terceiro debate teórico das Relações Internacionais. Foi o núcleo realista baseado na figura do Estado enquanto principal ator internacional que vivia em um ambiente internacional anárquico que deu as bases para o Neo-realismo ou Realismo Estrutural, o qual carregará para sempre a figura do autor. 

Era Professor Emérito na Universidade de Berkeley e Pesquisador Sênior da Universidade de Columbia, tendo concluído seu doutorado nesta última faculdade ainda em 1957. Soube trazer com primazia o debate da Ciência Política para as Relações Internacionais e mostrou-se polêmico com a defesa de que a proliferação de armamentos nucleares ao redor do mundo aumentaria a probabilidade de se alcançar uma paz mundial.

Como neo-realista, tinha um alto teor de abstração em seus pensamentos e conceitualizações, mas nada que retirasse o mérito de sua corrente intelectual. Seguiu mestres e deixou mais seguidores. Sua benéfica “troca de farpas” com o neoliberal Robert Keohane deixará saudades. Se existem liberalismos, é porque existiu Kenneth Waltz. Ficarão as lembranças de um ícone, de alguém que soube vivenciar a prática e transpô-la à teoria. Com certeza faltará este autógrafo em muitas bibliotecas.

PS: O email de Robert Jervis sobre o falecimento de Waltz pode ser lido aqui.


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Há um ano...

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Há um ano, duas postagens sobre eleições de 2012 se destacavam na Página Internacional. No dia 07 de maio, se falava sobre a eleição do socialista François Hollande e a saída de cena de Nicolas Sarkozy na França. A expectativa era, depois de um governo espetaculoso e cheio de escândalos e problemas na economia, que o liberal comedido Hollande fosse a representação do “candidato normal” e conseguisse recolocar o país nos trihos. Pois bem, na postagem dessa semana, já vimos como as coisas não vão tão bem – as dificuldades econômicas e políticas que emperram o cumprimento de promessas de campanha está minando a popularidade do presidente francês, que agora se vê em situação tão complicada quanto seu antecessor.

A postagem seguinte, no dia 08 de maio, falava de uma eleição ainda mais espinhosa, com a até então indefinida questão da sucessão presidencial no Egito (após mais de um ano da renúncia de Hosni Mubarak) e os protestos que eram causados pelo governo militar interino. Por um lado, as eleições realmente ocorreram em junho daquele ano, e o estigma da militarização arrefeceu um pouco. Por outro lado, a ascensão em poder de grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana e o caldeirão político que existe por lá resultam em mudanças drásticas na política externa do país e em problemas de ordem interna, com insatisfação generalizada e a persistência de boa parte dos problemas que causaram a queda de Mubarak (que por sinal está sendo julgado nesse fim de semana pela morte de manifestantes nas revoltas de 2011). Ou seja, mesmo com a eleição definida, pouca coisa mudou. 

Por fim, no dia 13, tivemos uma postagem especial, com o início da série de colaborações da leitora Tamiris Batista, “Ideias que transcendem fronteiras”, tratando nesse primeiro texto da diversidade sexual. Após um ano, o conteúdo de seus textos se mostra muito atual (e o será por muito tempo), e fica a indicação de leitura dessa instigante e importante colaboração que se iniciava há um ano. 

 E vamos que vamos pessoal, postando e relembrando…


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O martírio do Sr. Normal

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A mudança que um ano teve na vida do presidente francês foi impressionante. Claro que existem as dificuldades de se governar em tempos econômicos difíceis, mas François Hollande não deve ter imaginado o que viria. O seu nível de popularidade atingiu 24%, o menor desde a fundação da chamada Quinta República francesa, em 1958. Ele conseguiu desagradar a esquerda, que seu partido socialista tende a representar, além de seus opositores regulares da direita. Um outro partido de esquerda fala inclusive da necessidade de fundar a Sexta República. 

Seu principal concorrente há um ano, Nicolas Sarkozy, afirmou que se perdesse nunca mais os franceses iam ouvir falar dele. Mesmo com os seus recentes escândalos (ter recebido doações de Kadafi para sua candidatura em 2007 e ter abusado da boa vontade de uma herdeira idosa), ele parece ensaiar um retorno. Hollande não parece simpatizar nem com a ideia e muito menos com a figura. Em um evento público recente, o presidente respondeu a esta inocente pergunta de uma criança “E o Sarkozy, onde ele está?” com a categórica frase “Você nunca mais o verá”.  

Pois bem, talvez o reencontro não seja tão improvável quanto pensa (ou gostaria) Hollande. Sejamos justos, o próprio candidato “normal”, como se autodenominava o agora presidente, sabia que os dois primeiros anos do seu mandato seriam difíceis e que os frutos seriam colhidos nos três finais. Vai explicar isto para alguém agora. Um jornal encontrou um novo apelido para o incumbente: “o Sr. Fraco”. Em outro levantamento jornalístico, somente 17 das 31 promessas de campanha teriam sido cumpridas. Contudo, o pior evento até agora foi o escândalo das contas no exterior de seu ministro do orçamento. O governo exemplar que fora prometido contrastou com as mentiras descaradas de um políticode sua confiança.  

Partindo de mais de 60% de aprovação, passando pela cruzada contra os ricos, pela a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo (pelo Parlamento, vale lembrar), chegando finalmente em uma economia cambaleante. Isto já bastaria. Foi além, com o aumento do desemprego, parte de sua base de apoio mudou de time. Além disto, manifestaçõescontrárias à expansão do casamento para todos se tornaram barulhentas. Aquela normalidade frente à excepcionalidade (referência à Sarkozy-Bruni) prometida passou a ser questionada. Pelo menos os gastos de sua companheira são três vezes menores que os da estrela Carla Bruni, isso ele pode dizer. 

É nessas horas que o Sarkozy deve chegar a sua conclusão “serei forçado a voltar” e que a Angela Merkel, chanceler da Alemanha, deve pensar “eu bem que preferia o Sarkozy, olha no que deu”. Tem ainda extrema direita da Frente Nacional no retrovisor. Mesmo assim, Hollande tem mais 4 anos para virar o jogo. De imediato, fica sua promessa de inverter a curva do desemprego até o final do ano, diminuir o número de soldados franceses no Mali, além de outras medidas para reativar a economia e rever benefícios sociais.  

Ao menos, como diria Tiririca, parece que “pior que tá não fica”.     

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Visitas amigáveis

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Fonte: Roberto Stuckert Filho/PR


Dando continuidade aos assuntos mais relevantes da presente semana, vamos focar um pouco aqui na América do Sul. Nos últimos três dias, Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela, visitou e manteve diálogo com Mujica, no Uruguai, Kirchner, na Argentina, e Rousseff, aqui no Brasil. Foi a primeira grande viagem internacional do líder venezuelano após o falecimento de Hugo Chávez e sua tomada da posse no cargo em meados de Abril. 

O giro pela região evidencia um duplo processo. Primeiro, é uma forma de Maduro ratificar a legitimidade de sua conturbada eleição e passar uma imagem positiva da Venezuela ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Segundo, além de ser uma visita usual, é uma maneira do presidente atestar seu comprometimento com o bloco regional, fato que ficou notadamente reconhecido durante estes dias com a assinatura de diversos acordos, dentre eles os que tangem cooperações energéticas com os uruguaios e convênios de inclusão social e alimentícia com os argentinos.

No caso específico do Brasil, os acordos versaram sobre a construção de fábricas em território venezuelano por uma empresa brasileira nas áreas de fertilização e derivados do petróleo. Além disso, debates em torno do comércio de produtos básicos como açúcar, óleo, farinha de trigo e leite foram colocados na pauta, tendo em vista que desde o ano passado faltam esses produtos nas prateleiras dos supermercados da Venezuela. Nada melhor do que buscar soluções no próprio MERCOSUL. Tarefa das mais simples para um problema bem complexo. 

Saindo da seara econômica, a qual é majoritária no bloco regional, as nuances políticas da retirada do Paraguai das negociações em 2012 também fizeram parte das reuniões de Maduro com Mujica, presidente uruguaio que é o atual presidente pro tempore do MERCOSUL. Defenderam a “re-entrada” dos paraguaios na integração e disseram que o período de instabilidade já passou.

Ademais, o futuro do MERCOSUL é marcado por incertezas. Sempre alvo de críticas desde sua criação e posterior institucionalização em 1991 (Tratado de Assunção) e 1994 (Protocolo de Ouro Preto), respectivamente, a entrada da Venezuela no bloco mostrou-se positivamente quando se fala em anseios econômicos, haja vista que o país tem porte de destaque, principalmente na área petrolífera, para trazer benefícios à região. Entretanto, do lado político o processo vem se mostrando contraditório, principalmente com a saída do Paraguai. 

A Venezuela pós-Chavez tem um papel central para o futuro do MERCOSUL. A ligação entre a tríade Brasília, Buenos Aires e Caracas é vital para o desenvolvimento da integração, assim como afirmado pelo muito conhecido Professor Amado Luiz Cervo, o qual atesta que a adesão venezuelana é um modo mais adequado de corrigir as assimetrias regionais. Finalmente, falando agora de maneira restrita ao Brasil e à Argentina, ambos acertaram um acordo de cooperação nuclear no último dia seis de Maio. Lembrando que foi justamente essa questão armamentista um dos estopins entre os dois países no fim da década de 1980 para chegarem a uma colaboração que iniciou a formalização do MERCOSUL enquanto organização internacional juridicamente reconhecida.


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De olho na OMC

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Comentamos sobre isso há alguns dias, e nessa semana saiu o resultado. O embaixador Roberto Azevêdo é o novo diretor geral da Organização Mundial do Comércio. O que significa ter um brasileiro na chefia da OMC? A rigor, nada em especial – é apenas mais um dos nossos assumindo um cargo em organização internacional e tecnicamente seu comprometimento é com a organização, não seu país de origem. 

Comparando com outras instituições, porém, foi significativo. Existe um acordo implícito originário lá dos tempos de Bretton Woods de que o presidente do Banco Mundial seja sempre um norte-americano e do FMI um europeu. Mais condomínio de poder, impossível. No caso, a OMC é herdeira de uma organização que nem saiu do papel, a OIC, que foi substituída às pressas pelo GATT, e tem grande valor justamente por ser uma instituição multilateral, em que é necessário o consenso de todos pra tomar decisões e boa parte das ações defende interesses de países em desenvolvimento. 

Bacana, e claro que vai haver um ufanismo por algum tempo. Afinal, todo o aparato da diplomacia nacional foi empregado para auxiliar nessa busca, e se comentando que a escolha é resultado de uma mudança de mentalidade. Apesar de o Brasil representar coisa de 1% do comércio mundial, a ideia é ressaltar a possibilidade de sermos um player global respeitado. É claro que existe muita politicagem nesse meio, e Azevedo é um negociador extremamente gabaritado e capaz para essa função, então sua eleição agrada gregos e troianos, colocando um administrador eficaz ao mesmo tempo em que representa essa vontade do Brasil de ser um líder significativo. A questão é, se houve tanto empenho do Brasil pra isso, alguma coisa quer ganhar em troca. Prestígio? Vantagens? E aqui entram os problemas. 

A tarefa do embaixador é difícil, de tentar ressuscitar a Rodada Doha (que nem chegou a “viver”, pra dizer a verdade) e resolver o caos dessa terra de ninguém que virou o comércio internacional desde a segunda metade dos anos 2000. A OMC surgiu com a ideia de liberalizar e tornar mais justo o comércio mundial, mas hoje em dia compensa muito mais para os países entrarem em acordos bilaterais, se fechar em blocos e que seja cada um por si. Desde que a “rodada do desenvolvimento” emperrou, a OMC não mete medo em mais ninguém e nunca se alcançaram avanços significativos como nas Rodadas Tóquio e Uruguai.

Pra piorar, guardando as devidas proporções, me lembra o caso já comentado aqui anteriormente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que já foi presidido pela Líbia de Kadaffi. O Brasil tem seus contenciosos contra países protecionistas, mas também é um dos que mais foi acionado contra por utilizar medidas meio sutis (ou não) de resguardar sua economia (e isso tem suas consequências: na eleição, por exemplo, os europeus apoiaram em bloco o candidato mexicano). Nada mais justo, cada país defende seu lado. Mas isso mostra como o sistema da OMC, mesmo tendo seus “dentes”, pode vir a perder muita credibilidade nos próximos anos com essa tendência de regionalização. E ter na liderança um indivíduo cujo país enfrenta severas dificuldades logísticas e de produção com o uso de medidas protecionistas definitivamente não é uma boa imagem para a organização. Azevêdo vai ter muito trabalho pela frente, pelo jeito.


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150 anos de Cruz Vermelha

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Há 150 anos, ninguém talvez pudesse imaginar que a iniciativa de um homem de pensar em formas para aliviar o sofrimento humano em situação de conflito armado proporcionaria as bases para a criação de uma organização de porte inigualável no mundo inteiro.

No dia 08 de maio comemora-se o Dia Mundial da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, ao relembrar-se a data de nascimento de Henry Dunant, seu principal fundador. Este suíço foi levado pelo acaso a vislumbrar os horrores da batalha de Solferino em 1862, na Itália, o que o fez perceber que os feridos e as vítimas de guerras não recebiam o suporte mínimo necessário à sua dignidade enquanto seres humanos.

Não por acaso, entretanto, ele posteriormente relatou sua experiência e idealizou a proposta de uma instituição que, em sua neutralidade, pudesse proteger os civis das consequências nefastas de conflitos e desastres. O Movimento Internacional da Cruz Vermelha aí se delineava – pelas ruas de Genebra e pelos meios políticos suíços em que este lograva difundir seus ideais.

Sendo por muitos considerado o pai do “humanitarismo moderno”, foi no ano de 1863 que Dunant viu os primeiros frutos de sua mobilização, alcançando apoio político para tornar real o seu projeto. “Tutti fratelli” (“todos irmãos”, em italiano) se tornou uma mensagem aos poucos internacionalmente reconhecida, já que aqueles afetados por um conflito armado deixariam de ser julgados pelas bandeiras que defendessem, passando apenas a tornar-se indivíduos em situação vulnerável, precisando de apoio.

Muitos seriam os posts necessários para detalhar o histórico e a importância desta organização e de seu principal fundador. Talvez seja, por ora, suficiente apenas ressaltar que, 150 anos depois, o ideal de uma pessoa propiciou a mudança da realidade de milhões, sejam estas vítimas dos vários conflitos que foram vivenciados no mundo inteiro; voluntários que descobriram sua vocação de ajudar através de uma instituição que lhes proporciona segurança e garantia de imparcialidade; Estados que têm trabalhado pelos princípios do Direito Humanitário Internacional; ou apoiadores em geral que tornam a credibilidade da Cruz Vermelha amplamente reconhecida pelo mundo afora.

A noção de que o uso da força deve ser regulado mesmo em momentos de guerra (que pressupõem situações extremas), acompanhado por um espírito de proteção dos direitos humanos tornam esse dia importante no contexto internacional. Sendo celebrada em todo o mundo, a data reconhece o trabalho já realizado nesta área e relembra os Estados e indivíduos das obrigações assumidas nas mais diversas situações atuais de conflito, reconhecendo o impacto positivo dos esforços de assistência humanitária e de promoção da dignidade humana em todas as circunstâncias…


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos


De volta ao declínio norte-americano

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Quando o assunto é a distribuição de poder no mundo, os Estados Unidos logo surgem como a superpotência. A indubitável capacidade militar, econômica e de influência cultural ainda o colocam no lugar mais alto do pódio na disputa de maior poderio mundial. Contudo, desde 1970, que o país se preocupa com seu declínio relativo. Defrontando-se com a emergência de alguns países asiáticos, a recuperação econômica do Japão, e a recuperação da Europa, para alguns, o Tio Sam deveria ditar melhor as regras do jogo e manifestar-se como uma potência hegemônica para estabilizar o jogo mundial. 

Em outra oportunidade, no blog, o Giovanni escreveu um ótimo texto sobre o tema, apontando um pouco sobre o debate atual. Esse tema do declínio está longe de se esgotar. O que o torna mais interessante é a possibilidade de observarmos nos eventos recentes, nas manifestações da mídia e da população e de pensadores, a preocupação com a manutenção do poderio estadunidense, de uma maneira mais subjetiva ou de mais explícita. 

Vamos, então, dar uma olhada em apenas duas das manifestações (implícitas e explícitas) sobre o declínio norte-americano, na mídia e no governo. 

A preocupação com o nível de desemprego e com o crescimento da economia é onde podemos observar bem essa questão. Os Estados Unidos tem, ao longo dos anos, sido vistos pelos próprios norte-americanos como gestores da ordem global. Com uma economia que produz um quarto do PIB do mundo, o papel do país é inegável. Contudo, se alguns se alegram com o mau desempenho da economia americana, Richard N. Haass, do Council of Foreign Relations (um pensador bastante envolvido com o governo, diga-se de passagem) defendeu que se é possível ver uma mão invisível nas questões econômicas, nas questões geopolíticas uma mão invisível levaria ao caos. A China, Rússia ou as potências emergentes não poderiam aceitar os custos na gestão da ordem e a ausência dos Estados Unidos não seria um bom resultado para todos os países. Para ele, os EUA deveriam recuar um pouco, colocar sua casa em ordem para depois retornar à gestão do mundo. Essa é uma tendência que também já havia sido apontada no blog sobre isso. E a preocupação com o declínio está aí muito bem manifesta. Por mais que se saiba que o Tio Sam tem um poder inegável, a procura de ressaltar que somente os EUA podem gerir a ordem é uma resposta à possibilidade de novas potencias interessadas nesse papel, leia-se, principalmente, a China. 

Isso leva à segunda preocupação, nesse caso, de cunho geopolítico. A emergência da China como potencia geopolítica e militar preocupa o Tio Sam. Depois de, como apontou o prof. Héctor Saint-Pierre em uma de suas aulas, o desvio estratégico de mais de uma década com o foco no terrorismo, os EUA retomam com a preocupação que se relaciona com sua existência política. Pude perceber isso na palestra sobre as grandes potências e a acomodação de interesses, no dia 04/04/2013, durante o congresso da International Studies Association. A resposta dos professores John Mearshimer (clique aqui e confira parte de seu pensamento na coluna teórica) e Joseph Nye Jr. (clique aqui para mais sobre seu pensamento) foi mais negativa. O primeiro apontou que era questão de tempo até os EUA desviarem sua grande estratégia para a Ásia e se preparem para a contenção da China. Nye Jr., por outro lado, defendeu que era preciso a aproximação comercial, econômica e cultural com o país e deixar o lado militar para a última opção. Contudo, a contenção militar não poderia ser descartada. A publicação do relatório anual do Pentágono para o Congresso, de 2013, mostra um pouco disso, com suas várias referencias à China e, principalmente, uma acusação de que o governo chinês estaria por trás de tentativas de espionagem pela internet, também conhecida como cyberwar. 

Ainda há uma terceira manifestação do declinismo na mídia. O principal exemplo é New York Times, que tem feito um grande lobby pela intervenção na Síria. O jornal apontou em sua mais recente pesquisa de opinião sobre as ameaças do país que a não-intervenção no conflito interno sírio era o retorno à situação de isolacionismo. Ora, Stephen Walt já criticou bem esse aspecto mas não mencionou sua relação com o medo do declinismo. Nesse caso, como no primeiro, há a preocupação de que a falta de atuação externa do Tio Sam leve à perda de poder. Há também a mesma noção de que os EUA devem gerir a ordem internacional e, portanto, devem também intervir militarmente para impor a paz quando necessário.

O declinismo norte-americano é um tema que está incutido na sociedade dos EUA e, mesmo com seu status confortável, em termos de poderio, o medo de perder lugar ainda se faz constante no imaginário da população. Precisaríamos de mais tempo e mais espaço pra trabalhar melhor essas manifestações, mas acredito que deu pra dar mostrar um pouco como isso se dá. Entre o medo de declinar, os problemas internos e potenciais intervenções externas, os EUA trilham para o futuro.


Categorias: Américas, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


Imagem da Semana

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A imagem dessa semana é carregada de simbolismo. No último dia 02 de maio, foi içada uma peça espiral que torna o One World Trade Center (ou WTC 1), construído no lugar das torres gêmeas em Nova Iorque, o prédio mais alto do hemisfério norte.

Mais de uma década após os atentados, sabemos que suas estes trouxeram (e ainda trazem) grandes impactos para as relações internacionais em geral. A antes intocável hegemonia estadunidense foi desafiada e todos estamos mais do que cientes das consequências disto.

Ao reconstruir um prédio no lugar as torres gêmeas que, simbolicamente, é maior que todos no hemisfério norte, vemos os Estados Unidos, ainda que economicamente mais enfraquecidos que outrora, procurando, uma vez mais, se reerguer – ou se reafirmar na liderança que sempre assumiu… 


Fonte da imagem: Justin Lane/Efe


O fenômeno do Femen

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Um grande público ocupa as ruas da cidade. Próximo à barreira de proteção, manifestantes protestam contra as mais diversas causas, com cartazes, bandeiras e apitos. Protegidos pela força policial, eis que surgem presidentes, ministros e representantes do poder público. As câmeras focalizam tais personalidades até o momento que surgem várias mulheres com palavras escritas pelo corpo, na maioria louras, de boa aparência, e o mais polêmico: sempre estão com os seios á mostra.

Essa é uma das cenas mais comuns nos dias atuais. Os protestos ocorrem todos os dias, contra os assuntos mais variados. São contra a política econômica, o machismo, a polícia, a indústria de cosméticos ou a realização da Copa do Mundo de futebol. A única coisa que não muda é a forma de protestar. E assim vão se tornando famosas, dignas de curiosidade. Aos poucos recebem apoiadores e pessoas que às odeiam, desmerecem suas causas ou a falta delas. Assim surge o fenômeno Femen. 

Nascido em 2008, o Femen se tornou um grupo internacional de grande repercussão e de ideias inconclusas. Até o momento não se sabe quais são as pautas de suas lutas. Praticamente em todos os tipos de eventos podemos nos surpreender com um momento de protesto, desde a posse do novo Papa à reuniões de blocos econômicos. Aliás, a falta de clareza das propostas aliada a grande quantidade de aparições gera uma das maiores críticas ao grupo: que ele não tem nada a dizer. Assim, alguns a definem como um grupo que utiliza mulheres bonitas para a sua própria promoção e de seus membros.

A falta de proposta é uma crítica só menos negativa do que a afirmação que escolhem quais mulheres ficarão nuas, utilizando-se do padrão de beleza das participantes. A acusação de seleção das mulheres que ficarão seminuas ultrapassa uma simples crítica. É ela a principal responsável para que uma considerável parcela das feministas desconsidere o Femen como representante de suas lutas, mesmo este sendo o grupo mais famoso e de maior sucesso atualmente. 

A liberdade sexual e do corpo está ligada ao movimento feminista no século XX, na tentativa de se quebrar os dogmas contrários a nudez e o prazer feminino. Entretanto, o problema do Femen está vinculado a uma teoria intitulada de “tabuleiro das relações de poder”. Nela, acredita-se que qualquer ação humana ou tecnologia é imparcial e utilizada com uma finalidade, mas que a finalidade pode ser mutável. Por exemplo, a internet sempre será imparcial, mas pode ao mesmo tempo ser imparcial tanto para o controle individual como para grupos como o anonymous quebrarem monopólios da indústria de produção artística, disponibilizando músicas e filmes gratuitos, ou invadindo sites de notícias que julgam manipuladores da informação. A nudez feminina, que surgiu como arma da liberdade feminista, também pode ser usada por vários motivos. Desde a afirmação da mulher, como também para denegri-la, ou no caso que acusam o Femen, como ferramenta para se criar um padrão de beleza opressor a maioria delas. 

A verdadeira intenção do grupo, seu poder de defender ideias claras e de ser popular em seus protesto além do recente momento em que é o “grupo da moda” ainda não foi provado. Na verdade, a maneira como ficará marcado ainda será construído nos próximos anos. O Femen não seria o primeiro grupo injustiçado durante seu tempo que no decorrer dos anos provaria sua importância para a luta de um ideal ou de ideais. Também não seria a primeira decepção de um movimento que se acaba da mesma maneira que surgiu. O que se sabe é que ele é assunto recorrente e está incomodando a muitos com suas constantes aparições, tem muito sucesso em chamar a atenção. Veremos no futuro em que será utilizado esse sucesso e a continuação dessa história de fama, aparições na mídia, protesto e nudez. 


Categorias: Mídia, Polêmica


Há um ano...

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Há um ano a Europa e as suas dificuldades eram o assunto principal do blog. 

A crise da União Europeia e as incertezas sobre as soluções futuras ganharam destaque. Em um momento em que índices como o do desemprego chegavam a números alarmantes, a certeza da manutenção do bloco foi o ponto positivo retratado. Mesmo em um período em que parecia não haver mais identidade entre os membros, em que a desigualdade econômica e de poder causavam conflitos entre os países e revolta entre as populações mais afetadas pela crise. Passado um ano e com a persistência da crise europeia poderíamos refletir em quais pontos a situação segue a mesma e como caminhou o bloco desde então. 

Discutindo a crise europeia de uma maneira mais específica, também se discutiu a crise política na Ucrânia às vésperas da Eurocopa, com perigo de boicote aos jogos de vários países contrários a condenação de Yulia Timoschenko, responsável por uma revolução não violenta em 2004 e acusada pelo Parlamento de abuso de poder. O momento ucraniano não era dos melhores, com instabilidade política e até mesmo atentados à bomba que ameaçavam tirar a paz da Europa até mesmo durante um simples evento de futebol. 

Por fim, a teoria foi tratada ao se discutir o grupo que nas Relações Internacionais que prefere “entender” o problema científico do que explicá-lo. Assim, estariam contrariando a ideia do realismo e do liberalismo de que os Estados viveriam em anarquia, já que até a anarquia seria uma conjuntura criada pela interação entre os Estados. Portanto, o mundo seria construído como um edifício em que a interação entre os Estados, suas políticas, linguagens e identidades diversas fabricariam um produto final.    


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