Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Mídia


Tragédias e Farsas Sul-Americanas

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O autor da célebre frase “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, Marx, provavelmente sorriria ao ver que sua profecia se vê cumprida mais vezes do que imaginaria. Até os mais estranhos eventos tendem a se repetir. Aqueles que raramente os palpiteiros de plantão arriscariam prever ou mesmo considerar como possibilidade viável. Contudo, essa ordem cronológica de tragédia e farsa nem sempre é real. 

No mais recente caso da América do Sul, parece que temos uma repetição, agora como tragédia, de algo que antes era farsa. O ator principal a assumir o palco na reapresentação da peça sul-americana é a Colômbia. País que, ao lado da Venezuela, está sempre sob os holofotes na mídia regional. A repetição foi de um caso bem estranho. No fim de semana passado, o presidente do país, Juan Manuel Santos, anunciou que firmaria um acordo de cooperação com a OTAN e que, futuramente, ocorreriam conversas para que o país pudesse aderir ao bloco. 

Existem, portanto, algumas perguntas que não querem calar. Por que entrar na aliança militar? Qual o benefício? Esses eram justamente os questionamentos que se faziam na região há 14 anos. À época, presidente da Argentina, Carlos Menem, havia solicitado à OTAN para se tornar um membro da aliança. Desde 1992 que vinha flertando com a aliança, sem ser levado a sério. Mas, em 1999, o país foi aceito como colaborador extrarregional. Isso ocorria no cenário de aliança automática da Argentina com os Estados Unidos em todos os campos. A proposta de dolarização da economia argentina (rechaçada pelo próprio Tio Sam, diga-se de passagem) e a entrada na OTAN eram as cerejas, econômica e militar, do bolo. Ainda assim, a proposta parecia mais uma farsa do que tragédia. Uma fala do presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, na ocasião, ilustra um pouco isso: 

 “E é aliado dos EUA contra quem? Aqui não existe nenhuma situação de beligerância. Perguntaram-me se os EUA não venderiam os aviões F-16 aos seus parceiros. O Brasil não está interessado nisso. O Brasil quer é vender avião BEM-145 aos EUA” 

Do ponto de vista militar, os grandes rivais da Argentina já não eram tidos como tais. Os acordos e organismos bilaterais com o Chile superaram qualquer hipótese de conflito que permanecesse. E a colaboração com o Brasil no âmbito do Mercosul e dos acordos de restrição no campo nuclear (como a ABACC), também afastavam a sombra do conflito. Tensões por opções diferentes de política externa haviam, mas nada que justificasse uma aliança militar. 

O interessante é que, nos anos 1990, não existia na América do Sul nenhum bloco político de grande magnitude e nem mesmo um organismo para debate de questões de segurança. Ainda assim, a proposta foi tida, em período suposto de tragédia, como farsa pela região. 

Mas, no caso atual, o cenário é diferente. A América do Sul assiste a um processo de integração político grande, com a Unasul, e a um processo de cooperação e debate na área de Defesa inédito, pelo Conselho de Defesa Sul-Americano. Uma adesão séria da Colômbia à OTAN poderia ser a declaração de negação desses organismos pelo país. Algo que não seria tão estranho pensar já que as exigências colombianas foram o principal entrava à criação do Conselho, em 2008, e que, em 2009, o acordo militar das novas bases estadunidenses no país foram tema de uma reunião extraordinária do bloco. Algo que, no pé que anda o processo sul-americano, poderia ter ares de tragédia. 

Santos e Maduro dando as mãos mas, provavelmente, se xingando por dentro…

Por outro lado, podemos pensar que, tendo em vista o que ocorreu com a Argentina em 1999, o presidente Santos fez essas declarações para ampliar suas desavenças com a Venezuela e, em última instância, trazer as bases para reaproximações. Isso porque desde que Maduro assumiu o poder que os dois estão em constantes trocas de farpas… 

Essas são apenas dois palpites de muitos que se poderia fazer. Se a Colômbia selar ou não selar um acordo de cooperação com a OTAN, a simples indicação de que teria vontade já é indicativa de algum problema na integração para a região. Trazendo a tragédia. Já a nota da OTAN negando o interesse em ter a Colômbia como membro e as contradições do próprio ministro da Defesa colombiano, trazem, de novo, os ares de farsa. Assim, como farsa trágica ou tragédia falsa que o episódio ficará conhecido na história sul-americana.


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Imagem da Semana

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Califórnia, um ambiente bucólico e tranquilo. Poderia ser o novo destino de férias do presidente. Porém, é o contrário. É trabalho, dos sérios. O governo norte-americano escolheu Sunnylands como sede para o encontro de dois dias (7 e 8 de junho) entre Obama e o presidente chinês, Xi Jinping. São temas espinhosos na agenda, talvez não se aproveite muito no final das contas. Pelo menos, uma boa foto deve sair, com ou sem sorrisos dos mandatários.    


Construindo Istambul

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E no final de semana Istambul ferveu. Milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo do primeiro-ministro Erdogan, cada dia mais impopular dentro da Turquia. Até aí, nenhuma novidade dentro do que se viu no Oriente Médio nos últimos dois anos, ou no mundo. A onda de protestos tem crescido ultimamente. O que chocou foi a velocidade da insatisfação, a rapidez de uma revolta tão ampla e inesperada.  

Os protestos desencadeados em Istambul começaram maciços, brecando a indústria e gerando um apagão de um dia na imprensa da capital. Mais do que isso, tiveram uma motivação peculiar, até aqui inédita. O projeto urbanístico do primeiro-ministro Erdogan, contrário a história arquitetônica e política da cidade, foi o grande acendedor do pavio. Mas o que leva à insatisfação popular a sociedades atuais, como o caso turco? 

Crises econômicas, tensões entre governos, opressões de ditaduras ou conflitos religiosos. São muitas as prováveis causas que levam milhares de pessoas a se unirem em torno de uma luta que se estende as ruas. Durante grande parte do século XX amplas teorias sociológicas tem afirmado que as tensões sociais devem, pelo menos por hora, diminuir. Isso por que há nos modelos governamentais mecanismos diferentes da época em que se excluía grupos e se combatia suas insatisfações à força. 

Quem protesta evidentemente protesta contra algo. Está inserido em um grupo insatisfeito. O que se defende  é que os modelos de política atuais buscam inserir, ou pelo menos dar a impressão de inserção a toda a população. Assim, cada dia é dada menor margem a legitimidade e a força de revoltas. Vez por outra, como em momentos de crise econômica, grupos muito prejudicados pela situação social quebram com o estabelecido, se revoltando com a instabilidade do sistema. Na maioria do tempo são apenas a minoria dos mais cultos, ou mais revoltosos, que se arriscam a protestar. A inserção ocorreria quase que exclusivamente pelo direito de todos a comprarem, a estarem dentro do mercado e do consumo.

Mas onde Istambul entra em tudo isso? Normalmente todo esse sistema de pacificação social está vinculado a economia ou a inserção financeira das pessoas. Entretanto, ao que tudo indica, o Oriente Médio e o mundo islâmico como um todo tem uma forte barreira contra o domínio de mercado, ou uma sociedade ocidentalizada. A revolta na capital turca foi principalmente ocasionada pela tentativa de construção de prédios comerciais em áreas tradicionais da cidade, com identidades arquitetônicas e políticas. Para o povo, a destruição de pontos históricos foi inaceitável. 

Istambul é mais um episódio de forças tradicionais, com forte apelo popular, que são contrárias a uma “sociedade atual”. Não por acaso esperamos sempre uma população em ebulição, fortes conflitos entre forças governamentais e a população nesses países. A falta de democracia, as fortes diferenças internas entre os grupos que lutam pelo poder e, por fim, a impossibilidade do uso dos mecanismos de inserção, impedem que haja uma sociedade mais pacífica. Istambul sofreu com o último caso, diferente de outras revoltas vistas nessa mesma região.    

Os protestos na praça Taksim podem liberar uma boa discussão. Representam um momento de forte descontentamento com a política do povo turco, podendo ser um episódio inicial do fim da paciência com o seu governo. E mais importante, podem fazer parte de mais uma crise cíclica que ocorre em sociedades modernas, quase sempre pacíficas. Mais uma fase em que se quebra uma construção de uma sociedade de inserção, causada pela falta de paciência da população com o ataque aos seus direitos de compra, como ocorre na crise econômica europeia, ou aos seus domínios, como ocorre na destruição de pontos tradicionais para a construção de prédios comerciais, como em Istambul. Mais uma vez a paz, por um momento, se apagou.


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Há um ano...

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Um dos assuntos discutidos no blog há um ano permanece recorrente em nossas análises: Síria (posts recentes aqui e aqui). Um ano depois do chamado “Massacre de Houla” – com 108 mortes de civis registradas, sendo 49 crianças e 34 mulheres (reveja o post do ano passado aqui) – o conflito no país soma dezenas de milhares de mortes, casos de canibalismo, armas químicas, interesses de várias potências em diferentes lados do conflito e etc. O país continua sendo o principal assunto do Conselho de Direitos Humanos da ONU e a perspectiva de que daqui a um ano continuemos postando a respeito, infelizmente, é real…

Outro assunto que, ano após ano, permanece tema do blog é a questão do Irã e seu programa nuclear. Ano passado apresentávamos o status das negociações que eram realizadas (reveja post aqui) e, há poucos dias, mais uma reunião foi agendada porque as conversações entre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o país não avançaram – o mesmo documento segue em negociação há um ano e meio…

Por fim, dávamos continuidade no blog à interessante série proposta pela leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”. Em seu terceiro texto publicado no blog, o assunto era a educação, em uma rica perspectiva de humanização do processo de aprendizagem. Apresentando exemplos de projetos neste sentido desenvolvidos internacionalmente e também no Brasil, vale a pena reler e inspirar-se com sua reflexão aqui.

Postando e relembrando, seguimos com o Há um ano… na Página Internacional.

 


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Imigrantes são bem-vindos

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Nos Estados Unidos, o debate acerca da reforma migratória segue aquecido. O projeto passou por sua primeira batalha com sua aprovação na Comissão de Justiça do Senado. Ainda assim, há uma grande expectativa com relação ao comportamento de parlamentares republicanos, em geral mais conservadores na temática, quando iniciarem os debates sobre seu conteúdo. Sua aprovação poderia levar 11 milhões de indocumentados rumo à cidadania.  

Obama, confrontado por eventosrecentes (o monitoramento de jornalistas e o escândalo da Receita Federal) e incapaz de conseguir levar adiante seu projeto sobre o controle de armas; enfrentará um Congresso dividido e terá sua capacidade política novamente testada. O assunto, desta vez, interessa a todos à medida que o número de eleitores imigrantes (ou seus descendentes) aumenta e altera o jogo eleitoral. Outra temática levantada é o reforço das fronteiras, aumentando a vigilância contra novas levas de ilegais.  

Independente dos avanços em Washington, algumas cidades do centro-oeste dos Estados Unidos apelam à atração de estrangeiros para repor perdas populacionais e dar novo impulso econômico à região. Longe dos centros tradicionais, tentam estimular a chegada ou a permanência (no caso de estudantes) por intermédio de facilidades para iniciar negócios ou entrar em contato com empresas, aliado a um relativo baixo custo de vida. Entre as iniciativas estão: Global Detroit, Vibrant Pittsburgh e Welcome Dayton.  

Nestas regiões, defende-se um impacto positivo dos imigrantes na geração de postos de trabalho. Trata-se do oposto daqueles que veem neste grupo uma competição aos trabalhadores locais, produzindo justamente o efeito contrário. Para isto, aposta-se no potencial empreendedor dos estrangeiros, com cidades oferecendo inclusive orientação jurídica e incentivos para reabrir negócios abandonados. Apesar de surgirem de uma necessidade pontual mais do outra coisa, estes projetos poderão servir de exemplo do que é possível fazer a partir de uma reforma imigratória abrangente.  

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Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

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[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


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O perigo que vem de fora

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Vamos continuar o tema da postagem do último sábado, sobre a crise na Síria. Mas, dessa vez, o foco vão ser os fatores externos que determinam os rumos do conflito. Todo mundo sabe que o problema todo começou com a violência de Assad contra os protestos e coisa degringolou com a formação de grupos armados de oposição. Mas parece que todo mundo ao redor tem seu interesse por lá. 

Quem está do lado de quem? Grosso modo, do lado de Assad, temos a Rússia, China, Irã, Iraque e Líbano. A oposição tem apoio formal de Grã Bretanha, França, Qatar, Arábia Saudita, além dos EUA (apesar de meio indecisos). Temos o Líbano, que tem várias partes interessadas. E claro, Israel, que não quer nada com os rebeldes e prefere encarar a Síria de frente. 

Qual o rolo de tudo isso? Bom, começamos com o Hezbollah libanês, que está do lado do governo sírio. É considerado grupo terrorista por EUA e Israel, e pode vir a ser por Inglaterra e França. Isso já justificaria o apoio dos europeus aos rebeldes. Mas boa parte dos mesmos rebeldes são grupos sunitas radicais – muitas vezes financiados pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo, chefiado pela Arábia Saudita e que de uma organização que não servia pra quase nada virou um importante ator na região após a fracassada “primavera árabe”. Pior, o grupo de oposição sírio não é nada homogêneo, e inclui mesmo organizações ligadas a grupos extremistas como a Al Qaeda. Para os europeus e norte-americanos, armar esses grupos é dar um tiro no pé, um pouco como o que foi feito no Afeganistão nos anos 80 – olha no que deu. É por essa lógica que a Rússia trabalha, pensando que dos males, o menor – manter Assad é a punica garantia de que não vá surgir um conflito longo pelo poder, instabilizando a região, ou pior, a ascensão de grupos radicais. E nem falamos de Israel, que está literalmente em pé de guerra com a Síria por conta de escaramuças na fronteira. 

O resultado disso tudo? A Rússia e o Irã vendem armas para o governo sírio. Países ocidentais e do Golfo armam os rebeldes de um modo ou de outro. A articulação para a tal conferência Genebra II (que pretende juntar representantes das duas partes) parece fadada ao fracasso: a Rússia não vê com bons olhos o armamento dos rebeldes; estes não querem participar sem que Assad renuncie. No meio de tudo, os dois lados estão usando todos os meios disponíveis e temos relatos de armas químicas, com vantagem para o governo. Nenhum dos lados vai ceder. Com isso, parece que a saída por meio da intervenção direta é o caminho menos desejável, mas ironicamente parece o que mais poderia dar certo no momento, pois serviria para remover a causa do conflito (Assad) e ao mesmo tempo daria maior controle sobre a sucessão (para evitar o surgimento de um Estado radical). Mas isso se Israel não for para o ataque antes. 

As possibilidades são inúmeras, assim como as consequências. A guerra na Síria é civil, mas tudo que decorre dela tem impacto regional. O caos decorrente vai ser generalizado por aqueles lados, e vai ter seus efeitos muito além, de Washington a Moscou. Não seria nada inesperado caso venha a se tornar algo maior.


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Dia Internacional dos Peacekeepers

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Manter a paz. Há décadas, quem um dia tivesse imaginado que essa tarefa – que é naturalmente de todos – seria ainda objeto de uma profissão exclusiva certamente visualizou um cenário internacional complexo, em que cooperação e risco à soberania para a restauração da paz se separam por uma linha às vezes tênue, nem sempre muito visível.

Hoje, 29 de maio, é o Dia Internacional dos Peacekeepeers – ou Trabalhadores das Forças de Paz. Uma data instituída pela ONU em 2002 para homenagear aqueles que trabalham dentro do sistema onusiano de manutenção da paz, em missões nas mais diversas partes do mundo e com desafios por vezes tão grandes que podem lhes custar suas próprias vidas. Desde a primeira missão de Peacekeeping (1948, na Palestina), cerca de 3000 mortes de “capacetes azuis” (como são conhecidos, devido à sua identificação pelos capacetes da ONU) foram registradas. O dia de hoje é, portanto, um tributo a estes indivíduos.

Homenageá-los é muito importante, reconhecendo os esforços individuais de atenuação de situações de instabilidade devido a conflitos – situações em que se falar de paz nem sempre é evidente. Esses indivíduos estão, contudo, inseridos em um sistema que frequentemente é muito mais complexo do que seus esforços particulares. Instaurar uma missão para manter a paz é uma prática que só se torna possível a partir do consentimento do Estado afetado, uma vez que as forças da ONU são (ou devem ser) absolutamente imparciais, mas as dificuldades neste processo são muitas vezes inevitáveis.

Torna-se difícil avaliar o histórico de operações sem mencionar as dificuldades e falhas com graves consequências humanas ocorridas neste histórico, especialmente durante a década de 1990. Em relação à proteção de civis, essa década foi marcada por uma “trilogia funesta” – composta pelos casos da Somália, de Ruanda e da Bósnia – a qual traumatizou a comunidade internacional e evidenciou as dificuldades neste processo e, por vezes, a impotência dos Peacekeepers diante de certas circunstâncias.

Com a Agenda da Paz escrita pelo então Secretário-Geral da ONU Boutros Ghali em 1992, pela primeira vez a menção sobre o papel da ONU nestas operações foi apresentada. A recente (e bastante debatida) noção de “Responsabilidade de Proteger” aparece na discussão e a avaliação sobre o uso da força nestas operações com certeza pode ser tema de análise muito mais aprofundada.

Vários elementos tornam essa reflexão certamente muito ampla para um simples post. Mas vale relembrar que vivemos um momento internacional inédito em que o general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi convidado para a árdua tarefa de liderar a missão de paz na República Democrática do Congo (a segunda maior missão em atividade atualmente).

Restaurar a credibilidade no trabalho de Peacekeeping da ONU no país diante de fortes hostilidades por parte dos rebeldes certamente exigirá muita competência e particular liderança, demonstrando que a profissão de manter a paz existe, sim, e merece o nosso respeito e a nossa homenagem neste dia a ela dedicada. 


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Imagem da Semana

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Fonte: lemonde.fr


Falar que o conflito na Síria, o qual vem completando dois anos, está sempre presente nos noticiários não é novidade. Entretanto, nesta semana chamou a atenção uma reportagem realizada pelo jornal francês “Le Monde”, na qual o fotógrafo Laurent Van der Stockt presenciou ataques de armas químicas das tropas de Al-Assad contra os rebeldes. 

O principal problema na utilização de gases nos combates, além de ser extremamente proibido, é que em Damasco vários civis se deslocaram até os hospitais com fortes dores de cabeça, náusea e inchaço nos olhos. Parece ser o famoso gás sarín, substância tóxica que afeta o sistema nervoso. Autoridades internacionais, dentre elas as Nações Unidas e a União Europeia, estão investigando os casos para confirmar a veracidade das informações. 

Se imagens valem mais do que palavras, o vídeo (com legendas em inglês) do “Le Monde” comprova a guerra química.