Melhore, Mandela

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Melhore, Mandela. Melhore porque sua contribuição para a construção de uma sociedade baseada na igualdade racial ainda não está encerrada, apesar de já ter sido esplêndida. Melhore porque seu ativismo e seu exemplo político ainda emanam vida, muita vida em seus 95 anos quase completos. Melhore porque o mundo ainda não está preparado pra se despedir de você, herói sul-africano, herói internacional.

E, de fato, não estamos preparados e nem devemos nos preparar. Após mais uma internação preocupante (pela quarta vez desde dezembro do ano passado), por conta de uma infecção pulmonar, Mandela passa bem e se recupera, a um mês de completar 95 anos de vida. A data do seu aniversário é, na verdade, reconhecida pela ONU como o seu próprio Dia Internacional, em homenagem a tudo que Mandela construiu e representou em sua luta – ou melhor, representa em um mundo ainda carente de diálogo inter-racial e paz em tantas localidades em conflito.

Se a história de Mandela marcou a luta contra a segregação racial no século XX, desde o fim do apartheid muitos desafios em termos de igualdade racial permanecem não apenas na sociedade sul-africana, mas em todo o mundo. Ainda é, infelizmente, mito dizer que não existe racismo no Brasil, por exemplo, assim como ainda há muito que ser discutido para que eliminemos a discriminação nos mais diversos âmbitos da sociedade.

Se, segundo suas próprias palavras, “o que conta na vida, não é o quanto se viveu, mas a diferença que fizemos para a vida dos outros”, a certeza de que este líder fez e faz a diferença no mundo é clara. Por isso e por tudo o mais, melhore, Mandela, melhore, por favor.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Imagem da Semana

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A imagem da semana só poderia vir do Brasil, que acordou ainda chocado com o tamanho dos protestos que ocorreram em diversas cidades. Tarifas do transporte público, gastos com a Copa do Mundo, violência policial e muitas outras insatisfações levaram milhares de pessoas às ruas, algo que não se via com tanta força desde a Era Collor.

Acima, a sombra dos manifestantes reflete na arquitetura do Congresso Nacional, surpreendentemente tomado de forma pacífica em Brasília. Talvez seja a síntese dos vários protestos espalhados pelo Brasil, que criam um novo espectro na política nacional em um país não acostumado à grandes manifestações. Abaixo, o centro do Rio de Janeiro tomado por mais de 100 mil pessoas na maior passeata do dia. 

A repercussão das manifestações, transmitidas ao vivo por diversas emissoras de TV ontem, ainda refletem em todo o país e no mundo. Políticos, a imprensa nacional e internacional, a população e os próprios manifestantes ainda estão surpresos com a dimensão dos acontecimentos . Afinal, o que aconteceu ontem no Brasil?  


Até minuto de silêncio

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Nelson Rodrigues, entre suas célebres frases e seu amor incondicional ao futebol, costumava brincar com um certo costume nacional afirmando que “brasileiro vaia até minuto de silêncio”. E o brasileiro vaia mesmo, sem pudor. Pelo menos suas autoridades, todas odiadas, vistas como culpadas  por todas as mazelas, verdadeiras personificações dos motivos que nos levam a não sermos tão desenvolvidos como gostaríamos. 

Mas desde que Lula chegou ao poder, quem ocupa o cargo máximo parece desmerecer a sabedoria de Nelson Rodrigues. Como o ex-presidente em 2007, em um Maracanã lotado, Dilma se arriscou a dizer algumas palavras na abertura da Copa das Confederações sábado passado. O resultado: uma sonora vaia. Joseph Blatter, presidente da FIFA, na tentativa de salvar a presidente e desconhecendo a própria impopularidade da entidade no país, ainda tentou contornar uma situação deselegante de forma bastante cordial, questionando as arquibancadas inquietas com o jargão criado pela Federação para definir tudo que é louvável nas atitudes esportivas: “amigos, onde está o Fair Play?”

As vaias às autoridades foram apenas a última das marcas de ambiguidade deixadas no inicio do evento teste para a Copa do Mundo. Afinal, até onde essas vaias representariam algo para o momento político ou seriam apenas a boa e velha insatisfação nacional com tudo? Difícil imaginar um cenário diferente, mesmo trocando os personagens da abertura. O próprio outro presidenciável três anos atrás, José Serra, se transformou em uma espécie de exemplo de impopularidade, perdendo até as eleições municipais, com altos índices de rejeição.

Mesmo que as vaias não sejam conclusivas quanto a popularidade de Dilma e o momento político brasileiro, ela mostra o país da Copa das Confederações como contrastante, de difícil projeção futura.  Muito superior a África do Sul, o Brasil passou facilmente pelo teste de prazos e organização dos jogos. Estádios prontos, eventos impecáveis. Já fora das arenas a infraestrutura ainda peca, ameaça falhar em uma competição muito menos inflada que a Copa do Mundo, com apenas 8 seleções e nada da massa de turistas que deve chegar ao país.

Pernambuco e Rio de Janeiro já sofreram com a desorganização. Na capital nordestina, a falta de transporte de qualidade e de infraestrutura nos arredores do estádio ficaram evidentes. No Rio, problemas com grandes filas e um confronto violento entre manifestantes e policiais marcaram as horas anteriores ao jogo. Aliás, os protestos em frente aos estádios apenas confirmaram o que se tem visto nos últimos dias.

Além do evento esportivo pré-Copa, o Brasil recebeu certa visibilidade internacional na última semana devido aos protestos contra a falta de qualidade e as altas taxas do transporte público. Como cereja do bolo, a truculência policial contra os manifestantes e a violência com jornalistas selaram uma imagem negativa de instabilidade. Mais do que isso, quebraram a visão de país em perfeita comunhão com o desenvolvimento.

Aliás, essa era a imagem que o governo gostaria de passar ao mundo, seguindo o exemplo das Olimpíadas chinesas. No entanto, aqui tanto o povo como a imprensa não ajudam tanto em esconder algumas evidentes lacunas de organização. Se em outros países era a imprensa internacional que precisava denunciar erros, no Brasil a imprensa um tanto quanto combativa e crítica ao governo é quem primeiro denuncia. Em outro ponto, a população não se convence nem da qualidade, nem dos futuros benefícios prometidos a quem sediasse a Copa do Mundo. O evento é incapaz de receber o apoio político do povo.

Todos esses fatos nas vésperas da Copa das Confederações e na sua abertura deixam claro que certamente o país não conseguirá vender ao mundo a imagem de Brasil-espetáculo, desejo tão grande do governo como propaganda internacional, que talvez seja a maior utilidade de uma Copa do Mundo. Ao contrário, deixamos até aqui imagens de suntuosos estádios, disciplina em cumprir exigências de prazos e da FIFA, misturadas à vergonha de não termos resolvidos problemas básicos do passado.

Mas tudo isso já era esperado. Quatro anos e uma Copa não resolveriam o que até aqui não foi solucionado. A única possibilidade de uma imagem de país perfeito seria a venda de uma ilusão. Mas a ilusão, se não se esvaiu com os protestos e a desorganização do pré-jogo, não se sustentou às vaias. Por que, como sabem, o Brasil tem problemas sérios atualmente. E o brasileiro nem desses problemas precisaria, ele vaia até minuto de silêncio.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Há um ano...

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…víamos uma coincidência interessante aqui no blog. 2012 foi ano de Eurocopa, e o torneio vencido pela Espanha e realizado em conjunto pela Ucrânia e pela Polônia serviu de pano de fundo para uma onda de protestos nesses países. A situação da Europa naquele momento (e que se estende até hoje) dispensa explicações, e num ambiente de insatisfação, os governos daqueles países passaram por maus bocados para lidar com os manifestantes. 

Não parece familiar? Pois é, nessa semana de Copa das Confederações realizada no Brasil, o que vemos é uma série de protestos relativamente localizada, mas bastante pontual e expressiva, com os “levantes” contra aumentos de tarifas de ônibus em diversas cidades servindo de estopim para movimentos de protesto mais sérios e amplos. Com isso, já tivemos (e provavelmente teremos muitos ainda) protestos antes de jogos da competição, e a exemplo do caso europeu de um ano atrás, motivações aparentemente desligadas dos eventos estão por trás de um movimento de contestação que tem como alvo um problema muito maior. 

Reproduzo o último parágrafo, que poderia muito bem caber em um texto feito nessa semana. 

“O mais interessante disso tudo é ver como os protestos não são contra o evento em si, mas atitudes do governo, e até mesmo da própria sociedade, em decorrência da sua realização. Incompetência do governo, gastos desenfreados e corrupção, sociedade acomodada […] Será que podemos esperar algo parecido para 2014? Não custa sonhar.” 

Não prece uma realidade muito distante, afinal. Isso aí pessoal, postando e relembrando…


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Global Emirates

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Fonte: Economia/Estadão


A foto acima poderia ser enquadrada na nossa seção “Imagem da Semana”. Todavia, é válido ir além dos fatos atuais e procurar um pouco da história por trás do fenômeno que está evidenciado no título do presente texto. Estou falando dos Emirados Árabes Unidos (EAU), país localizado no Oriente Médio, mais precisamente no Golfo Pérsico, o qual não foi abalado pela crise econômica de 2008 e possui nada mais nada menos do que 5% da fabricação mundial de petróleo. É muita coisa!

Volto ao começo. A imagem em questão é do maior prédio retorcido do mundo inaugurado nesta semana em Dubai, um dos sete emirados do país. Em formato de DNA, com 80 andares, o prédio teve um custo total de 272 milhões de dólares, quase 580 milhões de reais. Mundialmente reconhecida por sua arquitetura futurista, Dubai, juntamente com outra cidade-Estado (Abu Dhabi), é exemplo de paraíso terrestre e enquadra-se no que se denominou na academia de “Momento do Golfo” ou “Golfanização do Mundo Árabe”, ou seja, um processo de crescimento econômico da região acompanhado pela intensa internacionalização de sua economia. E é aqui que os EAU se destacam. 

Localização geográfica dos EAU. Fonte: Google


Os EAU são uma federação composta por sete emirados (Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah). Além disso, são grandes aliados dos Estados Unidos e possuem uma tradição de homogeneidade com diferentes etnias e religiões. Representam sucesso de coesão política no mundo árabe e, como dito anteriormente, estão no ranking dos maiores produtores de petróleo do mundo. Por fim, o país é símbolo de inclusão das mulheres e tolerância religiosa, ao contrário do que grande parte pensa sobre o Oriente Médio de uma forma generalizada. 

Obteve sua independência recentemente, somente em 1971, em decorrência da criação de uma identidade emirati presente nas mãos do famoso Sheikh Zayed. Como consequência da estabilidade política interna, os EAU conseguiram se sustentar e tornaram-se modelos de construção nacional, sobretudo com uma forte legitimidade cultural. Nos seus primeiros trinta anos de existência, o país, liderado por Abu Dhabi e Dubai, apresentou uma prosperidade nacional de grandes proporções. Unindo coesão política, social e cultural, os EAU chegaram no início do século XXI como o maior motor de um novo período: o “momentum” do Golfo. 

Com um Produto Interno Bruto (2009) de 200 bilhões de dólares em 2009, os emirados são considerados, em contrapartida com seu território minúsculo, uma potência econômica expressiva. De acordo com dados do “UAE Yearbook” de 2010, a estabilidade comercial tenderá a continuar com as explorações de petróleo e gás. Aliando diversificação, liberalização e globalização, os EAU conseguiram inserção internacional e, hoje, têm participação ativa no mercado de capitais.

Assim, os considerados “apenas emirados” do século XX tornaram-se “Global Emirates” na última década, haja vista que a região passou a assumir responsabilidades econômicas internacionais e seus Estados adquiriram status de potência. A figura do prédio giratório certamente ganhará acompanhantes, pois Dubai atrai turistas por sua peculiaridade urbana em decorrência, sobremaneira, das cifras do petróleo. Pelo pouco que estudei, os EAU são um país peculiar e diferente tanto no Golfo quanto no Oriente Médio. Minúsculo geograficamente, mas gigante nas mais variadas questões, inclusive com arranha-céus.


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Ação e insatisfação

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Nessa semana, o que chamou a atenção foram protestos, em todos os cantos. Tivemos ativistas do Femen presas na Tunísia, a já comentada ação popular na Turquia contra o governo de Reçep Erdogan, a opinião pública dos EUA escandalizada com o terror dos grampos da CIA e, de modo mais intenso, manifestações contra aumento de preços no transporte público aqui o Brasil, especialmente em São Paulo, onde os choques com a polícia e a violência são maiores. 

Não vamos entrar nos méritos da discussão sobre quem está certo ou errado. No caso dos protestos no Brasil, existe uma tendência nada saudável a demonizar os dois lados da questão, com os manifestantes denunciando uma “guerra” da mídia contra o movimento e o governo e empresas de comunicação focando nos casos de vandalismo decorrentes. Qualquer aglomeração pode ser o estopim de um desastre, e existem pessoas e pessoas. Nem todos os manifestantes são bandidos, mas certamente há malfeitores entre eles, assim como se há policiais abusando da autoridade há aqueles que estão lá apenas fazendo seu serviço. Quando os dois lados perdem a razão, a legitimação vai embora. Mas, não é essa a questão na postagem de hoje. 

O interessante que essa experiência brasileira traz é o modo como esse tipo de mobilização acontece por aqui, contrastando com outros países. Qual a “gênese” desse tipo de revolta? Isso por que já faz um bom tempo que não vejo manifestações dessa magnitude no país, com tanta organização. Geralmente, o que chega aos noticiários são iniciativas isoladas e em casos extremos, como paralisações, invasões e coisa do tipo. As razões pelas quais o brasileiro evita esse tipo de confronto são inúmeras e rendem discussão sem fim, mas podemos dizer que existe uma “acomodação”. É preciso que surja um caso que afete um número MUITO grande de pessoas pra que se mexam. Foi assim no caso das Diretas, só pra pensar no mais famoso. Mas falta algo. 

Vejam outros casos recentes pelo mundo. Na Turquia, um protesto contra uma ação impopular do primeiro-ministro (a destruição da tal praça histórica) acabou virando uma contestação de seu regime. Na Tunísia então, lá em 2010, um rapaz chamado Mohamed Bouazizi resolveu tocar fogo em si mesmo, em protesto contra o confisco de seus bens pelo governo, e com isso causou a queda de pelo menos três regimes e convulsionou o mundo árabe – na verdade, até hoje. A graça dessas revoluções é justamente o fato de começaram com algo totalmente despretensioso ou sem relação com o “cenário” amplo e que acaba tendo repercussões muito maiores, diferentes do original. 

No Brasil, quais as chances de algo assim acontecer? Algo como, digamos, que esses protestos contra o péssimo serviço e transporte público virem algo mais. Baixíssima, eu diria. Fora os fatores culturais, talvez o que pese seja o fato de o Brasil ser, bem ou mal, uma democracia. Nesses países onde as coisas descambam para o enfrentamento direto da autoridade, geralmente existe repressão ou movimentos muito personalistas (como na Turquia). No Brasil, felizmente, ainda temos a opção pela solução democrática (apesar de, tecnicamente, poder protestar é uma das marcas de uma boa democracia). Não é perfeito, mas ainda está nas mãos da população o modo como vai ser governada. Aqui, mais uma vez, entramos num território delicado de condições e análises, mas acho que podemos dizer com certeza que a situação poderia ser MUITO pior. 

Existe insatisfação no Brasil, com certeza. Por um lado, fatores culturais e conjunturais tornam pouco provável que isso resulte em protestos mais incisivos, e ainda é possível alterar os rumos e “consertar” políticas segundo as regras do jogo, por meio de eleições. Por outro, é relativamente desanimador ver como existe pouca cultura de “incômodo” político por aqui – as mobilizações acontecem, geralmente, apenas quando o interesse específico de um certo grupo é atingido. Algum dia o Brasil terá essa consciência, seja da necessidade de união nos protestos, seja do poder que tem pelo voto? Precisamos de um Mohamed Bouazizi se imolando para abrir a cabeça da população e ver que seus problemas vão além do que se apresenta no noticiário? Perguntas, perguntas…


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Conhecimento trocado?

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Pareceria fábula afirmar que houve uma época em que o trabalho, a produção e a vida humana era algo estritamente regional? Que um homem nascia e morria na mesma cidade, sem ao menos conhecer as terras vizinhas. Que se casava com a filha do amigo do pai e que todas as vezes que os sinos da igreja tocavam anunciando uma morte, se sabia que haveria sido de uma pessoa conhecida, mais próxima do que o necessário nos dias de hoje para chamar alguém de amigo.

Hoje é clichê retratar o mundo como dinâmico, interligado. Começando pela estrutura internacional das grandes empresas, surgiram muitas realidades que levam a cada dia uma circulação e interação maior de pessoas distantes em países longínquos. Mas não só o mundo do trabalho que se transformou. As universidades de excelência e as instituições de ensino, espaços para as futuras mentes importantes ao empresariado, não ficaram para trás ao se inserirem na formação de parcerias internacionais e da troca, que vão desde a multi-cooperação em pesquisas científicas a intercâmbio de alunos e profissionais.  

Foi na circulação acadêmica de pessoas que muitos países enxergaram políticas para potencializar seus profissionais, e começaram a estabelecer estratégias que buscassem novos talentos nas periferias. Logo, exemplos como os EUA ou a Inglaterra contavam com uma população toda de pesquisadores e executivos encontrados em outros países como Índia, China e até mesmo o Brasil.

A política de intercâmbio de mentes logo não seria exclusividades das potencias. A periferia também buscou tomar parte nisso.O Brasil, mais recentemente, em uma tentativa forte de se inserir de uma vez na cooperação entre as universidades, decidiu criar o “Ciência sem Fronteiras”, programa que distribui bolsas de estudos no exterior para alunos brasileiros. O slogan do programa é o de “dar oportunidade aos jovens, de uma bagagem que englobe experiência e formação internacional, para que possam contribuir com os desafios do país e o desenvolvimento da ciência”.    

Individualmente, o projeto é uma grande oportunidade a milhares de estudantes de aumentarem a qualidade e a riqueza de suas graduações. Mas enquanto política de trocas de estudantes entre Brasil e outros países, quão eficaz aos nossos interesses o programa se demonstra?

A essência do programa é o de que nossos alunos saíam, aprendam com empresas e universidades do exterior, e voltem aptos a reforçar o nosso mercado com profissionais “de peso”. Em uma outra ponta, os próprios países participantes dos acordos de interação também mandariam seus estudantes, para que pudessem trocar conhecimento e experiência com os alunos e professores dentro das nossas universidades.

Evidente que, como toda medida política, durante a sua colocação em prática o “Ciência sem Fronteiras” pode apresentar resultados positivos, bem próximos ao esperado durante sua formulação e outras boas surpresas, como também desvios desagradáveis. Conhecendo os objetivos do programa e reconhecendo que em muito ele pode satisfazer o prometido, vamos às dificuldades que estão sendo observadas durante seu processo.

O programa contempla o mérito, é quase uma exclusividade de bons alunos das nossas melhores universidades. Assim, muitos grupos de pesquisa tem demonstrado o descontentamento com a perda de alunos que aqui se encontravam na metade de bons projetos científicos, e saem prejudicando todo um trabalho. Seria paradoxal um programa que se intitula um “reforço para a ciência nacional” retirar do Brasil boas pesquisas e pesquisadores, enfraquecendo o que se produz aqui. A falta de qualidade do próprio ambiente acadêmico faz com que a grande maioria de estudantes prefira abandonar suas atividades no país em troca da oportunidade de intercâmbio.

Outro aspecto é a questão de formação de profissionais para o mercado de trabalho. Muitos alunos saídos do Brasil criam vínculos em outros países com empresas e instituições. A falta de competitividade brasileira abre espaço para a perda de muitos desses jovens no futuro. Em contrapartida, a falta de boas instituições brasileiras de nível, até mesmo baseado nos rankings internacionais de universidades, transforma o Brasil em país menos atraente aos estudantes de fora. Os países mais beneficiados com os nossos alunos são os que menos enviam os seus. Por fim, com toda essa desigualdade, é difícil acreditar que dentro da cooperação não exista uma concorrência e uma vantagem desses países em adquirirem novas mentes entre nossos jovens, enquanto nossos avanços com esse programa são ainda duvidosos. 

O “Ciência sem Fronteiras” parece um remédio com contra indicações, que visa curar em partes o histórico de falta de qualidade educacional, de inserção da ciência nacional na realidade internacional e da falta de competitividade do nosso país. Exclusivamente para o individuo, é uma oportunidade brilhante para muitos das nossas melhores mentes. Como política pública e reforçadora da ciência brasileira, funcionaria sem outras medidas?


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


O novo 1984

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Fonte: internatcionalpress

1984 é um romance (e clássico literário) bastante conhecido por tratar de temas polêmicos para sua época. George Orwell escreveu e publicou o livro anos depois da Segunda Guerra Mundial e seu objetivo consistia em retratar um pouco de uma sociedade controlada e espiada por um governo autoritário e centralizador. Seu principal personagem, Winston, vive condenado em meio a um forte controle do próprio Estado e é daqui que vem o termo “Big Brother” (Grande Irmão), ou seja, aquele que observa e vigia os cidadãos. 

O livro é polêmico, sem sombra de dúvidas. Por que? Porque, embora fictício em seu caráter amplo, a obra é extremamente real e denota uma severa crítica aos regimes nazifascistas e, também, socialistas da segunda guerra e da Guerra Fria, respectivamente. Hoje, completa-se 64 anos de seu lançamento e um pouco de sua importância pode ser encontrada aqui

E o que seria o “novo 1984”? É o PRISM, um programa da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o qual teria obtido dados sigilosos de inúmeros usuários do Facebook, Apple, Yahoo!, dentre outros com a justificativa de que as informações adquiridas seriam necessárias para o combate ao terrorismo no país. O PRISM foi legalizado por George W. Bush e referendado por Barack Obama. Quem diria, heim? E o pior é que isso não é ilegal: o Patriot Act assinado pelo primeiro presidente permite a invasão de lares, espionagem e interrogatórios em caso de real (ou hipotética) ameaça à segurança norte-americana.

Muitos acreditam que a escalada na violência e a postura unilateral dos Estados Unidos foram o que de pior aconteceu pós 11 de Setembro de 2011. Mas julgo o contrário. A pior coisa foi o fato de tudo, tudo mesmo, ser justificado com tal data. Afinal, quaisquer posturas oficiais de Obama podem ter como razão a dita ameaça terrorista. De pior fica a mais ainda controvertida política externa norte-americana, uma vez que o episódio causou mal estar na Europa, que vem tentando desenvolver sistemas de proteção de informações da “Era Digital”. 

1984 é um clássico não por sorte, mas por mérito. São com episódios como o PRISM que o “espião” aparece com total realidade. Todo mundo sabe que a exposição de informações pessoais em redes sociais é perigosa, mas nada justifica a postura oficial dos EUA. Ou melhor, justifica sim, o terrorismo. Foi o jornal “The Guardian” que fez o furo de reportagem e publicou a primeira notícia sobre as espionagens. Por fim, por curiosidade, abaixo está o mapa com dados obtidos em 2007 a respeito dos níveis de coleta de dados por país, variando de verde (menor grau de vigilância) a vermelho (maior grau de vigilância):

Fonte: The Guardian


Categorias: Estados Unidos, Polêmica


Turquia: o valor da tradição

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Há pouco mais de 3 anos, fiz um estágio na prefeitura de Bursa (quarta maior cidade da Turquia). Lembro que duas questões me foram especialmente marcantes. Primeiro, a convivência entre a tradição e a modernidade. Segundo, a figura mítica do libertador nacional, Atatürk, que fundou a República no país. No meio de tudo isto, havia ainda uma grande ambição nacional, uma movimento que apontava na direção da prosperidade.  

Na minha visão, os recentes confrontos, iniciados em Istambul e logo propagados país adentro, se inserem dentro do quadro descrito. A questão da identidade se sobrepõe aos interesses. Neste sentido, buscar entender a ação política passa por refletir sobre a construção social desta identidade a partir dos valores nacionais. Na fundação posta em marcha por Atatürk, a questão do estabelecimento de um Estado secular foi central. O seu caráter laico foi um dos pilares da modernização do país. A República foi outro.  

Erdogan, primeiro-ministro turco, está no poder há 10 anos. Seu partido ganhou as 3 últimas eleições. De um lado, os recentes planos de investimento e modernização (incluindo este que iniciou os protestos) refletem o projeto de uma Turquia ambiciosa. Uma Turquia, inclusive, que era favorita na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 2020. Por outro lado, os valores parecem alvo do mandatário, por intermédio de atitudes julgadas como hostis contra Atatürk e seus valores. Como exemplo, ativistas e opositores apontam a transformação das escolas em semi-religiosas, assim como limitações à venda de métodos contraceptivos. 

Desta forma, quando surge o movimento de oposição à revitalização da região de Taksim, a resposta desproporcional do governo promoveu a fagulha que faltava diante de preocupações crescentes. O vice-primeiro-ministro, em sequência, pediu desculpas aos manifestantes e reconheceu as preocupações relativas aos impactos ambientais do polêmico projeto como legítimas. Erdogan, por sua vez, relacionou parte dos manifestantes com o atentado, em fevereiro, à Embaixada dos Estados Unidos e alertou para o perigo que representam.
 

Estão em questão os planos imobiliários, a questão ambiental e o autoritarismo do governo. Contudo, a questão de fundo é o papel dos valores. Medidas restritivas, contra o álcool e estudantes são impopulares, mas não seriam suficientes para promover uma reação nas proporções vistas. Tampouco bastaria o movimento ambiental. Apesar do mosaico religioso e social da Turquia, o país era visto como um aliado fiável do Ocidente, capaz de travar um diálogo entre Ocidente e Oriente como nenhum outro país. Tudo ia bem, excluindo a questão curda, até mexerem onde não deviam.  

O elemento simbólico era o projeto para derrubar o centro cultural, em Taksim, que leva o nome do herói nacional. Dizia-se ser parte da revitalização, mas ninguém acreditou. Existem questões inegociáveis, aproveitou-se a oportunidade para juntarem as insatisfações de uma vez. Chegou-se ao ponto de torcedores de Fenerbahce e Galatasaray, protagonistas de sangrentos confrontos devido ao futebol, portarem a mesma bandeira desta vez. Afinal, com o Atatürk ninguém mexe.  


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


O mundo mágico do futebol

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A semana foi movimentada no cenário do esporte mais popular do mundo, com a proximidade da Copa das Confederações (um evento “teste” para a Copa do Mundo do ano que vem e que vai por à prova boa parte da organização do evento e todo o dinheiro desperdiç… digo, investido pelo Brasil) e, com grande estardalhaço, da ida do atual “showman” do esporte brasileiro para um grande time da Espanha. A milionária transferência de Neymar para o Barcelona ocupou boa parte das manchetes esportivas e sua apresentação foi um verdadeiro espetáculo.

Mas… a sensação é de que tem alguma coisa errada. E não é em termos futebolísticos – mesmo que tenha havido outras contratações mais vultosas em termos absolutos e tendo quem diga que foi um negócio da China pelo preço que o Barça pagou. Ou a descoberta de que o negócio possivelmente já estivesse fechado há mais de um ano. O problema aqui é vermos como futebol parece viver uma realidade descolada da vida comum, em uma Espanha que enfrenta crise econômica ainda grave. Nessa semana, por exemplo, apesar dos sinais de recuperação, atestou mais um mês de crescimento negativo na Zona do Euro. Apenas a Alemanha (que curiosamente está mandando no cenário futebolístico europeu) teve crescimento, e ainda assim minúsculo. A crise se reflete no esporte, com jogadores preferindo ir para times menores, mas em centros onde o dinheiro está fluindo, como Rússia ou países árabes. E os times que conseguem torrar grana nos países em crise são justamente os que têm grandes fundos de investimento ou milionários excêntricos por trás – como o Paris Saint-German, novo passatempo dos banqueiros catarianos.

Talvez a questão seja o modelo de gestão, já que os dois grandes da Espanha vivem de muito mais que rendas de torneios e cotas de televisão, mas de sócios e marketing pelo mundo. Os outros times de lá, que vivem o mundo real, acabam penando nesse cenário. Desse modo, é interessante ver o conto de fadas que aparece pela televisão, que contrasta com a realidade de protestos, reforma econômica e insatisfação. Quando falamos em futebol, vemos um dos poucos aspectos realmente globais da sociedade atual (basta lembrar que existem mais países filiados à FIFA que à ONU…). E o mundo todo tem dinheiro de sobra para sustentar essa indústria bilionária. Pena que não possam fazer o mesmo pela Espanha como um todo.


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