Novo ano, nem tão novo discurso

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Nesta semana em que se completa mais um ciclo presidencial, a expectativa do que poderemos esperar nos próximos quatro anos vem em grande parte do discurso na posse de Dilma Rousseff, ocorrida ontem. Como esperado, o foco principal foi dado a questões de cunho doméstico, especialmente as mais controvertidas como reforma política e combate à corrupção, mas com especial atenção dada aos problemas da economia. E as relações internacionais com isso?

Do discurso de Dilma, podemos traçar dois pontos principais ligados a relações internacionais, justamente a questão da economia e, de maneira breve (e preocupante), a política externa. Parte de sua fala foi dedicada à questão da necessidade de retomada do crescimento e o temido ajuste de contas públicas. A crise mundial de 2008 não bateu por aqui, mas o problema que era dos europeus naquele momento agora é nosso: como ajeitar as contas sem que o povo pague com benefícios sociais incompatíveis? Basta ver a discussão que rendeu o ajuste nas condições para obtenção do seguro-desemprego (ocorrido no começo da semana) que podemos esperar um ano turbulento, e cheio de protestos, caso esses ajustes sejam feitos como o esperado. Ao mesmo tempo, a retomada do crescimento depende de fatores dos dois lados, dentro e fora, como a alta do dólar (que culpa do aquecimento da economia norte-americana) quanto dos famosos gargalos de desenvolvimento (com problemas de infraestrutura acumulados que agora cobram seu preço para o país). O desafio é grande, especialmente numa semana em que grandes parceiros comerciais do Brasil (e do Mercosul), Argentina e Venezuela, admitem oficialmente que estão em recessão e mostram um cenário sombrio para 2015 no continente.

Isso nos dá o gancho para o segundo ponto – a política exterior. Quem nos acompanha sabe que a diplomacia de Dilma foi no mínimo tímida, em comparação a Lula. As poucas linhas dedicadas ao tema, reforçando o compromisso com o Mercosul e os mercados regionais (em crise) e com a dedicação nas relações Brasil-EUA (abaladas há algum tempo) mostram que a possibilidade de mudança nessa área é pouca, e preocupante. A atenção a crises domésticas, somada a perda de recursos para o MRE (que faz transparecer uma crise existencial no Itamaraty), leva a crer que mais uma vez a política externa será um tema secundário no governo Dilma. Mesmo o relativo sucesso do BRICS pode não ser suficiente para alçar o Brasil àquela posição de protagonismo almejada por tantos anos na época de Lula. Se isso era viável ou não, é outra história, mas o ímpeto não parece o mesmo. A indicação do novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embaixador de carreira em Buenos Aires e Washington, ou seja, um nome extremamente competente, é um bom sinal, já que se trata de uma das poucas escolhas técnicas de Dilma, mas até aí o ex-ministro Patriota também era, e o contexto não leva a crer que vá haver mudanças significativas nesse setor – seria muito mais uma indicação para evitar danos maiores que para buscar novidades em nossa política externa.

2015 está aí, com a novidade e a esperança que sempre acompanha o ano-novo, mas o sinal de alerta está ligado para o Brasil. Cautela e prudência são as palavras-chave para este novo governo, que em face de perturbações domésticas cada vez mais marginaliza oportunidades e importantes questões internacionais.


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Oriente esquentando

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Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


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E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Hora de acabar?

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Se o final da Guerra Fria não tem exatamente um ponto definido, ele geralmente é considerado como o desmantelamento do chamado “Segundo Mundo”. Mas isso sempre carrega um asterisco nos livros. Para alguns países, aquele conflito tecnicamente não teria acabado, especificamente para Cuba e Coreia do Norte, os dois principais bastiões da resistência do modelo de economia planificada. Por isso chama a atenção o noticiário dessa semana, em que de um lado finalmente tivemos um avanço histórico que pode literalmente significar o fim da tensão entre EUA e Cuba, enquanto a Coreia do Norte apronta de novo e fortalece cada vez mais posição de isolamento.

Nem é necessário aprofundar muito a discussão sobre a incrível reaproximação de Cuba e EUA após meio século de rompimento diplomático. O gradual e controverso processo de distensão entre a ilhota e o gigante significa muitas coisas, de jogar uma pá de cal no conflito ideológico nas Américas à possível revisão do embargo americano. Isso não virá sem desafios, com insatisfação de ambos os lados, especialmente do norte-americano, mas significa um freio à retórica antiamericana que se tornou bastante popular por estas bandas e se apoiava, em parte, na inimizade de Washington com Havana, bem como à retórica anticomunista que as direitas exaltadas que pipocam pelas redes sociais e em partidos radicais. O mundo se mostra um lugar bem mais complexo que qualquer maniqueísmo ideológico, e felizmente prevalece o bom senso naquele que pode ser o grande legado de Obama para a história após dois governos conturbados.

O que destoa completamente da Coreia do Norte. O país, único não-signatário do TNP que busca abertamente desenvolver capacidade nuclear para usos militares, surge em meio à polêmica da invasão dos servidores de um estúdio norte-americano que estava prestes a lançar um filme de conteúdo sensível – uma comédia em que o enredo se baseia na tentativa de assassinato do presidente norte-coreano. O grupo de hackers que ameaçou as distribuidoras e salas de cinema que exibissem o filme, além de vazar alguns filmes inéditos e roubar dados de fornecedores e clientes, não assumiu diretamente estar ligado a qualquer governo mas fontes dos EUA confirmam a participação de Pyongyang, onde a guerra cibernética é uma realidade e um esforço concentrado do Estado.  Estando ligado aos ataques ou não, o governo norte-coreano continua a vociferar contra os países do Ocidente e mobilizar capacidades como resposta à ameaça de levar o país ao TPI levantada pela ONU por violações contra direitos humanos. O cuidado com que se trata a situação da Coreia do Norte, que levou inclusive à suspensão da exibição do tal filme, mostra que nessa parte do mundo ainda persiste uma lógica de enfrentamento de base ideológica. Mantendo o isolamento e uma política agressiva, a Coreia do Norte parece andar na contramão da história e conta nos dedos seus aliados.

É óbvio que dizer que a Guerra Fria persiste é um exagero. Há quem veja as tensões crescentes com a Rússia como sinal de algo dessa natureza, mas mesmo assim não tende a sair do campo econômico. A aproximação dos EUA com Cuba é mero indicativo de que aquela situação aberrante simplesmente não se encaixa no sistema internacional moderno e já passara da hora de ter sido resolvida. A exceção mesmo é o caso único da Coreia do Norte, naquela região em que persiste um “microcosmo residual” da Guerra Fria, nas palavras de Barry Buzan, em que a inserção do poder atômico faz com que os cálculos políticos sejam diferenciados do que se pratica em outras partes do mundo e o conflito de viés ideológico se mantenha congelado no tempo.


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Hong Kong acordou?

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Nesta semana acabou de maneira bastante insatisfatória (pelo menos para os que protestavam) o movimento de “ocupação” nas ruas de Hong Kong, pedindo por reformas no sistema eleitoral e que acabou se expandindo para outras áreas como desigualdade de renda e segurança. O tráfego foi restabelecido e mais de 200 manifestantes foram presos, com seus acampamentos destruídos pela polícia da cidade.

Pensando que na última vez em que um protesto dessa magnitude aconteceu contra o governo chinês ele ficou conhecido como “massacre”, até que o desfecho não foi tão ruim, mas o fato é que tais protestos não alcançaram nenhum dos objetivos. O governo chinês não cedeu às pressões, o governo local continua sujeito às decisões do partido e a propaganda estatal reafirma a noção de “um país, dois sistemas”.

Ao mesmo tempo, esse fracasso aparente esconde um grande sucesso. Primeiro, o mero fato de que o governo não pôde passar com tanques por cima dos manifestantes como se faria outrora, pela característica peculiar do governo de Hong Kong, tornou possível um tipo de protesto que não se vê mais na China continental. O impacto na vida diária dos cidadãos, e as demandas apresentadas, despertam uma noção de participação e reivindicações que incluiu a sociedade como um todo. O esvaziamento do movimento, seja pela ações mais violentas (como tentativa de invasão de prédios públicos), seja pelo transtorno por falta de transporte, não vão apagar a forte impressão que esse movimento trouxe, chegando a mobilizar dezenas de milhares de pessoas. As lideranças parecem acreditar que isso é apenas uma “retirada” estratégica, e que os protestos retornarão com força em algum momento no ano vindouro.

E agora começa a guerra de ideias. Os manifestantes têm reivindicações, o governo perdeu apoio, Beijing se preocupa. O desfecho disso tudo, se causará uma revolução silenciosa e progressiva na sociedade da ilha, ou se descambará para um conflito mais agudo, dependerá do quanto a China estiver disposta a ceder para a manutenção de sua “joia” ou intimidar e suprimir definitivamente as demandas. Mas do modo como afetou a ilha por completo, a chance de que seja um evento isolado é praticamente descartada e abre uma nova perspectiva para o futuro de Hong Kong.


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Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


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Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

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Nunca é demais recordar uma figura que marcou a infância e a adolescência – e até mesmo os anos adultos – de todos nós: Roberto Bolaños. Um gênio que traduziu o humor na inocente simplicidade do cotidiano de uma vila. Um herói atrapalhado, nem por isso ingênuo, cujo maior ato foi elevar a cultura latino-americana, muitas vezes marginalizada, ao imaginário popular mundial. Um eterno transeunte que continuará despertando, sem querer querendo, nossos risos mais irreverentes. Chaves, Chapolin, entre outros personagens clássicos, representam o espírito de um povo tropical, às vezes desajeitado, mas sempre alegre, em busca de melhores condições de vida.

É comum encontrar analogias entre a turma do Chaves e países da América Latina, por exemplo, a Chiquinha como a Venezuela ou Cuba, porque se acha independente e arruma confusão com todo mundo. Entre o tributo e a análise, este texto também é uma tentativa de interpretar às transformações da América do Sul, em específico, ocorridas nestes últimos anos à luz de um seriado infantil que tantos nos inspirou. Diferente de outras comparações, pretende-se, aqui, tratar os personagens como pessoas normais – e não como países – que compõem o rico cotidiano desta região.

Em primeiro lugar, uma observação geral sobre o contexto. Entre o fim dos anos 1990 e início da década passada, diversos governos ditos de esquerda ascenderam em praticamente toda a América do Sul, sendo a maior exceção a Colômbia. Sem entrar no mérito se isso ocorreu ou não devido à falência do projeto neoliberal, com base nos preceitos do Consenso de Washington (1989), é possível encontrar uma característica comum entre os líderes ascendentes: a exemplo de Bolaños, todos eles simplificaram os discursos e conseguiram chegar a todas as classes sociais. A erradicação da pobreza e da fome e a redução das desigualdades, previstas na maioria das constituições sul-americanas, tornaram-se o objetivo síntese de um projeto político relativamente simples. Um projeto que propôs enfrentar ferozmente uma realidade histórica negligenciada. Não foi difícil, assim, convencer os habitantes desta vila humilde de que tantos Chaves e Chiquinhas também deveriam ter condições de adquirir a bola quadrada de Quicos.

Houve a inversão de uma fórmula consagrada neste período: o bolo precisa ser repartido conforme o crescimento, não depois de pronto. Trata-se de um crescimento distributivo, às vezes aquém do que se espera, mas que contribua para a melhoria dos indicadores sociais. Daqui para frente, dificilmente as sociedades sul-americanas aceitarão crescer sem inclusão social, independentemente das políticas econômicas adotadas. Convém ainda ressaltar que esse crescimento, embora tenha sido favorecido pela elevação dos preços das commodities, foi alimentado pelo trabalho e aumento de renda. Muitos Seu Madrugas, que antes faziam bicos – engraxate, marceneiro, vendedor de pipoca, etc. –, conquistaram um emprego formal. Muitas Donas Florindas, que já desfrutavam de alguma renda, resolveram abrir um restaurante. Muitos Seu Barrigas compraram mais imóveis, muitos professores Girafales ensinaram mais alunos, muitos viajaram para Acapulco, enfim, muitas pessoas passaram a fazer parte de um processo, ainda incipiente, de transformação social, ao se desprender de mazelas históricas.

O problema é que as lideranças esquerdistas emersas na década passada tinham um discurso claro e simples para quando o Chaves não comia sanduíche de presunto. Agora, ele come. E não quer só o sanduíche. Também quer torta, bolo, churros, pirulito, etc. Mais do que isso, ele quer andar de bicicleta, pegar um ônibus para ir ao parque, deixar de morar em um barril. Há uma ampliação da “nova classe média” – ou, como dizem os críticos, dos “novos proletários” – que modificou seu pleito: da universalização do acesso a serviços básicos para a qualidade desses serviços. Esta nova condição, ainda não sedimentada, é o grande desafio das políticas públicas das próximas décadas, sem deixar de lado o enfrentamento dos desafios históricos. Há um clamor por mudanças na população, eventualmente consubstanciada por uma nova orientação em seus governos, que já se percebe nos pleitos eleitorais apertados – Brasil e Uruguai são os casos mais recentes.

Uma era se encerra, outra começa. A primeira, humorística, a segunda, política. Roberto Bolaños tornou-se o guardião de uma era para a cultura latino-americana e compreendeu, de forma inocente, o que a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, entre outros campos do conhecimento, tentam explicar até hoje: a natureza dessa gente americana dos trópicos. Ela é imperfeita e desastrada, por definição, mas feliz e esperançosa, por convicção. E é essa gente bronzeada, como compôs o sambista Assis Valente, que hoje mostra o seu valor. Não contente apenas em ser parte de um processo de transformação social, quer ela ser condutora da própria transformação, o que pode iniciar novos episódios na vila sul-americana.


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Imagem da Semana

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Obama

A imagem da semana revela uma situação inusitada envolvendo o presidente Obama – ou mais especificamente suas duas filhas adolescentes. Seguindo a tradição estadunidense, Obama presidiu, na última quarta-feira, uma cerimônia típica da véspera do Dia de Ação de Graças, em que são “perdoados” dois perus que normalmente seriam consumidos no dia seguinte.

O inusitado da situação, na verdade, envolveu a postura das filhas presidenciais, Sasha e Malia, durante a cerimônia. As meninas trocaram olhares entediados e foram duramente criticadas por Elizabeth Lauten, assessora de imprensa do congressista republicano Stephen Fincher, em sua página no Facebook: “Eu sei que vocês duas estão no terrível período da adolescência, mas vocês são parte da família presidencial – tentem mostrar alguma elegância. Pelo menos respeitem o papel que desempenham”.

Filhas Obama

A situação está gerando tamanha comoção que Elizabeth já se desculpou publicamente e anunciou que pedirá sua demissão no dia de hoje


A injustiça recorrente

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Rioting erupts in Ferguson, Missouri after police involved shooting of an unarmed teen

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


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O Papa é (mais que) pop

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Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


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