A (Des)Igualdade Econômica entre Gêneros

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Regularmente, o Fórum Econômico Mundial cumpre um papel importante para a compreensão da desigualdade de gênero. O Relatório Global de Desigualdade entre Gêneros (Global Gender Gap) é um dos maiores termômetros das desigualdades econômicas persistentes entre homens e mulheres de 135 nações diferentes.

 

Ferramenta importante para pesquisadores qualificados, o relatório também pode servir como uma consistente base para o entendimento da situação atual de desigualdade de gênero para interessados no tema. Os seus resultados, embora anuais, retratam parte e do desenvolvimento dos direitos da mulher e sua inserção no mercado de trabalho no século XX.

 

Como exemplo, podemos ver que os países melhores classificados, com a menor presença de desigualdades, são os escandinavos. Nesses locais, as leis jurídicas que garantiram a igualdade civil e politica entre homens e mulheres datam do início do século passado. A Suécia, por exemplo, tem em sua Constituição a igualdade entre sexos desde 1905. A Islândia é o maior exemplo de sociedade igualitária desse tipo, sendo o único país do mundo em que o índice registra uma igualdade completa entre homens e mulheres.

 

Entre os bons exemplo de construção de uma sociedade mais justa estão os mercados mais desenvolvidos do mundo. Segundo especialistas, países com maior desenvolvimento econômico aparentaram ter o maior desenvolvimento rumo à igualdade. Os economistas dizem que a procura pelas melhores mentes,  independente de particularidades preconceituosas, é o combustível dessa evolução nesses locais.

 

Entretanto, o resultado do último relatório não é tão otimista. A diminuição da desigualdade desacelerou nos últimos anos. Em cinco anos, houve apenas uma evolução de 10% na redução da desigualdade mundial. Enquanto isso, ao redor do mundo a diferença entre homens e mulheres ainda beira a casa dos 60%.

 

No Brasil, a desigualdade sofreu uma grande diminuição em menos de dois anos. O país saltou 20 posições no ranking, passando a ser a nação número 62 em igualdade de gênero, entre 135 países. Tudo isso garantido pela inserção de diversas mulheres em cargos de poder no governo Federal desde a eleição de uma presidente mulher.

 

Mas devemos ficar alertas ao comemorarmos alguns números. Se a nova política formação de ministérios inciada por Dilma tem o poder de indicar um certo empoderamento feminino no país, ele também mostra a fragilidade das medições utilizadas pelo Fórum e a sua metodologia. Afinal, a desigualdade de gêneros não pode ser apenas medida por fatores econômicos e a conjuntura politica de um país.

 

A formação e os costumes de uma sociedade devem também pesar para esse tipo de análise. O nosso país é campeão mundial em exploração sexual e prostituição infantil. Infelizmente, esse tipo de crime contra a mulher, muitas vezes respaldado pela sociedade, não entram nesse cálculo. Metodologias estritamente economicistas por vezes impedem a visão de algumas más práticas sociais, tais como o machismo elevado ou a cultura do estupro, presente em diversas nações.

 

Mesmo assim, não podemos deixar de pontuar que há situações ainda muito piores que a brasileira, em que a mulher ainda se encontra fora da educação formal, do mercado de trabalho e muitas vezes da vida pública e da política. Em outros locais, como o Marrocos, pode sofrer uma dupla punição em um país em que o homem é livre para ter relações sexuais com qualquer mulher, muitas vezes á força, enquanto elas podem ser condenadas à morte por sexo fora do casamento, mesmo em casos de estupro.

 

Os indicadores de desigualdade econômica apontam para um mundo menos desigual no futuro, mesmo que essa mudança esteja desacelerando. Ainda mostram que as primeiras sociedades estão chegando a igualdade plena, antes presente apenas nos sonhos de alguns. Entretanto, devemos esperar que, como o Fórum Econômico já o fez, organizações de estudos sociais insiram em suas pautas a realização de pesquisas tão completas quanto é a da situação de desigualdade econômica de gênero,  além da economia somente, mas também de ordem jurídica e social.

 

Infelizmente, o espaço possível de uma postagem não seria suficiente para cobrir todos os dados formados por esse estudo tão interessante. Aos que se interessarem mais profundamente pelo assunto, segue o estudo completo e a classificação dos países de acordo com a igualdade de gênero presentes em cada um.

 

Estudo completo: The Global Gender Gap Report. (Clique no nome da pesquisa).

 

Classificação geral das nações: Ranking de igualdade de Gêneros.  (Clique no nome do ranking).

 


Categorias: Cultura, Economia


Imagem da Semana

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A imagem da semana não poderia retratar um tema tão importante para nós quanto o primeiro leilão de um campo de petróleo no pré-sal em nosso país. O leilão, bastante polêmico, não poderia deixar de vivenciar momentos de tensão. Ontem, o governo Federal e do Rio de Janeiro praticamente sitiaram o local onde ocorreria o evento, com ajuda do exército. Nada mais preventivo, com a de inúmeros grupos contrários à a privatização da produção do petróleo.

A imagem acima é o cordão de isolamento, formado até mesmo na areia da praia, evitando a aproximação de manifestantes. No entanto, ontem o número de protestantes não justificou a força deslocada pelo governo. Eram poucos, quase insuficientes para retratar a guerra jurídica dos últimos dias entre governo e oposicionistas ao leilão. Foram 25 liminares ao todo, todas derrubadas. 

O resultado final do leilão foi de sucesso, estabelecendo a estatal brasileira Petrobras como a grande vencedora do consórcio, que conta ainda com as gigantes Shell e Total, e as chinesas CNPC e CNOOC. Uma vitória e tanto para os planos do governo Federal, ainda mais na tempestade em que o processo se transformou.

Entre políticos e analistas, há burburinhos indicando que o resultado estava definido há tempos, quadro se é realçado pela desistência em massa de empresas e a vitória tranquila da proposta da Petrobras. No entanto, outros afirmaram que a vitória de tal consórcio foi a melhor das possibilidades. A nós brasileiros, agora resta torcemos e cobrarmos  para que a exploração dessa riqueza traga benefícios ao país.


Visão 2020

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Quando se fala sobre Ruanda, inevitavelmente a primeira lembrança que nos vem à tona é a do genocídio ocorrido no país em 1994, o qual marcou tristemente a década pela brutalidade dos atos cometidos de uma luta étnica que beira o inexplicável, o inenarrável.

Às vésperas de completarmos 20 anos desse triste marco histórico, a verdade é que Ruanda busca se reerguer e alcançar o desenvolvimento nacional para ser lembrada de outra forma, recriando a história de um povo que luta para crescer e arquivar em um passado (cada vez mais) distante a violência e o desgaste causado pelo genocídio.

No ano 2000, o governo lançou o projeto “Visão 2020”, cuja principal meta é viabilizar a transformação do país em uma economia baseada em tecnologia, espelhando-se no exemplo asiático de Cingapura. O projeto “Um laptop por criança” inclui-se neste contexto, iniciado há cinco anos pelo governo com o apoio de Organizações Não-Governamentais, e impactando hoje aproximadas 400 escolas do país (foto). Aproximar a tecnologia ao processo de aprendizado infantil é uma meta ousada, mas que certamente renderá frutos para muito além de 2020.

Visualizar a forma como esse processo está alcançando Ruanda reflete claramente os benefícios e as facilidades da era das telecomunicações em que as ferramentas existentes podem (e devem) ser utilizadas para beneficiar as sociedades.

Para uma sociedade ainda predominantemente rural, o processo começa na base. Avaliar o impacto das novas tecnologias e pensar em como “urbanizar” o país de forma sustentável, aliando esse processo ao esperado crescimento econômico e à melhora nas condições sociais da população é um objetivo amplo, mas de extrema importância e que os ruandeses almejam atingir gradualmente.

No curto prazo, o plano visa à promoção da estabilidade econômica e à redução da dependência de ajuda externa; no médio prazo, espera-se transformar a economia agrária em uma economia baseada em conhecimento (“knowledge-based economy”); e, por fim, para o longo prazo o objetivo é de apoiar uma classe média produtiva, incentivando o empreendedorismo. [Confira a íntegra do plano aqui.]

Os desafios são muitos e existem não apenas em Ruanda, mas em todo o continente africano, com cada país vivendo momentos distintos de desenvolvimento social, com maior ou menor dependência de ajuda externa nos dias atuais. Fato é que o programa em questão representa uma estratégia interessante do governo ruandês, inspirado por uma visão estratégica de longo prazo, possibilitando que Ruanda se destaque nas manchetes internacionais por razões muito distintas daquelas dos idos de 1994 que nunca deveriam ter ocorrido… 


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Uma deportação controversa

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Um dos temas internacionais que mais desafia o senso comum é a imigração. De pronto, infere-se que são os mais pobres que escolhem este caminho com maior frequência, em especial seguindo a rota sul-norte. Na realidade, segundo dados das Nações Unidas, somos surpreendidos pela prevalência de migrações dentro dos territórios nacionais, assim como os movimentos inter-regionais, e não dos países menos para os mais desenvolvidos.  

Mais surpreendidos ainda somos quando, no exemplo do caso de mexicanos migrando para os Estados Unidos, percebemos um aumento diretamente proporcional da imigração em relação à renda. A pobreza, neste sentido, apresenta outra face perversa: a imobilização. A baixa qualificação e renda são fatores impeditivos para a mobilidade. 

Mesmo no caso de conflitos, principais fontes de mobilidade compulsória, observa-se que o fluxo de refugiados de áreas como Síria, Afeganistão, Iraque e Somália tende a se concentram em países vizinhos ou na própria região. Em sentido contrário, a população de maior nível educacional encontra melhores oportunidades. Outro elemento importante do debate é uma Europa, cujo processo de transição demográfica foi concluído e que deve precisar, no futuro não distante, de um fluxo imigratório para sustentar seu crescimento econômico. 

Nesta semana, um caso muito ilustrativo ocorreu na França. Uma jovem de origem cigana, Leonarda Dibrani, foi surpreendida por uma ligação durante uma excursão escolar. Tratava-se de um oficial da polícia francesa. Sua família, naquela manhã, ia ser deportada para o Kosovo e faltava encontrar a filha. Ao encontra-la no ônibus da excursão, a polícia deteve a menina na frente dos colegas e a deportou em sequência.

 

De volta ao Kosovo, a jovem deu uma entrevista para uma rádio francesa expressando seu desejo de retornar à França com sua família. Na nova pátria, sua família não tem casa e a menina não pode frequentar a escola por não falar o idioma local. A deportação despertou uma onda de protestos contra o procedimento virulento para retirar a família de solo francês.  

Neste sábado, o presidente francês, François Hollande, ofereceu à menina o retorno ao país, sob a condição de retornar sozinha. Este processo coincide com uma promessa de maior firmeza do Ministério do Interior, o ministro Manuel Valls declarou há duas semanas que os ciganos instalados na França estavam destinados a retornar para a Bulgária.   

A população cigana é alvo frequente, não só na França. O aspecto nebuloso no caso da família cigana é que se cumpria o aspecto fundamental, qual seja, a incorporação ao país receptor. Leonarda frequentava a escola e falava fluentemente francês. O não aceitar aspectos culturais e educacionais franceses talvez seja a principal crítica contra os imigrantes. No caso em questão, fez-se valer um regulamento interno em prejuízo a direitos fundamentais.  

Quantas outras situações como esta não devem ocorrer mundo afora? Para muitos governos continua mais fácil alimentar o senso comum sobre imigrantes, fazer doações para refugiados (mas estabelecer cotas para recebe-los) e buscar meios legais de deportar populações indesejadas. Sorte que muitos não concordam, no caso de Leonarda muitos estudantes, que desejam vê-la trocar o banco da praça no Kosovo pelo banco escolar na França.  


Categorias: Europa


Política Externa Local

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Ponte Estaiada – São Paulo


Semana passada foi publicado um artigo intitulado “Foreign Policy Goes Local”* na revista “Foreign Affairs” e o mesmo tornou-se o quinto texto mais acessado nos últimos dias na página web do periódico. Escrito por Rodrigo Tavares, atual Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, mostra como o estado federado aumentou sua projeção externa nos últimos anos, adquirindo patamar de “poder diplomático” da nova ordem mundial caracterizada pela intensificação da globalização. 

O artigo em si é bem escrito e fundamentado. Mas, além disso, devo destacar outro ponto: o espaço aberto em uma revista de grande porte para tratar de uma nova temática que há anos luta por maior reconhecimento na academia e, por que não dizer, na própria prática política. Estou falando do que Rodrigo Tavares e a grande maioria da literatura que se debruça sobre essa área denominam de paradiplomacia, seja ela a inserção internacional dos atores subnacionais (cidades, municípios, estados federados, províncias, departamentos, regiões, etc.). 

Em momento anterior eu mesmo escrevi uma pequena série de três postagens sobre paradiplomacia aqui na Página Internacional. Em “Para…o que?”, falei sobre o mundo do pós-Guerra Fria e dos novos atores que emergiram. Citei alguns dos principais exemplos de atores subnacionais com intensa atividade internacional e entrei no mérito da paradiplomacia desenvolvida nos processos de integração regional e em redes de cidades. 

Voltando ao assunto principal, o texto referente à “Política Externa a caminho do Local”, não sei se é de simples acesso ou não ter um texto publicado na “Foreign Affairs”. Mas muito me alegrou esse texto, porque sou pesquisador da área. São Paulo, e poderia citar até mesmo a cidade além do estado, tem uma potencial gigante de internacionalização. E isso tem sido fomentado, em maior ou menor escala, nos últimos anos. 

Ao final do texto, Rodrigo Tavares utiliza o termo “diplomacia subnacional” e, particularmente, defendo mais a utilização desse termo do que paradiplomacia. O discurso sobre a inserção externa dos atores subnacionais é muito importante para dar respaldo a essa área tanto na academia quanto na prática. Cada vez mais me convenço de que, quando falamos sobre política local, são necessárias pessoas formadas em Relações Internacionais para dar conta dessa demanda. Teoria e empiria se misturam, e muito, aqui. 

Países como Bélgica, Alemanha, África do Sul, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina e por aí vai, têm uma política externa mais permeável aos interesses subnacionais. No Brasil, conforme apontado no texto, essa ideia vem crescendo, mas digo que o Itamaraty ainda tenta concentrar ao máximo a tomada de decisões e nosso histórico de centralização de poder ainda atua como “barreira” à diplomacia subnacional. 

O governo paulista vem quebrando essa lógica com muitos méritos. Possui população densa, infraestrutura e produto interno bruto para tanto. Além dos estados, muitas cidades também estão criando secretarias ou coordenadorias municipais de Relações Internacionais com o intuito de aumentarem diálogo, cooperação e troca política com seus semelhantes internacionais. Belo Horizonte, Vitória, Santo André, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Guarulhos, Campinas detêm ineditismo e destaque, também, nesse mérito. 

Que seja, gradualmente, produzido mais conteúdo sobre paradiplomacia, ou melhor, diplomacia subnacional. E que seja publicado em “Foreign Affairs” e muitos outros periódicos. Área de estudos fascinante tanto para pesquisadores quanto para aqueles que mexem com a política local no dia-a-dia. Se você pretende estudar ou está estudando Relações Internacionais e ainda não sabe “para que serve o curso?”, experimente conhecer o mundo da política local. Ratifico: só haverá maior crescimento da atuação internacional dos atores internacionais com o trabalho de pessoas especializadas em Relações Internacionais. 

* Para acessar o texto é necessário fazer um breve cadastro na “Foreign Affairs”.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Um processo imprevisível

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A ONU faz muitas coisas boas, mas geralmente é taxada de incompetente quando não consegue agir de maneira mais incisiva em certas questões (alô, Conselho de Segurança). O problema fica pior quando, num dos casos mais importantes de sua história recente, a organização sofre um contragolpe por causa de imprevistos, e que diz muito sobre sua atuação. 

Mas o que está acontecendo? Senhoras e senhores, a ONU está sendo processada! E não é por nenhum ditador que se sentiu lesado ou algo do tipo, mas por cidadãos do Haiti, o país mais pobre do mundo. O grande problema é que existem indícios de que a epidemia de cólera que assola o país (e já matou mais de 8 mil pessoas) teria sido trazida por soldados nepaleses, integrantes da missão. Apesar de ser um país com mais problemas que se possa imaginar, a cólera não era um deles – estava erradicada na ilha há mais de 100 anos. Porém, com a devastação da guerra e, principalmente, do terremoto de 2010, a falta de condições mínimas de saúde fez com que a doença de espalhasse. 

Temos vários lados para analisar essa questão. Primeiro, a legitimidade do processo. Afinal, existe um dano, mas é claro que a ONU não teve a intenção. Trata-se de uma epidemia “culposa”? E como a ONU vai ser obrigada a pagar as indenizações bilionárias, já que o tribunal é norte-americano? É possível processar uma organização internacional? 

Mas talvez o mais importante seja o impacto nas próprias missões da ONU. O efeito imediato foi a redução do efetivo da missão no Haiti. Mas há outros problemas, como a composição do efetivo. Geralmente, missões de paz têm tropas enviadas por países que querem algum prestígio (alô Brasil) ou que apenas querem ter algum tipo de treinamento ou uso prático para suas tropas (como o Japão). 

No caso, a missão do Haiti tem vários países envolvidos, a maioria sul-americanos, e o envio de soldados nepaleses parece se encaixar nesse fator político. Vindos de um país com cólera endêmica, para um país arrasado, é a receita para o desastre. A ONU já tem uma comissão estudando o caso (e diz que não vai pagar indenização alguma), mas comprovando-se ou não a culpa da instituição para a volta da epidemia, a mancha na imagem fica ainda mais negativa. Somado ao estigma da falta de ação, está agora o de que a ONU pode efetivamente piorar uma situação que já era ruim. Nessa década onde missões foram contestadas, surgem denúncias de abusos por tropas de paz e a própria eficácia do modelo está em xeque, o caso da cólera do Haiti se põe como mais um desafio à modernização e adaptação da ONU aos novos tempos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


Imagem da Semana

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Fonte: g1.com


E a imagem da semana não corresponde à Semana das Crianças, nem mesmo à famosa “Semana do Saco Cheio” conhecida nas escolas principalmente por aqueles que vão prestar vestibular. Trata-se de uma figura que simboliza a Semana dos Professores! 

Batman e Zorro, dois heróis que já ficaram conhecidos por estarem sempre presentes nas manifestações no centro do Rio de Janeiro, estampam nossa coluna. 

Talvez só super-heróis salvarão a triste realidade encontrada por professores aqui no Brasil. Mais do que manter o discurso, respeite os seus professores. Sim, faltam salários compatíveis, plano de carreira e reconhecimento profissional. Mas o que mais falta mesmo é respeito para com os mesmos. 

“Os professores abrem as portas, mas você precisa entrar sozinho” Provérbio Chinês


Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


Categorias: Economia, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


Prêmio discordante

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Peso na consciência é uma coisa complicada, especialmente se você tiver criado um dos explosivos mais potentes e perigosos da humanidade. Foi assim que Alfred Nobel, o criador da dinamite, resolveu gastar alguns dos seus milhões que ganhou com a invenção para tentar se redimir com a humanidade e premiar grandes invenções, pesquisas, ou simplesmente pessoas que ajudassem o ser humano a ser um pouquinho melhor. Nascia o prêmio Nobel, que está sendo entregue em sua edição 2013 nesse mês de outubro. 

Os prêmios científicos são muito interessantes, mas geralmente o mais chamativo é um bem subjetivo, o tal Nobel da Paz. Muita gente já ganhou esse de um modo bem contestável (basta lembrar do Obama em 2009, que continua massacrando gente com drones, ou indo mais atrás, Ted Roosevelt, aquele do ursinho de pelúcia e do “Big Stick”, que ganhou o prêmio pela mediação na guerra russo-japonesa), mas parece que esse ano a concorrência está boa. A principal aposta é na menina paquistanesa Malala Yousafzai, aquela que levou um tiro na cabeça por criticar o Taleban e defender escola para todos. Parece justo – mesmo por que o Taleban continua ameaçando ela de morte após sua quase milagrosa recuperação. Mas outros candidatos são um pouco mais controversos, como… o presidente russo, Vladmir Putin. Esse mesmo, o homem que prende ativistas, tem dezenas de denúncias de opressão e violação de direitos humanos contra e que vende armas para o ditador favorito da mídia atual. Sua indicação seria justamente por seu papel na mediação do conflito da Síria (apesar de absolutamente nada ter sido alcançado de concreto, fora o tênue compromisso de remover as armas químicas de lá). 

Não seria novidade – muitos desses prêmios são para acordos de paz. Claro que, geralmente, são para acordos já finalizados (com exceção do histórico prêmio de 1994, e que com a morte de Rabin deu no que deu). Mas o Nobel a Paz, o mais prestigiado deles, está ficando meio desacreditado nos últimos anos. Obama em 2009, a União Europeia ano passado, parece até piada. A indicação (e até uma possível vitória) de Putin seria basicamente um escolha de politicagem. Digamos que o controverso prêmio de Obama em 2009 abriu um precedente e agora Putin pode ser “recompensado” por sua busca de trazer a Rússia novamente a um primeiro plano. 

O prêmio Nobel, no fim das contas, não tem muita utilidade prática, mas é cheio de simbolismo, e essa desvirtuação não deixa de ser um pouco lamentável. Claro que, para quem não liga muito para o assunto, sempre temos o divertido IgNobel, que faz o contrário e premia pesquisas e pessoas que não contribuíram em nada para o progresso da humanidade. Em 2013, o IgNobel da paz foi para Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, que tornou proibido bater palmas em público. Putin vai ter que se esforçar pra ganhar disso.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


PSB e Marina, tudo a ver?

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Nesta semana, a principal personagem foi, sem dúvida, Marina Silva. Assim como no caso do voto de minerva de Celso de Mello sobre os tais embargos infringentes, muitos já apontavam a virtual rejeição do registro da Rede Sustentabilidade em sessão do TSE. Pois bem, na quinta-feira, de fato, veio a resposta negativa. Assim, um grande força para as eleições presidenciais ficava de fora da disputa. Sem o registro até o início deste vez, ficou inviabilizada a participação da Rede nas eleições em 2014.  

O grupo composto pelo Rede Sustentabilidade, que provavelmente conseguirá o registro no futuro próximo, transformou-se em um movimento político de relativa importância em um cenário pré-pré-eleitoral, mas ficou impedido de participar no jogo quando ele realmente começasse. Na sexta-feira, as propostas para filiação de Marina Silva pipocaram. Na prática, parecia que ela poderia aterrissar numa legenda (de aluguel), para assim colocar em marcha sua candidatura à presidência em 2014.  

Não foi o que aconteceu. Em um lance surpreendente, Marina escolheu juntar-se a um partido que tem candidato, o PSB. Na coletiva para anunciar a aliança, Eduardo Campos contemporizou ao afirmar que a decisão de quem iria ser candidato ocorreria futuramente, por outro lado Marina demonstrou e afirmou saber que não encabeçaria um chapa do PSB em 2014. A virtual candidatura de Campos, atual governador de Pernambuco, até mesmo provocou o rompimento com o governo e um racha interno com o grupo contrário a um voo presidencial solo. Por isto, faria pouco sentido ver o atual governador de Pernambuco como vice de Marina.  

No contexto atual, resta saber se o eleitor se convencerá que existe um alinhamento (ou pelo menos compatibilidade) entre os programas dos dois partidos. Além disto, se o eleitor aceitará votar em uma coligação que se inicia entre um partido formalmente inexistente e outro partido que aluga espaço para um grupo político que obviamente tem projeto próprio. Contudo, existem os lados positivos também. Campos quer apresentar-se como um personagem que fez parte do governo, mas que vê problemas na condução da política econômica. Marina, por sua vez, muito popular nos últimos meses, poderia significar um aporte importante ao referendar o primeiro. 

Parece cedo para prognosticar qualquer cenário, porém é evidente que a corrida fica mais interessante com Marina Silva. Apesar da surpresa, a união entre Rede e PSB, no final das contas, pode até parecer lógica. Resta saber se a união permanecerá estável e, no caso afirmativo, por quanto tempo.  


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