Jeitinho da China

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Digamos que é o que acontece quando colocamos o jeitinho brasileiro num negócio da China. Trocadilhos e piadinhas à parte, essa expressão parece servir bem para um caso curioso. Isso por que a China se tornou um dos maiores consumidores de carne brasileira do mundo.

Mas espera aí… eles não embargaram a compra de carne daqui por causa de uma denúncia de casos de vaca louca? Sim, a China não compra mais carne bovina daqui. É aí que entra o jeitinho. Oficialmente, o maior comprador não é a China, e sim Hong Kong.

A região administrativa faz parte da China, mas tem governo próprio, então faz o que bem entende no comércio com o Brasil. E toda aquela carne que compram (um negócio bilionário) vai para o continente, sem nenhum tipo de empecilho. A China continua batendo o pé e prorrogando ao máximo a suspensão do embargo iniciado no ano passado; ao mesmo tempo, o mercado chinês continua sendo um mercado em expansão (e considerado até estratégico) para nossos produtores. 

Claro que uma pressão política não faz mal e o vice-presidente Temer já está na China para, entre outras coisas, negociar a liberação da venda (que parece pouco provável). Aqui vemos algumas das grandes contradições dos BRICS, os países que buscam parceria e alguma coesão em nível internacional, mas quando são confrontados com questões de sobrevivência básica como o mercado de commodities, começam a chutar a canela uns dos outros. 

Enquanto isso, a China não compra a carne brasileira. Mas continua comprando (mesmo por quê o mercado cresce demais por lá, e não podem depender de extravagâncias como carne de cachorro). E continuamos vendendo. Haja jeitinho…


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Arte regenerada

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Em 19 de julho de 1937 foi inaugurada pelo Partido Nacional Socialista alemão em Munique uma exposição chamada “Entartete Kunst”, Arte Degenerada. O objetivo de Hitler, no auge do Partido: disseminar a aversão pela arte moderna, indigna de apreciação e confiscada dos grandes museus do país. Os autores dessa impiedosa arte? Os mestres Henri Matisse, Pablo Picasso, Marc Chagall, bem como os pintores alemães Emil Nolde, Franz Marc, Max Beckmann e Max Liebermann, dentre tantos outros.

Todos tinham em comum traços modernos que não se adequavam à “arte oficial” do Terceiro Reich e que, portanto, deveriam ser retirados de circulação no meio artístico, em um temível esforço nazista de “purificação” até mesmo dos ambientes artísticos, sob os mais controversos argumentos.

Quase 80 anos depois, revelou-se que foram encontrados na mesma cidade de Munique cerca de 1.500 obras daqueles grandes mestres confiscadas à época, esquecidas no apartamento do filho de um colecionador que as teria adquirido após o confisco nazista. Segundo as fontes, o pai de Cornelius Gurlitt teria sido encarregado por Goebbels, ministro da Propaganda no regime de Hitler, de vender para outros países as pinturas enquadradas no quesito de “arte degenerada”.

Avaliada em aproximadamente um bilhão de euros (!!!), a descoberta revela, por um lado, que o tempo histórico para a superação total das Grandes Guerras não deve ser subestimado: conflitos de tais proporções apresentam consequências inimagináveis e que devem ser sentidas por gerações até que seus resquícios façam parte apenas dos livros de história.

Por outro lado, vale destacar justamente a importância da arte como forma de expressão poderosa, capaz de influenciar multidões e desde sempre determinante no que se refere à comunicação de posicionamentos e ideais. Neste sentido, é interessante perceber que, tantos anos depois, os artistas perseguidos pelos nazistas possuem tamanho reconhecimento histórico enquanto aqueles que obedeceram forçosamente às regras estéticas do Partido caíram junto àqueles que defendiam seus princípios.

Materialização da liberdade, a verdadeira arte revela-se, pois, regenerada, cada dia mais viva… 


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Aspectos mínimos da democracia

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Nesta semana, deparei-me com uma interessante publicação. Chamaram-me atenção especialmente dois textos, um sobre o chavismo sem Chávez e outro sobre a democracia no Equador. Em ambos os casos, surgem questões fundamentais quanto aos parâmetros para a definição de um regime como democrático ou não.  

Pensando os teóricos clássicos, em algum momento houve a necessidade de estabelecer um organismo superior que se encarregaria de mediar os conflitos da sociedade. Era o Estado. No âmbito estatal, existiriam diferentes formas de administrar seus meios e fins. Nas últimas décadas, tornou-se evidente a prevalência da escolha pelo regime democrático.  

De maneira geral, pode-se identificar a democracia como o mecanismo para atingir decisões coletivas por meio de procedimentos definidos e por intermédio de atores igualmente definidos. Desta forma, consolidou-se o sistema representativo e a disputa competitiva pelo voto. Os partidos ganharam relevância como meio de canalizar as demandas populares e transformá-las em políticas públicas adequadas.  

Seguindo este panorama base, seria desnecessário prosseguir o argumento no sentido da importância da liberdade de expressão, da independência dos poderes e de um sistema partidário verdadeiramente competitivo. Afinal, esses são pressupostos para o pleno funcionamento de um modelo que queira formalizar as necessidades dos representados. Mais ainda, muitos desses direitos foram positivados como Direitos Humanos. Contudo, são justamente estes os temas colocados em pauta nos textos que cito.  

O caso equatoriano é intrigante. Segundo seu autor, não se trata verdadeiramente de um governo apoiado na mobilização popular, mas sim na racionalização administrativa pelo fortalecimento de um quadro técnico. Por um lado, coloca-se como representante dos interesses populares contra grupos minoritários, poderosos e por décadas detentores do poder no país. Por outro, parece caminhar por trilhas do cerceamento da imprensa e da independência dos poderes. Um claro paradoxo, ao mesmo tempo que afirma representar o povo, limita os meios para entidades sociais e cidadãos expressarem eventuais divergências. 

O horror ao dissenso e a formação de blocos monocromáticos não parecem ser características da democracia, na concepção clássica. Alguns teóricos contemporâneos temiam a ampliação da participação popular, por acreditarem que ensejaria instabilidade política, preferindo limites ao dissenso. No decorrer do século XX, em sentido contrário, assegurou-se a expansão dos direitos políticos e firmou-se o modelo democrático com ampla participação. A evolução no caso da Venezuela e do Equador demonstra novas questões relativas a desafios que surgiram.  

Weber, sociólogo alemão, tratou dos tipos de dominação legítima (racional, tradicional e carismática). O líder carismático teria um potencial revolucionário, polarizador. Com o tempo, mesmo a liderança carismática tenderia a se racionalizar ou se tradicionalizar, como forma de possibilitar a sua continuidade. A meu ver, o Equador ensaia efetuar a transição, de forma a consolidar o projeto de Revolução Cidadã, sem Correa no futuro. A Venezuela, com a morte de Chávez, é um exemplo de dificuldades de seguir sem esta figura polarizadora ou talvez de uma transição inacabada.  

Novamente, cabe uma reflexão sobre as regras do jogo democrático e até mesmo dos seus parâmetros mínimos. Na realidade, coloca-se um desafio para o estudo de regimes que proliferam na América Latina, região que conheceu períodos de autoritarismo e celebrou a democracia como um novo começo. Os novos ventos, apesar dos inegáveis avanços sociais, evidenciam desafios igualmente relevantes no campo da participação e instituições políticas. 


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Dez anos do PBF: há o que comemorar?

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Conforme destacado na “Imagem da Semana”, no último dia 30 de outubro o Programa Bolsa Família (PBF) completou dez anos. Lançado ainda no primeiro ano do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PBF é uma iniciativa de transferência de renda direta para o benefício de famílias pobres ou em situações de extrema pobreza. Além de objetivar o alívio da condição econômica, o programa procura prover direitos sociais básicos como saúde e educação para famílias com baixo poder aquisitivo. 

Há o que comemorar? Sim. Pelo menos é o que dizem as principais notícias e publicações divulgadas nesta semana. Mas não podemos esquecer de que ainda permanecem muitas falhas nas transferências de renda do governo federal. Há cerca de dois meses foram divulgados alguns casos de servidores públicos com um considerável contracheque, mas que recebiam o BF. Dez prefeitos e mais de dois mil vereados recém-eleitos receberam o BF de forma indevida no começo de 2013… E ocorreu até o caso de uma moradora do Espírito Santo que ganhou um milhão de reais na loteria e continuou sacando o benefício…

Problemas ocorrem aos montes, diga-se de passagem. Mas em relação ao PBF, tais questões são mais concernentes à forma como se dá a administração pública para com a fiscalização das transferências de renda. E, convenhamos, isso é um problema da máquina pública brasileira como um todo e não somente do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) ou da presidente Dilma Rousseff. A principal crítica que se faz ao PBF poderia ser feita a qualquer iniciativa governamental de grandes proporções. Infelizmente, o histórico brasileiro não ajuda. 

Atualmente, o PBF atende cerca de 13,8 milhões de famílias brasileiras. Sabe o que é isso? Aproximadamente um quarto de toda população! É muita gente, sendo que o valor médio do benefício é de 152 reais e espera-se um orçamento de 24 bilhões de reais para 2013. Somadas grande parcela populacional com imenso montante financeiro, é impossível ter 100% dos casos satisfatórios. Um dos problemas relatados reside no fato de recebedores do BF não trabalharem porque recebem o benefício. Isso já foi desmistificado, pois sete em cada dez beneficiados exercem funções empregatícias. Restam 30%, mas, como mencionado anteriormente, há casos e casos. Como haveria de ser, esses exemplos servem de manobra para opositores do governo criticarem o PBF, basta ver o que a Revista VEJA sempre faz.

Os dados lançados pelo governo através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em estudo publicado no livro “Programa Bolsa Família – uma década de inclusão e cidadania” trazem um marco positivo para os dez anos da iniciativa. De acordo com a publicação, o PBF reduziu de 15 a 20% a desigualdade de renda no país, diminuiu as diferenças entre as regiões (até porque o Nordeste concentra grande número dos casos), diminuiu a pobreza crônica de 14 para 3% (mais de 22 milhões de brasileiros abandonaram a miséria) e decresceu o número de óbitos infantis em virtude de más qualidades de saúde e desnutrição. 

Qualificar ou criticar negativamente o PBF deixou de ser discurso ideológico e de partidos. Exemplo disso é que o próprio Aécio Neves, provável candidato do PSDB para as próximas eleições presidenciais, apresentou proposta para fazer do programa uma política de Estado, ou seja, algo duradouro e perene, sem provável extinção. É um sinal de que, a par dos inúmeros problemas que ainda permanecem, há o que comemorar. 

A maioria aqui no Brasil não nasce em berço de ouro. Dizer que todos têm a mesma oportunidade, seja profissional, financeira ou quaisquer outras, é pura demagogia. Minha crítica pessoal continua residindo no modo de como o PBF deve ser mais fiscalizado e aprimorado. Mas não há dúvidas sobre seus benefícios. E para quem acha que a transferência de renda é uma política tupiniquim, saiba que na Suécia e nos Estados Unidos existem tais políticas desde a década de 1930.


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Imagem da Semana

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E a imagem dessa semana representa, na verdade, um importante marco para a política brasileira. Foram celebrados hoje, em Brasília, os 10 anos do programa Bolsa Família [foto], iniciado durante o primeiro governo de Lula.

As críticas ao programa sempre existiram, e certamente sempre há melhorias a serem realizadas (especialmente no âmbito da transparência), mas a verdade é que o Brasil se tornou referência mundial no que tange às políticas sociais de combate à fome e à pobreza. Isso não significa que ainda não existam pessoas passando fome ou em situação de necessidade, contudo o avanço desta última década é inegável. 

O combate à fome e à miséria é o primeiro dos Objetivos do Milênio das Nações Unidas para 2015 e deve representar uma prioridade para o Brasil na busca de resultados sustentáveis. Espera-se que não apenas a estatística seja aprimorada, mas sim a realidade dos milhões de brasileiros que ainda carecem das mais básicas condições de vida para seu desenvolvimento pessoal e profissional. 


Qual pátria de chuteiras?

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Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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O que 60 mil Almas Devem Ensinar

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Por vezes a distância territorial e cultural não nos permite, por mais informados que estejamos sobre o mundo e a realidade de um país específico, ao menos uma compreensão superficial destes. Os conflitos religiosos na Irlanda do Norte, os estupros e a proliferação da AIDS como arma de guerra na África ou a total falta de direitos das mulheres no Marrocos podem ser conhecidas facilmente, mas poucas vezes entendidas.

Na maioria das vezes apenas nos atemos a definições genéricas para cada assunto, enquanto na vida real e as relações que definem quem somos é mais complexa. Em certo momento, para todos que tentam conhecer as razões que definem as sociedades é necessário a utilização de todas as peças do quebra-cabeça social, mesmo enquanto analisamos uma única parte. Ainda mais quando se procura más características, como a quem busca compreender conflitos ou injustiças, temas em que as verdades são apagadas propositadamente dos livros oficiais e só levantadas às vezes por uma série de pensadores e críticos corajosos.

Entretanto, tudo pode parecer mais claro quando relacionamos injustiças sociais à como uma cultura ou uma sociedade que conhecemos profundamente foi estabelecida. Para completar um dos quebra-cabeças entre legitimação social de uma injustiça e como é estabelecida uma sociedade, utilizo um fato ocorrido em nosso país há apenas 30 anos atrás.  

O caso do hospital psiquiátrico de Barbacena e do tratamento de seus “pacientes”, ocorrido por quase um século, é o melhor exemplo que podemos utilizar. Os motivos para as internações da maioria que ali residiam, a vida que levavam dentro da instituição e, por fim, o baixo preço da existência dessas pessoas formam um quadro exato para a compreensão das injustiças sociais ligadas à cultura brasileira.

O hospital, que abrigou milhares de pessoas durante o século XX, foi responsável pela morte de pelo menos 60 mil pessoas, número que representa apenas os 15 anos em que documentos oficiais e pesquisas foram capazes de contabilizar os mortos. As peculiaridades da instituição impressionam. Era uma população formada por mais de 200 mil pessoas, nas quais 70% delas não apresentando nenhum quadro de problemas mentais. Eram sim desafetos políticos de senhores poderosos, prostitutas, mulheres engravidadas fora do casamento, supostos criminosos e pessoas afetadas pela pobreza extrema.  

O hospital psiquiátrico de Barbacena foi verdadeiramente um cárcere travestido de instituição médica, utilizado como ferramenta para o cumprimento de desejos pessoais e políticos de pessoas poderosas, e do desejo de limpeza étnica e social por parte da sociedade de Minas Gerais e dos estados vizinhos. 

Dentro do cárcere, a maioria experimentava a morte e a indigência. Enquanto viviam tal brutalidade, o hospital de Barbacena gozava de enorme prestígio entre políticos, autoridades policiais e homens de grande respeito e poder aquisitivo, os grandes utilizadores dos “serviços” prestados pelo hospital. Os que não participavam diretamente do absurdo, mas podiam protestar contra o que ocorria, também nunca ousaram contestar a forma como eram tratados os pacientes. 

O hospício que fabricou o “Holocausto brasileiro” em nenhum momento esteve isolado do mundo, muito menos as suas atividades permaneceram escondidas nas sombras. Durante seu funcionamento, bebês foram retirados das mães internadas e adotados por outras famílias, com o conhecimento de autoridades e de diretores de Barbacena. Corpos foram vendidos à faculdades de Medicina, instituições de prestígio. Pessoas sumiam, trens cheios de novos presos chegavam todos os dias, sem que parentes e amigos contestassem os sumiços, autoridades ou moradores da cidade buscassem informações sobre as causas de tantas internações.

O caso de Barbacena é de um exemplo quase cristalino da injustiça social em que aos poucos se constituiu a pior característica do Brasil. O poder exacerbado para alguns, baseado nas raízes nacionais do coronelismo e do triste contraste entre sujeitos cheios de poder e miseráveis sem direitos, foram os responsáveis por esse episódio. 

Barbacena é a identidade primitiva para compreendermos como hoje em dia ainda temos tanto descaso pelos Direitos Humanos no país, junto a um abuso de autoridade constante, ambos legitimados pela maioria da população. Os pacientes, por serem “loucos” ou criminosos, pouco mereciam de consideração e respeito. Para outros, a miséria do hospício se transformava na única forma possível de vida que pudesse ser ofertada a “esse tipo de gente”.  Por fim, a exagerada crença nas autoridades, agindo como criminosas, forjavam os 70¨% de internações ilegais pela instituição e o descaso total à vida. 

As milhares de pessoas falecidas, que ainda viveram um final de vida em que estavam presos, nus, sem alimento e sem água potável, é uma atrocidade genuinamente brasileira. Como deixamos acontecer? Simplesmente não sabíamos, não desconfiávamos e não nos importávamos. Um tripé que em muito ajuda a esclarecer como coisas do tipo podem ocorrer em outros países, pergunta que muitas vezes não encontramos quando falamos de um realidade exterior. 

Quantos casos como esse existiram e ainda existem no Brasil? Quantas são as vítimas totais? Até qual ponto a cultura e a estrutura social  foram responsáveis para que tais fatos fossem legitimados, esquecidos e não punidos, algumas vezes até mesmo apoiados? Nesse momento conseguimos perceber o quão fácil é para uma cultura legitimar o que para nós, quando estamos distantes, se torna abominável. Por que o abominável de cada sociedade não reside mais nas sombras do que na claridade do dia-a-dia. 

 As 60 mil almas perdidas nesse triste episódio brasileiro só podem servir como um fato positivo nos dias atuais: a compreensão de como um sistema e uma ordem social se estruturam para legitimar situações absurdas e atentados contra seu próprio povo, sejam elas motivadas por causas econômicas, religiosas ou de poder. Cabe a nós evitarmos que o pior de uma sociedade se levante.

Recentemente, a publicação do livro “O Holocausto brasileiro” foi o primeiro grande passo para a recuperação da memória do que houve em nosso país durante a existência de tais “instituições psiquiátricas”. O conhecimento desse tema é crucial ao brasileiro. Afinal, relembrar o passado é a ferramente para compreender e modificar o presente.  E infelizmente, parte desse passado nunca será totalmente varrido de nossa sociedade, por que as sociedades reproduzem Mário Quintana com a verdade da célebre frase: “o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente”.

Para interessados, a apresentação do livro “O Holocausto brasileiro” – (clique aqui). 


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Uma Sombra a Cada Oito

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Quando uma pessoa é questionada sobre quais são os cinco ou dez maiores problemas existentes no mundo, ela provavelmente não vacile em responder a fome como um deles. Entre os problemas globais, a solução para fome só seria tão popular do que a o estabelecimento da Paz Mundial, tanto no discurso de concursos de beleza quanto nas discussões política. Também distante do nosso imaginário e da mídia, que o torna popular, o problema da fome continua a ser uma das maiores tragédias humanas.

Desde 1992 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem realizado, entre muitos outros projetos, a confecção de relatórios anuais que mapeiam a fome no mundo. Em todos esses 21 anos de dados a humanidade tem apresentado uma evolução continua rumo ao fim do problema no futuro. Mesmo assim ainda temos um total de 896 milhões de famintos atualmente, um número enorme, mesmo sendo 17% menor do que era indicado nos anos 90 do século passado.

A evolução da diminuição da fome tem sido causada principalmente pela América Latina e a Ásia. Nesses continentes, a evolução econômica dos países emergentes, junto a uma crescente diminuição da desigualdade, tem feito com que obtivessem os melhores resultados de melhoria de vida para a população faminta. Se o Mundo todo estivesse no mesmo ritmo desses países, o número de famintos no mundo poderia ter recuado até 50% nos últimos 20 anos, índice muito maior do que foi visto.

Mas por que a fome, mesmo cultivando uma grande preocupação mundial, tem se apresentado um adversário difícil de ser vencido? Talvez essa questão possa ser respondida com o caso da África Subsaariana, o local no mundo mais atingido pela fome. Expor causas que justifiquem a realidade de pobreza e fome nesse continente não caberiam em uma coleção de livros, quanto mais em uma postagem. Mas podemos pegar alguns aspectos atuais do continente para entender por que este permanece nessa situação.

Na África, não só temos o maior número de famintos como a maior desaceleração na diminuição de pessoas que saem dessa situação anualmente. Tal cristalização da fome, em contrapartida a rápida melhora do quadro em outros locais do mundo, tem alarmado a todos. Nem mesmo os países emergentes da África parecem ter força para anular a fome. O simples movimento de crescimento econômico não é suficiente no continente. 

A incapacidade da economia para solucionar o problema por si só é facilmente explicável. No caso de países como o Congo Belga, a riqueza é compartilhada apenas por uma minoria da elite nacional e magnatas estrangeiros. Já na Nigéria, a situação é bastante exemplar. Sua capital Abuja, fabricada exclusivamente para a elite política e econômica do país, ostenta grandes obras de infraestrutura e uma riqueza quase inigualável entre as capitais africanas. No entanto, os interiores do país continuam afundados na miséria e fome.

Diante desse cenário, até mesmo o aumento da produção agrícola, o maior desenvolvimento da história da África, e consequentemente da oferta de alimento, não tem sido suficiente. A FAO considerava esse fator como crucial a uma menor quantidade de famintos. Infelizmente, os resultados ficaram distantes do esperado. Isso pode ter ocorrido graças a grande concentração do desenvolvimento, restrito apenas às capitais e áreas urbanas.

A verdade é que a África expõe uma dura realidade: no mundo a desigualdade na divisão de recursos e de alimento é tão grande, que mesmo em um planeta que produz mais do que o suficiente para a alimentação diária de toda a população, quase 1 bilhão de pessoas passam fome. 

Mas para outros especialistas a culpa da falta de evolução do combate á fome na áfrica não diz respeito apenas a desigualdade. Os grandes índices de natalidade deram nova voz a teorias Neomalthusianas, que afirmam por meio de uma simples conta entre o alimento disponível e superpopulação, que a não redução da fome é originada pela falta de controle de natalidade.

Para eles, os africanos teriam que ter menos filhos. No entanto, a própria evolução da agricultura, que abriu uma nova oferta alimentar, e os altos índices de mortalidade da população, alavancada por males como a própria fome e a AIDS, tem jogado por terra essa teoria. Há menos pessoas, mais alimentos, e o problema persiste. A questão parece ser mais de falta de acesso ao alimento do que propriamente de escassez. Caímos então em uma complexa relação de cause e consequência causada pelo tipo de organização política e de desigualdade histórica na África, um problema social dos mais complexos existentes.

Abaixo, um vídeo bastante didático para a compreensão do mapa atual da fome e a questão da produção de alimentos versus a desigual distribuição: 

 

Na virada do século XXI, a Cúpula Mundial sobre a Alimentação definiu que o número de famintos no mundo em 2015 deveria ser de 498 milhões de pessoas, o que representaria uma diminuição de 60% no número de famintos desde que a FAO iniciou o seu projeto de relatórios anuais sobre a fome, em 1992. No entanto, faltando apenas 2 anos para o tempo limite da meta, ainda estamos com um número total de 846 milhões de pessoas famintas, quase o dobro do esperado. Ainda pior, tivemos uma baixa diminuição nos índices, em média apenas 20 milhões de pessoas por ano, o que leva a crer que estamos desacelerando na solução do problema.

A grande evolução econômica dos emergentes da América Latina e Ásia foi o grande combustível da evolução para um mundo sem fome. No entanto, nesses países o número de famintos é cada vezes mais baixo, os impossibilitando de prosseguiram como a grande vanguarda de combata a fome. Em contrapartida, a África Subsaariana, depois de anos de recuperação, parece se chocar contra os muros que  a impedem a um desenvolvimento mais veloz. A atenção estará voltada para a solução desse mal nesse local específico nos próximos anos.

Sintomaticamente, a ONU define a fome como “o maior problema solucionável da humanidade”. Enquanto tivermos pessoas vivendo nessas condições, teremos uma sombra permanente a nos rondar. Atualmente, há ainda muitas delas, uma em cada oito pessoas. Tomara que a situação em que vivem e as soluções para ela não sejam tragadas também por essa sombria escuridão.

 


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Fala muito!

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A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


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