UE x Brasil

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No começo de Dezembro, mais especificamente no dia sete, a Organização Mundial do Comércio (OMC) estava em clima de comemoração. Em reunião realizada naquela data, 159 países-membros conseguiram consolidar o primeiro acordo da instituição depois de cerca de duas décadas sem resultados positivos. Desde 2001, a Rodada Doha estava (e ainda está parcialmente) parada, mas os encontros recentes em Bali, na Indonésia, deram forma a um pacote chamado de “Doha Light”, no qual temas como agricultura, desenvolvimento e facilitação de intercâmbios comerciais serão progressivamente liberalizados, aumentando o fluxo do comércio internacional. 

Tal episódio ocorreu em um momento muito positivo para o Brasil. Fazia três meses e meio que Roberto Azevêdo havia assumido o comando da OMC. Em entrevista, o mesmo afirmou que a organização conseguiu sair do seu estancamento, mas que ainda seria necessário destravar Doha e “atualizar” diretrizes institucionais. Sua posse representou um ótimo momento para nosso país, pragmatizando a ideia de que o Brasil é um “novo player” mundial. 

Se tudo estava caminhando conforme o previsto, houve uma pequena reviravolta nos planos nacionais. Diga-se de passagem, tal mudança não denota transformações na natureza da OMC, muito menos no comando de Azevêdo, mas sim um abalo na imagem brasileira na organização. Ontem, dia dezenove, a União Europeia (UE) anunciou que acionou os tribunais contra os incentivos fiscais dados pelo Brasil, acusando-o de protecionista. 

A UE declarou que nos últimos anos o Brasil aumentou drasticamente sua carta de impostos, algo contrário às suas obrigações junto à OMC. Tal ação impacta diretamente o setor automobilístico nacional, pois recai na questão da isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e na instalação de montadoras estrangeiras no nosso território, uma vez que marcas como Audi, Mercedes-Benz e BMW já anunciaram construção de fábricas e desenvolvimento de veículos aqui em um futuro próximo. O IPI também influi diretamente em produtos eletrônicos como computadores e smartphones. Entretanto, é a indústria automobilística que carrega o bônus e, agora, o ônus da questão. 

O próprio Azevêdo disse que ainda não viu apresentação oficial do questionamento da UE junto à OMC e contra o Brasil. O atual Ministro de Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, afirmou que as medidas do país estão em total conformidade com as diretrizes da organização, não devendo haver muito alarde até então. O provável contencioso ainda está em fase preliminar, sendo que a Comissão Europeia e o governo brasileiro têm o prazo de 60 (sessenta) dias para por fim à desavença. O prazo é curto e, caso não tiver sucesso, aí sim entrará em vias de fato na OMC. 

Mesmo com todo tom diplomático envolvendo os dois lados, não há dúvidas de que um episódio dessa magnitude acaba abalando as relações políticas e econômicas de ambos. Mesmo com um histórico de bons relacionamentos e aproximações entre UE e Brasil, talvez haja incidência negativa e direta na construção do acordo de livre comércio entre a União e o Mercosul. A realização dessa parceria é uma das prioridades do governo de Dilma Rousseff, a qual deseja concluí-la ainda em 2014.

Obviamente, trata-se de um ponto específico tanto na esfera comercial (setor automobilístico, principalmente) quanto no trato da questão estrita com o Brasil. Mas não se deve esquecer que nosso país representa enorme fatia econômica do Mercosul e este bloco tem como um dos eixos centrais de atuação a integração produtiva. Consequentemente, o imposto e o carro vêm do Brasil, só que seus reflexos têm grande dimensão regional. Resta saber se o discurso liberalizante da OMC não causará efeitos drásticos no livre comércio entre os lados europeus e mercosulinos.


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Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Imagem da Semana

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Fonte: Notícias/Terra

Temos nesta semana aqui na Página Internacional uma imagem “presidenciável”. Trata-se de foto divulgada hoje pelo atual senador Fernando Collor em sua página no Facebook. Nela, além do dito cujo, estão a atual presidente Dilma Rousseff e os “ex” José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. 

A foto foi tirada dentro do avião presidencial durante viagem à África do Sul para as homenagens e o funeral de Nelson Mandela, falecido no último dia 05 de dezembro. 

Com exceção de Dilma, que está com feição de intelectual e magistrada, todos apresentam seus colarinhos brancos. FHC, com um sorrisinho neoliberal, Lula “abraçando” Sarney – este com ar de quem não aguenta mais a política brasileira – e Collor, que ainda tenta esquecer 1992, registram um bom apanhado de quase trinta anos de presidencialismo brasileiro.


Estratégia franco-brasileira

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Em clima amistoso, vimos um cordial François Hollande visitar o Brasil essa semana, retribuindo visita de Dilma a Paris no final do ano passado e buscando estreitar as relações franco-brasileiras em diversos domínios estratégicos.

Aspectos diplomáticos da visita à parte, economicamente a França é o quarto país que mais investe no Brasil, apresentando ainda o sexto maior Produto Interno Bruto do mundo. E Hollande reiterou, presencialmente, o interesse francês em ampliar seus negócios com o Brasil. Notadamente, vimos o destaque da mídia em relação ao lobby para a bilionária negociação dos jatos militares que se arrasta há meses – e deve continuar incerta até 2015, dadas as diferentes prioridades assumidas em ano eleitoral.

Os jatos “Rafale” fabricados por empresa francesa competem com outros modelos fabricados pela Suécia (!) e pelos Estados Unidos pela preferência brasileira. Antes favoritos, os jatos yankees ficaram à mercê do debate sobre espionagem, já que nossas relações com os ‘amigos do Norte’ esfriaram depois das recentes denúncias na mídia.

Aliás, Hollande também vem em momento propício para juntar-se ao coro anti-espionagem-estadunidense, procurando aproveitar-se disso também para reerguer sua popularidade decadente na França, já que ser considerado o presidente mais impopular do país desde 1958 não é um título desejado por nenhum líder mundial…

Com a visita, foi ainda assinado um interessante acordo de “visto mochileiro”, possibilitando a estadia de jovens brasileiros na França (e vice-versa) por um período de um ano com a possibilidade de trabalhar. Iniciativa interessante que amplia o intercâmbio, promove oportunidades aos jovens e, consequentemente, aproxima ainda mais os países.

Para Dilma, a visita de Hollande vem ainda revestida de um forte caráter político, evidenciando o interesse brasileiro em manter/ampliar suas relações com os países desenvolvidos enquanto assume seu papel de líder dos emergentes. Trata-se de parceria visualizada como estratégica para ambos os lados, cada qual em busca do reforço de suas prioridades por meio de laços que, ano a ano, vem vislumbrando novos horizontes. 


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Acordo histórico

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Nos últimos anos, qualquer menção à Rodada Doha seria utilizada como sinônimo de fracasso, reunião interminável ou impossibilidade de consenso. Não mais. Vemos, em momento dito histórico, o primeiro acordo firmado no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde o início de suas atividades, em 1995.

Sob a Diretoria-Geral do brasileiro Roberto Azevêdo, a Rodada Doha foi “destravada” com o “Pacote de Bali” ou “Doha Light”, adotado por consenso entre os 159 membros da organização, na última reunião ministerial ocorrida essa semana em Bali, na Indonésia. Consenso que não é e nem nunca foi simples, repleto de reviravoltas e dificuldades de negociação, mas que foi, finalmente, após quase duas décadas, alcançado nos termos deste pacote.

De fato, os elementos acordados representam menos de 10% das ambições originais de Doha na facilitação comercial, mas trazem consigo o que foi chamado por Obama de “rejuvenescimento do sistema multilateral de comércio”. Sistema multilateral que, reconhecidamente, ainda tem muito que avançar, mas cujos resultados finais não podem ser visualizados em um bloco único, mas sim em blocos fragmentados de conversação, sendo o acordo de Bali histórico, portanto, principalmente neste sentido.

Restaurar a crença no poder do multilateralismo e nos benefícios da cooperação global na esfera comercial significa restaurar os laços para futuros acordos – nunca fáceis, dados os interesses de todas as partes envolvidas – mas não por isso impossíveis de serem alcançados.

O acordo aprovado possui três elementos essenciais: “agricultura, com um compromisso de reduzir os subsídios às exportações; a ajuda ao desenvolvimento, que prevê uma isenção crescente das tarifas alfandegárias para os produtos procedentes dos países menos desenvolvidos, e a facilitação de intercâmbios, que pretende reduzir a burocracia nas fronteiras”.

No âmbito da “agenda para o desenvolvimento” da OMC, os ganhos principais envolvem a redução dos trâmites alfandegários e burocráticos que dificultam relações comerciais, reduzindo custos e atrasos e viabilizando a geração de empregos – instituto estadunidense estima em ganhos mundiais após o acordo da ordem de US$ 1 trilhão e a geração de 20 milhões de empregos.

Com a ambição de renovar a credibilidade de uma organização cuja imagem desgastou-se principalmente nos últimos dez anos, vemos um Azevêdo empenhado e empenhando-se em facilitar consensos, trazendo novo ar à instituição por meio do apoio de seus membros. Ao negociar temas tão sensíveis, a imprevisibilidade impera e os interesses são muitos, nem sempre mútuos. Bali é só o início na esperança de maior flexibilidade comercial por parte dos países desenvolvidos. Acordo histórico, impulsionando novas páginas na história da OMC… 


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Na contramão?

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Nos últimos anos, desde a crise de 2008 (que parece ter sido há uma eternidade mas ainda está repercutindo), quando se fala do noticiário europeu as notícias são quase sempre negativas, com as reclamações dos países que estão pagando pela incompetência dos devedores (leia-se, Alemanha) e lamúrias dos que precisam cumprir as regras do jogo, estão devendo até as calças e precisam praticar a austeridade. Nisso tudo, a União Europeia acaba vilanizada, seja por proporcionar a necessidade desse arrocho fiscal, seja por causar gastos aos bons pagadores para salvar outros países. A Inglaterra sorri de orelha a orelha por não ter caído nessa “armadilha” monetária. E na maioria das vezes vemos o risco é de países saírem da zona do Euro… mas eis que um país em crise está fazendo exatamente o oposto, e aqui entra a discussão sobre a Ucrânia.

Já falamos algumas vezes do país eslavo por aqui. A ex-presidente Yulia Timoschenko foi a última grande manchete, quando acusada de corrupção foi presa e, suspeita-se, vítima de tortura. A prisão, considerada arbitrária por muitos observadores internacionais, mostra o grau de turbulência por que passa o celeiro da Europa, com a oposição e o presidente Viktor Ianukovich trocando farpas das mais afiadas. Ianukovich (outrora aliado de Timoschenko) é pró-Rússia, e em tempos de crise (e a condição que a ex-presidente fosse libertada), mandou a UE catar coquinho e optou por buscar arrego com Moscou, anulando um acordo de adesão que gerou protestos e revolta no país, resultando em violenta repressão policial e ainda mais protestos em consequência (conhecemos bem essa equação aqui no Brasil lá pelos idos de junho). 

A relação da Ucrânia com a Rússia é visceral. Os países mantêm laços econômicos estreitos, na verdade, a própria origem do Império Russo (séculos atrás) se deu em território ucraniano, para depois começar a se expandir setentrionalmente. Foi apenas com a desintegração da URSS que o país se “desligou” formalmente do gigante euroasiático, e isso foi uma das maiores perdas russas com o fim de seu império socialista (indo de aspectos econômicos, como os recursos agropecuários e minerais, até mesmo ao futebol, já que a Ucrânia era a fonte de uma estirpe de jogadores de alto nível). A relação é, obviamente, controversa – por exemplo, existe uma lei de 2012 sobre o ensino da língua russa que causa discussões exaltadas (e pancadaria) até hoje no país. 

Essa sombra da “dominação” russa é o que faz a população ucraniana se revoltar. Não bastasse a dependência econômica, agora estaria voltando a acontecer ingerência política. Como vemos diariamente nos jornais, a entrada na UE certamente não seria pela estabilidade do bloco (apesar de possivelmente trazer grandes benefícios ao país). A revolta com o cancelamento é muito mais uma mensagem de reprovação ao alinhamento com Moscou, que parece interessar apenas a membros do governo de Ianukovich e à própria Rússia, enquanto a população fica à mercê dessa crise econômica e política. A prisão de Timoschenko já era um sinal de que as coisas já não iam bem no país, e esse ambiente de revolta e descontentamento pode ter um desfecho ainda mais impactante que os protestos do meio do ano por aqui.


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Post Especial: homenagem a Nelson Mandela (1918-2013)

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“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” (Nelson Mandela) 

O dia 05 de dezembro de 2013 entra, a partir de hoje, para a história. Faleceu agora há pouco o primeiro presidente negro da África do Sul, ganhador do Nobel da Paz e símbolo da resistência contra o Apartheid – política de segregação racial adotada no país durante grande parte da segunda metade do século XX –, seja ele um dos maiores ícones pacifistas de nosso tempo: Nelson Mandela, então com 95 anos. 

“Madiba”, como era carinhosamente apelidado, já se encontrava em precárias condições de saúde, tendo sido internado cinco vezes no decorrer dos últimos dois anos. A causa de sua morte adveio de infecção pulmonar. Vai-se uma das maiores personalidades do último século. Um ícone, um idealista feroz na defesa dos direitos humanos. O líder que tentou trazer aos sul-africanos um pouco de paz em meio a regimes segregacionistas e racistas. 

Em decorrência de sua luta ferrenha por maiores direitos da população negra, passou 27 anos da vida aprisionado. Após este período, tornou-se presidente de 1994 a 1999, tendo rejeitado permanecer no cargo mesmo com 80% de aprovação da população. Era simples e humilde: doava um terço do salário para fundação de caridade criada com o dinheiro do Prêmio Nobel da Paz de 1993. 

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, afirmava Mandela. Nasceu em 1918, formou-se em Direito em Johanesburgo e logo criou uma instituição chamada Liga da Juventude. Em 1958 foi preso acusado de traição, conseguiu escapar, mas anos mais tarde foi condenado à prisão perpétua. Neste período as manifestações ocorriam em peso no país, a exemplo do acontecido no famoso “Levante de Soweto”, episódio em que mais de quinhentos estudantes negros foram mortos em meio a passeatas pacíficas. Foi liberado em 1990, sendo que três anos mais tarde fora decretado o fim do Apartheid. Depois, conforme dito acima, tornou-se presidente e retirou-se da vida pública em 2004. Teve suas últimas aparições públicas durante a Copa do Mundo de 2010 e recentemente quando estava saindo de hospital em Pretória ao lado do atual presidente Jacob Zuma. 

De palavras finais, ficam as do presidente norte-americano Barack Obama, ganhador contestável (e político) do Nobel da Paz em 2009. Segundo ele, Mandela atingiu mais do que seria esperado de qualquer homem e, a partir de hoje, não mais pertence a nós, mas sim às eras. Seria muita pretensão admitir que há possibilidade de haver outros líderes do porte de Mandela. Figura-se ao lado de Gandhi e Luther King, outros inigualáveis. Que ele continue servindo e deixando seu legado no combate a um dos maiores males existentes a nível mundial: a intolerância. Vai-se o homem, permanecem seus ideais.


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Post do Leitor

Post do leitor – Wilson Pedro Té

[A importância dos estudos e textos sobre a África é incontestável. O terceiro continente mais extenso do planeta, e o segundo mais populoso, apresenta uma riqueza cultural ímpar, uma expansão econômica recente e uma complexidade social capazes de centralizá-la no debate internacional. Mesmo assim, a escassez de textos sobre o continente ainda é um problema grave, já debatido em algumas de nossas postagens. Por isso mesmo, é com enorme alegria que publicamos um texto sobre a África, e ainda melhor, escrito por um leitor africano. Wilson Pedro Té, natural de guiné-Bissau e mestrando do programa de pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), hoje nos premia com esse excelente e importante post sobre como a África Ocidental se transformou em uma importante região de trânsito para o tráfico de drogas internacional. Caso tenha um assunto preferido e a vontade de publicá-lo em nosso blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

África Ocidental, teatro de tráfico de drogas 

A África Ocidental é uma região do continente que inclui os seguintes países: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Conacri, Libéria, Mali, Mauritânia, Niger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Esses países foram colonizados pelas potências europeias (França, Inglaterra e Portugal), sendo que o processo de descolonização iniciou-se em 1957, com a exceção da Libéria, e culminou em 1975. 

No que se refere ao tráfico de drogas, o cultivo é destacado principalmente em três países da América Latina (Bolívia, Colômbia, Peru), onde as folhas de coca são transformadas localmente em cocaína, depois exportados principalmente para América de Norte e Europa Ocidental, passando pela África Ocidental. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2012), embora em declínio, os mais importantes destinos destes mercados são os Estados Unidos da América, absorvendo cerca de 157 toneladas de cocaína por ano (36% do total mundial, em estimativas de 2009). 

A partir de 2004, África Ocidental se tornou uma importante área de trânsito para o tráfico de drogas destinado ao mercado europeu e americano. Entre 2005 e 2007, as apreensões têm aumentado na África Ocidental e nas redondezas. Chegando da América do Sul, principalmente através de via marítima, mas também aérea, as principais vias de entrada de drogas na África Ocidental são: primeiramente, as costas da Guiné-Conacry e da Guiné-Bissau, e ainda, o Golfo de Benin (Gana, Togo, Benin e Nigéria). 

Além disso, alguns fatores podem ser aventados para explicar este novo papel da África Ocidental no tráfico de drogas. Inicialmente, citamos o fortalecimento dos controles nos aeroportos e portos europeus dos aviões e navios vindos da América Latina, a situação geográfica da sub-região do oeste da África, muito próxima de América Latina, e menos de duas milhas de quilômetros distante do sul da Europa, onde a quantidade de cocaína importada está aumentando. 

Ainda, o contexto “Pós-conflito” de alguns países da África Ocidental, também conhecidos como países da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), a presença da corrupção nos vários níveis de forças de segurança, de justiça e política de vários países, a fraca rentabilidade das atividades econômicas legais, em um contexto de crise e de redução da demanda, diminuição da ajuda ao desenvolvimento, são, entre outros, fatores que favoreceram o surgimento e desenvolvimento de tráfico de drogas nesta região da África. 

O tráfico de drogas na África Ocidental tem consequências negativas, sendo uma delas é o grave problema da saúde pública. Tem‐se constatado que, em meio aos grupos vulneráveis, tais como os consumidores de drogas, as doenças infeciosas espalham‐se muito rapidamente. Em Cabo Verde, por exemplo, a prevalência geral do HIV/AIDS é de 0,8%, ao passo que atinge quase 14% entre consumidores de drogas. 

Em todos os países, os principais atores que intervêm na área de segurança e defesa são os militares e policias. Porém, na África Ocidental, os principais colaboradores dos traficantes de drogas são esses dois atores. Qual será, portanto, a solução para África Ocidental no combate ao narcotráfico? Será que a DNA pode combater o tráfico de drogas na região por conta própria, sem a colaboração das autoridades desses países?


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Há um ano...

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Relembrando os temas que eram discutidos aqui no blog há um ano, é impossível deixar de destacar a conquista histórica do status de “Estado observador não membro” da Palestina na Organização das Nações Unidas (ONU). Mesmo que essencialmente simbólica, a conquista reitera que os termos “Palestina” e “Estado” podem (e devem) fazer parte de uma mesma frase, além de avançar (lentamente, como tudo no plano internacional) em direção a mudanças mais profundas.

Há pouco mais de duas semanas, em mais um momento histórico, a Palestina participou pela primeira vez de uma votação na ONU, para eleger um dos juízes do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia – uma das únicas situações em que Estados observadores não membros podem participar da tomada de decisões (mais aqui). Ano a ano, vemos que a história avança por meio de seus atores, refletindo novas configurações e anseios da comunidade internacional.

Também um ano atrás, o blog recebia dois posts de leitores muito interessantes. O primeiro, do leitor Bruno Theodoro Luciano, tratava da crise do Euro e da integração regional europeia, destacando o impacto das medidas de austeridade e o desemprego que geraram forte insatisfação população. Assunto mais que atual e muito mais complexo que uma simples crise financeira

O segundo post foi enviado pela leitora Fernanda Ferreira Chan, trazendo uma interessante análise sobre o orçamento da Organização dos Estados Americanos (OEA) e os impactos de sua redução para 2013, vale a pena rever.

Por fim, vale a pena rever também o texto da série “Conversando com a Teoria” em que é discutida a questão das redes no plano internacional – fenômeno antigo, mas intensificado pela globalização e pela interdependência cada vez maior entre os países, o tema é extremamente atual e merece (re)leitura. 

Postando e relembrando, este é o “Há um ano…” na Página Internacional! 


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Black Friday

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E chegou o grande dia esperado por milhares de brasileiros. Ir a alguma loja física ou praticar o e-commerce com descontos de até (grifo meu) 70% sobre o preço real. Já peço desculpas pelo bordão: “Só que não!”. Teoricamente a Black Friday é o dia do ano com as maiores promoções e descontos do comércio, mas na prática, aqui no Brasil, isso está longe de ser real. 

A “sexta-feira negra” foi criada nos Estados Unidos em 2005 como tentativa dos comerciantes e empresários em alavancar as vendas sempre no final de novembro e logo após o feriado de Ação de Graças, o qual é muito comemorado e exaltado por lá. Para os norte-americanos, estar com orçamento no “black” significa um bom sinal e é sinônimo de lucros (não sabia disso até hoje e não me pergunte o porquê). Com o passar dos anos, o dia tornou-se internacional, diga-se de passagem, e atualmente ocorre em vários outros países como Canadá, Austrália e Reino Unido. 

Obviamente, rumou ao Brasil, até porque não só programas de tevê como “Big Brother” e “The Voice” são copiados por estas bandas. Carece de fontes, mas se estima que tal evento foi inaugurado aqui em 2010, sendo que me lembro somente do realizado em 2012. Virou sinônimo de piada, falsas propagandas e “feriado pré-natal” em virtude de vários lojistas aumentarem o preço na véspera e jogarem descontos em valores mais altos. 

Como se já não bastasse, agora em 2013 a Black Friday virou “meme”, algo viral e que ficou popular em muito pouco tempo na internet e redes sociais. A sexta-feira virou Black Fraude, “Tudo pela metade do dobro”, “Black Friday é uma cilada, Bino”, “Black is a Trap” e assim por diante. Hoje, no Facebook, só se fala disso e nada mais. É gente tentando vender e o PROCON tentando orientar os consumidores para não trocarem coelhos por lebres. 

Nada mais internacional do que a Black Friday, né? Saiu da terra do Tio Sam, vem rumando para outros países e serve como mais um dia para todo mundo comprar coisas que, por vezes, seria desnecessário. É aquela história de já aproveitar o fim do ano com presentes de Natal e propagar a ideia de que adquirir itens “x” é bom demais (e em algumas ocasiões não deixa de ser verdade). Até o Greenpeace lançou a campanha Green Friday para criticar o consumismo da “sexta-feira negra” e defender a preservação das florestas. 

Pode esperar que daqui uns tempos surgirão Yellow Friday, Blue Friday, Purple Friday, etc. O nome em inglês fica mais bonito e sempre haverá pessoas comprando a ideia. Tomara que essas não virem fraude, independentemente do motivo de suas existências.


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