Levanta o topete, bate no peito e diz que tem moral…

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[Olá, pessoal. Por favor, comentem! Quem quiser fazer um post: envie um e-mail para [email protected] E, se você gostou da Página Internacional, ajude a divulgar!]

A Exame dessa semana trouxe um artigo do J. R. Guzzo (quem quiser ler clique aqui), chamado: “Não adianta rezar a Santo Obama”.

Como sempre, esse cara é demais, escreve muito bem, e o próprio título do seu artigo já denuncia o que ele escreve. Não adianta ficar esperando que o pacotão do Obama resolva todos os problemas da economia. Uma frase me chamou a atenção: “Aconteceu apenas o que acontece quando se espera um milagre: o milagre não veio”.

De fato, quem esperava que o Obama, com uma canetada, resolvesse tudo, no mínimo, lascou-se. A coisa lá tá preta, e não vai se resolver assim tão logo.

Os EUA tem dois problemas hoje. O primeiro é o déficit orçamentário. Em palavras simples, o governo tem gastado muito mais do arrecada. E o novo orçamento do Obama vai aumentar esse rombo pra 12% do orçamento no ano que vem. Na CBN nesta sexta, o economista Carlos Auberto Sardenberg falou do assunto. Segundo ele, o normal é um país ter um déficit de 3 -4 % do PIB, e qualquer outro país do mundo já estaria quebrado com o rombo que os EUA têm.

Pois é, pessoal. Acontece que uma parte desse buraco ocorria nas contas correntes dos EUA. Ou seja, a grosso modo, eles importavam muito mais produtos do que exportavam. E foi exatamente isso que ajudou a puxar o crescimento do países que criaram um modelo chamado export-led. Ou seja, se industrializaram pensando em exportar. É óbvio que não vou me aprofundar muito nisso, mas os principais países dessa lista são Japão, Alemanha e China. Opa, mas essas não são as maiores economias do mundo depois dos EUA? São, sim, e aí reside o problema.

Com o Great Crash, como Roger Alpert chama a crise na edição de Jan/Fev da Foreign Affairs, esses países serão duramente afetados, uma vez que orientaram suas economias para a exportação, sobretudo para os EUA, que com eles mantinham um déficit. Agora a situação mudou. O Brasil, nesse rolo todo, obviamente se lasca também, porque vinha aproveitando a bonança do comércio internacional exportando commodities agrícolas e minerais para esses países todos.

O segundo problema a que eu me refiro é a taxa de poupança dos EUA. Ela está muito baixa, isso porque o governo, através da política que agora acabou, incentivava o consumo e o crédito farto. Por isso, a grosso modo, ao invés de poupar as pessoas se individavam.

Esses problemas parecem que não se resolverão tão cedo. A poupança não vai aumentar agora porque a tendência é que falte dinheiro. Além disso, o pouco dinheiro deve ser usado para o consumo básico. A questão do déficit, o orçamento do Obama já diz tudo, está aumentando. Com relação ao déficit em contas correntes (importa mais que exporta), por razões óbvias já está diminuindo. Assim, as perspectivas de melhora são pequenas, e não há Santo Obama que dê jeito nisso.

Mudando um pouquinho, mas ainda no mesmo tema, vocês devem estar acompanhando também a choradeira do Brasil reclamando do protecionismo dos EUA. Pois é, de fato eles estão sendo protecionistas, mas acho engraçado o governo que diz que o protecionismo deve diminuir, esses tempos tenha tentado voltar as defuntas licenças prévias de exportação… Elas só não ressucitaram porque a pressão foi enorme.

Agora vai ter a reunião do G-20 na Inglaterra e o Brasil já começou a querer levantar o topete de novo. Lula disse essa semana que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que vai deixar isso claro na reunião do G-20. Por favor, né?! Não vou me delongar sobre isso, mas, por exemplo, o nosso senado até agora não se reuniu seriamente uma vez, não votou nenhuma medida anti-crise e o povo lá está brigando mesmo por conta da direção das Comissões. Sobre o executivo, há mais lero-lero do que ação prática. Autorizaram empresas com faturamento de até 600 mil reais a usarem o dinheiro do fundo para exportação mas não aumentaram a receita do fundo, aí fica difícil, né? Essa semana saiu outro indicador que mostra que o governo não cumpriu com o meta do superávit primário. Ou seja, está gastando mais do que deveria, mais do que está planejado, e não é com medidas anti-crise, não. Gasta com pessoal, com viagem de prefeito, enfim. Enquanto o Brasil estava bem economicamente e arrecando muito com impostos, isso não era problema, vamos ver agora. Isso é ter moral? Nem aqui nem na China.

Aliás, o Brasil está levantando o topete mesmo, o Amorim quis até indicar alguém para ser representante do comércio dos EUA… Além do mais está ameaçando os EUA de entrar na OMC. Por favor, né. Depois de torrar milhões de dólares com um processo na OMC por causa do algodão, que o Brasil ganhou, até hoje não teve coragem de aplicar o direito anti-dumping contra os EUA. Agora quer ameaçar? O Brasil teve muito tempo durante o governo Lula pra fechar um acordo comercial com os EUA (não estou falando da ALCA), como muitos países fizeram, inclusive o Uruguai, contrariando as regras do Mercosul. Mas não fechou nada nem com os EUA nem com nenhum outro país apostando na rodada Doha que até o mendigo da rua sabia que não ia dar em nada. Os EUA vão respeitar todos os acordos comerciais na Buy American… E a gente não tem nada com eles. A única coisa é o SGP (Sistema Geral de Preferências), que é unilateral e isenta alguns produtos de tarifa de exportação, mas ele vence esse ano e estão querendo tirar o Brasil.

Bom, resumindo. A coisa está feia para os EUA, está feia para o mundo e para o Brasil também. Ao invés de fazer alguma coisa o governo só reclama e diz que o Brasil tem moral, o que a gente sabe que não tem.

PS.: As regras do Mercosul impedem que um país do bloco feche um acordo bilateral com outro país. Assim, o Brasil não poderia fechar sozinho um acordo com os EUA, mas poderia ter negociado acordos de preferência tarifária, por exemplo, como vem fazendo ao conceder isenções de impostos para muitos países…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Estados Unidos


Agora, sim: Internacional!

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Olá, pessoal. Hoje o blog está movimentado. Tivemos o primeiro post de um leitor, do Erlon, sobre o papel do Brasil no mundo, como diriam os diplomatas da FUNAG . Depois o Ivan também fez um post sobre o UBS e sonegação fiscal. Aconselho ambos, quem entrar no blog agora, por favor, leia os dois, que vão até ficar mais uns dias aqui para serem lidos.

Mas temos também uma notícia. A Página Internacional agora é internacional de fato! Tenho o prazer de apresentar a todos a Carla Diaz, que se formou na 1ª turma de RI da UNESP/Franca (A Andrea Citron, o Ivan Boscariol, o Rafael Braz e eu somos da 5ª turma e a Ana Furukawa é da 4ª) e agora é uma das nossas colaboradoras. Atualmente ela mora no Peru, em Lima, ou seja, a primeira pessoa que mora no exterior a escrever aqui no nosso blog, o que certamente contribuirá, e muito, para aumentar a qualidade daquilo que escrevemos aqui!

Seja bem vinda, Carla, e sempre que quiser postar, fique à vontade!


Categorias: Post Especial


EUA x UBS e etc.

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[Espero que consiga postar mais frequentemente… De qualquer modo fica aí minha primeira contribuição, estão todos mais do que convidados a comentarem/criticarem!]

Nessa semana aconteceu algo sem precedentes que foi pouco comentado: o UBS terá que quebrar o sigilo de cerca de 300 clientes na Suíça.

 

O UBS é a maior instituição financeira suíça e uma das maiores do mundo, sendo que é a maior em “reserva de dinheiro”, ou seja, guardar dinheiro para os outros sem pedir muitas informações. Além disso, o UBS oferecia um serviço a mais: eles davam consultoria a seus clientes ao oferecer formas de sonegar impostos, conhecida como “solução suíça”.

 

Num momento cujo orçamento destinado a combater a crise ultrapassa 1 trilhão de dólares faz todo sentido buscar quem está deixando de pagar os impostos que irão ajudar a bancar essa ajuda. Qual é a grande questão então?

 

Isso nunca tinha ocorrido antes.

 

Não só foi a primeira vez que o UBS quebrou sigilo (ou seja, quebrou contratos de confidencialidade com seus clientes, a principal razão de seu sucesso) de clientes acusados de sonegação, mas foi a primeira acusação oficial que um governo fez de sonegação fiscal para um banco sediado em outro país. Nem a INTERPOL conseguiu isso (pelo menos publicamente). O alarde na Suíça foi tanto que o CEO (acusado de saber das falcatruas) até então foi demitido e o seu sucessor é o ex-presidente de um banco rival. Sem contar que ano passado houve a maior retirada de dinheiro da história dessas instituições e somado ao fato de que o maior de todos foi “derrotado”, como os menores poderão resistir a semelhantes pressões? . Isso pode ter implicações ainda mais sérias que precisam ser discutidas.

Primeiro que o governo Suiço já está se reunindo para discutir como contornar essa situação, já que sem essas instituições o país entrará em colapso. Mas não é esse o tema aqui.

 

 

Mesmo quando as notícias só olham esse lado, é visível que as repercussões disso ultrapassarão a esfera econômica/fiscal. Podemos estar prestes a presenciar um avanço considerável nas investigações relacionadas a crime organizado, já que os paraísos fiscais (ou Estados com Flexibilizações nas Regulamentações Financeiras como eles gostam de ser chamados) são peça chave para descobrir as origens e destinos dos recursos de acusados.

 

Imaginem como membros de polícias federais, agências de inteligência, reguladoras financeiras e até mesmo outros governos devem estar se sentindo agora, após sucessivas tentativas frustradas de quebra de sigilo (são poucas ou quase nenhumas as que conseguem sucesso) ver o governo norte-americano conseguir essa façanha.

 

Podem até argumentar que é tudo por causa da crise e etc., mas também é mais um caso de falta de poder, em qualquer instância, das instituições citadas acima (assunto amplo demais pra esse post). Mas vamos torcer que esse caso se torne um precedente (perfeitamente válido) que auxilie nas investigações futuras! A única certeza é que vai ter muita gente trocando a Suíça pelo Caribe…


Categorias: Economia, Estados Unidos


Post do Leitor

Post do leitor – Erlon Faria Rachi

[Pessoal, este post (enviado no dia 23/02/2009) é de autoria do Erlon Faria Rachi, um dos primeiros a acompanhar nosso blog e que será o primeiro dos nossos leitores a fazer um post aqui! Se você também quiser fazer um post, envie para [email protected] Boa leitura a todos. Valeu, Erlon!]

Busco oferecer algumas idéias sobre a Ásia, dentro de um contexto ‘maior’ de política externa do Brasil. O Afeganistão atual oferece uma oportunidade interessante para nossa ação global.

Abstraindo a questão da segurança física, podemos contribuir em vários aspectos para uma melhor sociedade no Afeganistão, principalmente no que se refere à construção de alternativas econômicas naquele país.

O Afeganistão é uma catástrofe ambiental, econômica e social.

Desde o período da retirada soviética, a extração vegetal foi incentivada como sendo uma alternativa econômica, como resultado, hoje existe apenas 2% da cobertura florestal existente por volta da década de 70.

A agricultura afegã é extremamente dependente de irrigação, que carreia as águas das geleiras montanhosas para os campos secos dos vales. Estima-se que 95% da rede de irrigação existente antes da invasão soviética tenha sido destruída.

Há carência de eletricidade de forma generalizada, tanto devido à destruição de linhas de transmissão de energia, como pela destruição de barragens.

A mortalidade infantil é assustadora, com crianças vítimas de doenças simples. Tal problema existe aqui também, mas se os afegãos atingirem índices como aqueles verificados no Piauí, já seria um avanço absurdo.

A caprinocultura é importantíssima no Afeganistão, mas a produtividade é baixa, a renda dos criadores é mínima.

O país é fragmentado em diferentes etnias, grupos políticos, religiosos, grupos armados liderados por ‘senhores da guerra’ locais.

Nenhum desses grupos se sente integrado ao país.

A lealdade desses grupos é restrita às comunidades locais, nenhuma delas se sentindo plenamente amparada pelo governo central (muito pelo contrário, o vêem como uma ameaça). Esta fragmentação possibilitou a vitória de guerrilha durante a ocupação soviética, mas inviabilizou o estado afegão como um todo.

O Brasil tem MUITO a contribuir para isso.

Primeiramente, como ator político isento no conflito.

Não temos absolutamente nada a ver com a bagunça que trouxe o Afeganistão até aqui. Poderíamos construir ‘pontes’ entre os diferentes grupos locais, entre as forças da OTAN, e outros países com visões conflitantes sobre o Afeganistão.

China, Paquistão e Índia se ‘enfrentam’ em ‘proxi-wars’ naquela região, bem como na Caxemira. Podemos trazê-los à mesa também, pois possuímos excelentes relações com os três.

Nosso modelo de democracia (pasmem) seria o ideal para a região: fragmentado, exigindo amplas coalizões e consenso para governar, com um sistema judiciário relativamente independente. Nosso modelo dá garantias para as minorias políticas e religiosas. É integrador, mantém os poderes das oligarquias regionais, permite mobilidade social.

NOTA: Para aqueles que acham o PMDB corrupto, e eu me incluo entre esses, vocês não tem uma idéia do que é o governo Karzai… os PMDBistas são até ‘pudicos’ comparados com a sem-cerimônia com a coisa pública lá)

Possuímos empresas e tecnologia para auxiliar a recuperação da agricultura afegã: As tecnologias da EMBRAPA para o semi-árido nordestino (únicas no mundo) seriam um bálsamo, tanto para a caprinocultura como para o reflorestamento.

Temos grandes grupos de construtoras, empreiteiras e empresas de engenharia que poderiam aproveitar-se de contratos de reconstrução de estradas, pontes, aquedutos, sistemas de irrigação, transmissão de energia elétrica.

Adquirimos uma interessante experiência internacional em ‘nation building’ no Timor Leste e no Haiti. Creio que poucos países no planeta têm um histórico tão positivo nesta área. Estes dois países, entretanto, estavam ‘abaixo do radar’ americano e, portanto são experiências com fundos limitados e poucas oportunidades de ganho econômico para nossas empresas.

Pela ‘desimportância relativa’ destes dois países no cenário mundial, nosso status internacional não foi aumentado na medida dos sucessos que estes dois países obtiveram, porém aprendemos ‘in loco’ lições importantíssimas.

No Afeganistão o ‘budget’ americano é imenso. Na proposta orçamentária do Obama para o ano fiscal de 2009 que se inicia em outubro, a verba do pentágono será desviada para o departamento de Estado, que coordenará esforços como os que eu descrevi acima.

Os americanos estão desesperados por apoio político para EXECUTAR esta agenda, especialmente porque é difícil encontrar parceiros confiáveis para isso (os europeus estão lá sob a bandeira da OTAN e poderiam ser vistos como ‘inimigos’ por insurgentes).

Para os americanos, o momento atual é de reflexão sobre o que fazer.

O enviado especial Holbrook está ouvindo as partes sobre como reestruturar a ação americana: de ações de guerra para ações de contra-insurgência e desenvolvimento econômico. Ele está ouvindo Paquistão, India, Russia, Turquia, Irã, Indonésia.

Deveríamos sentar-nos para conversar com ele.

Não acredito que possamos implementar esta estratégia de ‘parte neutra’ sozinhos. Penso que devamos envolver a Indonésia nisto também. Mas creio que precisamos LIDERAR este esforço CIVIL e POLITICO com objetivos claros de benefício ECONOMICO para nosso país e nossas empresas.

Este é o século da Ásia. Se quisermos ser um dos pólos de poder mundial nas próximas décadas, temos que nos posicionar (e participar) de ações naquele continente.

Jamais ganharemos projeção internacional lidando somente com Equador, Paraguai, Bolívia, Venezuela ou mesmo Argentina, nem mesmo construindo uma grande união sul-americana.

Sem desmerecer estes países, mas hoje eles já são ‘de-facto’ eclipsados pelo Brasil. Ao nos projetarmos na grande cena internacional reforçaremos MAIS AINDA esta condição de nossos vizinhos.


Categorias: Post do leitor


Carnaval

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O mundo não pára no carnaval, mas o Brasil, sim…

Então, devido ao fato de estarmos todos viajando, vamos dar uma pausa. De qualquer forma, lembro de o Ivan ter dito que ia postar alguma coisa no carnaval, então, estamos esperando!

[Pessoal, quem, como o Erlon, tiver algum post esporádico que queira fazer, por favor mande no email [email protected], que nós publicamos, com todos os direitos autorais, claro!]


Categorias: Post Especial


Afeganistão

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Essa semana, o presidente Obama anunciou a intenção de enviar mais tropas ao Afeganistão. Em visita ao Canadá, o novo presidente, inclusive, falou com o primeiro-ministro do país sobre a idéia dos canadenses de reduzirem suas tropas no Afeganistão até 2011.

Uai? Mas não era pro Obama estar tirando tropas do mundo afora ao invés de querer que mandar mais?

Temos de lembrar, no entanto, que o Obama prometeu tirar tropas do Iraque, e não do Afeganistão… E, atendendo a pedidos de que falemos mais da Ásia, vamos aproveitar este gancho para começar!

É claro que existem muitas razões de diversas ordens para que os EUA tenham interesse em não sair do Afeganistão por agora, e, sobre isso, fiquem a vontade para comentar. Eu, no entanto, até pra não tomar muito espaço e tempo, vou falar sobre dois aspectos que acho importantes, um de caráter geopolítico e outro, relacionado à segurança (não necessariamente no modo militar clássico).

Em primeiro lugar, vou levantar uma teoria geopolítica dos tempos da guerra fria que alguns julgam estar ultrapassada, mas que eu ainda penso que explique alguma coisa. Ela foi criada por um tal de Zbigniew Brezezinsky. Em linhas gerais, ele explica os conflitos na guerra-fria entre EUA e URSS nos seguintes termos: A URSS, enquanto potência terrestre, precisava se expandir para um mar quente. No entanto, no lugar mais perto que tinha, a China estava por lá e não deixava. Lembremos que os mares do norte da Rússia são frios.

Assim, restava aos soviéticos tentar avançar pela Coréia, Vietnã ou pela Índia, olhando um mapa isso fica bem claro. No caso da Coréia, houve conflitos, no Vietnã também, mesmo que indiretos. E, para chegar à Índia, tinha um Afeganistão no meio do caminho… Nestes lugares todos houve conflitos entre URSS e EUA, não é mesmo?

E, para os que ainda possam duvidar disso, o tal do Zbigniew Brezezinsky trabalhou no governo dos EUA naquele tempo (na época do Jimmy Carter), na área de defesa, então, é provável que tenham o ouvido por lá ou que sabia mais que outras pessoas…

Eu ainda acho que isso explica muito. Em termos geopolíticos, o Afeganistão representa um enclave importante bem no meio da Ásia, e sua estabilidade e até mesmo controle interessam a qualquer país que pretende manter-se como superpotência. Tanto que a Europa também está muito presente por lá em bases no Tadjiquistão…

E vale lembrar também que a Rússia não está morta… A China está por perto e tem duas potências nucleares por lá, Paquistão e Índia… Além do Irã, é claro…

Menos polêmico que isso, no entanto, está a questão das drogas. Esses dias saiu mais um relatório de drogas da ONU e, como sempre, o Afeganistão continua sendo um dos maiores produtores de papoula. Vale lembrar, e não vou entrar muito neste detalhe que é bastante óbvio, que a ‘cadeia produtiva da droga’ financia muitas das atividades terroristas e que, acredita-se, as bases de comando de muitas células estejam na fronteira do Afeganistão com o Paquistão, principalmente nos territórios do Baluchistão e do Wariristão.

Por isso, acabar com a farra do boi das drogas na região é muito importante para manutenção da segurança não só na região, mas no mundo todo. Além disso, EUA e Europa são os maiores destinos das drogas produzidas lá, que passam pelo Tadjiquistão (rota da seda) e Turcomenistão (rota da Turquia) para irem para os seus destino.

Pode parecer pouco significativo, mas a questão das drogas é muito importante por financiar atividades terroristas, além de estar ligada ao tráfico de drogas e de pessoas, e nem preciso falar que isso é extramamente importante.

Além do mais, a região também tem muito petróleo, não o Afeganistão, mas principalmente o Uzbequistão e quem está perto do que interessa a todo mundo por lá, principalmente a China.

Por isso, em termos estratégicos, é uma besteira deixar o Afeganistão atolando por lá, não é mesmo? E é muito difícil que a OTAN saia de lá tão logo…

[Bom, sobre as notícias de domingo, o projeto está abortado, já que ninguém respondeu!]

[Aguardo comentários da Andrea, principalmente, que esteve comigo representando o Tadjiquistão na Conferência de Cooperação de Shangai sobre este tópico!]


Categorias: Ásia e Oceania


Notícias de Domigo

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Pessoal, desculpem a ausência, mas esta semana está sendo bem corrida, não só no trabalho, mas também pelo mundo afora…

É a Argentina aplicando medidas protecionistas contra o Brasil,

O rolo da brasileira na Suíça,

É o pacotão do Obama,

O Brasil ameaçando entrar na OMC contra os EUA,

O Obama mandando soldado pro Afeganistão,

Hillary Clinton visitanto a Indonésia,

O Tribunal Penal Internacional julgando gente no Camboja,

Enfim….

Eu tive uma idéia e gostaria de saber os leitores da Página Internacional acham disso:

Eu sei que somos todos muito bem atualizados, mas não custa nada dar uma relembrada. No domingo, estou pensando em fazer um apanhado geral do que aconteceu na semana, disponibilizar alguns links e até, se for o caso, links para artigos ou matérias relacionadas para quem quiser se aprofundar nos assuntos. Enfim, agregar essas informações todas num lugar só.

O que vocês acham?


Categorias: Post Especial


Sincronizando Babel…

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Apesar de quase dois meses da vigência no Brasil da reforma ortográfica da língua portuguesa, que tenta unificar a escrita dos 8 países lusófonos desde 1990, o assunto ainda apresenta pontos que dão pano pra manga. Sumiram o trema, alguns acentos, hífens, e restou um número hiperbólico de livros desatualizados nas estantes. Além dos altos custos da reforma (estima-se que revisar um livro no Brasil custe cerca de 5 mil reais), o acordo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) prevê uma série de formas facultativas (prêmio/prémio, acadêmico/acadêmico; aritmética/arimética, súdito/súbdito). Ou seja, um livro editado do Brasil não atravessará o Atlântico, e vice-versa.


Portugal, extremamente relutante em aceitar a reforma por acreditar que ela serve aos propósitos geopolíticos brasileiros, finalmente ratificou o acordo em julho de 2008. A pressão interna contrária à reforma, contudo, ainda é muito intensa e conta com o apoio maciço dos editores lusitanos. Apesar de extremamente comemorada do lado de cá do oceano, a aquiescência portuguesa ainda levanta dúvidas: a lei que regulamenta a transição da antiga ortografia para a acordada ainda não aconteceu. Sabe-se também que um livro didático na terra de Camões deve durar ao menos 6 anos. Isso significa que a lei, se promulgada esse ano, deve entrar em vigor apenas em 2015.

Feita a trancos e barrancos, a reforma é custosa e pouco efetiva. Custosa pela necessidade da reedição de várias obras, treinamento de professores e livros subitamente obsoletos. Pouco efetiva porque, além da dupla escrita de várias palavras, a unidade ortográfica não garante o entendimento entre lusófonos por não englobar alterações sintáticas e léxicas. O argumento de tornar o português numa língua-potência, transformando-o, por exemplo, em idioma de trabalho da ONU é igualmente sofrível. O chinês tem diversos dialetos e, no entanto, só se fala na importância de dominar o mandarim em nome da ascensão econômico/política pela qual o país passa. E quanto às variantes do inglês então? Por fim, Portugal vai mesmo efetivar a mudança? Os demais países africanos e Timor só devem concretizá-la caso a antiga metrópole o faça. Resta-nos torcer para que Portugal prossiga com as alterações, já que a reforma é uma realidade para os falantes brasileiros.

A propósito, fico contente que possamos usar a ortografia antiga até 2012…


Categorias: Brasil, Cultura


Ele ganhou!

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[Post rápido]


Enquanto a Andrea não faz o post que ela ia colocar aqui, e que deve sair logo, alguém gostaria de fazer algum comentário sobre a vitória do Chávez?

Bom, eu, particularmente, tenho dúvidas quanto à idoneidade do processo eleitoral, embora a oposição tenha o aceito. Mesmo assim, sem entrar em questões ideológicas, como já disse no post, acho que, para o Brasil, o Chávez ter ganhado, neste momento, foi melhor. Em momentos de crise, não podemos ignorar o comércio, mesmo que pequeno, que existe entre o Brasil e a Venezuela, que é superavitário para nós.

Alguém tem mais comentários?


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Domingo de Clássico na política internacional!

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Este domingo vai ser de clássico. Nada de FLAFLU, GRENAL, enfim, embora tenhamos Corinthians e São Paulo… Neste caso, o clássico vai ser em termos de política internacional. Não será um jogo em si, mas dois ‘times’ vão decidir se o presidente Hugo Chávez deve ou não ter o direito de se reeleger por várias vezes.

Mais uma vez, deixo os comentários acerca do presidente Chávez e de seu governo para um outro momento. Desta vez vou tratar apenas do referendo que ocorrerá no domingo e algumas ‘curiosidades’. Assim, quem ainda não está por dentro do que vai acontecer terá um panorama.

Minha amiga Adriana Suzart, que pesquisa temas relacionas à Venezuela pode falar melhor sobre o projeto que Chávez chama de ‘socialismo do século XXI’ melhor do que eu. Mas, sem entrar em detalhes sobre o projeto em si, Chávez e seus correligionários afirmam que ele, e somente ele pode implantar o socialismo na Venezuela.

Não sei quanto ao socialismo em si, mas o ‘socialismo do século XXI’, somente Chávez mesmo poderá implantar. Isso porque ele conseguiu criar em torno de si uma imagem muito forte, sobretudo após a tentativa de golpe contra ele em 2002. Ele é forte lá, e disso ninguém duvida. Se ele cair, provavelmente veremos uma grande disputa pelo poder daquelas que sempre ocorrem quando um líder forte cai.

No entanto, assim como no referendo, a população está dividida. Como sempre às vésperas de decisões desse tipo, Chávez começou a anunciar que estão planejando golpes, que a polícia prendeu não sei quantos, enfim… E a população tem medo. De verdade, será que há mesmo voto secreto na Venezuela? Se o Chávez conseguiu até subordinar a justiça a ele, não conseguiria fraudar uma votação? Nem na Venezuela sabem responder isso, tanto que a polícia anunciou que vai prender quem comer (isso mesmo) comer as cédulas. Os eleitores faziam isso para evitar votar e se comprometer com qualquer um dos lados.

Contrariando o que eu disse acima, eu ainda suspeito que a vitória do não no referendo anterior que foi feito por Chávez PODE ter sido uma forma de combater as críticas de que a Venezuela não tem democracia. Os resultados podem ter sido alterados para ‘calar’ a comunidade internacional. Plena SUSPEITA minha, nem chega ao patamar de conspiração.

Eu descobri uma coisa que achei estranha. Eu achava que a propaganda chavista era mais indireta, como se a reeleição indefinida fosse algo mais discreto e a figura do presidente também. Mas não é isso que ocorre, eles colocam propagandas do tipo: Chávez nos ama e precisa continuar no poder, enfim. Isso pra mim foi uma surpresa, achava que eles usavam outras táticas.

Para o Brasil, sinceramente, neste momento, o melhor, na minha opinião, é que Chávez continue no poder. No momento de crise em que estamos, uma crise política que envolve ideologia, num país vizinho e importante como a Venezuela seria muito ruim. A Venezuela é um importante parceiro comercial do Brasil, nós temos superávits na balança comercial com eles. Agora, se eles entram em uma crise, isso faria falta para o Brasil, e muita.

E a Venezuela não está mil maravilhas. Há tempos as políticas de preço mínimo do governo tem gerado desabastecimento, sobretudo de carne e leite, básicos na alimentação. E agora, com o preço do petróleo caindo e caindo… A história da Venezuela é cheia de golpes de Estado e, em comum, está a dependência do petróleo e aceitação da população por governos em tempos de preços altos, quando os preços caem muito, normalmente vem um golpe. Talvez por isso Chávez queira fazer esse referendo logo…

Bom, vamos ver o que acontece até lá. Segunda teremos o resultado do clássico!

(Erlon, muito boa sua sugestão de adotarmos discussões de temas mais amplos da agenda internacional. Mas, por enquanto, dada a nossa intenção com este blog, faremos posts mais curtos, dando a nossa visão sobre questões mais simples, mas já estamos preparando algumas coisas mais amplas! Muito obrigado por aparecer aqui no blog!)


Categorias: Américas, Política e Política Externa