Há um ano...

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Há um ano

Retomando noticiário do final de junho de 2013, temos algumas notícias de impacto duradouro.

No dia 27 de junho, o texto comentava a controversa situação de Edward Snowden, então aguardando uma definição para sua situação complicada, após fugir da China para ficar em um aeroporto russo. O delator que abalou as relações dos EUA com o mundo esperava a hospitalidade e asilo de países não tão próximos de Washington para escapar das penas mais pesadas impostas pelo crime de traição. Apesar de pouco provável, ele acabou conseguindo mesmo o asilo temporário na Rússia, e foi o primeiro degrau de uma escalada de problemas entre as grandes potências que atingiu seu cume com a crise ucraniana do começo desse ano.

No dia seguinte, o texto explicava a entrada da Croácia na União Europeia, oficializada naquela semana. Ora, apesar de o noticiário atual dar muito mais importância à participação do país balcânico na copa do mundo, temos que e um dos países europeus que mais sofreu com a crise de 2008 (junto com a Grécia, um dos que encolheu de maneira regular), e hoje, um ano depois, ainda é difícil avaliar se a entrada no bloco vai conseguir ter os efeitos práticos que a economia do país necessita. O quadro piorou com as enchentes de 2014, que causaram grandes estragos estruturais e custo em vidas humanas na região.

Por fim, no dia 29, o debate acalorado sobre a legislação de mídia equatoriana chegava ao nosso blog. A turbulenta relação de Rafael Correa com a imprensa se mostrava em uma controvertida lei aprovada semanas antes, que colocava amarras à atividade, especialmente um polêmico artigo sobre “linchamento midiático”. Um ano depois, os efeitos são sentidos – um dos principais periódicos do país anunciou neste fim de semana o encerramento de sua versão impressa por causa de “perda de liberdades” e “autocensura imposta”. São apenas mais alguns capítulos na tensa relação dos governos sul-americanos com a imprensa.

E é isso pessoal, vamos postando e relembrando…

 


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A culpa é das estrelas (do PT)

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Fonte: Twitter

Fonte: Twitter

O título deste texto faz apenas uma analogia ao título do livro do escritor John Green, o qual, inclusive, virou filme e está passando nos cinemas. A história, pelo que li e me parece, é linda e triste, pois narra a história de dois adolescentes que se conhecem em meio à conturbada presença de um câncer. Entretanto, termina aqui minha explicação, posto que meu comentário no blog se reserva a outras dimensões: a política brasileira, a disputa presidencial e o bom e velho futebol tupiniquim.

Mesmo ainda no início da segunda fase e sem saber se o Brasil realmente será o campeão dentro de campo, a Copa do Mundo trouxe um ponto muito positivo ao país, seja ele a volta de um debate político cotidiano e mais acalorado. Quando falamos em Política Externa, a grande maioria de interessados na área sabe que o brasileiro não a vê com a atenção necessária e, por vezes, o tema passa batido nos discursos políticos. Ao contrário, a Política Interna sempre foi mais presente nos palanques e o âmbito nacional aparece, novamente aos olhos dos brasileiros, como o nível de análise mais importante e aclamado.

Exemplo claro dessa afirmação anterior está em como normalmente se dão os (des)créditos dos sucessos e fracassos da política brasileira ao âmbito federal, visto que nosso país é uma Federação Trina regida pela Constituição de 1988, na qual os entes federativos dividem-se em municípios, estados e União. Se na teoria é assim e na prática deveria ser, no discurso batido geral do brasileiro (não colocarei a expressão “brasileiro médio”, porque nem sei direito o que isso significa) nos últimos meses ecoa apenas uma frase: “A culpa é do PT (Partido dos Trabalhadores)”, fazendo uma clara evidência à presidente Dilma Rousseff.

As vaias em si e não seus tons pejorativos conforme fora visto no “Ei, Dilma, vai tomate cru” são válidas? Sim, são. Mas se fosse pra xingar, não faltariam políticos para tamanho coro. De fato, as críticas ao PT devem ser feitas, só que com conhecimento de causa. O atual governo federal errou e falhou em inúmeros aspectos, deixando totalmente de lado o legado do partido, embora isso já fosse visto na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Todavia, conforme mencionei logo acima, devemos ter em mente que a Federação é trina e também existem responsáveis diretos pelos erros e falhas estatais e municipais.

E isso vai muito além do PT. Vejamos, novamente por exemplo, o caso da greve no metrô da cidade de São Paulo. Muitos colocaram a culpa nos próprios metroviários e na famigerada Dilma pelo “caos” urbano na capital. Mas muitos se esquecem de que a responsabilidade direta pelo metrô é do governo estadual do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ferrenho adversário do PT, propriamente dito. Do mesmo modo, citam e citam que a corrupção “à lá” PT é a responsável pelo atraso brasileiro. Mas esquecem e esquecem do esquema milionário de fraudes em propinodutos do PSDB…

Não podemos confundir conjuntura com estrutura, sendo que os problemas vistos atualmente no Brasil (corrupção, precariedade educacional, insegurança pública, etc.) são problemas estruturais. Poderíamos voltar à formação econômica e política nacional para explicar tais fatos. Por ora, até para não ficar cansativo, friso que as vaias que colocaram a culpa nas estrelas (do PT) são válidas. Entretanto, partiram de um setor específico da sociedade, quem era “very important person” (VIP) ou estava disposto a desembolsar uma quantia muito maior do que qualquer Bolsa Família para comprar um ingresso para a abertura da Copa. E, na maioria dos casos, esse setor social é míope às transformações sociais ocorridas em nosso país nos últimos anos.

Por fim, resumo duas ideias. Primeiro, com a Copa do Mundo ficou nítido o quão o “brasileiro geral” preocupa-se em demasia com a esfera federal e desconhece as realidades estaduais e locais. Ele vive o Brasil das bandeiras em capôs de carro e canta o hino na sala de casa antes da narração do Galvão Bueno, mas não sabe distinguir minimamente se o problema da sua calçada advém do presidente, do governador ou do prefeito. Segundo, voltando ao livro de John Green, devemos parar com essa síndrome anti PT e ver que o verdadeiro câncer na política interna nacional é o bipartidarismo velado entre o próprio PT e o PSDB. Desacreditar no primeiro e apoiar o adversário me parece pertinente. Contudo, acreditar que o segundo de Aécio Neves vai transformar o cenário atual é pura ilusão e demagogia.


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Conversando com a Teoria

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Os jogos dos jogosusa-germany

A Copa de 2014 está divertida de assistir e cheia de zebras, mas nos deu uma oportunidade interessante de analisar um fenômeno das Relações Internacionais por causa do último jogo entre Portugal e EUA. O empate das equipes fez com que os EUA alcançassem a Alemanha em número de pontos, e como as equipes se enfrentam na última rodada, basta um empate entre as duas para que avancem à fase seguinte, deixando Portugal de fora mesmo que ganhe de goleada sua última partida.

A memória de resultados combinados em outros jogos da história (incluindo em copas do mundo) aterroriza os fãs do esporte, mas seria mesmo o caso? Ambos os times vão abrir mão da oportunidade de poder eliminar um adversário forte? Dá pra confiar no outro lado sem que alguém tente marcar um gol no final para azedar tudo?

Aqui entra a Teoria dos Jogos, de que já ouvimos falar algumas vezes no blog. Em algumas situações, atores racionais em uma situação de dependência mútua não podem ter certeza de que a cooperação vai acontecer, ou de que podem confiar na outra parte sem que haja alguma traição. No caso do jogo, temos uma situação parecida com o modelo de “assurance” (o tipo de jogo do qual saiu o famoso modelo do “stag hunt”), em que cada ator pode perseguir seu objetivo isoladamente ou cooperar para conseguir algo maior. Ênfase no “parecida” pois nesse caso se pressupõe uma cooperação, enquanto o jogo de futebol é claramente competitivo. Também se parece um pouco com o modelo do “dilema do prisioneiro”, mas sem a conotação negativa das resultados.

Claro que é uma visão bem simplificada, mas que exprime bem o dilema dos atores. Apesar de ir contra a moral, as regras e o espírito do jogo, as condições para que os atores cooperem (trapaceando) são ótimas nessa situação: é muito fácil forjar um empate. E mesmo assim não se pode garantir que isso vá acontecer – a própria condição de serem os atores “racionais” para que esse lógica de jogos funcione pode ser contestada de maneira bem clara quando pensamos em valores como honra e espírito esportivo. É hipotético, mas não consigo ver os norte-americanos aceitando tal coisa (para os alemães, infelizmente, há precedentes, e mesmo assim isso pode servir justamente de motivação para que NÃO cooperem).

Ora, a Copa do Mundo em si é um evento de Relações Internacionais dos mais significativos (32 seleções vistas por bilhões de pessoas mundo afora). Mas esse caso mostra algo que vai além do esporte. A chave disso tudo é o problema de não saber qual será a reação exata das outras partes. E essa lógica, que serve para um jogo de futebol, ajuda a explicar também, por exemplo, porque apesar das negociações de trégua e controle de fronteiras, Ucrânia e Rússia permanecem com tanques às portas uma da outra.


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Jogo de interesses

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Rússia
Enquanto os embates entre os países nos gramados pelo Brasil afora predominam nas manchetes internacionais, Rússia e Ucrânia ainda travam uma importante disputa política em que França e Alemanha se esforçam para assumir a mediação.

Desde o início das hostilidades no final do ano passado, intensificadas nos últimos meses, as centenas de mortos e feridos nos conflitos entre o governo ucraniano e os separatistas pró-Rússia revelam um cenário geopolítico complexo em que a recente anexação da Crimeia ao território russo demonstra que muitos são os interesses envolvidos na questão.

O recém-eleito presidente ucraniano Petro Poroshenko (à esquerda na foto), de perfil declaradamente pró-ocidental, parece motivado a cumprir uma de suas promessas eleitorais de restaurar a paz na região. Para este fim, ele anunciou essa semana seu plano de paz para o leste separatista, após a declaração de um cessar-fogo por parte do governo. A carência, entretanto, das necessárias negociações com todos os envolvidos fez com que os ataques permanecessem, deixando claro o caráter “unilateral” de uma iniciativa em que não foi negado o “direito de resposta” aos soldados ucranianos, deslegitimando a própria iniciativa…

O chamado “Plano A” de Poroshenko, por meio do qual a criação de uma zona de segurança “tampão” ao longo da fronteira dos dois países, livre de armas, representa um dos aspectos principais do processo de pacificação, o qual ecoa em concordância com o discurso da Rússia de impulso às negociações. Entretanto, na prática, com a situação ainda tensa, o governo russo anunciou ontem que seu exército se encontrava em estado de alerta, com possível deslocamento para a fronteira em resposta a manobras militares.

No “meio de campo”, os presidentes da França e da Alemanha, Hollande e Merkel, realizaram dois contatos essa semana com o presidente russo Putin, apelando para seu engajamento em prol do fim do conflito – e ameaçando a Rússia com a possibilidade de medidas da comunidade internacional em caso negativo.

Nestes contatos, ao pregar a necessidade de “entendimento político”, porém sem protagonizar de fato um processo de diálogo com os separatistas pró-Rússia, a estratégia de Putin confunde seus interlocutores europeus, porém apresenta claramente um incremento do poder russo na região e no mundo – deixando claro que esse jogo de interesses, com resultado incerto, ainda está longe de terminar.


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Imagem da Semana

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Angela Merkel e jogadores da Alemanha após a vitória de 4x0 sobre Portugal

Angela Merkel e jogadores da Alemanha após a vitória de 4×0 sobre Portugal

Mostrando que a relação entre futebol e política não é importante somente aqui no Brasil, a chanceler alemã Angela Merkel presenciou a primeira partida de seu país na Copa do Mundo contra a seleção de Portugal e, logo após a vitória por 4×0, foi até o vestiário e tirou fotos e “selfies” com os jogadores.

Já é de praxe das Copas do Mundo de Futebol a integração entre chefes de Estado e de Governo, sendo esse um dos motivos da visita de Merkel ao Brasil. No último domingo, dia 15 de junho, ela conversou em reunião com Dilma Rousseff e tratou principalmente de temas relacionados à comunicação e segurança eletrônicas. Ademais, ontem a chanceler também esteve em Salvador e manteve encontro com 150 crianças/adolescentes que participam do projeto “Festival da Bola”, uma iniciativa do governo alemão que conta com a parceria de inúmeras instituições, notadamente o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).


Há um ano...

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Tempo passando
Há um ano, vaias contra a presidenta Dilma marcaram o início de um jogo importante da Seleção Brasileira. Apesar de muito semelhante à situação vivida há uma semana na abertura da Copa do Mundo, o fato relatado em post do blog de um ano atrás se refere à abertura da Copa das Confederações, realizada também no Brasil, quando Dilma realizou seu discurso de abertura.

Sem questionar a suprema liberdade de expressão, vale apenas registrar que a repetição de um ato de grosseria (ainda que verbal) como esse apenas indica que os espaços reais em que a insatisfação e desejo de mudança deveriam ser mostrados continuam subaproveitados…

Outro fato interessante de um ano atrás foi a entrada no bloco europeu do nosso primeiro adversário na Copa do Mundo. Faz exatamente um ano que a Croácia teve sua aceitação oficial na União Europeia, após anos de negociação. O longo processo de adesão do país, o vigésimo oitavo membro do bloco, reflete o resultado de reformas políticas, econômicas e sociais que se passaram para esta vitória croata no processo de integração com a União Europeia.

E qual acontecimento mais marcante de um ano atrás que a onda de protestos e manifestações que se alastrou pelo Brasil afora? As imagens que já se tornaram históricas, e que registramos há um ano, hoje ainda representam um misto de sentimentos, críticas e expectativas na luta por um país melhor e cada dia menos desigual. Se todos se unem na torcida pela seleção nacional, por que não acreditar que é possível canalizar emoções e, principalmente, ações por mudanças no cenário político e social desse país tão diverso?

Esse é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional, postando e relembrando os temas já comentados no blog!


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Derrota iminente

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Ah, a Copa do Mundo. Começou ontem, e enquanto o leitor se depara com a enxurrada de notícias e análises que vão infernizar nossa vida por cerca de um mês, sugiro que confira com alguma atenção a seção de notícias internacionais de seu jornal. Isso por que existe um problema gravíssimo no cenário internacional que está passando completamente batido e pode ter muitas consequências inesperadas.

E não é um problema novo – a crise do Iraque, que está esquecida mas já completa mais de dez  anos (na verdade, se fossemos puxar o fundamento histórico, o Brasil nem era tetracampeão quando as coisas começaram a degringolar, mas enfim…). Nos últimos dias, a violência no Iraque aumentou consideravelmente (como se já não fosse alta) devido à ação de insurgentes sunitas que tomaram diversas cidades, espalhando violência contra a população xiita em seu caminho, e tomando o rumo da capital Bagdá em um ritmo alarmante – ao ponto de o presidente Obama cogitar medidas extraordinárias para ajudar a evitar a queda do governo iraquiano. Irônico, não?

A revolta sunita tem muito a ver com a marginalização em relação ao governo xiita. Nos últimos anos, o primeiro-ministro al-Maliki removeu oficiais sunitas e curdos das forças de segurança e contou com o apoio de milícias sunitas para atuar nas suas áreas; quando os levantes foram debelados, entre 2008 e 2009, esses sunitas foram simplesmente esquecidos e muitos tomam parte da revolta atual. Porém, a maior fonte de problema vem de fora. Esses insurgentes são liderados pela organização que começa a ganhar nome no cenário internacional como ISIS (em inglês, “Estado Islâmico da Síria e Iraque”), uma sucursal da Al-Qaeda que representava seus interesses no Iraque mas brigou com a matriz, usa de uma truculência desmedida e é um dos principais membros da oposição na Síria. Lembram do Boko Haram? Isso mesmo, o grupo nigeriano que sequestra meninas para revender e chacina estudantes. Basta dizer que é um “afilhado” da organização. Sequer podemos descrever como um grupo terrorista, e sim como uma facção política ultraviolenta que avança a passos largos pelo Oriente Médio (e norte da África).

As implicações desse avanço são enormes. Acima de tudo, pioram a crise do Estado iraquiano, que não parece ter fim (lembre que desde a invasão norte-americana o país ainda não saiu de estado de guerra) e embaralhou a geopolítica regional. Iraque, Irã e Arábia Saudita se contrabalanceavam; com a queda do Iraque, existe uma polarização nefasta entre a monarquia sunita do golfo e a república islâmica xiita, que favorece o radicalismo em ambos os lados. Curiosamente, o Irã parece ser o fiel da balança, já que é aliado dos governos atuais do Iraque e da Síria, sendo um inimigo potencial do ISIS. Os EUA apoiam a organização indiretamente na Síria (entre outros grupos radicais islâmicos, o que muita gente vem alertando desde 2012), mas em vista de seus interesses regionais, pode acabar tendo que buscar a aliança improvável com o Irã. E nesse meio todo temos Israel, programa nuclear iraniano, Rússia…

Se instabilidade no Iraque não fosse um problema suficiente para agravar a guerra civil na Síria, já que os países são vizinhos, se o ISIS conseguir se estabelecer de modo sólido naquele, terá uma base de operações para sua atuação na Síria e vai complicar ainda mais a até agora pior guerra civil do século.  Literalmente, é uma situação em que todo mundo tem a perder – nem mesmo a organização Al Qaeda é aliada do ISIS. Resta saber se o resultado será uma nova atuação independente dos EUA, a busca de alianças improváveis (mas históricas se vierem a ocorrer) ou o simples desmoronamento final de um Estado já em ruínas.


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Imagem da Semana

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China 2014

A imagem dessa semana é marcante: trata-se do registro do 25º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, na China. No último dia 04 de junho, milhares de pessoas se reuniram nas ruas de Pequim para exigir liberdade e democracia relembrando as vítimas de repressão (em sua maioria estudantes) durante os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial.

Uma multidão (estimada em 100 mil pelo governo, 180 mil segundo outras fontes) se reuniu nesta data simbólica e fica o registro da imagem impactante dos milhares de pontos luminosos nas ruas, 25 anos depois da consagrada imagem do homem desconhecido enfrentando os tanques de guerra do governo

China 1989


CIA nova no Twitter

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Twitter

E em meio a todo o debate sobre espionagem no meio virtual, eis que a agência de inteligência dos Estados Unidos acaba de inaugurar suas contas no Twitter e no Facebook. De forma irônica, a primeira publicação da CIA no twitter foi “Não podemos confirmar ou negar que este seja nosso primeiro tweet”, em alusão ao posicionamento ambíguo que é frequentemente assumido pela agência sobre seus processos internos.

Águia certeira disfarçada de pássaro azul, tal com a charge acima sugere? Parece que sim. Ao mesmo tempo em que “estreou” nas duas maiores redes sociais do mundo, o serviço secreto estadunidense anunciou a busca por ferramentas capazes de identificar sarcasmo (!) em publicações no Twitter.

Com mais de 500 mil seguidores em menos de dois dias na mencionada rede social, a rapidez com que a CIA está conquistando seguidores parece querer camuflar os maus lençóis em que o governo de Obama se encontra para dirimir os reflexos das críticas de espionagem nacionais e internacionais.

No próprio território do Tio Sam, as principais empresas de tecnologia se unem para incrementar os sistemas de segurança, com o objetivo de evitar a intrusão do governo a suas fontes de informação. Do lado de baixo do Equador, o Marco Civil da Internet no Brasil foi aprovado recentemente para inovar no sentido de promover a neutralidade da rede, bem como o direito à privacidade “on-line”, hoje fatalmente banalizado.

Já na Alemanha, que Snowden mostrou ser tão vulnerável à espionagem quanto o Brasil, foi anunciado essa semana que a justiça do país realizará investigações aprofundadas a respeito das escutas ao próprio telefone celular da líder Angela Merkel, em uma situação cujos custos diplomáticos já se mostram incalculáveis.

Em se tratando de redes sociais, a realidade demonstra que nunca a interatividade virtual alcançou níveis tão elevados como hoje, revelando, paradoxalmente, o potencial de alcance e seus riscos em uma disputa acirrada pelo poder cujas consequências se revelam pouco a pouco, mas cada dia mais: agora ainda com uma nova companhia no Twitter…


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O rei se cala

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Nesses últimos anos tivemos a chance de ver eventos bastante incomuns no cenário internacional, como um Papa deixando seu posto. Nesta semana, há quatro dias, vimos algo que parece coisa de livro de história, mas em pleno século XXI tivemos um rei abdicando em favor de seu filho, com a renúncia do rei Juan Carlos da Espanha.

Essa é uma imagem recorrente nos tempos pré Idade Contemporânea, quando guerras e brigas por sucessão dinástica eram comuns na Europa. Com a perda progressiva de poder das monarquias com os processos revolucionários e a estabilização da política europeia em modelos monárquicos parlamentaristas, no pós-guerra as famílias reais se tornam praticamente figuras decorativas, de alguma importância política, mas só. Por um lado, isso rende uma certa estabilidade, já que os soberanos acabam tendo uma vida à parte da política “dura” e não precisam se preocupar com repreensão pública a não ser que pisem feio na bola (e mesmo assim ainda temos figuras pitorescas como o Duque de Edimburgo Philip da Inglaterra e suas dezenas de citações infelizes).

O caso da Espanha, porém, tem um fator de peso – sendo um país assolado por sectarismo, a monarquia tem bem mais importância para a integridade do país. Na verdade, movimentos como o dos separatistas bascos não reconhecem o governo de Madri, e sim a Coroa. Por isso causa preocupação essa abdicação, pois mostra como a crise está afetando de modo cada vez mais profundo o país ibérico. A monarquia, antes uma das instituições mais respeitadas da Espanha, perdeu prestígio nos últimos anos por consequência direta da crise econômica. O rei Juan Carlos, muito famoso (e até querido) por essas bandas por ter mandado o finado Chavez se calar não goza mais de tanto carinho em seu próprio país, e não sem razão. Fausto e gastos despreocupados são traço de monarquias desde sempre, mas em um dos países mais endividados da Europa, as gastanças do rei, sua filha e genro escandalizaram a opinião pública ao ponto de ser necessária sua saída de cena. Não se pode deixar de associar essa medida extrema à saúde frágil do monarca (na verdade, a justificativa “oficial”), mas isso apenas reforça a tese de uma fragilidade ante a pressão e críticas.

Ao príncipe de Astúrias, agora rei, Felipe, sobre uma tarefa árdua – ser o representante da moral da nação no momento mais delicado de sua história recente, ao mesmo tempo em que deve articular habilmente, como seu pai, o complexo e instável xadrez da política doméstica espanhola.


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