Outono árabe

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A primavera árabe já virou um outono?

Tivemos um fim de semana sangrento por aqueles lados. No Egito, confrontos entre minorias cristãs e muçulmanos que se seguiram a um grande protesto renderam cerca de 30 mortos. Segundo as autoridades, foram os manifestantes que começaram. Já os manifestantes afirmam que era uma passeata pacífica e que foram atacados por bandos armados e pelo exército. O fato é que o Egito, desde que removeu Mubarak do poder, ainda está enfrentando questões internas graves de segurança, com divisões sectárias que eram controladas pelo antigo ditador, e parece que ainda não consegue decidir que forma seu novo governo vai possuir. O mais provável é que o poder continue nas mãos dos militares (que foram o elemento-chave na derrubada de Mubarak). Por mais que os manifestantes da Praça Tahir quisessem mudanças, democracia não parece ser o resultado disso em curto prazo…

Agora, esse lance de passeatas pacíficas sendo atacadas pelo governo, não parece familiar? Quem soube minimamente do que se passou no Bahrein vai reconhecer essa situação. Naquele pequeno país, manifestantes pacíficos foram violentamente massacrados e perseguidos (inclusive os médicos que tratavam dos feridos), com apoio de tropas sauditas e de outros países do Golfo, e a situação continua até hoje. Isso pode ser visto em um documentário polêmico e chocante que chegou a causar um mal-estar diplomático entre o Bahrein e o Qatar, sede da emissora. (Se tiver algum tempo livre, veja o vídeo completo aqui.)

Podemos imaginar que algo semelhante (ou pior!) acontece na Síria, onde falta de informação torna o número de mortos mais impressionante. Lá, onde milhares de pessoas já morreram nos protestos, agora há o risco de guerra civil iminente – após o governo massacrar civis, é a vez de milícias de oposição enfrentarem tropas do governo diariamente. Parece que, quando a coisa aperta, os revoltosos acabam se radicalizando.

Duas coisas que aprendemos com essa situação de repressão governamental. A primeira, é que os países desenvolvidos estão pouco se importando com a questão democrática dessas revoltas. Na Líbia, houve a intervenção (desastrada, diga-se de passagem) por conta de fatores econômicos sob risco iminente que pesavam para os interesses europeus. Na Síria, por mais que haja retórica contra o “tirano”, interesses sino-russos impedem ações práticas. E as demais revoltas, como no Bahrein, foram ou continuam sendo simplesmente ignoradas.

A outra, é que com a repressão nos protestos em andamento, e o aparente insucesso das que deram certo (Egito, Tunísia, Líbia), a “primavera árabe” parece cada vez mais um evento isolado, algo como fogo de palha. Nosso colega Mário Machado disse certa vez que não gostava de se referir a essa onda de protestos como “primavera” dada a carga negativa de insucessos que esse tipo de predicado teve em revoluções no passado. Pelo jeito, não estava enganado, e pode ser que na prática não passem disso, uma simples onda…


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Defesa, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


2 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Grato pelos comentários Mario. Realmente, apenas o distanciamento histórico, quando observamos eventos impactantes assim de longe, podem definir com mais clareza (ou menos incerteza) o papel de cada agente nesse tipo de processo. Quanto ao Egito, acho que a IM é muito superestimada - tão logo ela surgiu nesse processo pós-Mubarak, foi marginalizada e o "temor" dela parece muito mais um elemento discursivo de países do Ocidente ou das monarquias sunitas tradicionais do Golfo. Na minha opinião o verdadeiro fator lá é o exército, que tornou a "revolução" possível e agora vamos ver se larga o osso. O que a história nos ensina que vai ser bem difícil...

Mário Machado
Mário Machado

Grande Álvaro,Tenho refletindo muito sobre isso. Desde o começo escrevi e milhares de outros tb devem ter escrito que o risco para regimes com fortes componentes de extremismo era grande.No Egito era notório que o grupo de oposição mais organizado era Irmandade Muçulmana e o ideário dessa entidade anima ataques as Igrejas Cooptas. Podem não ser ações de membros efetivos, mas... A situação da minoria cristã no Egito é delicada e na Síria mais ainda onde sua única proteção é uma aliança com o regime do homem forte. E isso explica também a aliança no Líbano com Hezbollah. Cada vez mais fica claro o mundo é muito mais complicado que o reducionismo "opressores" e "oprimidos" que certas linhas de pensamento tentam empurrar. Não custa lembrar que no final do primeiro a Revolução Iraniana não era islâmica (contava com animado apoio dos comunistas mais tarde consumidos pela revolução) e no final do primeiro ano de revolução Che dava entrevistas negando o comunismo da revolução cubana.Mas, como eu disse aquele estávamos todos ocupados demais celebrando o facebook e o twitter.Abs,