Ota Benga e "Vem Sean Penn"

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A maioria dos que lerem este post certamente terá nascido no fim do século XX, provavelmente dos anos 80 em diante. Estarão mais do que familiarizados com a ideia de que o mundo está vivendo grandes mudanças, cada vez mais velozes. Em nosso próprio cotidiano, nas propagandas que vemos ou lemos, sempre há o anuncio de algo novo, ainda mais quando falamos em tecnologia. De forma geral, foi no século XX que as alterações pisaram no acelerador. Mudanças por vezes tão radicais, que não conseguimos enxergar como eram certas coisas anteriormente ao nosso tempo. Quero mostrar, por meio de dois exemplos, os impactos do século passado no comportamento humano.

As duas fotos do início do texto representam pessoas comuns, sem significado histórico. A primeira delas é de Ota Benga, um Pigmeu aprisionado no Congo Belga em 1904, e levado dois anos depois a um zoológico Humano nos Estados Unidos. “Zoológico Humano” é um termo que pode soar estranho a maioria, mas era um tanto comum a existência de um local onde pessoas consideradas “menos desenvolvidas” eram expostas como animais, na maioria das vezes para cientistas, aristocratas e curiosos. Visitavam os zoos uma nata dos mais abonados cidadãos dos países ricos. O costume era apenas um dos prenúncios do que ocorreria no primeiro quarto do século passado: o aumento do poder da teoria cientifica do Racismo e da Eugenia.

A década de 20 e de 30 não tardaria a expor a força de tais grupos. Órgãos políticos e científicos internacionais surgiram sob as asas dessas teorias. Entre as ciências que inicialmente caminharam juntas com os Racistas está a Demografia, que havia acabado de nascer. Fácil foi para esses grupos enxergarem no Nazismo a possibilidade de porem em prática o que achavam correto. Logo, o mundo receberia sua primeira versão moderna de inserção, a visão de um ser humano universal. Por incrível que pareça, uma das bandeiras do Nazismo era a universalidade. Porém, isso só seria alcançado se as pessoas de “Raças” menos desenvolvidas e deficientes físicos e mentais fossem caçados, quando não, exterminados.

A ascensão e a queda do Nazismo foi também a demonstração real das consequências de uma sociedade Eugênica e Racista. O fim da Segunda Grande Guerra também marcou a fundação de órgãos como a ONU e a refundação de tantos outros, antes sedimentados no Racismo. As mudanças no mundo foram muito além do surgimento de novas instituições. Também houve uma mudança comportamental das sociedades e de seus grandes líderes. A inserção de valores humanitários se transformou em uma bandeira mundial, defendida no campo da política internacional. Assim, o combate ao Racismo, o respeito aos deficientes e até mesmo o combate de ideias nocivas atuais, como os que querem a utilização de métodos contraceptivos forçados em pessoas de países pobres, tem forte oposição. A “tolerância” se transformou em tema central das discussões políticas internacionais, sendo recorrente no discurso de líderes e instituições de todos os tipos.

Assim, chegamos ao século XXI, no qual entre tantos outros exemplos, está o de Ariel Goldenberg, ator brasileiro com Síndrome de Down. Durante as últimas semanas se transformou em celebridade, enquanto buscava a realização do sonho de conhecer o ator americano “Sean Penn”. Como veem, Ariel é uma pessoa bastante comum, com sonhos bastante comuns. As notícias que seu nome aparece fazem partes dos sites de celebridades e de fofocas. Mas mesmo assim, o exemplo dele pode ser usado como reforço de que cada dia os esforços políticos e da sociedade fazem com que quebremos o preconceito ao que classificamos como diferentes. Algo que para alguns pode ser bastante comum, mas olhando para apenas cem anos atrás vemos o salto do comportamento humano sobre o tema.  Ariel e Ota Benga, o presente e o passado. Entre eles a história, que nos faz compreender a dimensão das mudanças humanas no último século, muito além da tecnologia.


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