Os "novos" não-alinhados

Por

Iniciou no último domingo a 16a edição da Conferência dos Países Não-Alinhados que, desta vez, tem como sede o Irã. Mas espere um minuto. Não-alinhados? A quem? Essa lógica de aliança não tinha ruído com a queda do muro de Berlim? Bom, o fim da Guerra Fria trouxe sim o fim da tensão entre duas grandes superpotências com influências ideológicas, políticas e militares mundo afora. Todavia, a derrocada da União Soviética não significou o fim de muitas conferências, cúpulas, instituições e alianças que emergiram como resultado específico das pressões decorrentes dessa disputa. O principal exemplo atual é a grande coleguinha dos países dos países do Oriente Médio, a OTAN, que, fundada com o intuito de conter o avanço do comunismo sobre a Europa Ocidental, ainda tem tentado achar seu lugar nesse cenário internacional. 

O mesmo ocorreu com o movimento dos países não-alinhados. Na Conferência de Bandung, em 1955 – o primeiro encontro internacional que trazia uma agenda enfocada nos problemas dos países subdesenvolvidos (principalmente asiáticos e africanos), na oposição ao colonialismo e racismo e destacava as dificuldades da influência das grandes potencias sobre eles – foram instaurados princípios fundamentais para a criação do movimento no início dos anos 1960. A criação do grupo dos não-alinhados ocorreu somente em 1961, na Conferência de Belgrado, com o objetivo de não tomar lados na disputa geopolítica e militar das grandes potencias (apesar de muitos membros terem sidos defensores efetivos de um dos lados). O movimento surgiu justamente no momento de maiores tensões entre o Tio Sam e a URSS estavam atingindo o primeiro pico.

Certo, mas o que faz um “novo” não-alinhado, em um período que não há alianças claras? Se antes a posição era de defesa da agenda dos subdesenvolvidos e em desenvolvimento no contexto de tensões, hoje, ainda tem buscado uma agenda, até certo ponto, semelhante. Com 120 membros e 17 observadores, o grupo ainda defende uma agenda pró-desenvolvimento, entretanto, diferentemente do período anterior, ainda estão buscando uma agenda que una a todos. 

Ora, se essas conferências tem tido dificuldades com seus temas e tem passado um pouco despercebido pela comunidade internacional, parece que, desta vez, já há algo diferente. Mesmo antes de seu início, já houve polêmica e discussões. A começar pela inusitada lista de convidados do presidente do Irã, Mammoud Ahmadinejad. Além das delegações esperadas (que incluia o ditador sírio, Bashar Al-Assad) foram convidados o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-Moon (que logo confirmou presença), e o primeiro-ministro do governo do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh. Somente esses dois convites já despertaram irritação dos Estados Unidos e da Autoridade Nacional Palestina (ANP). O Tio Sam argumentando que a ONU (ironicamente) estaria deslegitimando o direito internacional e o presidente da ANP, Mammoud Abbas, ameaçando boicotar o evento. Acabou que o representante do Hamas desistiu de ir e toda a poeira baixou um pouco. 

O encontro ainda prosseguirá até sexta e não se tem muitas informações sobre ele, mas já podemos levantar alguns elementos que chamam a atenção. Se não há tanta coesão no bloco como antes, o simples fato de conter 55% da população do mundo já é significativo. É aí que entra o oportunista Ahamdnejad, tentando outra via para legitimar seu programa nuclear. Uma estranha indicação foi ter convidado, e logo depois desconvidado, os membros da conferência e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para uma visitinha “surpresa” às suas instalações nucleares. Há ainda oportunidades comerciais importantes para o Irã, pela presença da Índia e do Paquistão (seus principais compradores de petróleo), para fortalecer seus laços e abrandar a severidade das sanções do Tio Sam.

A outra questão é o caráter da Conferência. Anteriormente, buscava-se o não-alinhamento aos grupos ideológicos e agora, a despeito da agenda dos países em desenvolvimento, não há fator que una todos os membros. Entretanto, como disse antes,  simplesmente por ser um fórum com esse grande número de países em desenvolvimento pode gerar bons frutos, agendas e novos laços comerciais no futuro.  Nessa ocasião, ironicamente, em um grande fórum no Irã e sem a presença dos EUA, a crise Síria parece será um dos focos de debate.

Um movimento que parece anacrônico nessa semana ganha os holofotes do mundo. A presença de Assad, a nova política externa do Egito (que pela primeira vez em anos terá um presidente visitando o Irã), o oportunismo de Ahmadnejad, uma agenda em construção, a polêmica antes de iniciar e a presença do máximo representante da ONU e outras formas para discutir velhos problemas demonstram que o movimento é hoje um caldeirão de novas e velhas ideias. Por essas e outras que o mundo deve voltar seus olhos para os “novos”não-alinhados.

[Para mais, clique aqui, aqui e aqui]


Categorias: Organizações Internacionais, Política e Política Externa


0 comments